sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Bons e maus cidadãos. A urgência do diálogo entre a tecnologia e a ética

A entrevistadora é Inês Rocha, jornalista da Rádio Renascença; o entrevistado é João Romão, formado em Informática e Gestão de Empresas. O resultado são uns minutos que nos devem inquietar mas que, ainda assim, nos trazem alguma esperança. Perceber-se-á adiante porquê.

Eis a apresentação do trabalho publicado online em 4 de Maio de 2018:

"Imagine viver num mundo em que os responsáveis políticos podem decidir se é bom ou mau cidadão consoante as compras que faz, os hobbies que tem, com quem se dá e que tipo de mensagens publica nas redes sociais. Dados que são transformados numa pontuação, que condena quem não cumpre ao isolamento. Já pode parar de imaginar: o sistema de crédito social já é uma realidade e promete ampliar-se (...)"

Faço, de seguida, um resumo:

O sistema diz-se ter sido pensado para garantir a "honestidade", a "sinceridade" e a "transparência": quem se "comporta bem", quer dizer, como o Estado considera "bem", tem acesso a bens a que não tem quem se "comporta mal".

Bom comportamento é, por exemplo, reciclar o lixo, dar sangue, publicar mensagens online positivas sobre o país; mau comportamento é, por exemplo, atravessar a rua fora da passadeira, ser amigo de alguém com mau comportamento, cancelar uma reserva. Tudo conta para pontuar. Uma pontuação baixa impede a candidatura a cargos públicos, a redução da velocidade da internet, o acesso a crédito, a inscrição dos filhos nas melhores escolas, ou viajar.

Para conhecer o comportamento de cada pessoa a ligação entre empresas e Estado é crucial: usa-se informação recolhida online relativa a pagamentos, conversas privadas, afirmações nas redes sociais. Mas também se usa informação ofline, obtida através de uma multiplicidade de câmaras de video-vigilância associadas a sistemas de reconhecimento facial.

No enorme país em causa, em que o sistema começou a ser implementado em 2014, foram feitos testes em algumas cidades e daqui a dois anos cobrirá o território.

Omito a identificação do país porque, apesar da sua distância geográfica, o sistema não ficará restrito às suas fronteiras, avançará pelo mundo fora. De resto, ele não nos é completamente estranho: há, lamentavelmente, entre nós, múltiplos indícios. Mas, também, há entre nós quem tenha o discernimento de o achar incompatível com os direitos humanos que reconhecemos como fundamentais e que marcam indelevelmente o estado civilizacional que conseguimos alcançar.

Assim, são gratificantes as palavras de João Romão, significando elas um sinal de esperança de que situando-se no campo da tecnologia revela um apurado sentido ético.
"(...) o Estado define qual o comportamento moral e eticamente aceitável que a população deve ter (...) e a partir daí beneficia ou prejudica quem cumprir ou não (...) Este sistema discrimina as pessoas (...) é altamente segregador (...) as pessoas não vão poder comunicar umas com as outras livremente por medo de deixarem de ter acesso a uma viagem, a uma reserva num restaurante (...). É um big brother, é um estado de vigilância permanente online e ofline que visa garantir a sinceridade e a honestidade, é um sistema de controlo (...) Caso continue a ser implementado aumenta as desigualdades (...). Cerca de 70% das pessoas aceitam o sistema, o que significa que vai haver (...) menos crimes, menos comportamentos indesejados, que no final do dia as coisas são melhores, o que vai contribuir para duas coisas: primeiro, a opinião pública aprova porque não tem a sensação de que os seus direitos estão a ser violados; segundo, aqueles que não cumprem vão ser esquecidos, vão deixar de aparecer nos mesmos sítios, vão deixar de ter acesso às mesmas coisas, vão deixar de aparecer nas escolas, nos empregos, em todos os sítios (...) os problemas que não se vêem deixam de existir. E vai haver aqui uma separação entre as pessoas que cumprem e as que não cumprem, que são marginalizadas e para as pessoas que cumprem o mundo está muito melhor".

Cabe à ciência informar o poder político e não o contrário

O meu artigo de opinião, hoje no Público:

A aprovação, no quadro do Orçamento de Estado para 2019, da inclusão de mais duas vacinas no Plano Nacional de Vacinação (PNV) e o alargamento aos rapazes da vacina contra o HPV, é um erro gravíssimo. Não quero com isto dizer que essas vacinas são desnecessárias (sobre isso não irei aqui tomar posição). E sei bem o esforço que representam para as famílias as vacinas não incluídas no PNV, que muitos pediatras recomendam. Também estou ciente da situação de desigualdade existente, pois as famílias com menos recursos não têm, por vezes, a possibilidade de as adquirir. Apesar disso, os deputados devem deixar para a opinião científica especializada aquilo que está no domínio do conhecimento científico. A ciência e a democracia são pilares importantes das sociedades mais livres. Mas são coisas diferentes. A democracia assenta na vontade do povo. A ciência baseia-se em provas, obtidas através da observação e da experiência, segundo um determinado método. Em 1931 foi publicado um livro intitulado Cem Autores Contra Einstein, que contestava a teoria da relatividade geral. Questionado sobre o assunto, Einstein respondeu “Porquê cem autores? Se eu estivesse errado um só chegaria” (a teoria da relatividade geral tinha já sido confirmada, através da observação de um eclipse, em 1919, na ilha do Príncipe).

Estamos a habituar-nos à interferência do poder político em domínios da ciência. Tomemos o caso das quotas de pesca: cabe à ciência informar a sociedade acerca do estado do stock de uma determinada espécie de peixe e recomendar limites de captura. Claro que o poder político pode  decidir que queremos delapidar conscientemente essa espécie de peixe numa determinada zona. Mas não deve contrapor aos pareceres científicos posições não fundamentadas. O mesmo se aplica às alterações climáticas: o poder político não deve assumir uma alegada posição técnica sobre o assunto, como faz amiúde Donald Trump. Poderia assumir que não quer saber das alterações climáticas para nada, mas não negar a sua existência nem as previstas consequências.

Também no campo das terapias alternativas o poder político tem feito incursões desastrosas. É absurdo publicar legislação em Diário da República para definir conteúdos de licenciaturas em naturopatia ou acupuntura, repletas de conceitos pseudocientíficos. No limite, poderíamos dizer que a homeopatia funciona, tal como consta da Portaria nº 207-C/2014. É o contrário. É a ciência que deve informar o poder político, para que sejam tomadas boas decisões. As leias da Natureza são indiferentes a resultados de votações.

A ciência tem-nos permitido viver mais e melhor e as vacinas são um caso de sucesso avassalador. Cabe aos deputados dotar o Orçamento de Estado dos recursos necessários e possíveis para expandir o Plano Nacional de Vacinação, se assim o entenderem. Mas não decidir politicamente que vacinas dele devem constar.

DICIONÁRIO DOS ANTIS - LANÇAMENTO EM COIMBRA


Exposição sobre Vitorino Magalhães Godinho


Dois clássicos da Língua e Cultura Portuguesa

Informação recebida do Círculo de Leitores:

Publicação pelo Círculo de Leitores dos volumes

- Primeira epopeia ("Os Lusíadas")
- Primeira obra de aventura e contactos intercivilizacionais ("Peregrinação")

Biblioteca fundamental da língua e da cultura portuguesas

A colecção Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, em 30 volumes (72 obras), publicada pelo Círculo de Leitores, dá a conhecer ao grande público as fontes que a investigação mais recente permite apresentar como sendo as obras primeiras, fundadoras da cultura de um país com quase um milénio de história.

