segunda-feira, 29 de abril de 2019

João Bigotte Chorão (1933-2019)


Crónica do ensaísta Eugénio Lisboa escrita com um realismo que nos torna presente neste almoço/tertúlia de personagens da vida Cultural Portuguesa. Passo a transcrever:

“Conheci João Bigotte Chorão, há 30 anos, a completarem-se em Setembro próximo. O pretexto para o encontro foi um almoço congeminado e organizado por esse excelente “go-between” literário que foi o Luis Amaro. No almoço, que teve lugar num restaurante do Parque Mayer, estiveram também presentes, se o meu diário e a minha memória me não enganam, o João Rui de Sousa, a Joana Varela e o próprio Luis Amaro.

Falámos de muita coisa, mas falámos, sobretudo, lembro-me bem, de Camilo, em atenção ao João Bigotte Chorão, camiliano convicto. Entendemo-nos bem, eu e o João, e achei logo que podia ficar seu amigo, apesar de diferenças ideológicas e religiosas. Estas diferenças nunca, para mim, serviram de empate à amizade. Para o João, pelos vistos, também não.

Um pouco mais tarde, passámos a ver-nos, com uma certa regularidade espaçada, por via de uma agradável tertúlia que reunia no restaurante Galeto, ao Saldanha, na qual, além de nós, participavam os meus prezados amigos Jorge Martins, Alfredo Campos Matos e Francisco Gonçalves. A tertúlia era viva, bem humorada, bem apimentada com as várias contribuições dos cinco participantes. Cada um tinha a sua área preferida. Ao Campos Matos, por exemplo, puxava-lhe o pé para o Eça de Queiroz (com um “z” terminal). E assim por diante. João Bigotte Chorão, com a sua voz de baixo e os seus itálicos bem sublinhados, dava a sua empenhada e capitosa contribuição à conversa da tertúlia, a qual se prolongava, com fluência, até às cinco da tarde.

 Era, para tudo dizer, um excelente conviva, com um elevado sentido de humor e uma vastíssima leitura, que lhe permitia condimentar, com gosto, o seu discurso afável. Agora que nos deixou, a tertúlia vai sentir imensamente a sua falta.

Nascido na Guarda, há 85 anos, João Bigotte Chorão licenciou-se em Direito, em Coimbra, mas não exerceu nunca nessa área. Foi professor do ensino particular, funcionário público e, sobretudo, director literário da Enciclopédia Verbo. Além de dezasseis livros que deixa publicados, fica também, dele, colaboração dispersa por jornais e revistas, como, por exemplo, Távola Redonda, Tempo Presente, Colóquio/Letras e O Observador. Foi membro (assíduo) da Academia de Ciências de Lisboa e do Instituto Luso-Brasileiro de Filosofia.

Camilo foi, como dissemos, uma das suas paixões, a ele tendo dedicado valiosa bibliografia. Outras admirações foram Miguel Torga, Carlos Malheiro Dias, João de Araújo Correia, Tomaz de Figueiredo e, fora de Portugal, Papini, Julien Green e Montherlant. Entre os dezasseis livros que nos lega, estão também dois belos, inteligentes e sensíveis volumes de diário: Diário quase completo (2001) e Diário – 2000/2015 (2018). O primeiro destes dois livros recebeu o Grande Prémio de Literatura Biográfica da Associação Portuguesa de Escritores.

De entre os seus livros mais recentes, gostaria de destacar aqui o excelente volume de ensaios e críticas, intitulado, significativamente, Além da Literatura, que tive ocasião de apresentar ao público em 2014. Nele, João Bigotte Chorão faz questão de valorizar um “além da Literatura”, como componente importante e vital a ter em conta, para além da chamada “literariedade”. Em Torga, em Papini ou em Camilo, grandes espíritos desassossegados, Bigotte Chorão sonda, para lá de valores de escrita, algo mais a que, falando de Papini, chama “suplemento de alma”. A literariedade era, para este autêntico escritor, um valor importante, mas não lhe bastava. Fascinava-o a inquietação espiritual, o desassossego, a agonia, isto é, a "luta” interior de grandes escritores que nos atingem por muito mais do que o “estilo” ou a “forma”.

Falando, por exemplo de Papini, observava: “Repudiando o esteticismo finissecular, procurou na literatura o que não encontrara na filosofia: a alma, que se desobriga em exames de consciência e confissões públicas. A esta luz de catarse literária se há-de ler Um Homem Liquidado. Aí se desvela, com voz alterada, o desencanto de um homem que, depois de provar alimentos os mais diversos, tem fome de outro pão e sede de água de fonte não inquinada.”

Bigotte Chorão, verdadeiro escritor e, portanto, manipulador dos valores de escrita, buscava, no entanto, “outro pão”, buscava, em suma, um “além da Literatura”, que habita também em espíritos inquietos e agónicos, como são os de Camilo, Torga ou Papini. Não, repito, que desprezasse os valores da escrita: dono de um estilo ático, enxuto e escorreito, o autor de O Reino Dividido prestava homenagem aos valores da linguagem mas não se escravizava a esta. Tivemos já ocasião de aludir a um exemplo extremista desta tendência a pôr os ovos todos no cesto da linguagem, ao falarmos de Vladimir Nabokov, que não hesitava em fazer esta afirmação: “A palavra, a expressão, a imagem são a função da literatura. Não as ideias.”

