domingo, 18 de novembro de 2018

PENSAMENTO E FILOSOFIA

Deixei passar o Dia Mundial da Filosofia e, ao ler agora o texto de Helena Damião, neste blogue, de 16 de Novembro, alusivo à efeméride, parece-me oportuno deixar aqui algumas reflexões em torno deste tema.

O pensamento, todos sabemos, é um produto imaterial do cérebro e o cérebro é matéria, é oxigénio, hidrogénio, carbono, azoto e umas pitadas de outros elementos químicos Não tem dimensão física.

Não tem volume nem massa, nem peso, nem cor, não é quente nem frio e não ocupa espaço. Para ele não há gravidade nem distâncias, nem fronteiras materiais. É ubiquista, podendo estar, ao mesmo tempo e a qualquer momento, aqui e nos quasares mais longínquos, nos confins do Universo, a milhares de milhões de anos-luz.

Não surgiu da noite para o dia, por obra e graça divina. É o culminar de uma evolução da matéria surgida com o começo do Universo, há cerca de 13 800 milhões de anos.

O cérebro, cuja estrutura vai sendo a pouco e pouco desvendada, adquiriu, na espécie humana, complexidade que lhe permite pensar, criar conhecimento. Feito dos mesmos átomos do universo que conhecemos, o cérebro humano, aceite como fruto dessa evolução, além de coordenar toda a actividade vegetativa do corpo em que está inserido, é matéria que atingiu o superior patamar do pensamento, criando e combinando ideias a partir das percepções que os sentidos lhe fornecem do mundo físico que o rodeia.

Através dele, o homem adquiriu capacidade de intervir no seu próprio curso e no da Natureza que o criou e lhe permite viver, seguindo por caminhos ditados pela sua imensa capacidade de decisão

Na sua possibilidade de obter conhecimento, de deduzir, inferir e de o transmitir, o cérebro humano, surgido à superfície da Terra, é a expressão mais complexa de uma dinâmica própria da evolução da matéria, na qual foi consumida a totalidade do tempo do Universo, os ditos cerca de 13 800 milhões de anos

Pelos testemunhos que deixaram, sabemos, sem sombra de dúvida, que os nossos antepassados pré-históricos exerceram actividade psíquica, ou seja, que pensaram. Se tivermos em atenção a evolução do ser humano, desde o mais antigo primata, até ao “Homo sapiens” actual, passando pelos australopitecos e pelos outros hominídeos que os estudiosos têm descoberto e descrito, as perguntas que se ocorre fazer são:
- Em que patamar evolutivo da hominização surge o pensamento mais elaborado do que o dos animais vulgarmente tidos por irracionais? 
- Foi no do “Neanderthal”, aparecido há umas centenas de milhares de anos, ou foi só no do “Cro-Magnon”, que se pensa ter exterminado aqueles, há uns trinta ou quarenta mil anos?
Cingindo-nos ao “Homo sapiens”, a Pré-história ensina que, ao longo da sua evolução física e psíquica, este nosso antepassado observou, experimentou e estabeleceu relações de causa-efeito, transmitindo aos descendentes o saber que foi acumulando, servindo-se para tal da linguagem de que dispunha, de início o gesto e, mais tarde e progressivamente, a fala. Fez tudo isto e muito mais antes dos sumérios terem iniciado a arte de escrever, há cerca de 5000 anos.

E foi só, a partir do momento em que passou a viver em grupos progressivamente mais alargados, que se deparou com questões associadas aos valores morais, estéticos, políticos e religiosos. Foi nesta caminhada que surgiram os primitivos filósofos, designação genérica pela qual são habitualmente referidos matemáticos, geógrafos, historiadores, astrónomos e outros pensadores desse tempo

Foi o confronto entre a realidade que se lhes deparou e as ideias que, a partir dessa realidade, foram formulando, que conduziu o pensamento no caminho de uma ciência embrionária que, nessa fase, se confunde com a filosofia, no sentido de interesse ou preocupação pelo saber. É nesta fase que a filosofia ganha o estatuto de “mãe de todas as ciências". Foi a admiração e, por vezes, a perplexidade decorrentes de tudo o que os sentidos traziam ao seu conhecimento, que desencadearam neles esta atitude mental que está na base do maravilhoso edifício do conhecimento científico e tecnológico que temos ao nosso alcance.

Alistoriadores, classificados por alguns como “orientalistas”, defendem que a filosofia grega teria sido herança e posterior desenvolvimento de uma sabedoria vinda de povos orientais. Tem havido controvérsias sobre a origem desta forma de organização do pensamento, se na Grécia, se em civilizações orientais mais antigas, na Pérsia, na Índia, na China...

Actualmente parece haver unanimidade em considerar a Grécia como o berço da filosofia, o que parece ser confirmado por estudos recentes, com ênfase nos arqueológicos.

Terá sido, então, que foi entre os gregos que começou a audácia e a grande aventura do pensamento. Terá sido no decurso do século VII a. C., com o desenvolvimento e progresso nos trabalhos diários, que alguns gregos começaram a esboçar explicações racionais que foram conduzindo à progressiva rejeição das explicações míticas da realidade.

É hoje consensual que a filosofia, como superior elaboração do pensamento, nasceu da recusa ao carácter sobrenatural dos mitos, que então dominavam as crenças, não só da sociedade grega, mas de toda a Ásia Menor.

A passagem de uma mentalidade fundamentada em crenças de carácter religioso, a uma outra, assente no raciocínio, marca, pois, o início da filosofia.

A filosofia surge, assim, como uma espécie de rompimento com a visão mítica do mundo grego. Enquanto que os mitos não dispunham de qualquer suporte racional, a filosofia inaugurava o discurso abstrato e universal, amparado na reflexão e argumentação, formulando concepções do mundo isentas de contradições e imperfeições no que respeita o raciocínio lógico.

Ao contrário da religião, baseada na fé, que não contesta, respeita e, praticamente, não se afasta da tradição e dos textos sagrados, a filosofia serve-se exclusivamente da razão para aceitar ou rejeitar as teses que se lhe deparam.
A. Galopim de Carvalho

sábado, 17 de novembro de 2018

ALERTA DE DERROCADA NAS PEGADAS DE DINOSSÁURIOS DA PRAIA GRANDE (COLARES, SINTRA)

Estive ontem, com um grupo de alunos e respectivos professores, junto das pegadas de dinossáurios da Praia Grande (Colares, Sintra).

E estive, como se costuma dizer, «com o coração ao pé da boca», desejoso de tirar dali, especialmente as crianças. Uma parte da camada de calcário (sobrejacente à que contém as pegadas), com perto de uma dezena de toneladas, ESTÁ PRESTES A RUIR.

O projecto de reutilização da escada que liga a Praia à estrada de Almoçageme e dá acesso às pegadas (diga-se que muito bem protegida por um sólido corrimão), concebeu, e bem, um
pequeno patamar, frente a um dos trilhos, com capacidade para uma dúzia de adultos. Pois é, precisamente, sobre as cabeças de quem ali estiver que irá cair, SUSPEITO QUE A QUALQUER MOMENTO, a dita porção de rocha.

Já há mais de uma quinzena de anos, consciente da vulnerabilidade, face às intempéries, das camadas de calcário, ali empinadas quase à vertical, junto à dita escada, solicitei o parecer de um técnico do Laboratório Nacional de Engenharia Civil que, não só confirmou os meus receios, como indicou o tipo de intervenção a fazer, designadamente, a impermeabilização e consolidação do topo das camadas.

Desde então as correspondentes autoridades têm conhecimento (mas nada fizeram) desta dramática situação e do risco que isso representa como perda, para todo o sempre, de um testemunho valioso e raro do nosso passado mais antigo. Esta vulnerabilidade do grande afloramento rochoso representa, ainda, um risco latente para os utilizadores desta escada e dos que, cá em baixo, frequentam a praia.


De então para cá, a jazida com pegadas de dinossáurios da Praia Grande já ruiu e bem, uma vez, felizmente sem causar danos pessoais. Esta derrocada levou-lhe a parte superior da camada, atulhando e atravancando a dita escada, no troço que lhe fica na base, privando os utentes habituais de usar aquele útil percurso.

Recentemente aberta e beneficiada pelo referido corrimão, convida a visitar as pegadas.

Nada se fez, porém, quanto à consolidação da jazida e das camadas de rocha associadas, para além da informação do perigo latente, em dois painéis afixados no topo da escada.