A compilação das Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa tem por base dois objectivos essenciais:

 1 - Facultar um saber essencial, rigoroso e crítico sobre as primeiras obras que fixaram conhecimento por escrito nas mais diversas áreas das Humanidades e das Ciências, na longa duração da História Portuguesa: agronomia, arquitetura, cartografia, ciências da educação, ciências militares, direito, dramaturgia, ecologia, economia, enfermagem, engenharia, esoterismo, ética, farmacologia, filologia, filosofia, física, gastronomia, geografia, heráldica, história da arte, história, literatura, matemática, medicina, moral, musicologia, náutica, pedagogia, pintura, poética, política, química, retórica, teologia.

2 - Constituir um ponto de partida pedagógico para divulgar e sistematizar informação resultante da investigação que, nas últimas décadas, os mais diversos investigadores têm realizado para trazer a lume fontes inéditas ou pouco conhecidas, permitindo rever e completar os velhos manuais de historiografia, as clássicas histórias da literatura e as enciclopédias da cultura e da ciência em Portugal.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

NOVIDADES DE NOVEMBRO DA GRADIVA



Informação recebida da Gradiva:

Curvas Ideais, Relações Desconhecidas e Outras Histórias da Matemática, de Jorge Buescu
«O talento de Jorge Buescu como divulgador da ciência matemática (e portanto de todas as ciências) está na maneira como ele transforma a descoberta e o avanço científicos em histórias de frisson quase detectivesco, levando-nos de caminho a praticar matemática e a raciocinar matematicamente. […]
Como bom pedagogo, Jorge Buescu sabe das vantagens em desmitificar e humanizar a ciência. Os caminhos da descoberta são sinuosos e cheios de escolhos; há becos, bifurcações e vias que não levam a parte alguma. Para a história ser bem contada, não se pode ignorar as polémicas, nem esconder os erros debaixo do tapete. A matemática, como todas as ciências, é feita por homens e mulheres, com qualidades e defeitos, como os do público a quem se destina. Certo: neste livro há mais heróis do que vilões e uns quantos excêntricos (para animar as narrativas).
Acima de tudo, há muito trabalho, anos a fio, às vezes em completo isolamento.»

Jorge Calado, in «A ubiquidade da Matemática vista por um químico (uma digressão à laia de prefácio)»


«Saúde e Fraternidade!» – A República Possível (1910-1926), de Fernando Pereira Marques

A situação em Portugal entre 1910 e 1926 não foi muito diferente da generalidade de
situações coetâneas noutras sociedades europeias, do ponto de vista da radicalização da conflitualidade social e da instabilidade política. É, pois, redutor atribuir a queda da I República a «erros», a «faltas», a «desvios» – segundo as versões benignas de tipo historicista –, ou à perversidade «jacobina», «anticlerical», ou até «autoritária» dos políticos republicanos, segundo as versões de outros historiadores.
Em termos mais simples, não foi a balbúrdia de que falam alguns textos referindo-se a esse período, o caos ou a catástrofe que a propaganda salazarista descrevia ou que ainda vários sustentam, nem foi uma «Cousa Santa» traída por militares e por um ditador perverso.

Foi a «República possível» no contexto da sociedade portuguesa com as suas características e problemáticas específicas, um processo complexo mas modernizador que a ditadura militar e o salazarismo travaram eficazmente.

Colecção «Trajectos Portugueses», 312 pp., €13,00 https://www.gradiva.pt/catalogo/45566/a-republica-possivel-(1910-1926)


O Drama de Magalhães e a Volta ao Mundo Sem Querer seguido de Um Museu dos Descobrimentos: Porque Não?, de
Luís Filipe F. R. Thomaz

O MAIOR DESCOBRIMENTO  DA HISTÓRIA

Fernão de Magalhães é, e a justo título, o mais conhecido e celebrado navegador da história universal. O seu nome está li­gado a uma façanha inédita — a circum-navegação do Globo terrestre (1519-1522) — que, por ironia do destino, apenas teve lugar porque ele pereceu no decurso da viagem que planeara. Foi praticamente em desespero de causa que a nau Victoria (uma das duas que restavam das cinco partidas de Sanlúcar de Barrameda a 19 de Setembro de 1519) se decidiu a empreender a jornada de regresso, de Maluco a Espanha, pela rota portu­guesa do Cabo, transformando assim em volta ao Mundo o que se previa ser uma viagem de ida e volta pelo Pacífico.
O mérito de Magalhães está, por um lado, em ter descoberto uma das passagens que ligam o Atlântico ao Pacífico, provando assim a circum-navegabilidade da Terra; mas está sobretudo em ter intuído que o regime de ventos daquele oceano — a que chamou Pacífico por o ter encontrado calmo ao nele entrar — devia ser idêntico ao do Atlântico, o que lhe permitiu escolher a rota certa e assim atravessar à primeira tentativa a sua imensidão, até aí inexplorada.
Um trabalho admirável daquele que, na área, é hoje,  porventura, o investigador português com maior prestígio internacional, seguido de uma lição oportuníssima: Um Museu dos Descobrimentos: Porque Não?




A Menina que Via o Mar de Várias Cores, de Vanda Gonçalves e Rui Sousa (ilustr.)


O mar é azul. Excepto para Madalena, que conseguia ver várias cores no mar, mas não sabia o que significavam. Jorgito, um amigo recente e curioso, ajuda-a a tentar perceber a sua capacidade de ver o que mais ninguém vê. Mas, entretanto, Madalena é raptada pelos Cientistas Sem Escrúpulos, que tinham percebido como o estranho poder de Madalena de ver o invisível valia muito dinheiro.
Conseguirá Jorgito, com a ajuda de Maenas, o caranguejo que gostava de organizar e planear, salvar Madalena?

Uma agitada aventura à beira-mar que vai divertir e ensinar coisas espantosas sobre os organismos invisíveis do mar.


Efemérides científicas de 29 de Novembro

Lista recebida de Adriano Simões da Silva (Biblioteca Municipal do Porto):


29 de novembro de 1803 – Nascimento de Christian Doppler, físico austríaco famoso por descobrir o efeito que tem o seu nome. Ciência. Física.

29 de novembro de 1849 – Nasce John Ambrose Flemming, físico britânico que desenvolveu a radiotelegrafia, os circuitos sintonizados, etc. Ciência. Físca.

29 de novembro de 1874 – Nasce, em Avanca (Estarreja), Egas Moniz, médico, neurologista, professor, investigador, político e escritor, que recebeu, em 1949, o Prémio Nobel da Medicina. Ciência.

29 de novembro de 1877 – Thomas Edison demonstra o seu fonógrafo, pela 1ª vez. Indústria. Ciência.


29 de novembro de 1896 – Invenção do esfigmomanómetro, um aparelho para medir a tensão arterial, pelo médico italiano Scipione Riva-Rocci. Ciência. Saúde.

29 de novembro de 1921 – É distribuído o livro “Homo”, do professor Dr. António Augusto Mendes Correia, sobre a origem do homem (“O Tripeiro”, nov.1971, efem.). Ciência. Biologia.