João Bigotte Chorão estava completamente afastado desta atitude patologicamente extremista e muito mais se aproximava desse grande escritor de prosa descascada e escorreita – quase “neutra” – que se chamava George Orwell, o qual sustentava que “grande literatura é simplesmente linguagem carregada de sentido até ao último grau possível.” Prospectando o desassossego singular de autores como Camilo, Torga ou João de Araújo Correia, João Bigotte Chorão avaliava-lhes, com gosto, a linguagem, mas não avaliava menos aquilo que a recheava: o miolo, o conteúdo, o sentido – a alma.

Valores que prezava nos outros e cultivava ele próprio. Valores que apareciam, com profusão, na sua escrita e na sua saborosa conversa, sempre recheada de estilo mas também de valioso e capitoso conteúdo. Falando, algures, de Camilo, refere “o génio não apenas verbal e confessional” do grande escritor: foi a combinação irresistível desses dois prestígios – a linguagem e o miolo – que o cativou, não só em Camilo, mas também nos escritores que pertencem – palavras suas – à “família camiliana”: Aquilino Ribeiro, Tomaz de Figueiredo, João de Araújo Correia, Agustina Bessa-Luis. Poderosos escritores que, mais do que fazerem literatura, antes fazem vida, muito embora o “literário” esteja neles, forte e pujante.

Diarista e ensaísta de exímio valor, julgo que se justificaria recolher-se agora os verbetes de diário que terá vindo a redigir de 2015 para cá, bem como textos dispersos por jornais, revistas e prefácios. Juntar-se-iam com particular felicidade ao belo acervo de dezasseis títulos que temos actualmente ao nosso dispor. Ficaríamos todos mais ricos e mais “recheados”. “  

domingo, 28 de abril de 2019

LEONARDO DA VINCI: DA CIÊNCIA NA ARTE À ARTE NA CIÊNCIA




Início do meu longo ensaio sobre Leonardo da Vinci no Público de hoje: Para ler o resto vejam por favor o jornal (que agora tem alguns conteúdos, como este, reservados a assinantes):

O Renascimento começou por ser uma revolução na arte para depois ser uma revolução na ciência. Revolução na arte porque do mundo plano que aparecia na pintura da Idade Média passou-se para um mundo tridimensional, proporcionado pela perspectiva. A ciência entrou na arte, pois a perspectiva, a técnica de representar um mundo cheio de volumes numa folha plana, não é mais do que um produto da geometria, uma das ciências mais antigas. Para além disso, a perspectiva implicou também uma mudança conceptual: o ponto de fuga, o sítio para onde é conduzido o olhar no desenho em perspectiva, implica a existência do infinito, uma ideia inquietante na época. 

O palco da dupla revolução foi o norte de Itália. Em 1435,  Leon Battista Alberti, um dos primeiros homens do Renascimento,teorizou a perspectiva no seu tratado de pintura (Della Pittura). Em 1609, Galileu Galilei desenhou a Lua que observava na sua luneta, representando um relevo até então desconhecido, isto é, a Lua não era esférica e perfeita como se dizia, mas sim rugosa tal como a Terra (Sidereus Nuncius). O olhar humano, servido pelo telescópio, passou a reconhecer os astros tal como eles verdadeiramente eram e não como as “autoridades” diziam que eram: a representação visual passou a ter um papel central na ciência, tal como há muito tinha na arte. Entre Alberti e Galileu, mas temporalmente mais perto do primeiro, viveu o mais célebre homem do Renascimento: Leonardo, natural de Anchiani, em Vinci, na Toscânia (1452-1519).

O triunfo da perspectiva

O livro de Alberti apresentava uma ciência da arte. Para ele, a arte destinava-se a imitar a Natureza, e tal devia ser feito da forma mais exacta possível. Para o autor, os pintores e escultores deveriam tornar as suas obras, para quem as via, semelhantes aos objectos reais da Natureza. Para isso a perspectiva era absolutamente essencial. Leonardo, filho bastardo de um florentino (tal como Alberti), aprendeu-a quando, aos 15 anos, entrou para a oficina do pintor Andrea del Verrocchio, em Florença, onde também estagiaram Sandro Botticelli e Pietro Perugino, por sua vez mestre de Rafael. Se se acrescentar que Michelangelo, arquirrival de Leonardo, também viveu nessa época e nessa cidade, será fácil perceber o ndrome de Stendhal, experimentado pelo escritor francês em Florença: a prostração do espectador diante de uma beleza excessiva.

Uma das primeiras obras de Leonardo, embora apenas como colaborador do seu mestre, A Anunciação, pintada entre 1472 e 1475 e exposta hoje na Galleria degli Uffizi, em Florença, ilustra bem a perspectiva nessa altura já prevalecente na pintura. Um outro exemplo é a famosa Última Ceia, o grande fresco pintado por Leonardo no Convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão, de 1495 a 1498. A fronte de Jesus Cristo está no centro, sendo também o ponto de fuga da composição. Um terceiro exemplo de boa perspectiva é a famosíssima Mona Lisa, pintada por Leonardo entre 1503 e 1506, hoje no Louvre, onde uma paisagem natural acidentada serve de fundo ao enigmático sorriso.

