quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

OS LIVROS COMO "MÁQUINAS DO TEMPO"

Sinopse da minha intervenção na VI edição do Encontro "Para além de Princesas e Dragões", subordinado este ano ao tema "Educar. Saber. Criar e Inovar," que vai ter lugar a 8 de Março na Biblioteca Municipal de Albergaria a Velha: 

 Sempre foi sonho do homem viajar no tempo. O livro "Máquina do tempo" do escritor inglês H.G.Wells, de 1895, é talvez o exemplo mais famoso das obras de ficção científica que corporizam essa vontade. É tecnicamente muito difícil, talvez mesmo impossível, construir uma "máquina do tempo." Mas os livros, embora metaforicamente, podem ser considerados "máquinas do tempo" no sentido em que permitem enviar mensagens ao futuro. São comprovadamente o melhor meio de enviar mensagens para o futuro. Conforme, tão bem escreveu o astrofísico Carl Sagan, no seu livro "Cosmos," os livros asseguram a "persistência da memória". Não seríamos nunca quem somos se não fosse a memória que eles nos dão do mundo e da humanidade. Tanto na ciência como na arte, os dois partes da vasta cultura humana, há uma "persistência da memória" que permite a ligação ao longo da linha do tempo. Inspirado por grandes divulgadores da ciência como Carl Sagan e Rómulo de Carvalho (que, como António Gedeão, tão bem juntou a ciência à arte), o "Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra", uma moderna biblioteca de cultura científica, procura, nos dias de hoje, quando os livros em papel e os livros digitais se complementam, fazer a melhor ponte entre passado e futuro. Ao comemorar os seus 10 anos, a última iniciativa do Rómulo é a escola Ciência Viva, uma iniciativa conjunta com o município de Cantanhede, que permite a todas as crianças de 10 anos desse concelho uma imersão durante uma semana na Universidade.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Plataforma Transgénicos Fora: manipular a opinião pública com uns ares de ciência


Comentário que escrevi a propósito da reportagem da jornalista Carla Castelo, emitida pela SIC, acerca da contestação ao glisofato.

Foi recentemente conhecida uma tomada de posição pública da Plataforma Transgénicos Fora, com base num suposto “estudo” conduzido por essa mesma organização acerca do que chamaram “Contaminação crónica por glifosato em Portugal”. Esse “estudo” é apresentado com um ar científico, sendo ilustrado com uns gráficos de ar insuspeito. Mas é pura propaganda alarmista. O problema é que esse “estudo” não é científico. Não passou pelo crivo do normal processo da ciência. Não foi publicado numa reconhecida revista científica, sujeito ao habitual processo de revisão pelos pares. E isso não é um pormenor. Esse processo, que é fundamental para a ciência, garante várias coisas:

  1. Os resultados e a discussão de um trabalho de investigação são descritos num artigo científico, proposto para publicação a uma revista científica. Nele os autores fazem o enquadramento do seu trabalho, citando estudos e resultados anteriores. Descrevem em pormenor os métodos que usaram, com referências e detalhe suficiente para que outros investigadores possam repetir o trabalho. Discutem os seus resultados, enquadrando-os com outros acerca do mesmo tema.
  2. Os editores das revistas científicas decidem se o artigo tem interesse para ser considerado para publicação ou não. Se é relevante, ou seja, se os resultados ou métodos reportados acrescentam alguma coisa ao que já se sabe. E se é credível. Se aparenta ter robustez metodológica e levar em conta a literatura científica adequada. Se decidirem que pode ter interesse, os editores enviam o artigo para pelo menos dois revisores, que  são dois investigadores da mesma área, que verificam se o artigo é realmente relevante, se tem problemas metodológicos, se os procedimentos usados são descritos em detalhe suficiente, se os dados obtidos apoiam realmente as conclusões que os autores tiram ou se há especulações abusivas e exageros. Os revisores fazem quase sempre propostas de alterações ao artigo, como condição para que recomendem ao editor a sua publicação. Podem pedir para que se detalhe mais um procedimento experimental, que se melhoreo tratamento estatístico. Que se discuta um aspecto da literatura científica que terá sido ignorado. Que se removam conclusões pouco fundamentadas. Etc. Às vezes há trocas de correspondência entre os autores e os revisores, que são discussões científicas, durante meses. Se passar por todo este processo, o artigo científico é finalmente publicado numa revista científica credível (e há maneiras objectivas de saber quais são em cada área, tendo em conta o número médio de citações de cada artigo lá publicado, por exemplo).
  3. Mas ainda não acabou! Uma vez publicado o artigo científico, fica sujeito a um escrutínio científico ainda mais amplo. Um artigo científico não é a verdade absoluta escrita na pedra. Há artigos que são fraudes deliberadas. Há outros que têm conclusões erradas sem que haja dolo. Um artigo científico é como se fosse um postal ilustrado. Temos sempre que ver a paisagem toda, ou seja enquadra-lo na literatura científica publicada acerca do assunto. E é isso que é necessária fazer quando queremos saber quais são as principais ideias da literatura científica acerca de um assunto: uma revisão da literatura científica.

Estas questões não são uma espécie de formalidade dispensável. São a essência do processo científico. Obviamente que este processo não infalível. Mas é o que nos permite ter confiança na ciência. Com todas as falhas que possam ocorrer, à medida que mais grupos de investigação independentes publicam acerca de um determinado assunto, o nosso conhecimento acerca desse tema torna-se cada vez mais seguro.

Este comunicado da Plataforma Trangénicos Fora não é uma comunicação científica. Não tem, por exemplo, detalhe suficiente para outros possa repetir o trabalho exactamente como foi feito. Não sabemos se os métodos são adequados e os resultados relevantes, porque não foi sujeito ao processo de revisão pelos pares. É um híbrido que mistura supostos dados com declarações de pessoas envolvidas. É um comunicado de imprensa com um gene de química analítica. Um aberrante OGM!

O glifosato é um herbicida que pode ser usado com algumas espécies de plantas transgénicas (de milho, por exemplo) resistentes ao glifosato. Esta estratégia de manipular os meios de comunicação social com uma estratégia alarmista não é nova no campo dos OGM. Outro exemplo, é o que ficou conhecido como “caso Séralini”, que descrevo no meu livro Pseudociência, do qual transcrevo aqui um excerto:

“Em Novembro de 2012 foi publicado um estudo na revista Food and Chemical Toxicology acerca da toxicidade de um tipo de milho geneticamente modificado para ser resistente a um herbicida comercializado pela Monsanto chamado roundup. De acordo com os resultados, os ratos alimentados com esse milho OGM tiveram uma incidência de tumores muito superior à dos ratos do grupo de controlo, que foram alimentados com milho sem modificações genéticas.

O caso, que ficou conhecido como o caso Séralini (nome do primeiro autor do estudo), começou a ter contornos estranhos no momento da publicação do artigo e subsequente divulgação mediática. Para receberem uma cópia do artigo, Séralini exigiu aos jornalistas que assinassem um acordo de confidencialidade, que os proibia de contactarem outros investigadores antes da conferência de imprensa de apresentação do trabalho. Assim, o primeiro impacto mediático foi uma versão sem qualquer contraditório das conclusões do artigo, ilustrada com fotografias de ratos com tumores gigantes. Em todo o mundo, os títulos dos jornais deram conta do perigo dos OGM (de todos eles, presume-se). Finalmente os investigadores tinham descoberto o que os activistas ambientais já sabiam há muito tempo: os OGM causam cancro. Abriram-se as garrafas de espumante biológico.

Logo após a sua publicação, vários investigadores vieram a público criticar os métodos e as conclusões do artigo alarmista. Uma chuva de cartas que questionavam a validade das conclusões chegaram aos editores da revista. Podemos, é claro, supor que todos esses cientistas são avençados da Monsanto, e contra essa fé na conspiração pouco há a fazer. As críticas incidiam sobre o número reduzido de animais usados nas experiências e sobre a estirpe de ratos escolhida (chamada Sprague-Dawley) que tem tendência para desenvolver tumores por tudo e por nada. Os autores do estudo  tiveram a possibilidade de responder às críticas. Mantiveram a sua posição e defenderam a validade das conclusões do seu artigo. Mas, em Novembro de 2013 a revista Food and Chemical Toxicology revolveu retirar o artigo. Podemos, claro, continuar a alargar a nossa rede de conspiradores e supor que os editores da revista, que apenas um ano antes não tiveram qualquer problema em publicar o artigo, foram comprados ou ameaçados pela Monsanto para o retirar. Ou podemos optar pela explicação mais simples, que é a de que os editores retiraram o artigo face a dúvidas pertinentes acerca das suas conclusões, apresentadas por 22 cientistas de várias países em 17 cartas ao editor.”