A. Galopim de Carvalho

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Nos dias mundiais da Filosofia e da Tolerância: "perceber o que cada cultura tem de universal"

 

A UNESCO instituiu, em 1995, o Dia Internacional da Tolerância e, em 2005, o Dia Internacional da Filosofia. A celebração calha em meados do mês de Novembro. Neste ano calhou no dia de ontem e de hoje. A Diretora-Geral desta organização, Audrey Azoulay, escreveu dois breves mas fortes textos que convergem na necessidade e na urgência de pensar: de pensarmos, de levarmos a pensar.

Não posso deixar de sublinhar que pensar de um certo modo (substancial, profundo e alargado, com base em conhecimento e tendo sempre por horizonte os valores éticos, que são universais) se aprende, em grande medida, na escola. Trata-se de uma aprendizagem que, muitas vezes, tem de incluir o "posicionar-se contra": contra o instituído, contra o senso-comum, contra o dogma, contra a passividade, contra os interesses particulares, contra a mentira...

Daí a imprescindibilidade do ensino, do trabalho dos professores, com destaque aqui para os de Filosofia. Trabalho tão fundamental quanto duro neste presente que os desvia (e alguns, não parecendo perceber a sua importância, se desviam) do essencial, da relação com os alunos.

Nesta perspectiva, destaco, desses textos, as seguintes passagens:

Texto para assinalar o Dia Mundial da Tolerância (aqui):
Nas últimas décadas, a globalização conheceu uma aceleração desenfreada. Este fenómeno parece estar caracterizado por uma forte ambivalência: por um lado, a globalização aproxima os Estados e os cidadãos, permite uma cooperação profícua em numerosos domínios; por outro lado, gera desequilíbrios, suscita medos e cria novas tensões. 
Os populismos, os discursos de incitação ao ódio e à exclusão prosperam com base na ansiedade provocada pelas desigualdades socioeconómicas, as migrações forçadas de populações, as recomposições sociais, o desafio ecológico. 
Este [dia] é uma ocasião para relembrar que a diversidade cultural é consubstancial às sociedades humanas, que é uma força, um motor de desenvolvimento, uma riqueza da qual todos nós podemos retirar um benefício desde (...) que percebamos o que cada cultura tem de universal e que adotemos uma atitude de tolerância perante o que nos parece, à primeira vista, estranho e diferente. 
A tolerância não deve ser entendida como a mera disposição para tolerar o outro, mas como a aptidão para o respeitar e apreciar, compreender o valor profundo da sua cultura e reconhecer a igualdade de direitos de que gozam todas as pessoas enquanto ser humano. A tolerância, que é simultaneamente virtude moral e princípio político, é um sólido baluarte contra o racismo e contra todas as discriminações. É um vetor de paz, que devemos cultivar e reforçar.
Texto para assinalar o Dia Mundial da Filosofia (aqui)
A filosofia ajuda-nos a superar a tirania do instante e a analisar os desafios que se nos colocam com o necessário distanciamento histórico e rigor intelectual. 
A filosofia também nos ajuda a refletir, precisamente, sobre as normas que sustentam a nossa vida coletiva: ao levantar questões de justiça, de paz, de ética, de moral. 
Estas questões são particularmente relevantes na sociedade atual, onde os progressos alcançados no domínio da inteligência artificial parecem redefinir as fronteiras do humano. 
Por fim, a filosofia implica uma abordagem e uma atitude específicas: a abertura ao diálogo e ao intercâmbio de argumentos, a predisposição para acolher o que parece estranho e diferente, a coragem intelectual de questionar os estereótipos e de desconstruir os dogmatismos.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Carlos Fiolhais: Intervenção na Gulbenkian sobre o P. Manuel Antunes e a ciência

"As primeiras representações da Ciência no Teatro : um percurso de aldrabões" por Mário Montenegro

“A MATEMÁTICA É UM SUPERPODER”




Na próxima 4ª feira, dia 21 de Novembro de 2018, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra A MATEMÁTICA É UM SUPERPODER”, por Inês Guimarães, estudante de matemática Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, youtuber muito popular, criadora do canal MathGurl”.

No final da palestra, os interessados poderão adquirir o livro "Desafios Matemáticos que te vão Enlouquecer" e obter um autógrafo da Inês Guimarães.

Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis - Terceira temporada"*.

Sinopse da palestra:
Há uma verdade profunda que escapa à maior parte de nós — a matemática não é apenas uma disciplina maquiavélica que somos obrigados a ter na escola, mas sim uma linguagem poderosíssima para descrever ideias. Misteriosamente presente em tudo o que nos rodeia, ela permite-nos dar asas à imaginação e pensar de forma criativa e abstrata sobre uma montanha de coisas, conduzindo-nos a conclusões sublimes e desvendando as relações escondidas entre os elementos do universo. Numa mistura de magia, fantasia e realidade, veremos que saber matemática é, afinal, um superpoder.

*Este ciclo de palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico, escritor e Divulgador de Ciência.

ENTRADA LIVRE

Público-Alvo: Público em geral
Link para o evento no Facebook

O incrível Hulk

Em homenagem ao criativo da Marvel Stan Lee, autor do Homem Aranha, de Hulk e de vários outros personagens de comics, cujo falecimento foi ontem anunciado, publico o texto sobre Hulk que saiu no livro "Darwin aos Tiros" (Gradiva) que escrevi com David Marçal em 2011:

"Não, o verdadeiro Hulk não é um destacado jogador do Futebol Clube do Porto. Hulk é uma versão moderna de Frankenstein , a mítica personagem do Romantismo saída da pena de Mary Shelley (1797- 1851), em 1818, que passou ao cinema pouco depois de essa arte e tecnologia ter surgido no mundo. Frankenstein e Hulk podem ser vistos como a encarnação do medo sentido pelo homem que ousa desafiar a Natureza empreendendo experiências inusitadas. O século XIX, de algum modo em reacção ao século das Luzes, imaginou histórias fantásticas, como essa da criatura que, inopinadamente, foge ao controlo do seu criador. Criou monstros onde antes existia a razão. O p pintor espanhol Francisco Goya bem o previu, ao inscrever numa sua gravura de 1 79 9 : « O sono da razão gera monstros . »

Hulk, ou, melhor, Bruce Banner, o seu verdadeiro nome, é mesmo incrível. Trata-se de um físico nuclear experimental . Numa experiência secreta de teste de uma arma por ele criada, Banner foi submetido a uma forte radiação gama que lhe permitiu metamorfosear-se em Hulk, monstro de forma humana, mas de cor verde, que e m certas ocasiões consegue aterrorizar tudo e todos. Bruce é uma pessoa inteligente e sensível, mas, quando se irrita, fica um débil mental, de corpo enorme ( figura 9 ) . Não é inteiramente mau, mas, se provocado, arrasa toda a gente que lhe surja pela frente. Muito pior do que o avançado Hulk faz às defesas adversárias . . .

 O filme do francês Louis Leterrier O Incrível Hulk estreou em 2008, três anos depois de ter estreado entre nós um outro filme sobre o mesmo super-herói, Hulk, realizado pelo chinês Ang Lee. Hulk, apesar de novo nos cinemas, já não era propriamente j ovem: tinha nascido em 1962, nos livros de banda desenhada da Marvel, onde aliás continua, e passado pelos ecrãs da televisão antes de chegar ao grande ecrã. Já nessa altura Hulk tinha de enfrentar um poderoso general norte-americano que, para aumentar a intensidade dramática, é pai de uma bela rapariga apaixonada por Bruce. No novo filme, o general comanda um ambicioso capitão, de origem russa (claramente um resquício da Guerra Fria nos anos 60), que também acaba por se transformar num monstro, pois era preciso um vilão à a ltura para combater Hulk num grandioso duelo final . Mas nem a vida é bem como nos filmes, nem a ciência é tão má como nas fitas de terror. A ciência desses filmes, apesar de irreal, não deixa de cumprir uma função. Hulk, ao actualizar Frankenstein na era do nuclear, alerta-nos para a necessidade de manter a razão acordada. O escritor e médico francês François Rabelais (1494- 1553) tinha dito que ciência sem consciência é a « ruína da alma » . Ciência com consciência é ciência que não se deixa adormecer. É alma que não se deixa arruinar."