(...)

sábado, 27 de abril de 2019

Para introduzir as crianças do jardim-de-infância na tradição académica universitáriaa

O "Cortejo dos Pequenitos", a imitar o cortejo da Queima das Fitas de Coimbra é uma "tradição" iniciada, suponho, em 2010 ou 2011. Nesta semana voltaram a desfilar, entre Baixa e o Estádio Universitário, crianças de jardins-de-infância vestidas como estudantes universitários. Isto para, justificou-se, "introduzir as crianças na tradição académica".

Passei os olhos pelas notícias online. Dão conta de um agrado geral: Associação Académica, Universidade, pais, educadores, população. Nenhum problema ou crítica.

Neste ano, não sei se pela primeira vez, um júri apreciou o "cortejo" com vista a premiar o jardim-de-infância que se apresentasse como mais original (não há actividade escolar sem prémio). Para tanto, introduziram-se dois "parceiros", além da Comissão Organizadora da Queima das Fitas: "Portugal dos Pequenitos" e "Forum Coimbra" (não há actividade escolar sem parceiros comerciais).

A não ser registar esta inovação "prémio-parceiros", nada acrescento a dois textos que escrevi em 2011 (aqui e aqui).


Notícias aquiaqui, aqui

O Chefe de Estação Fallmerayer


[Nos últimos tempos, desisti de ler dois romances extensos de dois escritores contemporâneos e muito premiados. Decidi, por isso, entregar-me à leitura de romances curtos. Não foi fácil encontrar o que eu desejava, mas, com alguma paciência, lá esbarrei, numa livraria de Coimbra, com O Chefe de Estação Fallmerayer, de Joseph Roth. Editado pela Assírio δ Alvim, na coleção Gato Maltês, este livro, extraordinário, deixou-me maravilhado, não chegando sequer às cinquenta páginas. Ainda assim, considero-o um romance e não um conto.
Joseph Roth nasceu na Galícia Oriental, no limite do império austro-húngaro, foi contemporâneo de Robert Musil e, como este, morreu na miséria. Dele já tinha tido o prazer de ler Hotel Savoy, A Lenda do Santo Bebedor, O Leviatã e A Marcha de Radetzky.]
Adam Fallmerayer, chefe de uma estação austríaca, situada a 200Km de Viena, é casado, num casamento por amor, com a filha de um alto funcionário de Brünn. A sua mulher já não é nova e é um pouco limitada. O casal tem duas filhas gêmeas e está à espera de um filho.
No término de um dia chuvoso e escuro, antes de deflagrar a primeira guerra mundial e à beira dos olores da primavera, Fallmerayer está de serviço na estação. Por lá passam, sem se quedarem, os comboios-expresso para o Sul. Vão para Merano e Trieste, entrando, depois, na Itália. Levam os passageiros endinheirados e em férias. 
O Sul é, para o chefe de estação, o mar, bruxuleante e pleno de sol, a felicidade e a liberdade. Apesar de o dia estar fechado, os carris e os seixos resplandecem e um sentimento estranho invade o chefe de estação, como que uma premonição de que algo está para acontecer. 
Quando a noite começa a cair, um comboio-expresso choca com um comboio de mercadorias. Um ferroviário esqueceu-se de mudar a agulha. Na azáfama, na aflição, num corrupio de bombeiros, ferroviários e passageiros, o olhar do chefe de estação põe-se no rosto, molhado e afogueado pelo fogo das tochas, de uma mulher. É Walewska, uma condessa russa, e está, exânime e em trauma, deitada numa maca. Ele apaixona-se logo ali por ela e leva-a para casa. Aí pode recobrar as forças e o ânimo. Depois de uma semana em casa de Fallmerayer, a condessa parte com o marido para a Sicília, retomando a viagem. 
A primeira guerra mundial começa, entretanto, e o chefe de estação é mobilizado. Combate, agora, no Leste. Nos arredores de Kiev, em chão inimigo, visita, durante uma licença, a condessa. O marido desta, também mobilizado, é dado como desaparecido e ambos iniciam uma relação. A guerra surge ao chefe como uma bênção. A condessa engravida. Tudo parece correr sobre rodas…
Irá o destino separá-los – como se existisse um Sul imparável, uma felicidade inviolável – ou não? Será o fim da primavera, para Fallmerayer, ou não? 

sexta-feira, 26 de abril de 2019

O futuro dos cursos de filosofia e de sociologia, que lamentavelmente, já é presente

A Folha de São Paulo online notíciou hoje (aqui) que o Brasil se propõe reduzir o financiamento dos cursos superiores de filosofia e de sociologia. Presume-se que até à sua extinção.
Porquê? Porque, explica o Ministério da Educação, é preciso racionalizar os impostos dos contribuintes, isso significa, em termos de ensino superior, apostar nas áreas competitivas. E quais são elas? A "medicina veterinária, engenharia e medicina". 
Quanto ao ensino não superior, adianta o Ministro, o que é verdadeiramente importante é ensinar "habilidades, de poder ler, escrever, fazer contas". E também ensinar um ofício que "gere renda para a pessoa, bem-estar para a família, que melhore a sociedade em volta dela".