Obviamente que se deve avaliar a exposição e toxicidade dos herbicidas. Mas cada trabalho publicado nessa área tem que ser enquadrado numa visão ampla da literatura científica. E há várias organizações internacionais fazem esse tipo de revisões. Neste caso da Plataforma Transgénicos Fora nem artigo científico há. É uma pura manobra de propaganda.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

ERA PEDRO NUNES ASTRÓLOGO?

Artigo da professora de Matemática e Directora do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra Carlota Simões:

http://www.cultureandcosmos.org/pdfs/22/22-2_simoes-coronation.pdf
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O DESCOBRIMENTO DA MADEIRA: RAMPA DE LANÇAMENTO DA GLOBALIZAÇÂO


CRISTOVÃO COLON E O CORSÁRIO PEDRO ATAÍDE



Resumo da conferência de Fernando Branco na próxima quinta feira, 18 horas, no RÓMULO na Universidade de Coimbra:

A consideração, por vários historiadores, de que o Almirante Cristóvão Colon teria sido na sua juventude um tecelão genovês chamado Cristóvão Colombo, baseia-se num conjunto de documentos encontrados em Génova e num alegado testamento do Almirante de 1498, documento que diversos autores já mostraram ser falso. Por outro lado, o Almirante deixou diversos textos manuscritos e referências na sua biografia “Historia del Almirante” que permitem calcular o seu ano de nascimento. Estes textos apontam para uma data de nascimento entre 1442-46, ou mais precisamente cerca de 1442-43, o que inviabiliza que ele fosse o tecelão Cristóvão Colombo, nascido segundo os documentos genoveses em 1451-52.

O nome de Cristóvão Colon tem características particulares: Por um lado ele nunca o assinou em nenhum documento, e, por outro lado, tendo o Almirante vivido em Portugal, tendo feito viagens em armadas portuguesas, tendo casado com uma nobre portuguesa, tendo lidado com D. João II durante 14 anos, o seu nome não aparece em nenhum documento português desse período. Todos estes factos suscitam a forte hipótese de o seu verdadeiro nome não ter sido Cristóvão Colon.

O principal indício sobre um outro nome associado a Cristóvão Colon vem de Lucio Marineo Siculo (1460-1533), historiador e professor da Universidade de Salamanca, contemporáneo do Almirante que na sua crónica intitulada “De rebus Hispaniae memorabilibus Libri XXV“ indica “…tendo los Principes Católicos, sobjugado a Canaria,…. enviaron a Pedro Colon …a descubrir otras islas mucho mayores…”. O nome Pedro Colon é também referido pelo historiador e genealogista português Gaspar Frutuoso (1522-1591), na sua obra “Saudades da Terra”, com base na pesquisa dos arquivos da Graciosa (onde Pedro Correia, cunhado de C. Colon, foi capitão donatário).

Ao contrário da total inexistência do nome Cristóvão Colon em documentos portugueses, já o nome Pedro Culão (ou Colon) encontra-se em registos em Portugal, como sendo um corsário bem pago por D. Afonso V antes de 1473. Este corsário português aparece ainda referido em vários documentos venezianos de queixa ao rei de Portugal de ataques do corsário. Entre os corsários portugueses de meados do séc. XV, o único que tem uma vida com muitos pontos coincidentes com C. Colon e com Pedro Colon, foi o corsário português Pedro Ataíde.

Este nobre, bastardo, que pertencia a uma das famílias portuguesas da mais alta nobreza, passou provavelmente a juventude na zona de Viseu onde vivia o seu pai (zona do rio Pavia; Colon refere que aprendeu a ler em Pavia) e onde existia o Convento Franciscano de Orgens (Colon seguia preceitos franciscanos). Está documentado como tendo participado na guerra de Aragão (1466) (Colon participou nesta guerra), em ataques de corsário (desde 1469) (Colon foi corsário), como tendo participado na conquista de Arzila (1471) (Colon vai ajudar Arzila de um ataque mouro na sua 4ª viagem) e como tendo navegado até à Guiné (Colon navegou na costa da Guiné). Está ainda identificado como fidalgo membro da casa do Príncipe D. João (1476) e como corsário a comandar um navio francês da frota do Vice-almirante Culon.

Pedro Ataíde era familiar de Filipa Moniz (esposa de C. Colon) e teve vários filhos bastardos (C. Colon diz deixar mulher e filhos quando vai para Castela). Tinha além disso dois irmãos homens (tal como Colon). Em 1484-85 a família de Pedro Ataíde participou activamente na conjura contra D. João II, tendo o seu tio Álvaro Ataíde (com quem C. Colon esteve em Castela) fugido para Castela em 1485 já que o filho deste, também chamado Pedro Ataíde, fora morto pelo rei (ano em que Colon também parte para Castela).

Como corsário, numa fase inicial da sua vida foi conhecido por “Inferno”, nome de guerra que veio mais tarde a ser herdado por dois seus descendentes, navegadores, e também de nome Pedro Ataíde. A sua navegação com o Vice-almirante francês Culon, a partir de meados de 70 pode tê-lo levado a mudar o “nome de guerra” para Pedro Culão/Colon e mais tarde, associado à sua ida/fuga para Castela, pode ter mudado de novo o nome para Cristóvão Colon.

Pedro Ataíde,, segundo Rui de Pina, desaparece na batalha de S. Vicente, em 1476, onde, curiosamente, o seu barco é o único que se salva. É nesta batalha que segundo o seu filho refere na biografia, C. Colon se salva a nado, chegando a Portugal.

Sem motivo aparente, o Almirante C. Colon, que nunca assinou o seu nome, substituiu, a partir de 1502 (depois de ter vindo preso das Índias), a sua assinatura de “El Almirante” para a estranha assinatura “X po FERENS”. Nesta assinatura representando o nome Cristo-Foro, pode também encontrar-se o seguinte significado

X – símbolo do cruzamento de duas assinaturas ou de incógnita (usado a partir do séc.XV).
PO – abreviatura de Pedro (ou Pero), como era usada na idade Média
FERENS – palavra cujo anagrama contem a palavra ENFER ( “Inferno” escrita em francês).

Este facto estabelece uma ligação com um célebre corsário português que comandou um dos navios franceses da esquadra do Vice-almirante Culon na batalha de S. Vicente, e que teve descendentes, navegadores, que também adoptaram o seu nome, e todos eles ficaram na História de Portugal conhecidos por Pedro Ataíde, o “Inferno”.


Fernando Branco

IST, Univ. Lisboa, 1049-001 Lisboa
fernando.branco@tecnico.ulisboa.pt

CONCERTO PRESTÍGIO - MANUELA GRAZINA

Política de saúde ou política na saúde?

Ora aqui está uma opinião de um conceituado médico e professor de Medicina com a qual no essencial estou de acordo. A ideologia cega muita gente:
 
EXPRESSO OPINIÃO | 16.02.2019
José Fragata, Cirurgião e professor universitário sobre a Lei de Bases da Saúde

Tendo sido um dos subscritores da versão original da Lei de Bases da Saúde para a qual contribui com responsável cidadania, tenho seguido com interesse a evolução que culminou na aprovação da sua versão modificada. Os sistemas devem refletir as preocupações e necessidades daqueles que servem, por exemplo, quando estamos doentes preocupamo-nos primeiro com a doença, depois procuramos a qualidade e o acesso, acesso materializado na capacidade de aceder financeiramente e em tempo útil ao tratamento. Iremos ao sector público, ao social ou ao privado, iremos onde for melhor e onde pudermos pagar, sendo a consideração da natureza pública ou privada do prestador uma preocupação secundária...

Na Europa estes desideratos foram atingidos recorrendo a diferentes modelos de financiamento por seguro e a diferentes agentes de prestação. Em Portugal, o Estado pretende financiar, prestar e controlar os cuidados de saúde, deixando ao sector social e ao privado um papel meramente supletivo, e assumindo uma responsabilidade que sabe não poder integralmente cumprir. Churchill costumava dizer “...temos que encarar os factos, porque os factos olham para nós...” Ora, Portugal despende 9 por cento do PIB com a saúde, mas só 65 por cento é financiamento público, sendo os restantes 35 por cento despesa individual, pelo que o financiamento do SNS pelos impostos é em Portugal de 6 por cento do PIB e, como o valor do nosso PIB per capita é muito inferior a países como a Holanda, financiamos a saúde no sector público por metade dos países desenvolvidos da Europa! Não espanta que o SNS tenha caído tão baixo, à mingua de financiamento adequado e face ao elevado nível de sofisticação médica-tecnológica que não é diferente para Portugal. O SNS, a ‘joia da coroa’, encontra-se hoje numa situação de difícil reversão financeira e quebra moral, materializada na dívida, no desinvestimento e no abandono pelos profissionais em busca de melhores condições técnicas e salariais.