PRODUÇÃO CIENTÍFICA DAS UNIVERSIDADES PORTUGUESAS

Informação recebida de Fernando Pacheco-Torgal (notei o lugar modesto da Universidade de Coimbra):

Relativamente às 202.501 publicações cientificas internacionais produzidas neste país na última década, abaixo a produção média anual por ETI em cada universidade.

Rácio de publicação Scopus/ano por ETI nos últimos 10 anos

UAveiro.............3.7 Publicações/ano por ETI

UPorto...............3.3
ULisboa.............2.7
UNova...............2.5
UCoimbra..........2.4
UMinho..............2.3
UAlgarve...........2.1
UBI....................1.7
ISCTE................1.4
UTAD.................1.3
UMadeira...........1.1
UAçores.............1.0
UÉvora...............0.9
UAberta..............0.6

NOVA ATLÂNTIDA



Saiu o último número da revista "Atlântida" Instituto Açoriano de Cultura, onde colaborei com um artigo sobre ciência e literatura

O ALERTA TEVE A RESPOSTA CERTA

Na sequência do alerta que lancei no passado dia 26, o Presidente da Câmara Municipal de Sintra, com base na vistoria conjunta desta Câmara, da Agência Portuguesa do Ambiente IP e da Capitania do Porto de Cascais, acaba de proferir o Despacho nº 65-P/2018. Que reza:
"Determino o imediato encerramento da arriba sul da Praia Grande do Rodízio (Sintra) devendo os serviços dotar de imediato as necessárias medidas de execução do presente Despacho."
Paços do Concelho de Sintra, 28 de novembro de 2018
Assina o Presidente, Dr. Basílio Horta
A. Galopim de Carvalho 

DEZ ANOS DO RÓMULO


Meu artigo no número da revista  "As Artes entre as Letras" que acaba de sair:


O RÓMULO é o nome do Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra que foi fundado há dez anos, no dia 24 de Novembro de 2008, em homenagem a Rómulo de Carvalho, o professor de Física e Química, pedagogo, historiador e divulgador de ciência e também poeta, contista e dramaturgo, sob o pseudónimo de António Gedeão, que nasceu nesse mesmo dia mas do ano de 1906. Aquele dia, por proposta de José Mariano Gago, é o Dia Nacional da Cultura Científica e Tecnológica, sendo a respectiva semana a semana da ciência e da tecnologia em todo o país.

Tentando merecer o seu patrono, o RÓMULO é um moderno centro de recursos para ensino e divulgação da ciência e tecnologia – integrando uma biblioteca, uma mediateca e uma hemeroteca – que faz parte da rede de centros Ciência Viva espalhada pelo território nacional, uma rede estabelecida por José Mariano Gago com vista a promover a cultura científica.  No espaço situado no rés-do-chão do Departamento de Física, em cuja entrada oscila incessantemente um pêndulo de Foucault que prova a rotação do nosso planeta, abre-se uma biblioteca de cultura científica aberta a todos.

Nela se realizaram, nos últimos dez anos, inúmeras actividades culturais de todo o tipo: conferências, debates, apresentações de livros, projecções de filmes, teatros, feiras, oficinas, demonstrações, etc. Associações juvenis e outras usaram o espaço, enchendo-o de vida, para as suas iniciativas. Muitas escolas, de diferentes graus de ensino, visitaram o Centro, escutando palestras ou ouvindo trechos literários de algum modo relacionados com a ciência (o que não é raro, pois a ciência está mais omnipresente do que normalmente se julga). Grandes nomes da ciência, da cultura, das artes, da religião e da política nacionais marcaram presença no RÓMULO como José Mariano Gago, João Lobo Antunes (estes dois últimos infelizmente já falecidos), Adriano Moreira, Galopim de Carvalho, Tolentino de Mendonça, Sérgio Godinho, Jorge Paiva, Manuel Sobrinho Simões, Alexandre Quintanilha, Guilherme Valente, Maria Mota, Henrique Leitão, etc.

 Muitas doações têm feito crescer significativamente as colecções de livros: destacam-se as ofertas da Gradiva (é merecida uma palavra especial de reconhecimento ao editor da Gradiva, Guilherme Valente, grande inovador decano entre nós das edições de divulgação científica), da Fundação Calouste Gulbenkian, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, do Conselho Nacional de Educação, do Instituto de  Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, etc. Muitas doações vieram de particulares, como a recente doação de Emílio Queiroz Lopes, antigo estudante da Universidade de Coimbra professor de Matemática que foi durante muitos anos director do Colégio do Machico, na ilha da Madeira, e de José Teixeira Dias, ex-professor de Química da Universidade de Coimbra e professor jubilado da Universidade de Aveiro. Eu próprio tenho entregue parte da minha biblioteca de ciência ao RÓMULO, certo de que os livros são eternos e, podem, nas mãos e nas cabeças de outras pessoas, fazerem novos caminhos. A minha entrada na ciência deu-se, quando era jovem, pela porta dos livros de divulgação científica, alguns dos quais de Rómulo de Carvalho, e a eles devo muito do que sou.

O RÓMULO é um espaço de partilha, pelo que continua aberta a doações de livros, revistas, filmes e materiais multimédia que ilustrem as ricas e diversificadas relações, por vezes insuspeitas, que existem entre ciência e sociedade.

No dia de aniversário do RÓMULO realizou-se um colóquio sobre a comunicação de ciência em Portugal, intitulado “Ciência para todos”, numa organização conjunta com a rede dos comunicadores de ciência SciCom, liderada por Joana Lobo Antunes. Num tempo marcado pelo crescimento global da irracionalidade, interessava debater o papel da ciência e da cultura científica. Sendo certo que a ciência e a cultura científica não chegam para determinar o futuro do mundo, o certo é que o planeta – todos nós – não terá futuro sem ciência, uma ciência  que tem cada vez mais de dialogar com outras dimensões humanas, como tão bem fez António Gedeão. A ciência é humana, mas é preciso que o seja cada vez mais.

 Várias iniciativas inovadoras começaram nos dez anos do RÓMULO. Foi formalmente inaugurada a “Escola Ciência Viva” da Universidade de Coimbra, uma escola realizada em colaboração com o município de Cantanhede, que é um programa de imersão na Universidade de Coimbra durante uma semana para todas as crianças do quarto ano daquele conselho, o que inclui, para além de experiências nos laboratórios de Física, visitas a outros sítios da Universidade, como o Museu da Ciência, o Centro de Neurociências, o Jardim Botânico, e ao vizinho Museu Nacional de Machado de Castro. Foi aberto o “RÓMULO Digital”, um repositório on-line sobre a história da ciência e tecnologia e da cultura científica, que ampliou extraordinariamente o já de si grande fundo antigo que está no Alma Mater, que é uma das várias manifestações de uma universidade sem paredes. 

Uma contribuição importante para esse repositório são os fundos da biblioteca do extinto Museu Nacional da Ciência e da Técnica, fundada por Mário Silva, que o RÓMULO acolheu. E, finalmente, vai abrir, no corredor de acesso ao Rómulo, entre o pêndulo e a biblioteca, a exposição “Feynman 100 anos”, dedicada ao grande físico norte-americano Richard Feynman, prémio Nobel da Física em 1965 e autor de divertidos livros auto-biográficos como Está a brincar Sr. Feynman ou Nem sempre a brincar Sr. Feynman (publicados entre nós pela Gradiva). Essa exposição poderá ir, em itinerância, a outros locais do país.