Com excepção da defesa do "ler, escrever e contar", o lamentável discurso deste Ministro tornou-se uma presença constante no discurso educativo.

Nos mais diversos documentos de entidades supranacionais e nacionais, de diversos países, independentemente da sua orientação mais à direita ou mais à esquerda, é recorrente o elogio da aquisição de competências funcionais, úteis, para integração no mercado de trabalho. A "empregabilidade" dos cursos, critério da sua avaliação, é apenas um exemplo.

O mesmo para as ideias de "bem-estar" e de "melhoramento da sociedade", reconhecidas como função central e imediata da escola, devendo prevalecer em relação ao conhecimento disciplinar e ao desenvolvimento da inteligência.

Face a esta notícia, em Portugal surgiram diversas manifestações de perplexidade, como se estivéssemos muito longe deste cenário. Não estamos.

Manifesto Racionalista

É interessante constatar que há cada vez mais pessoas a mobilizarem-se para defender a razão e o pensamento crítico. Quando parece que somos bombardeados de vários lados por desinformação, pseudociências e alegações sem fundamento, ao ter conhecimento que foi recentemente lançado um Manifesto Racionalista só posso sentir-me esperançoso. Foi o professor João Vasconcelos Costa quem me fez chegar este documento, onde se pode ler a seguinte passagem que revela uma importante preocupação social:
Pedimos a toda a sociedade influente – instituições políticas, partidos, movimentos sociais, instituições académicas, coletividades populares, etc. – que devem prioridade a todas as ações, forçosamente de grande complexidade interdisciplinar, que promovam a educação cívica e, principalmente, o que lhe está subjacente, a formação da mentalidade racional e crítica.  
Para saber mais, consulte o Manifesto Racionalista.


ABRIL NA CIÊNCIA


Meu artigo do "As Artes entre as Letras" que saiu ontem:


À pergunta celebrizada pelo escritor Baptista Bastos “onde estava no dia 25 de Abril de 1974?”, passam agora 45 anos, eu respondo  que estava numa aula do Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra, muito perto da sala (hoje chamada “17 de Abril”), onde cinco anos antes tinha começado a crise académica de 1969. Frequentava então o 1.º ano do curso de Física e o meu curso seria contemporâneo dos tempos, por vezes conturbados que se seguiram. Não se pode dizer que o curso tenha sido prejudicado, pois éramos muito poucos (apenas quatro no fim)  e o entendimento com os professores era bastante bom.  Depois passei um período de três anos e meio em doutoramento na Universidade Goethe na Alemanha, para regressar a Coimbra no Natal de 1982. Em 12 de Junho de 1985, curiosamente no dia dos meus anos, era assinado no Mosteiro dos Jerónimos o acordo de adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia, que teve efeitos a partir do ano seguinte. De então para cá, Portugal tem sido um país integrado na União Europeia, parte de uma comunidade de países que, no meio de vicissitudes várias (o Brexit é uma das maiores), tem um projecto comum de paz, democracia  e prosperidade.

A ciência faz parte desse projecto.  Primeiro sem o 25 de Abril de 1974 e depois sem o 12 de Junho de 1985 não teríamos tido o enorme crescimento do sistema científico e tecnológico que de facto tivemos. Em primeiro lugar, a ciência era incipiente antes de existir democracia entre nós, pela simples razão de a ciência precisar da liberdade para florescer. Em segundo lugar, sem os fundos que vieram da Europa, designadamente para o reforço da qualificação aos níveis mais elevados, não teria sido possível criar massa crítica humana para haver ciência.

Uma boa imagem do afastamento da ciência dos portugueses é dada pelo cartoon de João Abel Manta dos tempos da Revolução de Abril que mostra um oficial do MFA a  apresentar ao Zé Povinho e à sua família um grande cortejo de famosos sábios e grandes personagens do mundo da cultura, com o Einstein à frente. A metáfora é boa: o Zé Povinho não conhecia o Einstein nem o resto da comitiva. “Muito prazer em conhecer vosselências,” diz a legenda.

Mas se uma imagem em certos casos vale mais do que mil palavras, os números também têm um indiscutível valor. Vejamos alguns. Reportamo-nos aos dados estatísticos que constam da PORDATA. Em 1986 o nosso país gastava em ciência e tecnologia (as duas são indissociáveis) juntando sector público e o privado 0,35% do PIB, em 2017 foi 1,33%, cerca de quatro vezes mais, devendo acrescentar-se que o PIB subiu cerca de sete vezes (nos últimos tempos a subida não tem sido grande coisa). O que se fez com esse dinheiro? Um dos resultados mais importantes foi a formação avançada: em 1986 doutoraram-se no país e no estrangeiro 216 pessoas, mas em 2015 já foram 2969 pessoas, cerca de 14 vezes mais. Existem cerca de 30.000 doutores em Portugal (não é muito: não somos, ao contrário do que se diz, um país de doutores, mas é interessante que esse número esteja a crescer 10% ao ano). E esses novos investigadores, juntando-se a outros mais velhos, produziram novo conhecimento, traduzido em publicações científicas. Em 1986 saíram 664 artigos da autoria ou coautoria de portugueses, com endereço em Portugal, ao passo que em 2015 já foram 21.333, isto é 32 vezes mais. Portanto investiu-se claramente mais em ciência e a produção científica acompanhou o investimento. Plantou-se a árvore, a árvore cresceu e estão a recolher-se os frutos. Um dos principais plantadores da árvore – é justo reconhecê-lo – foi o físico José Mariano Gago, que em 1995 foi o primeiro detentor da pasta da Ciência e Tecnologia, que além de ter aproveitado os fundos europeus para a ciência percebeu que a cultura científica era condição indispensável ao desenvolvimento da ciência entre nós.