Meu prefácio ao novo livro de António Piedade "Íris científica 5"




Diz o povo que não há duas sem três, mas António Piedade diz que não há três sem quatro e que não há quatro sem cinco.  Este é o quinto volume da série Íris Científica, que são colectâneas de crónicas sobre ciência escritas por aquele autor para órgãos da imprensa regional, principalmente o Diário de Coimbra, onde mantém uma colaboração regular há vários anos.  O primeiro volume saiu em 20o5, na editora Mar da Palavra.  Ainda me lembro de ter estado no Museu Nacional da Ciência e da Técnica Doutor Mário Silva nesse ano, que ficou assinalado como o Ano Internacional da Física para se celebrarem os cem anos dos principais trabalhos de Albert Einstein. O segundo, após uma pausa, saiu em 2014, em edição de autor. O terceiro em 2016 e o quarto em 2017, os dois também em edição de autor, o que torna os livros raridades bibliográficas. O título permanece o mesmo, porque se trata de abrir os olhos a realizações da ciência. O título significa que entra luz. Íris é a parte colorida do olho, cuja função é controlar a quantidade luz que entra no olho. Essa  função é comprida abrindo e fechando o orifício central da íris chamado pupila. A íris está para a pupila, como, numa máquina fotográfica, o diafragma está para a abertura. A minha íris deixa, neste momento, entrar a luz que vem das capas dos primeiros quatro Íris científicas, que estão sobre a minha secretária, todas elas variando na cor, mas sempre mostrando imagens científicas.

Desde 2011 que o António Piedade, bioquímico de formação, tem dinamizado o projecto “Ciência na Imprensa Regional”, apoiado pela Agência Ciência Viva para a promoção da cultura científica e tecnológica (http://imprensaregional.cienciaviva.pt/), uma ideia muito original que consiste em oferecer aos jornais regionais e, portanto, ao público generalista espalhado por todo o território nacional, e também na emigração, oportunos artigos de divulgação da ciência, escritos por cientistas ou por comunicadores de ciência.  Não, a Internet não acabou com os jornais em papel que são de norte a sul no Portugal Continental, e também nas ilhas e na Diáspora, vozes de comunidades locais. Essa imprensa tem mostrado uma notável capacidade de sobrevivência, que se deve em larga medida à sua grande proximidade às populações. Por exemplo, O Açoriano Oriental, publicado em Ponta Delgada, Açores, e incluído no catálogo do referido projecto, tem saído pontualmente desde 1835, sendo por isso o mais antigo jornal português com publicação contínua e um dos mais antigos do mundo. Os textos sobre ciência do António e de outros autores portugueses, entre os quais me incluo com muito gosto, têm saído em jornais regionais de todo o país. Isso significa que a ciência está próxima das pessoas, onde quer que elas se encontrem.  Dou os meus parabéns ao autor por porfiar ao fim de sete anos nessa admirável tarefa de disseminar a ciência em jornais de pequena circulação, mas de grande impacto afectivo, como o Correio do Minho, O Campeão das Províncias e a Voz do Algarve, entre muitos outros. Já merece o prémio “Ciência nos Media.”

Este quinto volume continua os anteriores porque a ciência continua viva, tal como a necessidade de comunicar ciência. Temos ciência, mas precisamos de mais ciência. Continuam, portanto, as saborosas crónicas curtas do autor sobre variados temas científicos, aproveitando uma efeméride ou uma novidade, as quais, desde o terceiro volume, aparecem nos livros arrumadas em dois grandes capítulos: “Além no espaço” e “Aqui na Terra”. A Astronomia é um dos temas predilectos do António, de acordo aliás ao interesse do público. O espaço longínquo e longevo é um grande mistério a cujo conhecimento todos nós aspiramos. Por exemplo, neste volume o autor trata os recentemente descobertos exoplanetas, que são planetas como os que existem no sistema solar, mas situados bem mais longe de nós (andamos à procura de novas Terras, onde eventualmente possa haver vida), e o maior telescópio de luz visível que temos hoje à disposição na Terra, que se situa em altas montanhas do Chile e, pelo seu tamanho, é justamente chamado Very Large Telescope.  Por outro lado, em “Aqui na Terra” o António fala-nos das causas dos terramotos, como aqueles que causam devastadores tsunamis, e desvenda-nos alguns dos impressionantes progressos da genómica, como aqueles que são trazidos pela sequenciação completa dos genomas do trigo, do sobreiro e dos seres humanos.  A moderna bioquímica revelou-nos que o código genético permite uma descrição unificada de todas as plantas e animais, estando nós incluídos  neste segundo grupo: por fazermos parte da gigantesca “árvore da vida”, somos ao fim e ao cabo parentes do trigo e do sobreiro. O autor fala também de avanços na medicina e farmácia, como o diagnóstico e tratamento do cancro ou o uso de novos antibióticos para debelar doenças, por saber que os humanos têm uma natural preocupação com a sua saúde. Qualquer que seja o tópico, o António procura destacar a ciência portuguesa, isto é, a ciência feita por portugueses, reflectindo o facto de hoje termos excelente ciência em Portugal numa variedade de domínios.

Realço o uso adequado da língua portuguesa. António Piedade escreve bem. Não só constrói e encadeia as frases com a nítida preocupação da legibilidade como, mais do que isso, nota-se aqui e ali o que poderei chamar “leveza poética”. Na senda de Galileu, cuja prosa subia alto quando se tratava de descrever a Lua que ele via com o seu telescópio, também aqui a prosa parece levitar quando a íris do autor se foca em temas, sejam do espaço ou da Terra, que nos fazem subir acima das comezinhas questões do dia-a-dia. A ciência eleva-nos e a linguagem pode e deve ajudar nesse processo!

Por último deixo uma nota que tem uma marca pessoal, por eu ter um particular carinho por livros de divulgação de ciência, como aqueles que hoje enchem as estantes do RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra (alguns deles vindos do extinto Museu Nacional da Ciência e da Técnica). Algumas das crónicas deste volume debruçam-se sobre livros desse tipo, designadamente sobre obras desses gigantes contemporâneos da escrita a cujos ombros nós, leitores, subimos que são Hubert Reeves, Carl Sagan e Stephen Hawking. Como na imprensa portuguesa, seja ela nacional ou regional, quase não se encontram críticas de livros de ciência vejo com gosto aqui arquivados, sob a forma que espero perene do papel, algumas recensões de livros dessa índole, em particular da colecção “Ciência Aberta”, da Gradiva, que tenho actualmente orgulho em dirigir. A minha vocação para a ciência despertou por via da leitura de livros de ciência e espero não constituir caso isolado. Os livros de ciência alimentam a nossa curiosidade.

Apesar de muitas destes escritos terem saído em jornais entretanto deitados fora, ou estarem reproduzidos algures nessa imensa Babel que é a Internet (nomeadamente no blogue De Rerum Natura, para o qual o António e eu contribuímos), o leitor deve dar-se por feliz por os ter ao alcance da sua íris, sob a forma tão ergonómica de livro. Assim como serão felizes os vindouros cujas íris os encontrem. Um livro é uma  máquina do tempo: chegará garantidamente às próximas gerações, permitindo-lhes saber quem as precedeu. Boas leituras, qualquer que seja o tempo em que forem feitas!


Nota: encomendas de livros autografados pelo autor podem ser solicitadas pelo email apiedade@ci.uc.pt

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Médico e ativista alerta para pseudociência que se faz passar por ciência




Despacho da Lusa saído no DN sobre a inter
venção de Ben Goldacre em Viseu no quadro do Mês da Educação e Ciência da Fundação Francisco Manuel dos Santos:

O médico e ativista britânico Ben Goldacre, alertou hoje para a existência de muitos artigos e publicações pseudocientíficos que se fazem passar por ciência para terem credibilidade.

 Lusa 06 Novembro 2018 —

Ao falar em Viseu, na conferência "Ciência ou pseudociência?", Ben Goldacre considerou que se vive uma fase de transição: antes eram os jornalistas e os editores que divulgavam informações incorretas, agora há "um mundo caótico, com o bom e o mau", devido à Internet.

 Questionado pelo professor catedrático Carlos Fiolhais sobre como saber em que informações se deve confiar, Ben Goldacre respondeu que "não há uma solução", fazendo uma comparação com uma conversa entre duas pessoas, em que uma está a tentar perceber se o que a outra diz é verdade.

 Durante a conferência, o epidemiologista mostrou vários artigos publicados em jornais, como um do Daily Mail com uma listagem de "coisas que podem causar cancro", na qual estavam o divórcio, o wi-fi e o café. Este último voltava a aparecer na lista de "coisas que podem evitar o cancro".