O RÓMULO entrou nos seus segundos dez anos, como uma criança que começa a ser adolescente e tem a vida toda pela frente. Como todas as bibliotecas vivas continuará a crescer, sendo necessário pensar na extensão do espaço, eventualmente para além do espaço actual generosamente fornecido pelo Departamento de Física da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade de Coimbra. E, como todos os centros de ciência, continuará a multiplicar as suas actividades, mostrando que a ciência está por todo o lado nas nossas vidas. E que ainda bem que é assim.

Margarida Carvalho e Inês Guimarães ganham prémios Novos em Ciência e Comunicação

Informação recebida de Fernando Alvim sobre um concurso onde fui júri: 

Margarida Carvalho, Adriana Costa Santos, João Pina, Inês Guimarães, Neemias Queta, Filipe Augusto, Bordalo II, António Galapito, Conan Osiris, Rodrigo Gomes, Afonso Reis Cabral, Duarte Coimbra e Daniel Carapeto, foram estes os vencedores dos Prémios Novos 2018, realizados esta noite na Gulbenkian, onde foram apresentadas 13 categorias e 41 nomeados nas categorias de Ciência, Política, Inovação, Comunicação, Desporto, Moda, Criatividade, Gastronomia, Música, Belas Artes, Literatura, Cinema e Humor.

 Os Prémios Novos são um evento anual que visa revelar os novos talentos em diversas áreas da sociedade, da cultura, da ciência e da inovação.

A edição deste ano foi apresentada por Fernando Alvim e Catarina Moura. A Somersby foi o seu patrocinador.

Os nomeados e o nome dos vencedores resultou da votação de um júri constituído por: Ricardo Araújo Pereira, Nuno Markl, Wandson Lisboa, Joana Lobo Antunes, Maria João Lima, Miguel Ribeiro, David Sobral, Carlos Fiolhais, Rosália Amorim, Fortunato da Câmara, Marina Costa Lobo, Miguel Guerreiro, José Mário Silva, Nuno Artur Silva, Barbara Rosa,Miguel Flor,Nelson Pereira, Gonçalo Ventura, Rute Sousa Vasco, Fortunato da Câmara, Nelson Nunes, Alexandra Quadros, António Cerveira Pinto, Vítor Belanciano, Miguel Pires, Paulo Amado, Ana Marta, Miguel Valverde, Rui Pedro Tendinha, Emanuel Silva, Pedro Aniceto.

 Eis a lista das categorias, nomeados e suas biografias e também a indicação dos vencedores.

 CIÊNCIA Ana Osório Oliveira Margarida Carvalho (vencedora) Duarte Figueiredo POLÍTICA Margarida Balseiro Lopes Adriana Costa Santos (vencedora) Alice Azevedo

 INOVAÇÃO André Baptista Gabriel Maciel João Pina (vencedor) Daniela Seixas Romana Ibrahim COMUNICAÇÃO Rui Maria Pêgo Diana Duarte Inês Guimarães (vencedora)

 DESPORTO Neemias Queta (vencedor) Melanie Santos Filipa Broeiro

 MODA Filipe Augusto (vencedor) Maria Clara Olga Noronha

 CRIATIVIDADE Bordalo II (vencedor) Clara Não Hugo Suíssas

 GASTRONOMIA Vasco Coelho Santos António Galapito (vencedor) Pedro Pena Bastos

 MÚSICA Pedro Mafama Surma Conan Osiris (vencedor)

 ARTES PLÁSTICAS Margarida Fleming Rodrigo Gomes (vencedor) Jorge Charrua

 LITERATURA Afonso Reis Cabral (vencedor) Diogo Vaz Pinto Filipa Martins

 CINEMA Alba Baptista Duarte Coimbra (vencedor) André Simões

 HUMOR Daniel Carapeto (vencedor) Diogo Batáguas Pedro Durão

A (DES)VALORIZAÇÃO DA DIGNIDADE DO SER HUMANO

Meu artigo de opinião publicado hoje in "Diário as Beiras", com a alteração que fiz do título, acrescentando-lhe o prefixo entre parêntesis:

“Não é um vencido que se retira, é um enfastiado que se safa”.
Eça de Queiroz

Em resposta a Manuel Alegre, António Costa, sobre o pagamento de IVA a cobrar nos espectáculos taurinos, perora: “As civilizações também se distinguem pala forma como valorizam a dignidade do ser humano” (Público, 11/11/2018).
Escreveu Franz Kafz, autor do extraordinário  livro “O Processo” (1925), que” a solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana”. É, portanto, num aspecto abrangente de solidariedade e dignidade humanas que me irei debruçar com fundamento em Mahatma Gandhi quando nos adverte ser contra a dignidade do homem obedecer a tiranias que o possam escravizar!

E haverá maior tirania que a democracia do quero, posso e mando que retirou, sem remissão, aos velhos, doentes e deficientes o usufruto de familiar de titular da ADSE por uma discutível e desumana rectroactividade de uma lei que os obriga a percorrer uma via sacra  que os conduziu à cruz de terem que esperar por uma consulta hospitalar que pode demorar meses e meses e uma operação chegar depois do doente ter morrido. Não leitor não é ficção, mas pura e triste realidade!
Desçam à terra, e ponham as mãos na consciência senhores políticos preocupados com os seus umbigos cheios de mordomias. Depois, porque como sentenciou Charles Dickens, “o homem é um animal de hábitos”, reponham a situação anterior daqueles que já não têm idade de optarem por seguros de saúde que não caducam com reformas  de que venham a auferir.

Com mais ou menos IVA, o país corre o risco de se tornar numa faena da ADSE com personagens humanas  doentes, velhas e deficientes , perante partidos políticos (do CDS ao PCP)  mudos e quedos como penedos e uma opinião pública apática que, com raras e honrosas excepções, a tudo assiste por julgar que a juventude é eterna e a doença é para os outros, nanja para eles?
Deste duelo argumentativo para adestrarem as espadas das respectivas razões, como se tratasse de uma grave situação nacional, entre um histórico do Partido Socialista, Manuel Alegre, e o primeiro-ministro, António Costa, deveriam, com maior razão, os portugueses de ser proibidos de comerem febras de porco em tradicional e selvagem matança em que o animal grunhe em sofrimento atroz sem a nobreza do touro que luta pela vida!

“Et pour cause”, sentindo-se como um pequeno David, sem funda, lutando contra a poderosa máquina do Estado, é um cidadão indignado que desiste formalmente de lutar com a razão que tem como da mais elementar justiça contra uma causa que desvaloriza a dignidade do ser humano.

TURISMO DE NATUREZA E GEOTURISMO


Estive ontem, a convite da organização, no “Congresso, Ciência, Cultura e Turismo Sustentável”, a decorrer na Academia das Ciências de Lisboa e confirmei com satisfação que a Geologia, tão mal tratada que sempre foi no nosso ensino, começa a ter expressão a nível nacional, com destaque para a divulgação promovida pela Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica – Ciência Viva, através de alguns dos seus Centros de Ciência e do seu programa Geologia no Verão, e dos Geoparques da UNESCO em Portugal, onde a cultura geológica, a Geoconservação e o Geoturismo ganham visibilidade.