A medicina moderna tem um forte pendor tecnológico — vive da inovação, e suporta-se na tecnologia — o investimento tem estado centrado no sector privado e não parecerá, no quadro económico próximo, que o Estado tenha capacidade para investir suficientemente na renovação do parque tecnológico do SNS, para não falar na subdotação em pessoal, dos enfermeiros que lhe escasseiam aos médicos altamente especializados que treinou, e que se tem mostrado incapaz de reter. Não sendo ricos, teremos que ser ainda mais inteligentes na visão de um sistema de saúde que, baseado na ideologia social europeia do acesso universal, inclua sem preconceitos o sector público, o privado e o social, focando-se na qualidade ao mais baixo preço, no acesso em tempo útil e gerando satisfação — numa palavra, criando valor. Se o não fizermos, sacrificaremos os cidadãos à mesma ideologia política com que os pretendemos defender. Tal como o país não se pode dividir em público e privado, tal como a tutela não deverá ser só do sector público, o País não pode prescindir dum moderno parque hospitalar e tecnológico instalado, só porque está no sector privado... Por ser valor nacional deverá estar ao serviço dos cidadãos. É urgente ter para a saúde uma visão que assente numa plataforma de largo e duradouro entendimento e que secundarize a ideologia ao interesse real dos cidadãos, pobres ou ricos, todos cuidados num sistema integrado, financiado por seguro, tendo moralidade solidária e balizado na qualidade, no acesso e na solidariedade, como na Europa — com mais política (de saúde) e menos política.

José Fragata

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

ARTESÃOS, ARTISTAS, ARTES E BELAS-ARTES


Barahona Possolo
Na Grécia Antiga, Platão (428-348 a.C.) definiu arte como um reflexo da capacidade do ser humano para criar obras de modo inteligente através de uma aprendizagem adequada. Na mesma época, o seu mais conhecido discípulo, Aristóteles (384-322 a.C.), definiu-a como sendo uma capacidade dos seus semelhantes para produzirem obras de forma racional.

Diga-se, a propósito, que, no tempo em que viveram ou mesmo antes, a palavra tecnhê referia não só a técnica, como também a habilidade para realizar qualquer atividade produtiva, artística ou não. A técnica, que então se confundia com a arte, era, como hoje, toda a actividade, sujeita a aprendizagem, que visa obter um determinado resultado, num qualquer tipo de actividade programada, baseada em regras definidas, o que não exclui a criatividade de quem a pratica. Com técnica ou arte se fazia um barco, uma túnica ou uma sandália, se proferia um discurso, se pintava um vaso ou se esculpia uma estátua.

Mais tarde, em Roma, Fábio Quintiliano (35-95) entendia como arte tudo o que fosse baseado num método e numa ordem. Cinco séculos depois, Flávio Magno Cassandro (490-581) dava realce ao aspecto produtivo e ordenado da arte, atribuindo-lhe as funções de ensinar, impressionar e dar prazer.

A arte, cuja definição, de conhecida complexidade, varia com o tempo e em função das diversas culturas humanas, é vulgarmente tida como uma das melhores maneiras do ser humano expressar sentimentos e emoções. Há quem diga que arte é aquilo que é criado deliberadamente pelo homem como uma expressão da habilidade ou da imaginação. Num outro contexto, aceita-se que a arte (seja ela a pintura, a escultura, o desenho, a literatura, a música, a dança, o teatro ou o cinema) é o reflexo da história e da cultura das sociedades. Unanimemente aceite como algo inerente ao ser humano, está longe de ser definida, em rigor e consenso, pela comunidade dos críticos e historiadores de arte, mas ganhou estatuto elitista, assumindo-se como uma atividade criativa decorrente da sensibilidade ou estética (do grego aisthésis: sensibilidade, sensação) do autor. A arte grega do período helenístico (entre os séculos III e II a.C.) atingiu um muito elevado grau de perfeição (beleza) na replicação do modelo, que a história nos transmitiu como expressão de beleza.

Na Idade Média, quando a arte ainda se confundia com a técnica, a Igreja dominava a sociedade europeia, levando os artistas e artesãos, através das suas obras, a incrementarem a religiosidade do povo. Uns e outros estavam unidos por laços de entreajuda e de defesa mútua (segurança de emprego e garantia de inserção no mercado de trabalho) em corporações de ofícios conhecidas por guildas, onde também se praticava ensino essencialmente oficinal.

Não existe uma definição universal de artista. Poderá dizer-se que é uma pessoa que, em qualquer lugar da Terra e em qualquer época, produziu ou produz obras aceites como arte, cujo conceito é, como se disse atrás, subjectivo, controverso e variável no espaço e no tempo. De um modo muito simplificado entende-se por artista tanto os antepassados pré-históricos, que nos deixaram as pinturas e gravuras rupestres, como os virtuosos renascentistas ou os abstracionistas e surrealistas contemporâneos, fazendo uso de uma imensa diversidade de estilos e técnicas modernas e ultramodernas.

Nikias Skapinakis
Intimamente ligado à arte, o artesão é definido como alguém dotado de um certo grau de habilidade e/ou tecnicidade que, manualmente e com o auxílio de ferramentas, produz, de sua concepção ou na de outrem, objectos utilitários ou decorativos.

No Renascimento dá-se a separação das artes face às técnicas próprias dos ofícios produtivos. Foi neste período áureo da civilização ocidental que surgiram as academias e o Academismo, institucionalizando uma metodologia de ensino sistemático e graduado, inspirada na das universidades, que se manteve, como corrente dominante de assinalável prestígio, até finais do século XIX.

Numa postura, dir-se-ia, de carácter científico, os artistas formados nestas academias tinham os clássicos por padrão, respeitando regras estabelecidas de acordo com a tradição. Neles, o interesse pela forma ultrapassava o significado do conteúdo. O pintor ou o escultor academista, vinculado ao culto do virtuosismo técnico e do conceito de beleza de então, era alguém dotado de talento excepcional para copiar e reproduzir, na perfeição, o modelo visado, mas estava privado de liberdade e independência criativas.

Assiste-se, então, à recuperação dos valores do Classicismo (opção da Antiguidade Clássica como padrão, por excelência, do sentido estético), bem exemplificados na conhecidíssima escultura helenista, Vénus de Milo (século II a.C.), de Alexandre de Antioquia. Para os academistas, a beleza era aceite como um valor perene e universal. Grandes mestres renascentistas, como Miguel Ângelo, tiveram por padrão as obras deixadas pelos melhores artistas desse período antigo, visando atingir o mesmo grau de perfeição e de beleza.

O ensino nas Academias facultava formação teórica ou intelectual especializada em domínios da anatomia, da geometria, da história e da filosofia. Suplantando em muito a aprendizagem nas guildas medievais, aproximou os artistas dos intelectuais e dos profissionais liberais desse tempo, elevando-lhes o estatuto social muito acima do dos artesãos. Foi nesta fase que o artista passou a ser visto como um “indivíduo possuidor não só de habilidade técnica, mas principalmente de imaginação criativa e de um talento superior inato”.

Como reacção ao virtuosismo, racionalismo, sobriedade e conceito estético do Classicismo, mas sem perda de prestígio do artista, desenvolveu-se, entre finais do século XVIII e finais do XIX, o Romantismo, movimento artístico com grande visibilidade na pintura, na literatura e na música, na Europa ocidental. A prevalência dos valores estéticos (esteticismo) ganhava terreno como elemento-chave na definição de arte. Essencial na emergência deste outro movimento, o esteticismo valorizou a intuição, a sensibilidade e a criatividade individuais do artista, acentuando, com isso, o culto do génio.

Foi a meio do Romantismo que o escritor e crítico de arte inglês John Ruskin (1819-1900) e o designer, seu conterrâneo, William Morris (1834-1896) desenvolveram um movimento estético em defesa do artesanato, conhecido pela expressão inglesa Arts & Crafts (Artes e Ofícios), como alternativa à mecanização e à produção industrial massiva. Este movimento defendia não haver diferença entre artistas e artesãos.

Com efeito, são inúmeras as peças catalogadas e conhecidas como verdadeiras obras de arte, saídas de actividades artesanais tão diversas como cerâmica, vidraria, joalharia, prataria, cantaria artística e outras à base de ferro, de bronze ou de estanho. A Arte Nova e a Art Déco, dois estilos que diluíram a separação entre arte, design e artesanato, e os associaram à indústria, valorizaram enormemente os ofícios e os trabalhos manuais, numa época em que a fábrica e a industrialização alastravam na sociedade.