 O académico e autor premiado gracejou que pode haver interesses por detrás destes estudos e deu mais um exemplo com os títulos: "o trabalho doméstico previne o cancro nas mulheres" e "ir às compras pode tornar os homens impotentes". Segundo o investigador da Universidade de Oxford, em ciência não interessam os títulos académicos que as pessoas têm ou dizem que têm, mas sim as provas. A esse propósito, deu o exemplo de uma mulher que dizia ser médica e que dava conselhos de saúde na televisão, quando afinal tinha um curso por correspondência e um certificado da Associação Americana dos Consultores Nutricionais. Ben Goldacre conseguiu este mesmo certificado para a sua gata, tendo para isso apenas de preencher um formulário pela Internet e pagar. "Ela diz coisas como: 'as folhas verdes têm muita clorofila e vão oxigenar-nos o sangue'", contou, questionando como será isso possível, se a clorofila apenas faz oxigénio com a luz do sol e dentro dos intestinos está muito escuro.

 Ben Goldacre mostrou ainda exemplos de gráficos que induzem as pessoas a tirar conclusões erradas e também como é possível adulterar os dados dos estudos, mesmo antes de serem recolhidos. "Há ensaios muito maus, que são encomendados", frisou, acrescentando que há também muitos estudos que nem chegam a ser divulgados, porque os seus resultados não corresponderam ao que era esperado.

 A conferência "Ciência e pseudociência" está integrada no mês da Educação e da Ciência da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

A destituição do ser humano da sua humanidade

Estou perfeitamente consciente de que me encontro entre os muitíssimos milhões de pessoas que desconhecem em grande medida o rumo que o mundo está a tomar. Não porque o mundo tenha vontade própria, mas porque há quem decida esse rumo e o apresente, na altura certa, como pronto e inevitável; não porque recuse informar-me mas porque a mudança é demasiado rápida para ser possível acompanhá-la.

Nesse rumo marca presença de destaque a tecnologia. Noto que, sendo ela a face visível das inquietações que legitimamente desencadeia, não é a sua origem. O que, de facto, deve inquietar é a nova maneira de a encarar: ela passou a valer por si, tudo justificando.

A questão não é, pois, a sua invenção e o seu uso (na verdade, obra da humanidade) mas o distanciamento crescente que provoca face ao sentido do humano (de tal modo que este se afigura muito difícil de recuperar). 

É de defender, de facto, a tecnologia que concorre para o que eticamente está certo - por exemplo, salvar vidas ou melhorá-las, proporcionar o acesso à cultura -, mas como aceitar a que é usada contra este desígnio? A que é usada para substituir pessoas em tarefas que requerem inteligência? A que é usada para as vigiar e controlar, atentando contra a sua liberdade e dignidade? 

Como é possível que pessoas dêem forma humana a máquinas? Como é possível que "humanizem" máquinas? Como é possível que pretiram outras pessoas em favor de máquinasComo é possível que subjuguem outras pessoas a máquinas?

Nunca antes na nossa história tivemos tanta gente escolarizada no mundo e a chegar tão longe, a níveis superiores. Mas, certamente, o essencial foi esquecido, desvirtuado.

E o que é, afinal, o essencial? É "tornar éticos ou morais os educandos, inculcar-lhes valores éticos, torná-los pessoas morais" (Barros de Oliveira,1997, p. 53). Acontece que essa tarefa requer "uma permanente conquista pois "na sua ausência o ser regressa à barbárie e à animalidade" (Antunes, 1973, p. 33). 

Chegámos a um momento em que, muito seriamente, devíamos parar para pensar. Mas isso não vai, por certo, acontecer e, portanto, a vertigem de destituição do ser humano da sua humanidade prossegue, como se percebe no exemplo abaixo, anunciado ao mundo depois de estar pronto e a funcionar em pleno. 
"... agência de notícias do governo chinês, anunciou que fará uso de pivots para ler as notícias em vídeo, aproximando-nos um pouco mais do eventual futuro distópico que tanto receamos em que os robots tomam controlo do mundo. Como pode ver pelo vídeo, a IA em questão toma como base imagem de um pivot real, editando apenas a zona da boca de forma a que esteja sincronizada com as notícias que são lidas com uma voz sintetizada. Haverá dois pivôs de IA (um para inglês e outro para chinês) e “trabalharão 24 horas no site oficial e em várias redes sociais, reduzindo os custos de produção de notícias e melhorando a eficiência”. Tendo em conta a forma como o governo chinês tem integrado tecnologia nas cidades – de modo a melhorar os níveis de vigilância governamental, recorrendo até a reconhecimento facial) – e pretende implementar nos próximos anos crédito social que pode acentuar disparidades sociais, é natural que estes pivôs artificiais estejam a ser vistos com algum receio" (Miguel Patinhas Dias, 8 de Novembro de 2018).
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Notícias aqui, aqui, aqui e aqui
Referências bibliográficas:
- Antunes, M. (1973). Educação e sociedade. Lisboa: Sampedro.
- Oliveira, J.H.B. (1997). Filosofia e Psicanálise Educação. Coimbra: Livraria Almedina.

Michael Moore's "Fahrenheit 11/9" Extended Trailer

TRAILER | Ex Libris: The New York Public Library by Frederick Wiseman

Minha entrevista ao JL sobre o Mês da Educação e Ciência da Fundação Francisco Manuel dos Santos

Entrevista feita por Manuel Halpern no Jornal de Letras /Educação ):

 Novembro é o mês da Educação e da Ciência, da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS). Uma iniciativa que leva oito conferências (quatro de Educação e quatro de Ciência), seguidas de debates, a palcos do norte a sul do país, incluindo a Região Autónoma da Madeira. Juntam-se especialistas portugueses e estrangeiros, de diversas áreas, para aprofundar e debater ideias sobre assuntos tão atuais quanto as novas tecnologias ou a necessidade de distinguir ciência de pseudociência. O JL falou com o primeiro responsável pela organização deste ciclo, Carlos Fiolhais - 62 anos, físico, prof. catedrático da Universidade de Coimbra, de cuja Biblioteca Geral foi diretor e onde dirige o Centro de Física Computacional e o "Rómulo", Centro de Ciência Viva, com uma vasta e premiada obra como cientista e, sobretudo, divulgador de Ciência, com mais de 4o livros publicados.

 JL: Quais são os principais objetivos deste mês da Educação e da Ciência da FFMS? 

Carlos Fiolhais: Desde 2010 que a Fundação promove o mês da Educação. E desde há cinco, seis anos que há o mês da Ciência. A novidade este ano é que juntámos os dois. Pelo que, a primeira mensagem é que as duas coisas andam juntas.

 Porque resolveram juntá-las? 

Primeiro porque a Educação transmite Ciência, não só o corpo de conhecimentos, mas também o método para adquiri los. Por outro lado, a Ciência exige Educação, ninguém pode chegar a conhecimentos novos sem ter recebido os conhecimentos existentes. A educação é um fenómeno social, um meio que a sociedade inventou para preparar pessoas para a vida. assim sendo, pode também ser estudada pelas ciências. Por exemplo, as Neurociências avançaram tão extraordinariamente que é altura da Ciência da aprendizagem poder dizer alguma coisa sobre o melhor modo como se aprende e ensina. Queremos reforçar esta ligação. Por isso temos quatro conferências de Educação e quatro de Ciência, mas com ligações óbvias entre as áreas.

Aliás, o ciclo já começou. De que se tem falado? 

Na Educação, falámos de o que é a inovação e a criatividade nas escolas. Sobre a relação entre a inovação e conhecimento. Tivemos uma educadora britânica, a Daisy Christodoulou, que nos disse que não se pode transmitir a atividade em abstracto, esta deve ser sempre baseada em conhecimentos concretos. Em diálogo com ela, tivemos o professor Rui Lima, que defende que o ensino do primeiro ciclo se deve basear mais em projetos.

O público essencial são professores? 

Sim, temos já essa tradição de chegar aos professores, ao vivo, ou online. Nesta última conferência houve muitos . Mas os pais e as famílias e os políticos e gestores de Educação são também o nosso alvo. E queremos chegar aos próprios intervenientes, os jovens. A conversa de ontem, no Teatro Viriato, já foi com estudantes do ensino secundário. O tema foi Ciência e Pseudociência, a diferença entre verdade e mentira. Temos um mundo inundado dos chamados factos alternativos. E há um médico britânico, Ben Goldacre, colunista do The Guardian, que nos vem falar daqueles que querem fazer passar por ciência o que realmente não é. Ele tem um livro chamado Ciência da Treta G G Quando o poder se casa com a ignorância é explosivo. E pode explodir-nos na cara. Nós queremos evitá-lo. Só há uma alternativa: mais educação e mais ciência e outra Farmacêuticas da Treta, onde demonstra que há meio mundo a querer enganar a outra metade.