Não quer este notável incremento dizer que estamos bem. Longe disso. Há carências gritantes, nomeadamente a ligação do conhecimento à economia (os doutorados não têm sido absorvidos por empresas  e têm também problemas em arranjar lugares condignos no sector público), e a cultura científica da população continua a ser pouco mais do que precária, isto é, a ciência não está suficientemente viva na população (neste tempo em que se detectam ondas gravitacionais em que tiram fotografias de buracos negros, será que o Zé Povinho conhece mesmo quem foi Einstein?).

Tudo é relativo. Se a ciência abriu em Portugal após Abril e fizemos um caminho ascensional de que nos podemos orgulhar, estamos ainda longe neste como noutros sectores dos lugares cimeiros da União Europeia a que pertencemos. A Europa gasta em média 2,1% do PIB em investigação e desenvolvimento e planeia agora para 2030 chegar à média de 3%, um número que já hoje alguns países europeus exibem, devendo notar-se que o PIB português está abaixo do da média europeia. O número de doutoramentos dividido pela população total está, apesar de crescente. infelizmente abaixo da média europeia. E o mesmo se passa com o número de publicações científicas. O que é preciso, portanto, fazer? Continuar, na ciência, Abril e Junho, isto é, assegurar os níveis de crescimento que foram conseguidos com o 25 de Abril de 1974 e o 12 de Junho de 1985.  A interrupção no investimento na ciência que se deu com a intervenção da “troika” foi um desastre no meio de outros desastres. É nas alturas mais críticas que é preciso maior clarividência para pensar o futuro e, na altura, não houve essa iluminação. Hoje, passados os tempos mais difíceis do resgate,  dificilmente poderemos dizer que há uma visão que atribua à ciência o devido lugar. O piedoso discurso governamental sobre a ciência – e, mais em geral, sobre a cultura é implacavelmente desmentido pelos factos. A ciência, que é um factor crucial do desenvolvimento do país, continua na prática a ser considerada como uma componente menor do projecto do país. Este ano vamos ter eleições europeias, regionais na Madeira e legislativas – é mais um ciclo da nossa democracia que se completa. É altura de reclamar para ciência – e para a cultura – o lugar a que ela tem direito. Perguntemos aos candidatos que lugar vêem eles para a ciência. A verdade é que sem ciência não teremos futuro.

NOVIDADES DE CIÊNCIA (OU À VOLTA DA CIÊNCIA) DA GRADIVA

Máquinas Como Eu
Ian McEwan
«Obras de Ian McEwan»  | 320 pp. ISBN: 978-989-616-886-5  | €15,00

Máquinas Como Eu decorre numa Londres alternativa nos anos 1980.

Charlie, à deriva na vida e esquivando-se de um emprego a tempo inteiro, está apaixonado por Miranda, uma aluna brilhante que vive com um segredo terrível.

Quando Charlie herda uma pequena fortuna, compra Adam, um exemplar do primeiro lote de seres humanos sintéticos. Com a ajuda de Miranda, constrói a personalidade de Adam. O quase-humano é belo, forte e inteligente… e depressa se forma um triângulo amoroso. Estes três seres confrontar-se-ão com um dilema moral profundo e os amantes serão postos à prova para além do seu próprio entendimento.

Este romance subversivo e divertido de Ian McEwan coloca questões fundamentais: O que nos torna humanos? Os nossos actos, exteriores, ou as nossas vidas interiores? Pode uma máquina entender um coração humano?

Uma história empolgante e provocadora que nos alerta para o perigo de criarmos coisas que escapam ao nosso controlo.

https://www.gradiva.pt/catalogo/46150/maquinas-como-eu


As Fronteiras da Razão - Um Céptico Racional num Mundo IrracionalJulian Baggini | «Filosofia Aberta» | 344 pp. | ISBN: 978-989-616-891-9 €21,50

Vivemos o tempo da pós-modernidade, inimiga da razão e do saber, em que tudo, conhecimento e valores, se equivale. E agora, o da pós-verdade, filho da pós-modernidade. Tudo passou agora a ser verdade. Verdade é aquilo que eu creio, mentira é a verdade dos outros. Este livro, filosoficamente consistente e brilhante, é uma defesa qualificada da razão nas suas virtualidades e limites. Baggini reergue essa conquista humana transformadora, num mundo que parece de novo infestado de demónios.

Julian Baggini é um dos fundadores da revista inglesa The Philosophers' Magazine e autor de mais de vinte livros, muitos dos quais para um público não especializado. Destacam-se os seus livros sobre os problemas do livre-arbítrio e também sobre a identidade pessoal. É colaborador regular da BBC Radio.