As profundas mudanças sociais e políticas na Europa do século XIX, a abertura de museus de arte, o crescimento de uma classe média com acesso ao mercado e a ascensão de movimentos artísticos defensores dos valores estéticos em detrimento dos temas sociais, o surgimento da crítica de arte na imprensa, acessível a um público cada vez mais numeroso, libertaram os artistas dos padrões tradicionalistas, difusores das virtudes morais colectivas, abrindo portas ao experimentalismo individual.

Grandemente influenciados ou apoiados nas ideias filosóficas a circularem na Europa (Auguste Comte, John Stuart Mill, Friedrich Nietzsche, Friedrich Engels, Karl Marx, e outros), nos múltiplos e admiráveis progressos alcançados pela ciência (William Kelvin, Alfred Nobel, Charles Darwin, Niels Bohr, Pierre e Marie Curie, Henri Becquerel, Rutherford Hays, Max Planck, Albert Einstein e muitos outros) e nos recursos tecnológicos de então (máquina a vapor, comboio, automóvel, avião, fotografia e cinema), muitos artistas abriram caminho ao Modernismo, um movimento intelectual de rompimento com a tradição e, ao mesmo tempo, de abertura a uma nova relação do homem com o mundo. Dito de outra maneira, o Modernismo não só recusou os padrões antigos, como buscou ideias nos notáveis avanços da ciência e da tecnologia, na Revolução Industrial e nas lutas sociais decorrentes desta realidade.

Foi um período de grandes contradições, assumindo maior relevo na pintura, onde se destacaram movimentos modernistas a que os historiadores e críticos de Arte deram nomes de Realismo, Naturalismo, Impressionismo, Fauvismo, Cubismo, Simbolismo, Expressionismo, Abstraccionismo, Dadaísmo, Surrealismo, entre outros.

Esta pulverização de propostas experimentais ou estilos e o abandono do Academismo aumentaram a dificuldade das definições de arte e de artista, situação que se tem vindo a agravar com a globalização e a cultura de massas, iniciadas a meados do século passado, abrindo terreno a obras de qualidade questionável, circulando no mercado, obras que o cidadão comum não tem conhecimentos para avaliar.

Alcançar o conceito geral de arte foi encontrar o que havia de comum entre produções tão diferentes como um vaso grego antigo, um poema de Virgílio, uma iluminura medieval, uma catedral gótica, um desenho de Da Vinci, os Lusíadas de Camões, um retábulo barroco ou uma tela de Gustav Klimt.
O objeto de arte, em particular uma pintura ou uma escultura, além de uma fonte de admiração, passou a ser uma marca de distinção social, de poder, de riqueza e de prestígio, dando origem ao mecenato e ao coleciconismo. Neste quadro, os artistas desta época, em progressiva ascensão social, procuravam aproximar-se dos intelectuais e dos cientistas, ao mesmo tempo que se iam afastando dos artesãos e artífices.

Nasceu, então, o conceito de “arte pela arte”, com um fim em si mesma, despojada de toda a sua antiga funcionalidade. Assim, a arte não seria o resultado de um projecto predeterminado, mas simplesmente surgia do acto da sua realização, que é, afinal, o que acontece na chamada arte abstracta.

Naturalmente elitistas, as Academias distinguiam “belas-artes” e “artes aplicadas”, na convicção de que determinados tipos de manifestações artísticas eram superiores aos demais, tidos por inferiores. As primeiras, de carácter não utilitário, compreendendo as chamadas artes plásticas (pintura, escultura, desenho, arquitectura), eram tidas por possuírem dignidade e nobreza. As artes aplicadas, dado o facto de serem produzidas por trabalhadores, eram consideradas menores e, como tal, desvalorizadas.

Almada Negreiros
Esta separação não era nova. Já na Antiguidade, se fazia distinção entre “artes liberais”, fruto de uma atitude mental, tida por superior, e “artes mecânicas”, ligadas aos trabalhos manuais e, portanto, inferiores.

Também no Renascimento italiano, Giorgio Vasari (1511-1574) pintor, arquitecto e pensador, definia a atividade artística como fruto de um trabalho reflexivo individual de nível superior. Falava-se, então, de “arte académica”, "grandes artes" ou “artes nobres”, abrangendo desenho, pintura, escultura e arquitectura, sendo as outras, as associadas ao artesanato, classificadas de inferiores.

Não é utópico admitir que o desenvolvimento da inteligência artificial virá, no futuro, a produzir robôs capazes de criar obras ditas de arte. Teremos, então, de reformular os conceitos de arte e de artista.
A.Galopim de Carvalho

(do livro agora editado, “Com Coentros e Conversas à Mistura”, Âncora Editora, 2019)

Política de identidades”, uma regressão civilizacional

Artigo de Guilherme Valente que saiu no Público de 17/2: 

Uma das responsabilidades definidoras do Estado liberal é a preocupação com as minorias, a sua integração, valorização e representatividade. O caso recente do bairro Jamaica anuncia o que virá se entregarmos esse espaço de imperativa intervenção política, social, cívica e humana a movimentos racistas e à sua instrumentalização por forças políticas iliberais.

Inventando racismos, racializando o que nada tem a ver com a côr de pele, esse activismo dito anti-racista, de negros e de brancos, semeia a animosidade da população branca menos informada contra a minoria negra pobre, não hesitando em sacrificar aos seus desígnios inconfessáveis a gente fragilizada fugida de lugares de horror que procura paz, esperança e futuro no nosso país.

Fechanda nos guetos, impedem a valorização e integração a que aspira. O objectivo é promover o conflito entre brancos e negros. Que crescerá exponencialmente se o Governo não assumir a intervenção justa e os partidos políticos e a sociedade não se mobilizarem para esse objectivo e ideal humano exaltante.

A propósito da agitação do bairro Jamaica, aproveitamento da cívica intervenção da Polícia, convocada por uma senhora residente no bairro, como ela própria declarou, JMT lembra numa crónica notável (Público, 25/1/19), o grande Martin Luther King, quando disse “eu tenho o sonho de que as minhas quatro crianças irão um dia viver numa nação onde não serão julgadas pela cor da pele, mas pela qualidade do seu carácter”.

O racismo contra o qual ele lutava não é o mesmo “racismo” contra o qual luta o expatriado Mamadou Ba. Luther King colocava o problema ao nível dos indivíduos – a cor não deveria ser critério na relação entre pessoas. Mamadou Ba coloca a questão ao nível dos grupos: a cor da pele, que antes se desejava abolir como critério, precisa agora de regressar, porque é ela que diferencia os grupos para MB desejavelmente em conflito.

O que também começa a chegar a Portugal é emergência de um novo paradigma de acção política, a substituição das causas sociais pela chamada “política de identidades”. Novidade que especialmente a esquerda totalitária trotskista tem cavalgado, alimenta e tenta comandar. “Política de identidades” para a qual também a esquerda liberal tem começado a deslizar. Foi esse deslizamento que determinou a derrota de Hilary Clinton nos Estados Unidos e está a levar o PS francês à insignificância.

Na sondagem mais recente do IFOP relativamente às próximas eleições europeias, o PSF surgia com 6% das intenções de voto. A substimação das causas sociais, o esquecimento das necessidades e expectativas da população que, negra ou branca, hetero ou trans ou homossexual, etc., etc., quer ser PESSOA, o imperativo de uma mais justa distribuição da riqueza, de uma generalizada igualdade de oportunidades, o abandono, preparado pela devastação na escola de novo em força, do universalismo e do humanismo, enfim, estão na origem da actual fragilidade da democracia, criando terreno para a ameaça iliberal em curso.

Fruto das ideologias irracionalistas constituintes da chamada pós-modernidade, as “políticas de identidade”, traduzidas frequentemente em manifestações que ao senso comum parecem delirantes e caricaturais, resulta no entanto de uma dificuldade inerente ao próprio projecto liberal, para a qual os grandes pensadores liberais não deixaram resposta: um grande desafio que se coloca ao desenvolvimento das sociedades liberais e ao aprofundamento do liberalismo.

Trata-se, segundo Fukuyama* “de uma escolha que o Estado liberal tem de fazer, se o tipo de liberalismo pluralista que é responsável por proteger é um liberalismo dos indivíduos ou se é dos grupos, e se for este último que tipo de restrições dos direitos individuais pelos grupos está disposto a aceitar.”

A maior parte das sociedades liberais percebe e tem agido em conformidade com a evidência que o reconhecimento do grupo pode minar o princípio liberal básico da tolerância e dos direitos dos indivíduos. É por isso que “o liberalismo não pode ser completamente equitativo em relação às diferentes culturas, já que ele próprio reflecte certos valores culturais e tem portanto de rejeitar grupos culturais alternativos que são eles próprios profundamente não liberais”.