 E mais à frente? O que a ainda se pode assistir? 

No final do mês, vamos ter um sobre Neurociência, pelo neurolinguística José Morais e e pela prof.a Joana Rato, onde vamos tentar compreender como é que se aprende e ensina melhor. Haverá meios preferenciais para aprender melhor? O que será que as ciências do cérebro nos podem dizer sobre isso? Esse vai ser o debate que vamos ter em Coimbra. Depois, o programa de Educação termina no final de novembro, na Business School de Carcavelos, com um professor da Universidade de Virginia, de cerca de 90 anos, Eric Hirsch, a falar sobre a escola, conhecimento e sociedade digital. A questão é saber, neste mundo em que a informação circula à velocidade da luz, como é que a escola vai fazer para transformar essa informação em conhecimento. Ou seja, informação há muita, mas temos de usar a que aparece no Google de forma criteriosa. O algoritmo funciona por popularidade, mas a popularidade não é critério de verdade. Há ainda uma outra conferência, no Liceu Camões, sobre o currículo da matemática, um professor de Michigan, William Schmidt. Ele vem falar de um problema: como e o que deve ser ensinado na matemática? Será um debate entre duas correntes.

E na ciência? 

Peter Atkins, professor de físico- -química e escritor best-seller, vai debruçar-se sobre a inquietações metafísicas da criação. Será que com o conhecimento que temos de ciência podemos dizer coisas sobre o início do mundo? Sobre a passagem do nada para o ser? Como aparece a natureza e as suas leis?

Outra conferência será em Aveiro, com cientistas da rede GPS - Global Portuguese Scientists, formada pela FFMS. Pedimos a três cientistas portugueses que estão lá fora, para falar-nos sobre os humanos do futuro. Nos laboratórios estão a desenhar-se soluções que vão aparecer na nossa vida corrente. Soluções, por exemplo, para enfrentar doenças. Dou um exemplo: a inteligência artificial no tratamento de dados, para nos permitir tirar conclusões nos meios diagnósticos e de tratamento. Vêm apresentar- -nos questões de medicina, o que se está a fazer na fronteira do conhecimento, e que poderemos beneficiar no futuro.

E também vão à Madeira, numa conferência que está diretamente ligada com o próprio arquipélago. De que se trata? 

As ilhas são sítios muito particulares para o estudo da Biologia e sobretudo da teoria da evolução. Quando se introduzem novas espécies, tornam-se em laboratórios vivos. Apesar de nunca ter estado lá, Darwin fala várias da ilha, a propósitos dos relatos de naturalistas que fizeram um levantamento sobre fauna e flora. Assim, vamos ter dois cientistas portugueses a falar sobre Darwin e a Madeira.

Quais são as expectativas de repercussão das conferências? 

Já temos alguma experiência da realização deste tipo de conferência. Conseguimos atingir um grande número de pessoas direta ou indiretamente. Estas são iniciativas ligadas à Educação e à Ciência que vêm da sociedade civil. Por isso queremos trazer novas ideias, novas pessoas, usamos os dados da Pordata e levar isso ao maior número possível de pessoas, para que tenham opiniões mais informadas. Dou um exemplo claro das carência da sociedade portuguesa. Vivemos na sociedade do conhecimento mas sem conhecimentos suficientes. Olhamos para a Pordata e verificamos que um dos índice mais dramáticos é o da população ativa sem ensino secundário ou superior. Em Portugal 52% não tem escolaridade suficiente. Na Europa, a média é de 22.%. É uma catástrofe. Sem chegar ao conhecimento não podemos chegar à riqueza. O drama é esse, não a falta de petróleo. O petróleo é a capacidade dos nossos cérebros tirarem conclusões através do informação que existe. Aqui estamos em penúltimo lugar no ranking europeu. Na Lituânia só 5% das pessoas não tem o ensino secundário ou superior.

 Em Portugal houve uma grande evolução no período democrático, mas o que falta para chegar a esses patamares? 

Quer na Educação quer na Ciência houve uma grande evolução desde 1974. E em 1986 houve ajudas grandes vindas da União Europeia, canalizadas para essas áreas. O que faz falta é continuar no mesmo caminho. Aqui não há uma revolução com um clique. Nem é comprando equipamentos para carregar no botão e haver milagres. Há renovações geracionais a fazer. Isto não se resolve de forma automática. Pode haver formação de adultos, mas isso não se faz de maneira universal. Tem de haver melhor escola e mais escola para mais gente. É verdade que diminuímos o abandono escolar, mas ainda assim estamos atrás da média europeia. Aumentámos o número de pessoas licenciadas, mas mesmo assim, no intervalo entre 30 e 34 anos, estamos atrás da média europeia. É preciso continuar pelo mesmo caminho, não podemos abandonar a corrida. Isto não se faz por iluminação de nenhum governo, mas tendo a consciência social da existência do problema. É uma ilusão acharmos que temos doutores a mais. Pessoas com melhor formação, em princípio, poderão fazer melhores escolhas, a todos os níveis. Quem não tem educação corre o risco de ter outros a  escolher o seu destino.

domingo, 11 de novembro de 2018

"Cansei-me... rendo-me..."

Leonardo Haberkorn, jornalista e escritor, era professor numa universidade de Montevideo. Corre na internet um artigo seu publicado em papel, em 2015, com o título "Me cansé... me rindo...", onde declara ter deixado o ensino, que antes o apaixonava, e explica porquê.
Tomámos a liberdade de o traduzir, pois, por certo, ele tocará muitos professores e directores de escolas portuguesas. Desejável é que tocasse instâncias superiores e, de modo mais alargado, a sociedade.
"Depois de muitos e muitos anos, hoje dei a última aula na Universidade. 
Cansei-me de lutar contra os telemóveis, contra o whatsapp e contra o facebook. Ganharam-me. Rendo-me. Atiro a toalha ao chão. 
Cansei-me de falar de assuntos que me apaixonam perante jovens que não conseguem desviar a vista do telemóvel que não pára de receber selfies.
Claro que nem todos são assim. Mas cada vez são mais. 
Até há três ou quatro anos a advertência para deixar o telemóvel de lado durante 90 minutos, ainda que fosse só para não serem mal-educados, ainda tinha algum efeito.
Agora não. Pode ser que seja eu, que me desgastei demasiado no combate. Ou que esteja a fazer algo mal.
Mas há algo certo: muitos desses jovens não têm consciência do efeito ofensivo e doloroso do que fazem. Além disso, cada vez é mais difícil explicar como funciona o jornalismo a pessoas que o não consomem nem vêem sentido em estar informadas. 
Esta semana foi tratado o tema Venezuela. Só uma estudante entre 20 conseguiu explicar o básico do conflito. O muito básico. O resto não fazia a mais pequena ideia. Perguntei-lhes (...) o que se passa na Síria? Silêncio. Que partido é mais liberal ou que está mais à 'esquerda' nos Estados Unidos, os democratas ou os republicanos? Silêncio. Sabem quem é Vargas Llosa? Sim! 
Alguém leu algum dos seus livros? Não, ninguém! Lamento que os jovens não possam deixar o telemóvel, nem na aula. Levar pessoas tão desinformadas para o jornalismo é complicado. 
É como ensinar botânica a alguém que vem de um planeta onde não existem vegetais. Num exercício em que deviam sair para procurar uma notícia na rua, uma estudante regressou com a notícia de que se vendiam, ainda, jornais e revista na rua.
Chega um momento em que ser jornalista é colocar-se na posição do contra. Porque está treinado a pôr-se no lugar do outro, cultiva a empatia como ferramenta básica de trabalho. 
E então vê que estes jovens, que continuam a ter inteligência, simpatia e afabilidade, foram enganados, a culpa não é só deles. Que a incultura, o desinteresse e a alienação não nasceram com eles.
Que lhes foram matando a curiosidade e que, com cada professor que deixou de lhes corrigir as faltas de ortografia, os ensinaram que tudo é mais ou menos o mesmo. Então, quando compreendemos que eles também são vítimas, quase sem darmos conta vamos baixando a guarda. 
E o mau é aprovado como medíocre e o medíocre passa por bom, e o bom, as poucas vezes que acontece, celebra-se como se fosse brilhante. Não quero fazer parte deste círculo perverso. Nunca fui assim e não serei assim. 
O que faço sempre fiz questão de o fazer bem. O melhor possível. E não suporto o desinteresse face a cada pergunta que faço e para a qual a resposta é o silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. 
Eles queriam que a aula terminasse. 
Eu também."
M. Helena Damião e Isaltina Martins

sábado, 10 de novembro de 2018

CONSTITUIÇÃO E ESTRUTURA DA TERRA (1)

À semelhança de uma cereja, que tem pele, polpa e caroço, o nosso planeta tem crosta, manto e núcleo.