O texto que aqui trago hoje é uma adaptação actualizada do que publiquei no Jornal “Tempo Livre”, do INATEL, n.º 3, Jan-Fev, 2017, sob o título “Turismo de Natureza”.
Mais de mil milhões de turistas percorrem o mundo, fruindo o que cada um deles procura, gerando um potencial económico de valor amplamente reconhecido, nomeadamente, no emprego, no comércio, indústria e serviços que o suportam. 
Devido ao clima, à História, à cultura, ao bom acolhimento e à simpatia natural e espontânea do povo português, à gastronomia regional e, ainda, à sua posição geostratégica, Portugal é actualmente um dos destinos turísticos mais procurados. O número de turistas que anualmente recebe nunca foi tão grande. Só no primeiro semestre do ano que passou, bateu todos os recordes, com mais de 8,5 milhões. 
Entre as diversas motivações dos que nos visitam, debruço-me, em particular, sobre o Geoturismo (uma parte substancial do Turismo de Natureza menos divulgada) que, por razões ambientais, culturais, pedagógicas e económicas, entendo dever ser devidamente promovido. 
No Turismo de Natureza, em assinalável desenvolvimento no nosso país, compete-me, pois, chamar a atenção para a vertente geológica da natureza sempre arredada das preocupações e do conhecimento de quem decide nestas matérias. 
O convite oficial ao Turismo de Natureza que, naturalmente, inspira as agências de viagem, não deve ficar-se, pois e apenas, como tem sido a prática entre nós, pela observação da paisagem pela paisagem, sem terem conta o respectivo suporte geológico, ou da elevada diversidade de habitats naturais, com observação de aves e outras espécies.  
Territorialmente pequeno, Portugal tem grande diversidade geológica o que determina uma igualmente grande variedade geomorfológica e elevada diversidade de geossítios e geomonumentos, sendo insignificante o número dos oficialmente reconhecidos e classificados. 
Há, pois, que dar relevo condizente com as respectivas importâncias a ocorrências como, entre outras, o Complexo Metamórfico da foz do Douro, o Polje de Mira-Minde (Alcanena), as Pedras Parideiras, na Serra da Freita, as Buracas do Casmilo (Condeixa-a-Nova), o Vale do Lapedo (Leiria), a Conha de São Martinho do Porto, os Monumentos Naturais do Cabo Mondego, das Portas de Ródão e das Pegadas de Dinossáurio da Serra d’Aire e de Sesimbra, as de Vale de Meios (Santarém), ainda por classificar e proteger, o Campo de Lapiás da Granja dos Serrões (Sintra), a Arriba Fóssil da Caparica, a Pedra Furada em Setúbal, a Rota da Conheiras de Vila de Rei, a Livraria do Mondego (Penacova), o Pulo do Lobo, os Passadiços do Paiva, a Ponta da Piedade, em Lagos, a Discordância Angular da Praia do Telheiro (Vila do Bispo) e a grande e belíssima diversidade de geossítios e geomonumentos próprios da natureza vulcânica dos arquipélagos dos Açores e da Madeira. 
Criado sob a égide da Comissão Nacional da UNESCO, em 2011, o Fórum Português de Geoparques Mundiais tem apoiado a entrada de Geoparques Nacionais que pretendam integrar a Rede Mundial de Geoparques. São membros deste Fórum, sob a coordenação da Comissão Nacional da UNESCO, o Geoparque Naturtejo da Meseta Meridional, o Geoparque Arouca, o Geoparque Açores e o Geoparque Terras de Cavaleiros e outros em projecto. 
Tendo por objectivos promover o desenvolvimento de novos Geoparques em Portugal, fornecendo-lhe apoio técnico e científico, coordenando iniciativas conjuntas e avançando com projectos, tendo em vista a valorização do nosso património geológico, o Fórum Português de Geoparques Mundiais da UNESCO, com o apoio de alguns dos colegas da minha e de outras Universidades, é uma importante mais valia na incrementação, não só do Turismo de Natureza, em geral, como também da Geoconservação e do Geoturismo, em particular. 
Uma outra mais valia para a Geoconservação e o Geoturismo, com relevância científica e pedagógica, são os Centros de Ciência Viva do Alviela, de Estremoz, do Lousal, dos Açores e da Madeira.
A. Galopim de Carvalho

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

“AINDA AS LIÇÕES DOS INCÊNDIOS FLORESTAIS DE 2017”



Na próxima 4ª feira, dia 5 de Dezembro de 2018, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra “AINDA AS LIÇÕES DOS INCÊNDIOS FLORESTAIS DE 2017” , por Domingos Xavier Viegas, Professor Catedrático do Departamento de Engenharia Mecânica da UC e Director do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais.




Sinopse da palestra:
Será proposta uma reflexão sobre o problema dos incêndios florestais, com base nos eventos de 2017 em Portugal e de outros países. Será realçada a necessidade de uma intervenção concertada e com sentido cívico por parte da Comunidade Científica, para refletir e melhorar este problema.

Esta palestra integra-se no ciclo  "Ciência às Seis - Terceira temporada" coordenado por António Piedade, Bioquímico, escritor e Divulgador de Ciência.

ENTRADA LIVRE

Público-Alvo: Público em geral

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Apresentação do livro "Visão, olhos e crenças" de Luís Miguel Bernardo


Na próxima 5ª feira, 29 de Novembro, às 18h, no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, o Professor Joaquim Murta da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra irá apresentar o livro "Visão, olhos e crenças" da autoria de Luís Miguel Bernardo, publicado pela editora Gradiva em Setembro de 2018.

 A entrada e livre e destinada ao público em geral.

A apresentação contará com a presença do autor.

 SINOPSE DO LIVRO:

 Sem o nosso sistema de visão – os olhos ligados ao cérebro – a nossa percepção do mundo seria muito limitada. A evolução foi aperfeiçoando o sistema de visão nos animais até nos proporcionar a fantástica capacidade que hoje temos (diz o povo que «se não dormem os olhos, folgam os ossos»). Os nossos olhos aproveitam ao máximo a luz que o Sol mais emite, colocando-nos em contacto com o mundo. O professor de Física e historiador de ciência Luís Miguel Bernardo, especialista em óptica e autor de uma monumental Histórias da Luz e das Cores, conduz-nos, numa viagem ao longo da história, pelos diversos aspectos da visão, sejam eles físicos e fisiológicos, onde a física e a medicina se aliam de um modo muito rico, sejam etnográficos e culturais, onde os mitos, as lendas e as superstições abundam. Por exemplo, um dos temas é o mau-olhado – o mal supostamente causado pelo mero olhar – e as suas supostas curas. Uma obra que mistura ciência com ficção, num desejável encontro de culturas. Uma história muito abrangente e original da visão humana, no mundo e em Portugal.

Controlar os alunos e os professores sem os controlar!?