Exemplo, o radicalismo islâmico. De entre as inúmeras caricaturas do fenómeno em expansão, refiro a título de exemplo duas: Em Setembro de 2018 foi publicado em França um livro de feministas negras que proclamava como inimigas o Estado francês, o racismo de estado e…o feminismo branco! O seu combate anunciado era "contra a negrofobia, o imperialismo, o heteropatriacado [branco e negro?] e o capitalismo”. Em Junho de 2018, em Montréal, Robert Lepage, famoso encenador canadiano, viu-se no centro de uma polémica violenta por causa da peça Slav em que o recurso aos cânticos de escravos negros não foi acompanhado por uma distribuição racial em conformidade - o intérprete principal e alguns dos músicos eram... brancos. Um dos slogans da manifestação à porta do teatro: “Os cânticos dos escravos não foram escritos para que deles aproveitassem os brancos.” A direcção do Festival de Jazz decidiu em Julho suspender a representação. Também entre nós, a encenação de peças de Gil Vicente, por exemplo, terá de recorrer em breve a actores que na realidade se confundam com os personagens. Os judeus da Farsa de Inês Pereira terão de ser interpretados por verdadeiros judeus (e como se prova isso, talvez desenterrando Mengel ou Himmler!).

Nesse universo extremo atomisado de identidades que se anuncia deixa de haver lugar para o diálogo, a criação e as artes. Nessas sociedades pulverizadas (inviáveis) o negro, o branco, o gay, a lésbica, o hetero, etc., passam a ser importantes por serem tal, e não importantes enquanto... pessoas. Pessoas, como deve sentir-se toda a gente e o universalismo e o humanismo consagram.

Estaremos, estamos já hoje, portanto, perante inumeráveis “racismos”. Seria, será a multiplicação de apartheids, o regresso de um hiper tribalismo, um mundo hobbesiano mad max de todos contra todos.

* Fukuyama, O Fim da História, posfácio à edição de 2019, Lisboa, Gradiva. Tentarei tratar este aspecto num próximo artigo.

Guilherme Valente

domingo, 24 de fevereiro de 2019

POR QUE RAZÃO A TABELA É PERIÓDICA?

O meu artigo no úlimo "As Artes entre as Letras" (na figura a tabela original de Mendeleiev):



Estamos no Ano Internacional da Tabela Periódica, que representa um cume de unificação da química, que é uma ciência central no panorama das ciências. O unificador da diversidade químico foi, em 1869, faz agora 150 anos,  o russo Dmitri Ivanovitch Mendeleiev (1834-1907; tinha 35 anos em 1869), o hirsuto professor de Química Geral da Universidade de São Petersburgo, na altura capital da Rússia imperial.  A origem da Tabela é pedagógica.  A  fama do professor, que, quando propôs a tabela só tinha 35 anos, estava ascendente quando ele achou que era conveniente escrever um livro sobre a matéria que ensinava. Intitulou-o “Princípios de Química” o manual introdutório de química (inorgânica) em dois volumes (1869-1871), o primeiro tratando os oito elementos  químicos mais comuns e os restantes 55 conhecidos na época. A Tabela que tem por vezes o seu nome surgiu quando ele tentou fazer uma síntese que coubesse num pequeno quadro de todos  esses elementos. Em Fevereiro de 1869 publicou um artigo intitulado “Uma tentativa de um sistema de elementos, baseado no seu peso atómico e na sua afinidade química.” O peso atómico resultava de pesagem de elementos e, na altura, existiam alguns erros pois alguns elementos só existiam em alguns compostos, sendo de difícil separação (por exemplo, para ele o átomo de urânio (Ur) era só 116 vezes mais pesado do que o hidrogénio, quando sabemos ser 238). A afinidade química resultava da observação da maior ou menos facilidade de participar em reacções químicas. A tabela original pouco tem a ver com a de hoje: não passava de uma lista de cinco colunas, em que os elementos apareciam ordenados por ordem crescente de peso atómico (de cima para baixo o peso ia crescendo, desde o hidrogénio até ao chumbo). O génio da “tentativa” de Mendeleiev estava na “periodicidade”: verificando que certos elementos tinham propriedades químicas semelhantes, colocou-os na mesma linha: foi o caso, por exemplo, dos chamados metais alcalinos (lítio, LI; sódio, Na; potássio, K; rubídio, Rb; e césio, Cs, todos eles muito reactivos), que ele alinhou ao lado uns dos outros. Periodicidade significa repetição: o lítio e o sódio, por exemplo, têm propriedades que se repetem, designadamente a sua grande capacidade de reacção química.

Hoje o aspecto da Tabela Periódica é um pouco diferente, mas o essencial da ordenação original permanece. Todos os estudantes de ciências conhecem a tabela aproximadamente  rectangular com “torres” dos lados direito esquerdo (a da direita maior), e uma muralha mais baixa no meio ligando as duas “torres” (por baixo estão duas linhas que fazem lembrar uma vala do castelo). Os tais metais  alcalinos surgem alinhados  na primeira coluna, na “torre” da esquerda. Do outro lado, na coluna vertical à direita, estão alinhados os chamados gases raros (hélio, He; néon, Ne; árgon, Ar; etc.; todos eles muito pouco reactivos)  que, precisamente por serem raros, eram inteiramente desconhecidos na época em que o químico russo apresentou a sua proposta (haveria de saber da sua existência em vida, pois foram descobertos no final do século XIX).

Mas, de onde vem,  em última análise a periodicidade? Por que é periódica a Tabela Periódica? No tempo de Mendeleiev a base da periodicidade era puramente empírica. O segredo está nos átomos, que são os blocos dos elementos químicos. O grande químico não fazia ideia nenhuma da existência dos átomos (na altura essa existência não passava de uma conjectura, uma ideia que poderia estar afastada da realidade) e menos ideia fazia da constituição dos átomos.  Foi o físico dinamarquês Niels Bohr  (1885-1962), que em 1913 propôs o modelo atómico que basicamente ainda hoje se ensina. O átomo é  formado por um núcleo atómico no centro, onde reside quase toda a sua massa (o peso atómico é praticamente o peso do núcleo, que é feito de protões e de neutrões, pelo que os núcleos de maior peso atómico são núcleos mais pesados, isto é, com maior número de protões e neutrões)  e por electrões, partículas muito leves, que circulam muito rapidamente à volta dos núcleos. A ordem de pesos atómicos significa, portanto, ordem de tamanho  dos núcleos e também ordem de tamanho dos átomos, uma vez que o número de electrões é o mesmo que o número de protões do núcleo (este número, chamado “número atómico” é, em geral, menor do que o peso atómico, pois, nos núcleos, para além de protões existem neutrões, com massa semelhante)   A periodicidade é explicada pelo comportamento dos electrões. Estes, de acordo com a teoria quântica de Bohr (que mais tarde haveria de ser aperfeiçoada), vão ocupando níveis de energia cada vez mais altos nos  átomos cada vez maiores, níveis esses que formam  uma espécie de escada. Num certo tipo de nível de energia, dito “s“, cabem dois electrões: o lítio e o sódio têm um só electrão num nível s e esse electrão solitário, com  energia mais elevada do que os outros, está facilmente disponível para ligações (ligações significam uniões de átomos pela partilha ou transferência de electrões); por outro lado, o néon e o árgon têm dois electrões em níveis desse tipo. Dizemos que uma camada electrónica está fechada, pelo que não há electrões disponíveis para estabelecer ligações Por terem comportamentos químicos em absoluto contraste o lítio e o sódio estão na “torre” do lado esquerdo da Tabela Periódica, ao passo que o néon e o árgon estão na “torre” do lado direito.

Foi preciso um primeiro génio, Mendeleiev, para ordenar os elementos e foi depois preciso um outro, Bohr, para explicar, com base numa teoria física fundamental – a teoria quântica  - a estrutura atómica que preside à organização da Tabela Periódica. Desenvolvendo a sua ideia dos níveis de energia, Bohr propôs  o “princípio da construção” (em alemão Aufbauprinzip), que indica que níveis vão ocupar os electrões dos átomos.  Mendeleiev descobriu uma ordem na variedade macroscópica, ao passo que Bohr encontrou o mecanismo microscópico que está subjacente à ordem macroscópica. Por trás das aparências existem partículas invisíveis que se comportam segundo certas leis. É comum dizer-se que a teoria quântica descreve o mundo do muito pequeno, mas tudo aquilo que vemos à nossa volta assenta nesse mundo do muito pequeno.  O que se vê assenta no que não se vê. Portanto, será melhor dizer que a teoria quântica descreve o mundo. E nós, que compreendemos a Tabela Periódica, somos parte desse mundo que ela tão bem descreve.  