CROSTA

Separada do manto pela descontinuidade Mohorovocic, a crosta, representa a “camada” mais externa (a “pele”) da Terra.

Não é uniforme em toda a sua extensão. Reconhece-se-lhe uma crosta continental, com densidade média de 2.7, e uma crosta oceânica, com densidade média de 2,9. Corresponde a menos de 1% do volume do planeta e a valor ainda menor da respectiva massa.

Muito diferentes entre si, a crosta continental constitui o essencial dos continentes, com uma espessura média de 35 km (valore que podem atingir os 70 e 80 Km sob as grandes cadeias montanhosas, com é o caso dos Himalaias) e uma composição sílico-aluminosa, com franco predomínio de rochas de composição granítica, incluindo os gnaisses. As rochas sedimentares, também elas presentes (e exclusivas) na crosta continental, representam uma minoria na sua constituição.

Esta crosta ocupa cerca de 45% da superfície da Terra e 77% do volume total da crosta.


A crosta oceânica, sílico-magnesiana, forma o substrato das bacias oceânicas, com uma espessura variável entre 3 e 15 km (com um valor médio da ordem de 5 a 7 km) na qual predominam as rochas de natureza basáltica e gabróica, além de outras resultantes do metamorfismo destas (em especial metamorfismo hidrotermal) como são, por exemplo, os serpentinitos. Além dos fundos das bacias oceânicas, esta outra crosta, que totaliza cerca de 55% da superfície da Terra e apenas 17% do volume total da crosta terrestre, compreende as ilhas vulcânicas que não são mais do que emergências dessa mesma crosta, correspondentes a aparelhos vulcânicos edificados a partir desses fundos

A diferença de densidades (2,9 – 2,7 = 0,2), aparentemente mínima, entre os dois principais tipos de crosta constitui um dos factores mais importantes na dinâmica superficial do planeta, como acontece nas fronteiras de aproximação entre placas continentais e oceânicas onde estas, mais densas, mergulham, no geral, sob as outras, menos densas.

Notas:

(ou Mohorovicic) – Trata-se de uma fronteira química Descontinuidade Moho e mineralógica com evidentes reflexos nos comportamentos dos respectivos materiais, face às solicitações mecânicas, como são o

Gabro
Gabróica – referente a gabro, rocha plutónica, granular grosseira, melanocrata (escura) essencialmente constituída por uma plagioclase cálcica (labradorite e anortite) e por uma piroxena (augite ou hiperstena). Tem o basalto por equivalente vulcânico e o dolerito por equivalente hipabissal. O nome, proposto em 1786, radica no latim gaber, que significa macio.

Metamorfismo hidrotermal – metamorfismo produzido numa dada rocha por acção de soluções aquosas quentes que nela penetram e circulam, particularmente importante nas rochas do substrato oceânico

Serpentinito – rocha metamórfica essencialmente formada por minerais (filossilicatos de magnésio) do grupo da serpentina, resultantes da metamorfismo de rochas ultrabásicas magnesianas.

Serpentino
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A. Galopim de Carvalho

JAZIDA COM PEGADAS DE DINOSSÁURIOS DE CARENQUE


Para vergonha do “Instituto de Conservação da Natureza”, a jazida com pegadas de dinossáurios Pego Longo (Carenque) que, há 21 anos, por solicitação minha, em nome do Museu Nacional de História Natural, classificou como MONUMENTO NATURAL (Dec. Nº 19/97, de 5 de Maio), encontra-se no mais confrangedor abandono, convertida, de novo, em vazadouro clandestino e densamente invadido pela vegetação autóctone, mais parecendo uma selva conspurcada por lixo.

Diz o diploma legal que criou este Instituto (agora também, ilogicamente, dito “das Florestas”), que é de sua competência zelar pela protecção e conservação dos Monumentos Naturais que oficialmente classifica.

Uma vergonha!

Esquecidas também dos poderes local (a autarquia sintrense) e central, as pegadas de dinossáurios de Pego Longo (Carenque), em fase acelerada de destruição, estão bem vivas na mente de todos os que, como eu, sabem do que estão a falar, ou seja, os geólogos, docentes e investigadores nacionais nesta área científica e todos os especialistas internacionais que aqui acorreram, das Américas à China e à Mongólia, sem esquecer, claro, os nossos vizinhos da Europa. Estão, ainda, no coração de todos os que respeitam os valores da Natureza.


A luta pela defesa desta jazida paleontológica, que ficou conhecida por “Batalha de Carenque”, remonta a 1986, (há 32 anos, portanto) quando dois finalistas da Licenciatura em Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa, Carlos Coke e Paulo Branquinho, meus ex-alunos, descobriram um vasto conjunto de pegadas de dinossáurios no fundo de uma pedreira abandonada, na altura a ser usada como vazadouro de entulhos e lixeira clandestina, em Pego Longo, concelho de Sintra, na vizinhança imediata de Carenque.

Esta importante jazida paleontológica corresponde a uma superfície rochosa com cerca de duas centenas de pegadas, de onde sobressai, pela sua excepcional importância, um trilho com 132 metros de comprimento, no troço visível, formado por marcas subcirculares, com 50 a 60cm de diâmetro, atribuídas a um dinossáurio bípede. Além deste, considerado na altura o mais longo trilho contínuo da Europa, identificaram-se, na mesma superfície, pegadas tridáctilas atribuíveis a carnívoros (terópodes), parte delas igualmente organizadas em trilhos. O chão que suporta estas pegadas corresponde ao topo de uma delgada camada de calcário do Cretácico (com cerca de 92 milhões de anos), com 10 a 15cm de espessura, levemente basculada para Sul. Muito fracturada (à escala centimétrica), esta camada assenta sobre uma outra, bem mais espessa, de natureza argilosa, condições que dão grande fragilidade a esta camada e, portanto, a esta jazida.

Para além das consequências inevitáveis de degradação decorrentes do uso deste enorme buraco como vazadouro, fui alertado, em Maio de 1992, para o facto de o traçado da então projectada Circular Regional Exterior de Lisboa (CREL) vir a destruir a maior parte do trilho principal, precisamente no seu troço mais interessante. Louvavelmente, a Brisa, empresa interessada neste processo, apercebeu-se do valor patrimonial em causa, mantendo-se em consonância com o Museu Nacional de História Natural na procura de soluções que corrigissem uma tal situação, não desejável.

Após uma longa batalha, de que a comunicação social de então deu ampla divulgação, a abertura dos túneis de Carenque foi, finalmente, a solução aceite pelo governo, representando para as finanças públicas um esforço acrescido, na ordem de um milhão e seiscentos mil contos (8 milhões de euros), merecedor de aplauso. Dois anos e meio depois, a 9 de Setembro de 1995, o então Primeiro-Ministro Cavaco Silva inaugurava a CREL, tendo tido a atenção de me incluir na comitiva que com ele percorreu os túneis de Carenque sob as pegadas de dinossáurios que tanta tinta têm feito correr. Terminava, assim, uma primeira batalha entre os cifrões e a cultura científica, de que esta, em boa hora, saiu vitoriosa.

Mas a guerra não ficou ganha. Há, ainda, como todos sabemos, uma última batalha que é imperioso e urgente ganhar. Ganhá-la passa pela conveniente musealização do sítio, cujo projecto de arquitectura, “Museu e Centro de Interpretação de Pego Longo (Carenque)”, da autoria do Arqº. Mário Moutinho, aprovado pela Câmara de Sintra em 2001 (sob a presidência de Edite Estrela), aguarda há 17 (dezassete) anos o necessário cabimento de verba.