No ano passado um leitor do De Rerum Natura mandou-me, em comentário, notícia do franco desenvolvimento e uso de tecnologia de reconhecimento facial para identificar o nível de atenção dos alunos em sala de aula (aqui). Transcrevo o argumento que percebi ser usado em defesa dessa tecnologia e o que, na altura, escrevi,
Argumento: o professor deve perceber a variação da atenção e do interesse dos alunos ao longo da aula para reajustar procedimentos, que devem ser diferenciados. 
Este argumento, estando certo, não justifica o meio. Espera-se que o professor, sempre que detecte um aspecto relevante no funcionamento da aula, procure superá-lo, mas no quadro da relação pedagógica, nunca usando um meio invasivo, no caso, do corpo do aluno. Um meio que desrespeita a pessoa que é e que, além disso, não lhe ensina o que significa ser-se humano. 
Em Portugal, numa universidade, no âmbito de um projecto científico-tecnológico desenvolve-se "uma aplicação sobre o sistema operativo Android para apoio à aprendizagem". Uma equipa especializada em sistemas inteligentes, apoiada em investigação realizada na Alemanha e nos EUA, está a aperfeiçoar um sistema "destinado monitorizar o foco [não a atenção] de cada um dos estudantes ao longo de uma aula". Para tanto, “calcula a pose da cabeça de cada pessoa utilizando um conjunto de características retiradas da face [movimentos da cabeça, detecção do olhar], previamente detetada na imagem, por forma a estimar para onde estão a olhar” (aqui).

No jornal online dessa universidade diz-se o seguinte:
"O trabalho permitirá ao professor, por exemplo, perceber em que partes da aula não conseguiu prender o olhar dos alunos e corrigir, na aula seguinte, a prestação (...). Em relação aos alunos, podem perceber em que partes da aula estiveram mais distraídos e que matérias lecionadas terão de estudar mais. [É] uma ferramenta para melhorar a performance de estudantes e professores.
O sistema engloba uma câmara instalada na sala que transmite para um servidor descritores de imagem, ou seja, números extraídos das imagens, como é o caso, por exemplo, dos ângulos de orientação do tronco e da cabeça. 
É de salientar que as imagens da plateia são eliminadas logo depois desse processamento, que dura milésimos de segundo. A natureza dos dados torna impossível estabelecer uma ligação entre um qualquer descritor e uma determinada pessoa presente na plateia, salvaguardando a privacidade e garantindo o anonimato. No final, tudo o que o sistema faculta é informação puramente estatística. 
Para além das aulas, [o sistema poderá ser usado em] congressos, palestras ou em qualquer outro tipo de acontecimento com público e oradores. 
Um dos responsável pelo projecto explicou à jornalista Clara Viana do Público (aqui) que a solicitação foi feita pela universidade e que não se pretende de modo algum controlar os estudantes.

É uma explicação desconcertante: uma universidade fazer tal pedido e nela ser concebido um sistema de controlo que se afirma não servir para controlar.

Fez notar também a sua apreensão em relação à viabilidade de aplicação do sistema em virtude das normas e lei de protecção de dados, o que implica sempre o consentimento informado dos estudantes, dado tratar-se de dados do foro biométrico, categorizados como dados sensíveis.

Esperemos que em situações como esta tais normas e leis prevaleçam e que a educação ética dos estudantes se manifeste.

“TERRA-ROSSA”

Sugiro ao leitor que, antes de ler este texto, leia ou releia o post MÁRMORE, de ontem.

Por agora, restrinjo-me ao solo (o chamado solo ferralítico dos pedologistas) e à capa barrenta de intensa cor vermelha que cobre e caracteriza a região de Estremoz- Borba-Vila Viçosa, geologicamente marcada pela presença de mármore calcítico, ou seja, o mármore essencialmente formado pelo mineral calcite (CaCO3, um carbonato de cálcio), como é o da pedreira que ruiu em Borba. “Terra- rossa” é a expressão italiana aceite internacionalmente para referir um solo característico das regiões de clima mediterrâneo, de intensa cor vermelha, como é o do sul de Portugal.

Trata-se de toda uma capa barrenta, incluindo o solo agrícola, composta essencialmente por barro ou argila, neste caso, uma ilite, e sesquióxido de ferro (Fe2O3, o conhecido ocre vermelho). Toda esta capa é o que fica como resíduo insolúvel, de um inimaginável volume de mármore dissolvido pelas águas pluviais ao longo de um período de tempo que vai muito para lá da história dos homens.

Estas águas ao atravessarem a atmosfera, incorporam o dióxido de carbono (CO2) sempre aí presente, adquirindo capacidade de dissolução do carbonato de cálcio da calcite. É esta acção dissolvente que gera a “terra-rossa” e toda a variedade de aberturas e espaços vazios (algares, grutas, galerias e outros) bem conhecidos dos espeleólogos.

Na origem do calcário que, por metamorfismo, se transformou em mármore, além da sedimentação biogénica e/ou quimiogénicas do carbonato de cálcio, houve sedimentação detrítica de argila (via de regra, um silicato hidratado de alumínio e potássio) e uma contaminação por ferro, que poderá ter continuado nos processos geológicos posteriores, ou seja, a diagénese e o metamorfismo.

É este ferro que, ao oxidar-se (o clima na região é suficientemente seco), gera o referido sesquióxido. Impregnada por um certo teor de água e sujeita à vibração de uma rodovia pavimentada a cubos (ou paralelepípedos) de granito, como foi o caso da derrocada na pedreira, esta capa barrenta entrou numa espécie de liquefacção e desmoronou, arrastando consigo as pedras e os blocos que envolvia e, tragicamente, o troço de estrada, com as lamentáveis consequências conhecidas. Comum, não só na região mediterrânea, mas também na África do Sul, Califórnia, Austrália, entre outras, a “terra-rossa” possui boas características de drenagem, sendo considerado um bom solo para a produção de vinho

Para compreender melhor o processo que gera a “terra-rossa”, recuemos ao século XVIII. A descoberta do oxigénio em 1774, pelo clérigo inglês Joseph Priestley (1733-1804), e o seu reconhecimento como o elemento mais abundante da crosta terrestre, associada à evolução da química analítica, na sequência dos trabalhos do francês Antoine Lavoisier (1743-1794) e dos suecos Carl Wilhelm Scheele (1741-1786) e Torbern Bergman (1749-1817) e de outros notáveis químicos da época, conduziram a que a composição química das rochas passasse a ser expressa em óxidos.

Tais análises forneciam as percentagens ponderais de, como então se dizia,
”terra siliciosa” (sílica, SiO2),
“terra argilosa” (alumina, Al2O3),
“ocres” (óxidos de ferro ferroso e férrico (FeO e Fe2O3),
“cal” (CaO),
“soda” ou “alcali fixo mineral” (Na2O),
“potassa” ou “alcali fixo vegetal” (K2O),
“magnésia” (MgO),
“titânia” (TiO2),
“anidrido fosfórico” (P2O5),
“ar ácido” ou “ácido aéreo” (CO2).
água (H2O).
Este modo de caracterizar a composição química das rochas foi decisivo no avanço do seu estudo (a petrologia) e, consequentemente, da geologia. Assim, para quem sabe lidar com as cifras resultantes destas análises químicas, face à composição química de um mármore, expressa em % de óxidos,
SiO2 - 3,3
Al2O3 - 0,08
MgO - 16,6
K2O - 0,01
Fe2O3 - 0,03
CaO - 38,1
Deduz imediatamente que há ali sílica (SiO2), alumina (Al2O3) e potassa (KO) a revelarem a presença de argila (ilite), sílica ainda a dizer que também ocorre ali algum quartzo de neoformação, e de sesquióxido de ferro.

Nota: Se o clima fosse mais húmido gerar-se-ia um hidróxido de ferro (FeO(OH)), como a goethite e outros, de cor amarelo-acastanhada o conhecido ocre amarelo. A limonite, que muitos aprenderam no liceu, é essencialmente uma mistura de hidróxidos de ferro e argila.