Predadores - Uma História com Garras e DentesGlenn Murphy
«Gradiva Júnior» | 220 pp. | ISBN: 978-989-616-892-6 | €11,00

O que transforma as corujas em ninjas com asas? Porque é que um leopardo é um animal com muita pinta? Que dinossauro fazia borrar de medo o próprio T. Rex? Repleto de fotografias impressionantes, ilustrações divertidas e factos incríveis sobre todo o tipo de cenas aguçadas – de leões a ursos e de lobos a dinossauros –, este livro responde àquelas perguntas que os mais novos gostam de fazer, cujas respostas apreciam saber!
Glenn Murphy obteve o grau de mestre em Comunicação de Ciências no Imperial College of Science, Technology and Medicine de Londres. Escreveu o seu primeiro livro de divulgação de ciência, Porque É Que o Ranho é Verde?, quando trabalhava no Museu de Ciência de Londres. Em 2007 mudou-se para os Estados Unidos. A Gradiva tem vários livros do autor publicados.


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(Ep. 57 )"Diário de Fernão de Magalhães : o homem que tudo viu e andou"

Leonardo da Vinci (1452-1519): Títulos disponíveis no Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, revista em 15/Maio



Leonardo da Vinci (1452-1519), 
lista revista em 15/5/2M019

Polímata nascido em Anchiano, Vinci,  Itália. Artista, pintor, escultor, cientista, anatomista, engenheiro e inventor, é tido como o arquétipo do homem do Renascimento, notabilizou-se com  trabalhos mundialmente reconhecidos.

Adaptações e/ou traduções da obra de Leonardo da Vinci:


LEONARDO, da Vinci ; RICHTER, Irma A., ed. lit. – Selections from the notebooks of Leonardo da Vinci. New York : Oxford University Press, 1953. viii, 417 p.

LEONARDO, da Vinci ; OTTINO DELLA CHIESA, Angela, ed. lit. – L’opera completa di Leonardo pittore. 1ª. Ed.. Milano : Rizzoli, 1967. 119 p. (Classici dell’Arte ; 12).


Sobre a vida e obra de Leonardo da Vinci:


SÉAILLES, Gabriel – Léonard de Vinci : biographie critique. Paris : Librairie Renouard, [19--?]. 126 p. (Les grandes artistes : leur vie, leur oeuvre).

MARCOLONGO, Roberto – Leonardo da Vinci : artista - scienziato. Milano : Ulrico Hoepli, 1939. 341 p., 13 est. (Collezione Hoepli).

COLLOQUE INTERNATIONAL LÉONARD DE VINCI ET L'EXPÉRIENCE SCIENTIFIQUE AU XVIE SIÈCLE, Paris – Léonard de Vinci et l'experience scientifique au XVIe siècle : [colloque] : Paris, 4-7 Juillet 1952. Paris : CNRS, 1953. viii, 273 p. (Colloques Internationaux du Centre National de la Recherche Scientifique. Sciences Humaines).

DUHEM, Pierre – Études sur Léonard de Vinci : ceux qu'il a lus et ceux qui l'ont lu. Paris : F. de Nobele, 1955. 2 vol.

DUHEM, Pierre – Études sur Léonard de Vinci : les précurseurs parisiens de Galilée. Paris : F. de Nobele, 1955. xiv, 605 p.

BRION, Marcel – Léonard de Vinci. Paris : Le livre club du libraire, 1959. 2 vol.

THOMAS, John – Leonardo da Vinci. 2ª ed. Porto : Livraria Civilização, 1960. 156 p. (Pittore et Scultore).

BRION, Marcel, ed. lit. – Léonard de Vinci. Paris : Hachette,  1970. 285 p. (Collection Génies et Réalités).

BÉRENCE, Fred – Leonardo da Vinci. [Lisboa] : Editorial Verbo, imp. 1971. 264 [8] p. (Grandes Artistas). Existe no catálogo a edição de 1984.

BRUGNOLI, Maria Vittoria ; CHASTEL, André – Leonardo der Künstler. 2ª ed. Darmstadt : Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1985. 192 p.

DIBNER, Bern ; RETI, Ladislao – Leonardo der Erfinder. 2ª ed. Darmstadt : Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1985. 192 p.

ZAMMATTIO, Carlo ; MARINONI, Augusto ; BRIZIO, Anna Maria – Leonardo der Forscher. Stuttgart : Belser, 1985. 192 p.

GOULD, Stephen Jay – Leonardo's mountain of clams and the diet of worms : essays on natural history. 1ª ed. New York : Harmony Books, 1998. 422 p. ISBN 0609601415.

Leonardo da Vinci : a man on a world scale, the world on a human scale... : codex Leicester exhibit. [Lisboa] : Instituto Português do Património Arquitectónico, 1998. 218 p. ISBN 9728087586.

SUTERA, Salvatore – Le fantastiche macchine di Leonardo da Vinci : come costruirle, come farle funzionare. Milano : Skira : Museo nazionale della scienza e della tecnica, 1998. 166 p. (Guide Skira). ISBN 8881184478.

The art of invention : Leonardo and Renaissance engineers. [Florence] : Giunta,  [1999]. 250 p. ISBN 8809014820. Catálogo de mostra patente em Londres em 1999-2000.