Desde então, com a queda da presidência do PS para o PSD, nada mais foi feito. Simpático, acolhedor e, até amistoso no modo como sempre me recebeu, Fernando Seara nada fez pela salvaguarda deste importante geomonumento. Idêntico tratamento recebi, mais recentemente, de Basílio Horta, mas, infelizmente, tudo continua nos esquecimento. O desinteresse destes senhores pela cultura científica é evidente e lamentável.

A concretização deste projecto não necessita ser encarada em bloco. Pode ser faseada no tempo, começando pelas peças mais urgentes e atractivas. Não é compreensível ter-se dispendido tanto dinheiro na abertura dos túneis, para salvaguarda da jazida, e não viabilizar, agora, o financiamento necessário à conclusão da obra prevista e tirar dela os dividendos culturais e pedagógicos que é lícito esperar como potencial pólo de atracção turística.


Passados 32 anos sobre a sua descoberta, o trânsito automóvel flui normalmente sob um raro e valioso património, lamentavelmente deixado ao abandono. Entretanto, a jazida degrada-se sob a vigência de uma administração cega, surda e muda, indiferente aos milhões já ali investidos, não obstante a obra em falta representar muito pouco face à cifra já gasta com a abertura dos túneis.

E quando, em nome dos euros, se argumenta contra este empreendimento, podemos responder com o enorme potencial turístico desta jazida. A topografia do terreno permite uma boa adaptação do local aos fins em vista, dispondo do lado SW de um pequeno relevo (residual da exploração da pedreira) adaptável, por excelência, a miradouro, de onde se pode observar, de um só golpe de vista e no conjunto, toda a camada – uma imensa laje pejada de pegadas – levemente basculada no sentido do local do observador, numa panorâmica de justificada e invulgar grandiosidade. Em acréscimo deste significativo potencial está o facto de a jazida se situar na vizinhança de uma grande metrópole e numa região de intensa procura turística (Sintra, Queluz, Belas) e, ainda, o de ser servida por duas importantes rodovias, a via rápida Lisboa-Sintra (IC-19), por Queluz, e a Circular Regional Externa de Lisboa (CREL-A9) que a torna acessível pelo nó de Belas e, no futuro, mais comodamente, pelo nó de Colaride.

O reconhecimento desta jazida como valioso e excepcional relíquia geológica e paleontológica, à escala internacional, é hoje um dado adquirido. Assim e tendo em conta a condição privilegiada da região sintrense e a sua classificação, pela UNESCO, como Património Mundial, justifica-se todo o envolvimento que possa surgir, por parte das administrações local e central, nesta realização, que transcende não só as fronteiras da autarquia, como também as do País.

Todos sabemos que os dinossáurios constituem um tema de enorme atracção entre o público e que qualquer iniciativa neste domínio da paleontologia está votada ao sucesso. Nesta realidade, a Jazida de Pego Longo, convenientemente adaptada a uma oferta de turismo da natureza, de grande qualidade e suficientemente bem equipada e promovida, garante total rentabilidade a todo o investimento que ali se queira fazer.

Pela minha parte, continuo a oferecer, graciosamente (como sempre fiz), o meu trabalho na concretização deste projecto. Como cidadão profundamente envolvido nesta causa, sinto-me no dever e no direito de nela voltar a insistir. Esquecidas dos poderes local e central, as pegadas de dinossáurios de Carenque estão bem vivas na mente de todos os que, como eu, sabem do que estão a falar, ou seja, os geólogos, docentes e investigadores nacionais nesta área científica e todos os especialistas internacionais que aqui acorreram, das Américas à China e à Mongólia, sem esquecer, claro, os nossos vizinhos da Europa. Estão, ainda, no coração de todos os que respeitam os valores da Natureza.

Lembrando a sessão de dia 11 de Fevereiro de 1993, no Parlamento, sob a presidência do, para mim, saudoso Prof. Barbosa de Melo, na qual foi votada, por unanimidade (coisa rara), a recomendação ao executivo, no sentido da salvaguarda desta jazida paleontológica, apelo, uma vez mais, ao governo e à autarquia sintrense que reúnam vontades e interesses a fim de que se não perca este valioso património tão antigo quanto cento e doze mil vezes a História de Portugal.

A M Galopim de Carvalho

O "director que deu a volta à escola" e que teve de abandonar a escola

Imagem recolhida aqui

Na continuação do texto anterior O processo está em curso e o recado está dado. O caso Joaquim Sousa, vale a pena rever o programa De que escola precisamos? que foi para o ar na RTP 3 no dia 4 de Outubro de 2017. Há um ano e pouco, portanto, quando o director em causa, era apresentado como o "director que deu a volta à escola (...), colocando-a entre as escolas públicas com melhores resultados do país".

Minutos 23.05 a 26.12  |  34.58 e 35.58  |  47.56 a 57.17  |  1.12.47 a 1.12.00

“DESAFIOS MATEMÁTICOS QUE TE VÃO ENLOUQUECER”, DE INÊS GUIMARÃES


O processo está em curso e o recado está dado. O caso Joaquim Sousa


Joaquim Sousa, antes de mais, professor, é (ou, melhor, foi) director de uma escola "difícil", que tornou normal ou mais do que isso.
"Estamos a falar de uma freguesia onde 92% dos alunos recebem Acção Social Escolar, onde os níveis de abandono escolar já foram de 50% e onde não era raro encontrar alunos de 18 anos ainda no 9.º ano (aqui).
Essa escola foi, num determinado momento, notícia por aí se ter demonstrado que quando se assume o dever de ensinar, a aprendizagem melhora substancialmente.

Recusando o funcionalismo negligente e desresponsabilizador, fez valer finalidades educativas dignas de assim serem designadas. A igualdade, não apenas como palavra mas como móbil, estava entre elas. E, portanto, em vez de baixar a exigência académica subiu-a (90% das classificações passaram a depender dos resultados disciplinares restando 10% para as ditas atitudes)

"Vi ali um laboratório para aquilo que eu acredito que a escola dever ser: um lugar de igualdade e de oportunidades que permita projectar e elevar as pessoas” (aqui).
“Há mais responsabilização e menos tolerância” (aqui). 
Essa opção justificou o passar ao lado da retórica paternalista que é a "contextualização curricular".
“Estes alunos, pelo contexto social onde vivem, só têm uma oportunidade e precisamos de agarrá-la" (aqui). 
Isto não significa que deixasse de ter atenção ao contexto.
[procedeu a alterações no funcionamento da escola] "os horários foram ajustados, de modo a coincidirem com os dos autocarros".
"à medida que a exigência foi aumentando, foi também sendo feita uma adaptação dos métodos de ensino para cada aluno. “É um erro tratar por igual o que não é igual. Isso não é igualdade, promove, sim, a desigualdade.” Por isso, aqui os alunos têm menos uma hora livre do que os das restantes escolas da Madeira, mas os apoios curriculares são feitos à medida das necessidades e expectativas individuais de cada um. Exemplo: os filhos de emigrantes que ingressam na escola têm aulas extra de Português e depois de História (aqui).
(...) porque o tempo não estica, os tradicionais clubes deram lugar a apoios a Matemática, Português e outras disciplinas nucleares. Foram criadas actividades extracurriculares que promovem a cidadania e o respeito ambiental. Mas a biblioteca – numa terra onde 80% dos lares não têm livros – foi recheada e uma das salas da escola foi transformada em salão de jogos.  
Privilegiou, em suma, conhecimento que abre horizontes:
Anualmente, os finalistas do 9.º ano fazem uma viagem, a Lisboa ou ao Porto (...) os alunos visitam lugares históricos, culturais e simbólicos como Serralves ou o Oceanário. Vão à Assembleia da República, à Presidência e demoram-se na Universidade de Lisboa, com quem a escola tem um protocolo. “Eles têm uma aula lá [o mesmo acontece na Universidade do Porto (...), porque queremos que eles (...) percebam que ali também pode ser o lugar deles” (aqui). 
E percebeu que, para educar, é preciso deixar de pensar a muito curto prazo e que a escola a tempo inteiro não leva a lado algum.
"A subida da exigência não significou uma pressão acrescida sobre os alunos" (...) "Outra mudança foi a abolição dos trabalhos para casa. A lógica é a de que se os alunos cumprirem na escola, não é preciso sobrecarregá-los em casa". “Os miúdos têm de ter vida para além da escola”. "Além disso, não quis passar para os pais a tarefa de co-ensinar" (aqui). 
Em resultado do trabalho desenvolvido, esta escola, quem em 2010 estava no lugar 1207.º, subiu, em cinco anos, 1000 (mil) posições nos resultados obtidos em exames nacionais.