A. Galopim de Carvalho

Sobre Saramago e Deus



Com a devida vénia transcrevemos a crónica de  Anselmo Borges, padre e professor de Filosofia, publicada recentemente no DN:                                                                  
O Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra e a Câmara Municipal de Coimbra organizaram nos passados dias 8, 9 e 10 de Outubro, no Convento de São Francisco de Coimbra, um Congresso Internacional: “José Saramago: 20 anos com o Prémio Nobel”. Carlos Reis e Ana Peixinho pediram-me uma intervenção sobre Saramago e Deus. O que aí fica é uma breve síntese da minha fala nesse Congresso.

1. Numa entrevista dada a João Céu e Silva, uma das últimas, se não a última, Saramago referiu-se-me com admiração por ter lido e gostado do seu livro Caim. “Até fiquei surpreendido quando ouvi um teólogo — uma coisa é um teólogo e outra um padre — Anselmo Borges, dizer que tinha gostado do livro”. Mas na Net também se diz, e é verdade, que fui crítico por causa de alguma unilateralidade com que Saramago leu a Bíblia. Assim, a minha intervenção quer ser essencialmente um esclarecimento sobre essa minha dupla visão.

2. Saramago foi à Academia Sueca dizer, no dia 7 de Dezembro de 1998, logo na primeira frase: “O homem mais sábio que  conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever”.
Quando me expresso sobre o diálogo inter-religioso, digo sempre, com escândalo de alguns, que desse diálogo também fazem parte os ateus, os ateus que sabem o que isso quer dizer — os crentes também só o são verdadeiramente, se souberem o que isso quer dizer. Fazem parte, porque são eles que, estando de fora, mais facilmente vêem as superstições, as inumanidades e até as barbaridades que tantas vezes infectam as religiões. Assim, à maneira de Saramago, também digo: foi com dois ateus que aprendi do melhor da Teologia: Ernst Bloch e o nosso homenageado, José Saramago. Mais com Bloch, porque, dada a situação da Teologia na Universidade alemã — em todas as Universidades, há duas Faculdades de Teologia, uma católica e outra protestante —, ele tinha profundos conhecimentos bíblicos. Neste enquadramento, refiro três pontos.
2. 1. Também sou ateu em relação ao deus denunciado por eles. Porque é isso que se deve ser, se se quiser manter a dignidade humana face a um deus brutal, irresponsável, ciumento, mesquinho, tirânico, cruel, sádico, sanguinário... Neste sentido, estou de acordo com Ernst Bloch, quando escreveu que “só um bom ateu pode ser um bom cristão, só um bom cristão pode ser um bom ateu”.
Previno que a boa exegese mostra que nem sempre está no texto bíblico aquilo que o puseram a dizer e que passou à tradição. Por exemplo, o caso de Isaac, cujo significado é o contrário daquilo que frequentemente se ensinou: ao aparecer o cordeiro, Deus está a proclamar que não quer o sacrifício de seres humanos. Mas, de facto,  muitas vezes foi a outra tradição que passou, aquela a que se referiu o prestigiado biblista católico do século XX, Norbert Lohfink, quando constatou que a Bíblia judaica é “um dos livros mais cheios de sangue da literatura mundial”.
Como aceitar um deus que castigasse a Humanidade inteira por causa de os primeiros pais terem comido uma maçã? De qualquer modo, no quadro da evolução, quem foram os primeiros e como é que poderiam ter um acto de liberdade tal que arrastasse consigo todos os males do mundo, incluindo a morte? Que sentido pode ter um pecado original herdado, de tal modo que todas as crianças seriam geradas em pecado, do qual só o baptismo pode libertar?
E Jesus não foi enviado por Deus para ser morto e com a sua morte pagar a dívida infinita da Humanidade para com Deus e Deus aplacar a sua ira e reconciliar-se com a Humanidade. Que pai decente imporia isso ao seu filho querido, condenando-o à morte?
Caim, segundo Saramago, vai, castigado, pelo mundo, não sem perguntar a deus porque é que o não impediu de matar o irmão, Abel. Deus é, pois, co-responsável por esse acto...
Trata-se de um deus arbitrário, irresponsável, ciumento, pior do que nós.  
Ficamos arrepiados, quando lemos que Deus exigiu de Abraão que matasse o seu filho Isaac. O próprio filósofo Sören Kierkegaard, que propunha Abraão como modelo da fé incondicional, viu o horror da situação e diz que o miúdo voltou para casa e deixou de acreditar em deus e Abraão nunca disse uma palavra a Sara sobre o acontecido.
Sodoma e Gomorra. Lá também havia crianças inocentes. E deus não se lembrou delas?
Babel. Deus, em vez de castigar os homens pelo seu feito, deveria honrar-se com o êxito das suas criaturas. É ciumento, invejoso.
Também no Dilúvio, deus não teve compaixão para com os inocentes. A mesma acusação vale para a situação dos filhos primogénitos dos egípcios.
Ah, e, aquando do nascimento de Jesus, houve a matança dos inocentes e José não se preocupou. No regresso do Egipto nem sequer perguntou às mães pela sua dor...
Do pior: as guerras religiosas, pois é deus contra deus, e as vítimas são os homens e as mulheres e as crianças... Como é possível deus mandar matar, haver guerras em nome de deus?      
2. 2. Ernst Bloch foi mais longe. Sabendo Teologia e exegese, distinguiu muito bem duas camadas na Bíblia: a do deus dos senhores,  do deus dominador, tirânico, imoral e opressor e a do Deus da libertação e dignificação de todos. Em conexão, viu também dois tipos de Igreja: a Igreja dos senhores, a Igreja do poder inquisitorial, opressora, e a Igreja dos pobres, do bem, da justiça, da paz. Para Bloch, há um duplo fio condutor na Bíblia: o sacerdotal, em que domina o deus opressor, dos senhores, e o profético-messiânico-apocalíptico, que anuncia o Reino de Deus, a herdar meta-religiosamente como Reino do Homem: “Esta vida no horizonte do futuro veio ao mundo pela Bíblia.”
 Jesus agiu como um homem bom, escreve Bloch, “algo que ainda não tinha acontecido”. Ele personifica a bondade e o amor e nele exprime-se e realiza-se o melhor da esperança, o ainda não do que a Humanidade pode e deve ser. Ele não foi morto por Deus seu Pai, mas pelo religião do Templo, a religião dos sacerdotes, que viviam da exploração dos crentes.
O que devemos ao cristianismo? O próprio conceito de pessoa foi dentro dos debates à volta da tentativa de compreender Jesus Cristo que surgiu. Sabemos que nenhum homem pode ser “tratado como gado”: foi através de Jesus que o sabemos, porque nele, por ele e com ele, se proclama a dignidade infinita de todo o ser humano.
Onde é que nasceu a Declaração dos Direitos Humanos? Foi na China? Na Arábia?
Jürgen Habermas, o filósofo mais influente da actualidade, agnóstico, escreveu que a democracia não é senão a tradução para a política da ideia cristã de que cada homem e cada mulher são filhos de Deus. Isso, politicamente traduzido, dá um homem um voto, uma mulher um voto.
Não haveria o horror da pedofilia, também na Igreja, se se ouvisse a maior proclamação de sempre feita por Jesus sobre a dignidade das crianças: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino de Deus”, acrescentando logo a seguir: “Ai de quem escandalizar uma criança: mais valia atar-lhe uma mó de moinho ao pescoço e ser lançado ao mar”.
Tudo isto para repetir o que disse logo no início da minha fala: estou grato, muito grato, a Saramago, mas não aceito a sua afirmação: “A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele”. A sua leitura foi unilateral.