MARÍAS, Fernando – Leonardo da Vinci. [Lisboa] : Estampa : Círculo de Leitores, 2000. 133 p.  (Os Mestres Pintores). ISBN 9723315653.

LAURENZA, Domenico – De figura umana : fisiognomica, anatomia e arte in Leonardo. Firenze : Leo S. Olschki,  2001. xxxi, 241 p. (Biblioteca di Nuncius.  Studi e testi ; 42). ISBN 8822249976.

WHITE, Michael – Leonardo : the first scientist. London : Abacus, 2001. 306 p. ISBN 0349112746.

WHITE, Michael – Leonardo : o primeiro cientista. Mem Martins : Europa-América, 2003.  (Biografias ; 14). ISBN 9721052329. Existe no catálogo a 2ª edição de  2004.

GELB, Michael – How to think like Leonardo da Vinci : seven steps to genius every day. New York : Delta Trade Paperbacks, cop. 2004. xvii, 117 p. ISBN 0440508274.

ZOLLNER, Frank – Leonardo da Vinci : 1452-1519. Edição em exclusivo para o jornal Público. Khöln : Taschen GmbH, cop. 2004. 96 p. (Taschen/Público). ISBN 3822833088.

ANTOCCIA, Luca – Leonardo : arte e ciência : as máquinas. Sintra : Girassol, cop. 2005. ISBN 9727568580.

KEMP, Martin – Leonardo da Vinci : vida e obra. 1ª ed. Lisboa : Presença, 2005. 205, [16] p. (Figuras da Humanidade ; 8). ISBN 9722334026.

VALÉRY, Paul – Introdução ao método de Leonardo da Vinci. 1ª ed. Lisboa : Nova Vega, 2005. (Outras obras). ISBN 9726998085.

ZOLLNER, Frank – Leonardo da Vinci : 1452-1519 : desenhos e esboços. Edição em exclusivo para o Diário de Notícias. Köln : Taschen, cop. 2005. 207 p. ISBN 3822845825.

ZOLLNER, Frank – Leonardo da Vinci : 1452-1519 : pintura completa. Edição em exclusivo para o Diário de Notícias. Köln : Taschen, cop. 2005. 208 p. ISBN 382284473x.

LAURENZA. Domenico; TADDEI, maria, ed. lit.; ZANON, Edoardo, ed lit. - Leonardo's machines : Da Vinci inventions revealed. Cincinatti, OH : David and Charles, 2006. 239 p. ISBN9780715324448

WRAY, William – Leonardo da Vinci : nas suas próprias palavras. Porto : Fubu Editores, 2006. 192 p. ISBN 9728918615.

FREUD, Sigmund – Uma recordação de infância de Leonardo da Vinci. Lisboa : Biblioteca Editores Independentes, 2007. 91 p. (Biblioteca Editores Independentes ; 16). ISBN 9789727089741.

PEDRETTI, Carlos – Leonardo : the machines. Florence : Giunti, imp. 2006. 95 p. ISBN 8809014693.

CAPRA, Fritjof – A ciência de Leonardo da Vinci : um mergulho profundo na mente do grande gênio da renascença. São Paulo : Editora Cultrix, 2008. 368 p. ISBN 9788531610035.

GÁLVEZ, Christian – Leonardo da Vinci : cara a cara. 2ª ed. Barcelona : Aguilar, 2017. 669 p.  ISBN 9788403517493.


Livros infanto-juvenis:

LESSEPS, Monique – Leonardo da Vinci. [S.l.] : Figueirinhas,  cop. 1970. (Biografias).

RABOFF, Ernest – Léonard de Vinci. Genève : Weber,  1973. [28] p. (Art pour les Enfants).

HART, Tony – Leonardo da Vinci. Porto : Campo das Letras, cop. 2000. 21 p. (Crianças Famosas ; 5). ISBN 9726103126.

CORONADO, Ángel. ; ALONSO, Javier – Leonardo da Vinci. [Lisboa] : Atlântico Press, 2018. [30] p. (Os Meus Pequenos Heróis). ISBN 9789898942265.


Ficção inspirada na vida e obra de Leonardo da Vinci:

MEREJKOVSKI, Dmitri – O romance de Leonardo de Vinci. Lisboa : Portugália Editora, [19--?]. 393, [1] p. (Os Romances Universais). Outras edições: 2004 e 2005.

BROWN, Dan – O código da Vinci. 5ª ed. Lisboa : Bertrand, 2004. 539 p. ISBN 9722513524. Existem no catálogo várias edições.




RÓMULO CCVUC
Abril 2019
Ana Serôdio


quinta-feira, 25 de abril de 2019

"E depois, continuou a Revolução"


"Lembra-se de tirar essa fotografia? Lembro perfeitamente. Aquilo é uma fotografia que esteve esquecida durante 20 anos. Ele deu uma conferência de imprensa e eu falhei-a porque cheguei atrasado. Cheguei a correr, ele olhou para mim e parou, como que a dizer "fotografa-me lá". E eu fiz a fotografia que depois foi recusada. Mas o Vicente Jorge Silva, nos 20 anos do 25 de Abril, escreve um texto chamado "Os Olhos do Capitão", ilustrado por essa fotografia, e é a partir daí que ela se torna conhecida. E essa fotografia é publicada numa dupla página, apanhando a primeira e a última.
Alfredo Cunha sobre uma das fotografias que tirou ao Capitão Salgueiro Maia no dia 25 de Abril de 1974, faz hoje quarenta e cinco anos. O extracto é retirado de  uma entrevista dada no passado ano a Diogo Barreto (aqui). 