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

À volta dos livros: Cientistas Portugueses

Edição da rubrica "À volta dos livros", de Ana Daniela Soares,  sobre o meu livro Cientistas Portugueses. Para ouvir aqui:

https://www.rtp.pt/play/p312/e388028/a-volta-dos-livros"

VIDEO DA APRESENTAÇÃO DO LIVRO CIENTISTAS PORTUGUESES

Apresentação do meu livro "Cientistas Portugueses", no Rómulo em Coimbra, com o biólogo Nuno Ferrand, num debate moderado por Catarina Carvalho, directora executiva do Diário de Notícias. 

"Cientistas portugueses fazem omeletes com muito menos ovos"

Entrevista que dei a Catarina Carvalho, do Diário de Notícias, a propósito do meu novo livro Cientistas Portugueses:

Este seu livro é sobre algo de que quase nunca se fala - a situação laboral dos cientistas portugueses. Porque teve a ideia de fazê-lo?

Precisamente por isso. Por achar que a realidade dos cientista é mal representada no espaço público. Aquilo a que as pessoas têm habitualmente acesso são histórias de cientistas em situações de grande reconhecimento social, quando ganham um prémio, um financiamento avultado ou publicam um artigo numa das revista científicas mais conhecidas. Isso é importante, mas não é a história toda. Mesmo esses que aparecem na televisão em momentos de luz, podem ter uma situação laboral muito distante daquilo que imaginamos. 

Por exemplo?
Podem, por exemplo, estar a braços com contractos que findam e candidaturas para assegurar o seu rendimento mensal. Há também uma questão de oportunidade para fazer este livro. A ciência teve um crescimento muito grande em Portugal nas últimas duas décadas, com um grande aumento do número de doutoramentos e de investigadores em actividade. Com isso criou-se uma situação nova: doutorados que têm muito poucas perspectivas de integração nos quadros das instituições de ensino superior. Proliferam formas de contratação precárias, como as bolsas de investigação (que é a mais precária de todas) e os contratos de trabalho a prazo. Este livro procura fazer um retrato desta realidade relativamente recente dos investigadores em Portugal. Há hoje um acesso mais democratizado à investigação científica, mas o estatuto profissional e social da maioria dos investigadores diminuiu.

Neste livro descreve uma situação precária. Mais ou menos como a vida dos artistas. Ou dos futebolistas? E não serão os cientistas, de certa forma, do mesmo género dos artistas?

Num certo sentido sim, uma vez que ambas as profissões procuram produzir algo de novo. No caso dos artistas são as obras de arte, no dos cientistas novo conhecimento. Estão ligadas pela criatividade, embora haja diferenças. A liberdade criativa do artista é maior. Para o cientista a sua criatividade tem de se submeter ao teste da observação e da experiência. No caso dos futebolistas têm a ver com facto de poderem ter também uma carreira curta, precisarem de estar no clube certo em cada momento e de poucos atingirem um elevado nível de reconhecimento.

A ciência é uma profissão?
Sim. Não uma, mas várias profissões. É uma actividade muito especializada, que exige elevadíssima formação e que é cada vez mais realizada por equipas grandes e multi-disciplinares. Não é uma coisa que se faça nos tempos livres. E precisa de ser paga. O paradigma do investigador-aristocrata do século XIX, que assegura não só a sua subsistência como financia a sua própria investigação, já ficou para trás. Foi esse o caso de Charles Darwin (que faz este ano 210 anos), nessa altura nem era muito bem visto ganhar dinheiro com a ciência. Mas se hoje ainda dependêssemos dos afortunados que se auto-financiam certamente não teríamos nada que se parecesse com a produção científica actual. E a ciência é muito necessária para responder a quase todos os desafios que temos como sociedade.

Quais as principais consequências desta “vida em estado líquido” como lhe chama? Para os cientistas? 
A ideia da vida em estado líquido é do filósofo Zygmunt Bauman, eu apenas a pedi emprestada. É a ideia de que as relações nas sociedades actuais tendem a ser menos duradouras. Isso acontece nas relações pessoais, mas também nas de trabalho. Não apenas na ciência, é claro. Mas as carreiras de investigação estão especialmente líquidas. Uma ilustração disso é um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, no passado mês de Dezembro. Entre várias outras coisas, os autores desse estudo determinaram, a partir do registo de publicações científicas desde os anos de 1960, o tempo de meia vida dos investigadores ao longo do tempo. Ou seja: o tempo que demora para que metade dos investigadores que iniciam actividade num determinado ano abandonem a carreira de investigação. Foram precisos 35 anos para que metade dos investigadores que começaram a carreira nessa altura deixassem a investigação. Para os que começaram em 2010, foram precisos apenas cinco anos para que metade abandonasse a carreira. São dados globais, não apenas portugueses. Mas traduzem uma grande incerteza no futuro dos investigadores. E há outros factores, como a necessidade de mobilidade para progredir na carreira. É um meio muito competitivo. E há uma grande diferença nas oportunidades que se podem ter se considerarmos que o nosso mercado de emprego é uma cidade, um país, um continente ou o mundo. Claro que a mobilidade é uma característica da ciência e pode ser encarada de modo positivo. E é-o, muitas vezes. Mas noutras também é forçada por falta de oportunidades. Os contratos a prazo, a mobilidade, tudo isto tem implicações nos projectos pessoais e de família.

E para a ciência portuguesa, quais são as consequências?
O sistema científico português ser menos atractivo e perder bons investigadores para outros sistemas científicos ou para outras actividades profissionais. É verdade que nem uma coisa nem outra são totalmente indesejáveis. É natural que os investigadores portugueses se sintam atraídos por países com sistemas científicos mais desenvolvidos, podendo até eventualmente regressar a Portugal num ponto mais avançado da carreira. E também é positivo que as pessoas com experiência de investigação científica possam dar o seu contributo noutros sectores. Mas Portugal tem que ter um sistema científico suficientemente atractivo e motivador. Sob pena dos recursos investidos na ciência terem um retorno abaixo do seu potencial.

De todas as pessoas que fazem ciência em Portugal, quantas estão em situação precária? 
É difícil de dizer. Esses dados, que eu saiba, não estão compilados. Há formas muito diversas de contração precária. Para fazer essa contabilização não bastam os números das bolsas e contratos de investigação celebrados directamente com a FCT. É necessário levar em conta dados das várias instituições de investigação, fazendo essa recolha caso a caso. Há casos de instituições privadas criadas ao lado das instituições públicas, que são usadas para contratar investigadores, em geral de forma precária, sem que estas pessoas adquiram qualquer ligação formal à instituição pública mãe (e que é a morada desses investigadores para efeitos de contabilização da produção científica). Há instituições em que o número de precários é múltiplo do de investigadores e docentes do quadro. Se fizermos o exercício de, em cada artigo científico, retirar o nome dos investigadores precários que para ele contribuíram, vemos que são em grande número e decisivos para a produção científica nacional.  

De que modo é que isto não se repete, também, noutros países? Como é gerido o emprego científico, por exemplo, em Espanha ou em França? E nos Estados Unidos?
Há obviamente países com situações mais favoráveis do que outros. Mas os contratos a prazo e a precariedade na ciência são uma realidade generalizada. Nós temos, no entanto, algumas especificidades. Uma forma de contratação ainda mais precária, que são as bolsas de investigação científica (não dão sequer direito a subsídio de desemprego). E poucas alternativas para os doutorados fora das universidades. E também o facto de ser tudo mais recente para nós. 

E de que modo é que o facto de não haver uma tradição de mecenato científico, ou de fundações em Portugal ajuda - ou acrescenta- a esta situação? Tem de ser sempre o estado a tratar de tudo…. 
A maior parte da investigação fundamental — aquela que é feita para obter conhecimento e não para desenvolver um produto— é geralmente financiada por fundos públicos, em qualquer lado do mundo. E sem essa investigação não há aplicações. O investimento privado na investigação fundamental pode ter algum papel, geralmente complementar ao público. Às empresas naturalmente interessa mais a investigação aplicada. Dito isto: é verdade que ainda há pouco investimento privado na investigação em Portugal, deveria haver mais. Especialmente por parte das empresas, e numa perspectiva mais aplicada, em colaboração com as universidades e centros de investigação. Isso acontece noutros países. Claro que há honrosas excepções entre nós. Mas ainda são poucas. 