3. O que é ser ateu? Quando se diz que se é ateu, é preciso começar por perguntar o que se entende por isso e concretamente em relação a que Deus se é ateu.
Há dois modos de negação de Deus: a negação real e a negação determinada.
Por negação determinada entende-se a negação de um determinado deus, de uma certa imagem de deus. Foi o que Saramago fez. Como podia ele ou alguém intelectualmente honesto aceitar um deus cruel e sanguinário? Daí a inversão da oração de Cristo na Cruz, no Evangelho segundo Jesus Cristo.  Onde no Evangelho se diz: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”, lê-se em Saramago: “Homens, perdoai-lhe porque ele não sabe o que fez”.
A negação determinada não significa negação real. A pergunta é, portanto, se Saramago negou realmente Deus ou se, pelo contrário, na negação do deus arbitrário e sanguinário, não está dialecticamente presente o clamor pelo único Deus verdadeiro, o do amor incondicional, o do Anti-mal.
De qualquer modo, segundo Saramago, “Deus é o silêncio do universo, e o ser humano o grito que dá sentido a esse silêncio”. “Esta definição de Saramago é a mais bela que alguma vez li ou ouvi”, escreveu o teólogo Juan José Tamayo. “Essa definição está mais perto de um místico do que de um ateu”.
4. No final da minha intervenção, a viúva de Saramago, Pilar del Río, aproximou-se, agradeceu e disse-me: Sabe qual foi o contexto desse diálogo entre o meu marido e Tamayo? Íamos os três pela Plaza de la Giralda, em Sevilha, e os sinos da catedral repicaram,  e Saramago: “Os sinos tocam porque está um teólogo a passar”. E Tamayo retorquiu: “Não, os sinos repicam porque um ateu está prestes a converter-se ao cristianismo”.

Anselmo Borges

CONVERSAS NO ESPAÇO

























Hoje, 27 de Novembro, às 16h, realiza-se no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, a sessão de "Conversas no Espaço | European Space Talks", organizada pela SAC - Secção de Astronomia da Associação Académica de Coimbra. A entrada é livre e destinada ao público em geral.

CONVIDADOS:
 Bruno Ramos de Carvalho | CEO e co-fundador da Active Space Technologies
Alexandra Almeida | Innovation Manager na ESA BIC Portugal
José Pinto da Cunha | Coordenador do Mestrado de Astrofísica e Instrumentação para o Espaço Miguel Moita | Aluno de doutoramento e investigador no LIP - Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas

 Secção de Astronomia - AAC European Space Talks

 RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra Departamento de Física da FCTUC - Piso 0 Rua Larga 3004-516 Coimbra PORTUGAL Telefone: 239 410 699

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

O treino "pedagógico" da felicidade

"E, nos Estados Unidos da América, um estudo longitudinal 
concluiu que uma intervenção ao nível da primeira infância 
foi capaz de reduzir os índices de infelicidade das crianças 
em níveis de ensino mais avançados."
Andreia Lobo, 2018 (aqui)

Uma das orientações internacionais mais recentes e também mais fortes para os sistemas de ensino - na linha da "educação do futuro", da "educação do século XXI" - é que promovam, a curto prazo, medidas para tornarem os alunos felizes, isto a par de os tornarem bons cidadãos, saudáveis, empreendedores, resilientes, compassivos, com elevada auto-estima, etc.

Têm-se feito mudanças no currículo no sentido de promover a felicidade e desenvolvido programas com esse fim para serem aplicados em contexto escolar, a que se segue a medição dos seus efeitos nas crianças e nos jovens, podendo obter-se índices de felicidade.

Através dos Estados e servindo-se da educação formal, organizações como a OCDE, entram cada vez mais fundo na "alma" humana. E fazem-no em idades precoces, como convém para serem bem sucedidas.

De sentimento etéreo, indizível e fugaz, a felicidade passa a ideologia que se treina, segundo critérios de eficácia, num certo número de sessões.

A verdade é que não bem sei o que dizer quanto a isto: o que penso saber e intuir sobre a felicidade, o que considero ser a educação, sobretudo a que acontece na escola pública, foi (mais uma vez) distorcido. Que argumentos posso usar para explicar o que, para mim, é tão óbvio: que a felicidade, por ser um estado íntimo, que só ao próprio diz respeito, não é objecto de instrução?

Guardei um texto de José Tolentino Mendonça, publicado há dois meses (em 22 de Setembro) na revista do jornal Expresso por me parecer que ele decorreu de questão semelhante à minha. Aqui reproduzo o essencial desse texto:
Por irónico que possa parecer, a ideologia da felicidade – que hoje contamina todos os planos da vida e da sua representação – tem disseminado de modo maciço a frustração, a tristeza e a infelicidade. Tornamo-nos mais infelizes a partir do momento em que erguemos a felicidade como idealização que absorve o nosso imaginário e ainda não percebemos até que ponto esse conceito abstrato se tornou uma armadilha que nos aprisiona no seu inverso. Numa sociedade que faz da apologia da felicidade a todo o custo o seu credo, todos nos sentimos culpados e defraudados, incapazes de perceber que estado seja esse e como realmente se obtém. 
Basta olhar para as definições de felicidade: as únicas com sentido são aquelas que escapam sabiamente a todo o esquematismo (...). O que nos faz felizes tem de ser uma experiência infinitamente mais humilde do que o standard fantástico requerido pela ideologia da felicidade. 
Hoje ouve-se muitos pais dizerem acerca dos filhos e do seu futuro: “Não quero influenciar o rumo que o meu filho vai seguir (...) desejo apenas que ele seja feliz" (...). O amor, na verdade, não é desejar que alguém seja feliz, e ainda menos que seja apenas feliz. Como ensina Santo Agostinho, o amor é antes um volo ut sis, “quero que tu sejas”. Mais do que os estados que se atravessam e do que deve prevalecer para lá das horas solares ou noturnas, dos processos de florescimento ou de impasse, da dança descendente da penumbra ou do desenho aéreo do júbilo. Não podemos desejar que alguém seja apenas feliz.
Isso equivale a coartar a vida e a fantasiá-la perigosamente. Cabe-nos estimular os que amamos à corajosa aceitação da vida, no que ela tem de plenitude, mas também de vazio e até de deceção. Pois a quanta sabedoria só acedemos por essa ponte de corda que nos aparece suspensa sobre o abismo e pela qual caminhamos de olhos vendados e trémulos. 
Lembro-me muitas vezes de uma passagem de um poema de Giuseppe Ungaretti que diz: “Jamais, jamais sabereis quanto me ilumina/ a sombra que vem, tímida, colocar-se a meu lado/ quando desisto de esperar.” Nem sempre a sombra é o contrário da luz, como a árdua fadiga de viver não é o contrário da felicidade. São etapas do mesmo rio que corre. Há lágrimas que nos consolam tanto ou mais do que muitos sorrisos. E há dores que nos introduzem numa experiência de gestação e de comunhão, que não julgaríamos possível.