"Esta foto é o meu Gue Guevara", tem dito Alfredo Cunha. Repetiu-o ao jornal Público num breve apontamento em que conta a história do encontro com o revolucionário, cujos passos seguiu nesse dia que mudou nossa História. Maia fez pose "e depois, continuou a Revolução" (aqui).

terça-feira, 23 de abril de 2019

Num saudoso tempo em que "a escola era risonha e franca"

(Fachada da Escola Industrial de Lourenço Marques)

Meu artigo de opinião publicado hoje no "Diário as Beiras": 


A saudade é o que faz as coisas pararem no Tempo”. 
Mário Quintana (poeta e jornalista brasileiro)

Em memória de um tempo em que “a escola era risonha e franca” (1.º verso de um poema de Acácio Antunes), escrevi estas sentidas palavras para serem lidas, no passado dia 13 deste mês de Abril, num restaurante repleto de uma centena e tal de antigos alunos da Escola "Industrial Mouzinho de Albuquerque" de Lourenço Marques. Reproduzo-as, na íntegra, em singela homenagem aos alunos que nela se formaram sob o ponto de vista intelectual, físico e moral: 

“Minhas Senhoras e Caros Alunos da Escola Industrial: 
Ameaçado, pelo meu dedicado e bom amigo Godinho, de que teria de vos dirigir a palavra nesta efeméride, embora julgue desenvencilhar-me na palavra escrita, falar em público, ademais em situação emocional, não é bem a minha praia. Mas como dizem os nossos jovens: “bora lá!”. 
Começo por cumprimentar, com muito agrado e respeito, as Senhoras aqui presentes mostrando, contudo, a minha admiração por aturarem, anos a fio, os vossos maridos, os "bons malandro” da nossa saudosa Escola Industrial de Lourenço Marques. 
Aliás, rapaziada ladina e irreverente quanto baste que nada tem a ver, portanto, com o título de um livro de Mário Zambujal, “Crónicas dos bons malandros”, que nos dá conta de estórias de um grupo de amigos que se reuniam por razões nem sempre honestas! 
Depois, envolvo esses “bons malandros” num grande abraço de gratidão por me terem dedicado uma amizade que justifica o facto de não dizerem basta de o convidarmos. Ao contrário, insistindo na minha presença no nosso/vosso convívio anual que começou, qual pequena bola de neve rolando da Serra da Estrela para a Lusa Atenas. 
Reporto-me a um almoço promovido, anos atrás, por quatro alunos da nossa Escola Industrial (Godinho, Adolfo, Carvalhinho e Jack, em ordem de nomes aleatória) que resolveram generosamente presentear-me e honrarem-me em Coimbra, deslocando-se do Norte e Sul de Portugal. Almoço que a vossa persistência transformou numa avalanche de “industriais” aqui presentes! 
Seja-me permitido, apenas, um pequeno reparo. A minha presença justificava que deixasse de ser chamado ao nosso encontro um almoço de cocuanas [velhos respeitáveis ] mas, sim, um repasto de cocuanas e de um mufana [rapaz], que sou eu com os meus 87 anos de idade, a dias, de se transformarem, se Deus quiser, em duas bicicletas, que esse era o nome que os cábulas da minha geração davam aos oitos valores das classificações escolares que, por vezes, mereciam uma palmada (só?) dos nossos progenitores ou o castigo de não ir às matinés de cinema, aos sábados e/ou domingos. 
Afirmou Einstein que o génio possui 1% de inspiração e 99% de transpiração. Parafraseando-o, a vossa amizade por mim tem 1% de razão de ser e 99% de indulgência por eu não feito por vós tanto quanto devia e, apesar disso, ter tido um retorno que muito me comove, tanto que não encontro palavras para dizer quanto! 
Como é meu uso costumeiro, evoco Eça, meu escritor de mezinha de cabeceira de noites insones, pela sua crítica impiedosa aos políticos do seu tempo por si ridicularizados em “As Farpas”. Políticos, ou melhor politiqueiros actuais que tudo fazem para perdurar essa podridão como herança pecaminosa para nossos filhos e netos numa época em que a honestidade se tornou excepção excepcional, passe a redundância! 
Num dos seus livros, a imortal pena queirosiana citou o filósofo francês, Proudhon, que disse que “em todas as decadências o primeiro sintoma é a depravação do sentimento da amizade”. 
A nossa presença nestas reuniões académicas é prova que desse mal não fomos achacados por estarmos vacinados por uma Escola que inculcou, entre docentes e discentes, vírus inactivados de desrespeito e malsã amizade e, porventura, outros valores negativos. 
Finalmente, saúdo-vos estimadíssimos alunos e familiares da nossa gloriosa EIMA, verdadeira génese de gente de excelente cepa aqui reunida, ano após ano! Envolvo todos num abraço “ex corde”!”