Este é um processo especialmente complexo para as mulheres - e há-as em maioria na ciência? 
Não é uma situação generalizada, que ocorra em todo o lado. Portugal é um dos países do mundo com maior participação feminina na ciência. Há várias possíveis explicações para isso. Uma delas é o crescimento tardio da ciência em Portugal, numa altura em que as mulheres também já estavam em maioria no ensino superior. Mas não conheço nenhuma explicação cabal. Há quem ache que é porque a investigação científica em Portugal é um emprego demasiado mau para os homens o quererem. Mas isso é apenas uma especulação.

Em contrário, quais seriam as más consequências de um trabalho demasiado seguro? Não poderia levar a uma certa “preguiça intelectual”?
Poderia. E na verdade isso já pode acontecer, tendo em conta que os docentes e investigadores do quadro têm um trabalho absolutamente seguro. Deve haver avaliação com consequências e possibilidade de progressão na carreira. Há países com mais estabilidade laboral e que são mais cientificamente produtivos do que nós. Não penso, longe disso, que a todos os recém-doutorados deva ser oferecido um contrato vitalício imediato. Mas que ao fim de alguns ciclos de avaliação e de provas dadas, seja realista almejar alguma estabilidade.

Com a situação descrita, o estranho é que ainda haja quem queira fazer ciência em Portugal… Só cá ficam os que não têm lugar em mais lado nenhum? 
Há obviamente um lado bom: fazer investigação científica pode ser altamente recompensador do ponto de vista intelectual. Ser o primeiro ser humano a saber pela primeira vez uma coisa pode ser empolgante. As pessoas gostam e querem fazer investigação científica. Muitas vezes o que acontece é que gostam do conteúdo do seu trabalho, aquilo que realmente fazem, mas estão insatisfeitas com as condições de trabalho, com o vínculo, a remuneração, a incerteza dos concursos. E a vida tem muitas dimensões. Pesam-se várias coisas, não apenas o desenvolvimento da carreira, mas também projectos pessoais e familiares. Há pessoas mais propensas a sair do que outras, ou que dão mais prioridade à carreira ou à família. Não penso que ficam cá só os que não têm lugar em mais lado nenhum. São importantes os que vão e que podem eventualmente voltar com a sua experiência internacional. Mas também são importantes os que ficam e que por anos a fio fazem omeletes com muito menos ovos.

E, no entanto, há outro fator, o do “bêbado conhecido”, ou seja, como sempre o factor C. É isso que prende as pessoas a Portugal? E o que podia ser feito para que não houvesse esta endogamia? 
Penso que esse factor empurrará mais pessoas para fora de Portugal do que as que cá mantém. Para além de existir um efeito negativo na produtividade científica. Recompensa as características erradas. Um sistema científico menos endogâmico seria mais motivador e mais produtivo.

Quis são as característica erradas que a endogamia recompensa?
Uma certa propensão para a política de corredores, que em nada contribui para a qualidade e produtividade do trabalho científico. Recompensa a imobilidade profissional em detrimento de visões de fora, que até poderiam acrescentar algo à instituição. Não quero com isto dizer que 70% da academia portuguesa seja pura e simplesmente incompetente. Hoje em dia esses processos de selecção são competitivos (uns mais do que outros, dependendo das áreas) e quem acaba por entrar normalmente tem algumas provas dadas. Mas o mesmo se poderá provavelmente dizer do candidato que ficou em segundo ou em terceiro, e que ficou de fora. O que estamos a falar é daquilo que muitas vezes é decisivo entre dois ou três candidatos razoáveis.  Acrescento que um candidato que já esteja na instituição há algum tempo, pode não se encaixar nas definições habituais de endogamia académica: ter feito lá o doutoramento ou publicado lá o primeiro artigo. O conceito de endogamia académica traduz situações de imobilidade prolongada. Pessoas que muitas vezes fizeram a licenciatura, o mestrado, o doutoramento e mais três contratos de investigação no mesmo sítio. Não plausível que em 70 por cento dos concursos o candidato que sempre que por lá andou seja o melhor. Poderá haver casos em que sim. Mas 70 por cento é demais. É um valor bem mais elevado do que o da generalidade dos países que têm sistemas científicos mais produtivos do que o nosso.  E também não estou a defender que os precários não devam ser integrados. Porque precários são todos, os que ganham e os que perdem o concurso. A questão é que características devem valorizadas nas entradas para os quadros, de modo a termos um sistema científico mais justo, motivador e produtivo.

Mónica Bettecourt-Dias diz, às tantas, no livro, que era mais interessante que não fossem só as universidades e centros de investigação a “usar” o trabalho dos cientistas, dos doutorados, nomeadamente… 
Isso é muito importante. Num sistema científico maduro, muitos doutorados terão de encontrar saídas noutras actividades onde possam ser úteis. Nas empresas, entidades reguladoras, etc. O conhecimento profundo do processo científico pode ser muito útil em vários contexto, assim como uma forma de pensar bastante racional, que pode ajudar a resolver problemas. Mas esse tipo de oportunidades por cá ainda são muito escassas. Certamente os doutorados poderão criar algumas dessas oportunidades eles próprios. Mas não chega. 

Por outro lado, a entrada nas universidades e centros de investigação de pessoas que estavam a prazo, com a integração dos precários, foi mal vista. Porquê?   
Por várias razões. Por um lado, porque a integração de investigadores ou docentes nos quadros, através de processos que não são da iniciativa das instituições, é mal vista pelas instituições. Os seus dirigentes preferiam que o Estado garantisse o financiamento para mais umas quantas posições de quadro e que as instituições pudessem escolher sem condicionamentos que concursos abrir para as preencher, de acordo com a sua visão e estratégia. Por outro, há receios de que o financiamento para essas novas contratações não seja devidamente acomodado nas transferências do Orçamento de Estado. Por outro ainda, há quem pense que uma grande vaga de admissões no curto prazo irá limitar severamente as contratações no futuro. Pode-se pensar ainda que é uma questão de poder, os precários uma vez integrados, passam a votar e a poder ser eleitos para órgãos das instituições. Apesar de todos os solavancos e receios, alguns legítimos, penso que é melhor ter-se dado um sinal de mudança do deixar tudo como dantes.

Endogamia académica

Com a devida vénia, transcrevemos o texto do ensaísta João Pedro George na última Sábado na sua sempre pertinente coluna "Coração, Cabeça e Estômago":

É um fenómeno bastante disseminado, que todos conhecem, mas que poucos admitem. Aquilo a que poderíamos chamar um segredo de polichinelo. A endogamia universitária — recrutamento de doutorados para cargos permanentes de docência pela mesma instituição que lhes atribuiu o diploma de doutoramento — não é um sintoma conjuntural. Trata-se, antes, de uma prática corrente. A preferência pelos candidatos locais em detrimento dos candidatos exteriores à instituição tem sido sistemática em Portugal e atinge, em alguns casos, níveis escandalosos. Eu próprio, se não tivesse saído da universidade para me dedicar em exclusivo à escrita (decisão das mais importantes de quantas tive de tomar, que mudou a minha vida, mas que não aconselho a ninguém que o faça), seria hoje um exemplo acabado desse tipo de endogamia.

 De acordo com um apuramento estatístico da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência sobre a endogamia académica nas instituições públicas de ensino superior, em 2015- -2016, há uma imensa maioria de docentes que ocupam posições de carreira nas universidades em que se doutoraram. Dentro deste cenário global, que aponta para uma situação de nepotismo estrutural, rara é a universidade que sai limpa e airosamente deste retrato: na Universidade de Coimbra, a instituição com taxas mais elevadas de endogamia, 80% dos seus professores de carreira concluíram o doutoramento na própria instituição, e nas Universidades dos Açores e de Lisboa esse valor atinge os 74%, seguidas de perto pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (73%) e pela Universidade do Porto (72%).

Embora este clima de imobilismo académico seja transversal a quase todos os cursos, há certas licenciaturas em Direito que excedem as mais funestas estimativas: praticamente 100% dos seus docentes de carreira fizeram o doutoramento na universidade onde trabalham, donde é legítimo inferir que o princípio da equidade entre candidaturas "internos" e "externos" nunca foi respeitado.

O panorama geral é igualmente monótono e deprimente quanto à presença de mulheres nos cargos de gestão universitária. Muito embora haja cada vez mais mulheres a seguir a carreira académica, como professoras ou como investigadoras, os homens continuam a preponderar no topo da hierarquia. Só para dar um exemplo, entre 1898 e 2011 não encontramos uma única mulher no quadro de reitores — 32 homens — que passaram pela Universidade de Coimbra, o mesmo ocorrendo na Universidade de Lisboa, onde a ausência de mulheres é total na lista de 30 reitores eleitos entre 1911 e 2013, e na Universidade do Porto, cuja reitoria foi dirigida, entre 1911 e 2018, apenas por homens. Estes e outros dados são analisados num novo livro da colecção de retratos da Fundação Francisco Manuel dos Santos, Cientistas Portugueses, do bioquímico David Marçal.

