domingo, 4 de novembro de 2018

"A escola pública, sendo pública e tratando do que é público, não é um espaço público"

Em mais um momento da educação em que

se quer confundir a vida da escola com a vida externa à escola, a vida social, familiar, pessoal, com o público, o privado e o íntimo,
- com base na lei, os "agentes sociais" (promovidos a "agentes educativos" e, pior, a profissionais de educação) se infiltram na escola e são solicitados a infiltrarem-se,
- se adapta o currículo às necessidades e exigências desses "agentes", nada resistindo à supremacia de tal critério,

vale a pena ler o artigo de que abaixo transcrevo uma parte, assinado por António Cruz, professor da Escola Vitorino Nemésio.

O título é "A escola, a transmissão e a barbárie" e foi publicado no n.º 6 da revista da escola, intitulada "Pensar a escola" com data de 2008 (pp. 41 e seguintes).

Inspirado em H. Arendt e S. Bauman, o autor, nota a confusão entre "espaço público e privado" e "escola pública"

Na verdade, a escola dizendo respeito ao que é criteriosamente seleccionado da esfera "pública" (nunca podendo integrar o que é da esfera "privado" e "íntima"), não é o espaço público, ou seja o espaço onde todos vivem o seu quotidiano.
"... é da escola pública que nos ocupamos (…) sendo pública, não é um espaço público na medida em que as atitudes que ocorrem neste não deverão ocorrer no espaço escolar. Zygmunt Bauman (2005, p. 67*) caracteriza o espaço público como um espaço de acesso livre, sem registo de entradas e saídas e anónimo. O espaço escolar é um espaço intermédio entre o espaço familiar e o espaço social global. 
O facto de a escola ser uma instituição faz dela uma forma de mediação entre o indivíduo e a sociedade global (não é nem um monumento, nem uma administração, nem uma organização, nem tão pouco o único lugar educativo). Digamos que a escola é o local da instrução e esta supõe tempo para ser assimilada (…). 
O aluno (…) deve elevar-se pelo que aprende e a escola não deve limitar-se apenas a dar uma resposta ao que lhe é socialmente solicitado, a sua oferta (cultural) deve ultrapassar generosamente o que lhe é pedido. A referência da escola não deverá ser o mundo como ele é, mas a ideia de um mundo melhor de acordo com os fins (…). Se a escola transmite um legado cultural, fá-lo em nome do presente e do futuro. Importa que a escola assuma a dimensão de futuro, de possível e de esperança, mesmo que isto se afigure impossível, porque foi contra impossíveis que a humanidade se foi construindo. As dificuldades com que a escola se debate na transmissão do legado cultural (…) relevam quase sempre não de si mesma, mas dos males da sociedade de tal modo que será decisivo (…) restaurar um mínimo de respeito pela escola concedendo-lhe alguma autonomia face à sociedade civil (…) 
[A] refundação da escola implica uma reforma das indústrias de programas (…) [o reconhecimento] da faculdade de conhecer e (…) a reconstituição da atenção como preocupação consigo e com os outros através do saber. A destruição da atenção pelas tecnologias audiovisuais resulta num desastre psicológico e social (fragilizando os laços familiares, provocando uma insegurança generalizada, liquidando a faculdade cognitiva substituída pela habilidade informacional). 
*Bauman, Z (2005). Confiança e medo na cidade. Lisboa: Relógio d´Água.

5 comentários:

  1. Ao fim e ao cabo, ociosidade dos discursos aparte, o que importa é a arte. A arte está para a evidência como "o campo" está para a verdade desportiva. Não me refiro apenas às "leges artis", refiro-me sobretudo às habilidades. Nem todos temos habilidades, por ex., para endrominar um júri. Nem todos temos habilidades para fazer o mortal à retaguarda ou voar numa bicicleta, ou grafitar o último animal extinto...Como eu gostava que me ensinassem essas artes! Trocava grande parte dos meus saberes e conhecimentos pela arte de dar cambalhotas sem apoio e sem parar...

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  2. Prezado Leito Anónimo
    Trata-se certamente de um lapso.
    Cordialmente,
    MHDamião

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  3. Cara Helena Damião,

    Li com muita atenção o excelente artigo de António Cruz, citado no seu texto de apresentação, do qual respiguei o excerto seguinte, na esperança de que os responsáveis diretos das Novas Aprendizagens da Escola Inclusiva nele reflitam seriamente sobre o mal que poderão estar a transmitir para as gerações futuras:
    “...concluímos com um excerto elucidativo de Luc Ferry traduzido por Maria José Vaz Pinto: “Não se cessa de dizer e de repetir que a missão principal, para não dizer última, do nosso ensino seria “formar cidadãos”. Seria preciso, ao que parece, ensinar com toda a urgência os nossos alunos a “viver juntos”, visando acima de tudo favorecer a sua autonomia, a sua liberdade de pensamento, o seu espírito crítico. Quem poderia, de resto, contestar o objetivo? Todos desejamos que as nossas crianças cheguem a pensar por si mesmas, adquiram tanto quanto possível certos princípios de civilidade que lhes permitam mais tarde viver em harmonia com os outros. Mas é esse o fim último do ensino? Penso evidentemente que não, que a preservação e a transmissão dos saberes são e devem permanecer primordiais… Dar a conhecer e amar as grandes obras, os grandes monumentos da vida do espírito, eis a finalidade primeira e primordial do ensino – e se se puder, de passagem e como por acréscimo, fazer de maneira que os nossos alunos se tornem cidadãos prudentes, tanto melhor. Não é de menosprezar, com efeito. Mas o objetivo, por louvável que seja, permanece de todo o modo secundário. O ensino não é educação, os professores não são pais, nem os alunos são seus filhos. Reduzir uns aos outros é tão falacioso como perigoso” (FERRY: 2007, pp. 157-9).”

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  4. Na verdade, caro Leitor Anónimo, o artigo em causa é uma grande clarividência, tal como outros que compõem a revista. Significa isto que temos nos sistema de ensino professores com uma excelente formação, que vai muito além da competência técnica. Nesse sentido é um texto/revista animador/a.
    Cordiais cumprimentos,
    MHDamião

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