Na altura, li entrevistas que o director deu e artigos de jornal dedicados ao "milagre" que conseguiu, bem como intervenções que fez em programas de televisão. Modestamente, repetia que não havia feito nada de especial, apenas procurava cumprir a sua tarefa: tinha incentivado e criado condições para que os professores ensinassem e para que os alunos aprendessem.


É claro que soube envolver e mobilizar os professores: cada professor por si, por muito bom que seja, não é capaz de fazer a diferença, ainda que tenha essa ilusão.

Joaquim Sousa foi recentemente reeleito como director com uma percentagem aproximada dos 80%. E o que aconteceu de seguida? Eu diria que aconteceu o esperado: a escola foi fundida com outra e ele afastado com uma acusação, feita pela Inspecção da Educação, de quase quatro centenas de irregularidades:
"(...) falhas no preenchimento de formulários de requisição de professores, falhas no sistema de controlo de assiduidade dos professores, falhas no envio dos horários, entregues por email e não em papel carimbado." 
A população, reconhecendo o seu trabalho, procura fazer reverter a situação. Entre as iniciativas que tomou contam-se abaixo-assinados, um deles entregue ao Presidente da República.

Mas que importa isso? O processo está em curso e o recado está dado a quem se atrever a assumir o dever de ensinar, com a seriedade que merece.


Ver mais aqui, aqui, aqui e aqui.


Este texto tem continuação aqui.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

ÉTICA; CIÊNCIA E SOCIEDADE

Encontro sobre relações entre ética e ciência em Lisboa, onde farei uma breve apresentação:

http://www.bio-ess-politics.com/en/

REPRESENTATIVIDADE DOS CIENTISTAS PORTUGUESES

Moisés Lemos Martins escreve no Público de hoje sobre a falta de representatividade dos cientistas nacionais. A Academia das Ciências não representa os cientistas e a o Conselho dos Laboratórios Associados tambem não. O governo divide para reinar. Noutros países, como no Reino Unido, os investigadores estão representados junto das instâncias políticas. Em Portugal não. A culpa é principalmente dos próprios, que andam de mão estendida, mas são incapazes de juntar as mãos numa estrutura comum que seja verdadeiramente representativa. Queixam-se muitos dos outros, mas podiam-se queixar de si próprios.

Aprender Física com uma ferramenta digital de vídeo

O mundo caminha para "mistura explosiva entre poder e ignorância"


Sobre o Mês da Educação e Ciência da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que comissario:

https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/carlos-fiolhais-mundo-caminha-para-mistura-explosiva-entre-poder-e-ignorancia


LABORATORIO CHIMICO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA - 200 ANOS DE QUÍMICA EM PORTUGAL (1772-1974)

Um arquivo digital organizado por Augusto Correia Cardoso:

http://www.uc.pt/org/historia_ciencia_na_uc/arquivo_digital_lab/index

"A ARTE DE CRIAR PAIXÃO PELA CIÊNCIA," ENTREVISTA QUE DEI A JOSÉ JORGE LETRIA


Excerto do meu último livro "A Arte de criar paixão pela ciência" (Guerra e Paz, entrevista conduzida por José Jorge Letria):

"Portanto, eu tenho a preocupação de ligar a ciência à vida. A ciência só entra na sociedade se conseguir romper a questão das «duas culturas», a alegada oposição entre cultura científica e cultura literária. Eu falo com autores de livros infantis (ainda há pouco estive num debate com eles aqui na Sociedade Portuguesa de Autores), eu falo com músicos (tenho feito palestras antes dos concertos da Orquestra Metropolitana de Lisboa), eu falo com humoristas (estive num programa de fim de ano dos Gatos Fedorentos), tentando que a ciência esteja omnipresente. Pelo menos, que seja vista como uma dimensão humana, uma dimensão que não pode estar escondida, pois faz parte da imensa criatividade de que o homo sapiens é capaz. Eu fico muito contente com o facto de a Sociedade Portuguesa de Autores reconhecer que os cientistas são autores, que veja criatividade tanto nos artistas como nos cientistas. Os cientistas são um pouco como os artistas, pois também eles usam a imaginação: conseguem imaginar a imaginação da natureza. O reconhecimento da ciência é uma minha preocupação permanente. Eu acho que nunca está nada acabado neste a arte de fazer pontes 151 campo, que tem de se fazer sempre mais e que cada dia é um dia novo para poder fazer mais para aproximar a ciência à sociedade. E é por isso que, pegando na sua questão dos títulos, em escritos que abrangem uma pluralidade de assuntos, procuro ser criativo e original, suscitando o interesse. 

Pegando agora na questão das pseudociências, que é um problema do mundo todo, e também é um problema português. Quando uma pessoa diz que há ignorância nos Estados Unidos e não sei mais onde, que a pseudociência aí domina, olhamos à nossa volta e vemos que a ignorância e a pseudociência estão nas nossas livrarias. As nossas livrarias estão cheias de livros de astrologia, esoterismo e auto-ajuda, que são bem mais numerosos do que os livros de ciências. Portanto, não me venham dizer que é um problema dos Estados Unidos ou de não sei onde. É, pelo menos, um problema da cultura ocidental.

 A situação é paradoxal. A ciência triunfou no mundo, está por todo o lado nas nossas vidas, não podemos fazer praticamente nada sem ela; é a ciência que torna a nossa vida minimamente confortável. No entanto, apesar disso, nós não percebemos bem o que é a ciência e desconfiamos dela. Eu acho que desconfiamos porque não percebemos. A questão da confiança é esta: quando uma pessoa não conhece alguém, fica de pé atrás. As pessoas  não tratam a ciência por tu. Os próprios professores de ciência, por não terem suficiente intimidade com a ciência, não conseguem pôr os miúdos a tratar a ciência por tu, uma condição básica da cultura científica.

 A ciência é, mais do que um corpo de conhecimentos, um método que deve começar a ser transmitido o mais cedo possível. Ver, mexer, agarrar, examinar, interrogar o mundo, fazer perguntas ao mundo, perguntar o como e o porquê das coisas é a atitude mais natural desta vida. A nossa vida não passa de uma relação com o mundo. Acima de tudo, e em última análise, a ciência procura responder a essa pergunta que, às vezes, nós exteriorizamos, mas que os antigos gregos já fizeram há muitos séculos: «Quem somos nós?» Nós somos parte do mundo, não nos serve de muito o dualismo, a ideia de que há o mundo e de que há o homem, pois o homem é inegavelmente parte do mundo. E, cada vez mais, a ciência – daí o imparável crescimento das ciências sociais e humanas – consegue saber mais quem nós somos.

 A pergunta «Quem somos nós?» irá perseguir-nos sempre, enquanto existirmos e espero bem que a nossa espécie vá existir muito tempo, pois somos a única no Universo, tanto quanto sabemos, que o consegue conhecer. Quem somos nós? Para o saber, as ciências sociais e humanas têm de dialogar com as ciências naturais e exactas. Por outras palavras, o saber tem de ser um saber alargado e um saber em diálogo permanente. Não há saber verdadeiro se não for alargado em diálogo permanente. Só assim é possível haver humanidade.

 Portanto, quando falo – no meu livro mais recente, escrito com o David Marçal, A Ciência e os Seus Inimigos – de inimigos da ciência, falo também de inimigos da humanidade; no fundo, da gente que recusa o progresso, que consiste num maior e melhor conhecimento do mundo e de si próprio. Há hoje vários tipos de fundamentalistas, gente que recusa o diálogo por ter ideias já feitas, na política, na religião, decerto, mas também na filosofia. E também existem cientistas acantonados nalguns ramos da ciência.

 Há fundamentalismos que não parecem que o são, mas que o são de facto. Quando se diz que uma coisa não é uma coisa, mas é aquilo que nós quisermos que essa coisa seja, eu percebo a imaginação subjacente, mas reafirmo que há a coisa. Vemos hoje correntes pós-modernas que querem minar o edifício da realidade. Sem o conseguirem, naturalmente. Nós somos reais, se batermos com a cabeça numa parede, está lá a parede e nós sentiremos a dor. Portanto, a ciência tenta explicar o que é a cabeça, tenta explicar a parede e tenta explicar a dor, até para a fazer passar mais rapidamente.

  Vivemos num mundo que, apesar de toda a racionalidade de que o homem é capaz, ainda é muito irracional."