Há fundadas razões, segundo o autor, para considerar altamente prejudicial a existência de níveis tão elevados de endogamia ou paroquialismo, começando pela própria produtividade científica: quanto mais endogâmica é uma universidade, mais esmorece ou definha o ímpeto dos seus docentes para se dedicarem à investigação e à produção de conhecimento científico original. De facto, o rendimento académico dos docentes e investigadores endogâmicos tende a diminuir significativamente a médio prazo — menos artigos científicos, menos obra publicada, etc. —, enquanto os menos endogâmicos e com maior mobilidade académica tendem a ser mais produtivos e a participar em mais projectos internacionais de investigação. Além disso, a qualidade das suas aulas e das suas investigações costuma ser melhor e mais constante.

É fácil de perceber porquê: circular entre culturas científicas diferentes e possuir experiências de trabalho em instituições diversas expõem-nos a diferentes modos de pensar, alarga os horizontes intelectuais, evita ou minimiza o conformismo e a submissão à ortodoxia do discurso institucional, duas características que não promovem a criatividade científica, o espírito crítico e a liberdade de pensamento. Pelo contrário, o ambiente mental nas universidades que favorecem, por sistema, os candidatos internos, recorrendo tantas vezes a manigâncias de secretaria ou a concursos feitos à medida dos currículos das pessoas da casa, propende para o imobilismo, o isolamento e o sedentarismo. Comunidades mais fechadas sobre si, que integram um número elevado de indivíduos com propriedades comuns de formação, ou mesmo de condição social, são comunidades menos abertas ao exterior e menos preparadas para se integrarem em redes de investigação nacionais e internacionais.

O livro de David Marçal, que assinala uma degradação das condições do trabalho científico e que, por isso, deveria ser longamente meditado pelos decisores políticos, levanta vários problemas de fundo. Em primeiro lugar, demonstra que as operações de recrutamento académico são, antes de tudo, operações de selecção social, algo que os concursos oficiais escondem atrás da falsa aparência de neutralidade e objectividade dos seus requisitos de admissão. Em segundo lugar, esqueçam o ideal de uma ciência pura e autónoma, submetida inteiramente a lógicas de cientificidade (para aqueles que ainda duvidam da natureza social da ciência e de como os seus resultados são, demasiadas vezes, o produto de práticas influenciadas por forças sociais exteriores às regras científicas, recomendo a leitura deste livro). Em terceiro lugar, vem comprovar que a educação superior, mais do que uma força positiva de mudança social, desempenha, mais do que parece, um papel decisivo na reprodução e legitimação social de alguns grupos sociais.

Com efeito, as universidades mais endogâmicas servem fins tradicionais e não tanto racionais, respondem a formas anacrónicas de organização e funcionamento, mais do que a exigências de modernização e inovação. Na realidade, a endogamia académica não se traduz apenas na reprodução de pessoal académico com as mesmas referências, os mesmos horizontes e expectativas, os mesmos interesses ou as mesmas coordenadas mentais, indica também a reprodução de divisões antigas de classe, de género e de etnia (já agora, seria útil saber quantos professores universitários não brancos existem nas universidades portuguesas).

Se está provado que a diminuição da endogamia académica melhora a produtividade científica, não estaria na altura de o Governo proibir as universidades de recrutarem, durante quatro ou cinco anos, os candidatos que nelas obtiveram o doutoramento? Não seria de começar a incluir, nos júris dos concursos oficiais, cientistas estrangeiros ou mesmo elementos exteriores ao mundo universitário? Por higiene intelectual, mas também como medida da seriedade dos governos na luta contra o arranjismo, o compadrio e o nepotismo, as universidades não podem continuar a deter um poder absoluto na contratação dos seus docentes. Porque, no fim de contas, uma boa medida política pode ser tão ou mais importante do que uma verdade científica.

João Pedro George

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

"O GENOCÍDIO OCULTADO" - O LIVRO-ESCÂNDALO EM FRANÇA - E OUTROS LIVROS


Novidades da Gradiva em FEVEREIRO de 2019 . A

Tidiane N'Diaye
O Genocídio Ocultado

Sete séculos antes do horror do tráfico europeu, os Árabes caçaram europeus do Leste da Europa e depois na África, arrasando impérios inteiros. Aos sobreviventes castraram‑nos e nem os convertidos ao islão conseguiram  escapar completamente ao genocídio. Escravatura que só no século XX alguns  Estados do Médio Oriente aboliram oficialmente. E continua hoje em países da África muçulmana.
Porque continua a ser ocultada esta realidade da História?
SAIBA TODA A VERDADE IGNORADA.
O franco-senegalês Tidiane N’Diaye é um antropólogo e um economista de renome,  trabalha no INSEE (Instituto Nacional de Estatística e Estudos Económicos francês), é autor de livros, numerosos estudos e publicações científicas.

Veja a entrevista com o autor aqui - https://www.youtube.com/watch?v=jcIcd3T2BMw
MAIS INFORMAÇÃO SOBRE O LIVRO AQUI - https://www.gradiva.pt/catalogo/45994/o-genocidio-ocultado

Riad Sattouf
O Diário de Esther

350 000 exemplares vendidos em França.

A Gradiva apresenta o primeiro volume de O Diário de Esther, uma edição inspirada em pessoas reais: todos vão querer conhecer a criança de 10 anos cheia de imaginação que esta obra retrata. O que pensa sobre a escola, os amigos, a família e os ídolos? E o que não diz ela aos seus pais? Vale seguramente a pena saber: a mente de uma criança é cheia de surpresas! E nada melhor do que um diário para conhecer tudo.

Ao mesmo tempo que diverte, esta obra é um retrato sobre os jovens de hoje, espelhando a sociedade que temos.

Riad Sattouf, nasceu em Paris em 1978, é autor de banda desenhada e ainda cineasta. Passou a sua infância na Argélia, na Líbia e na Síria, onde recebeu uma educação muçulmana. Regressa a França com 12 anos de idade, prosseguindo os seus estudos primeiro em Cap Fréhel e mais tarde em Rennes, onde obtém formação em Belas-Artes. É actualmente um autor de BD de grande sucesso, tendo assinado, entre outras obras,  O Árabe do Futuro, Retour au collège, Pascal Brutal (Fauve d’or 2010) ou La vie secrète des jeunes, que publicou semanalmente em "tiras", entre 2004 e 2014, na revista Charlie Hebdo.  

Primeiro volume já disponível.

MAIS INFORMAÇÃO SOBRE O LIVRO AQUI -

Delphine de Vigan
Lealdades
Um romance com profunda sensibilidade que explora mundos distantes: a infância e a vida adulta, a autodestruição e a salvação abnegada, o sofrimento e a busca pela felicidade. As Lealdades, assente no equilíbrio de contrapontos, é um verdadeiro romance psicológico dos nossos tempos.

160000 exemplares vendidos em França.

Crítica no jornal The Guardian aqui - https://www.theguardian.com/books/2019/jan/09/loyalties-delphone-de-vigan-review

MAIS INFORMAÇÃO SOBRE O LIVRO AQUI - https://www.gradiva.pt/catalogo/45996/lealdades

Christian Clot e Jean‑Baptiste Hostache
Tenzing no tecto do mundo

1953, a epopeia da conquista do Evereste. Numa competição empolgante, contada por quem reviveu essa aventura.

Conheça como Tenzing  Norgay se tornou o primeiro homem a escalar o Evereste.

Christian Clot, explorador e autor de banda desenhada de quem a Gradiva já publicou o álbum dedicado a Fernão Magalhães, quis contar a história da escalada do Evereste do ponto de vista deTenzing, cujo papel e motivações são muitas vezes esquecidos. Ao contrário da maioria dos participantes na expedição, que apenas "descobrem" o Evereste, Tenzing nasceu perto da montanha. Ela fazia parte de seu mundo desde sempre e habitava os seus sonhos desde jovem. Estava intimamente ligada à sua vida mais do que a qualquer outra pessoa. O álbum é uma homenagem a um homem que teve a coragem de seguir o caminho dos seus sonhos e também à tenacidade dos que foram capazes de o dotar dos meios para o fazer.

Acompanhe Christian Clot até ao topo do mundo numa BD de grande rigor histórico-científico e com imagens deslumbrantes.

MAIS INFORMAÇÃO SOBRE O LIVRO AQUI - https://www.gradiva.pt/catalogo/45998/tenzing

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