quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Os expurgados e os abençoados pela ADSE

Este meu artigo foi hoje publicado no jornal “As Beiras”. Reproduzo-o:

                                                     “A idade empurra-nos em direcção ao silêncio. 
As pessoas querem que não faças nada. 
Tenta evitar isso continuando em frente”.
Vidiadhar (Prémio Nobel de Literatura/2001).

Por ausência de esclarecimentos públicos da ADSE, quiçá, porque “de minimis non curat praetor” (o pretor não cuida de coisas menores) escrevi, de 2016 a 2018, nove artigos de opinião neste jornal. De entre eles, uma “Carta Aberta ao Presidente da República” (26/10/20017) por, em evocação de Victor Hugo, os velhos terem tanta necessidade de afecto como de sol.
Esta minha carta foi por mim enviada para a Presidência da República, tendo andado de Herodes para Pilatos, ou seja da Presidência da República para o gabinete do Primeiro-Ministro que a enviou, por sua vez, para ADSE que simplesmente me remeteu, qual raposa que toma conta do galinheiro, para o Decreto-Lei n.º 118/83, de 25 de Fevereiro, que esteve em banho-maria, talvez, por poder fazer mossa ao Partido Socialista em eleições. Este “status quo” não é previsível suceder nos dias de hoje de vacas gordas, embora com maus presságios para um futuro de vacas magras, em que as sondagens lhe são favoráveis embora as eleições nem sempre as confirmarem.
Minha mulher, familiar cônjuge, com 85% de invalidez e deslocando-se em cadeira de rodas, usufrui de uma magra reforma que pouco excede as duas centenas e meia de euros mensais, com descontos feitos para a Segurança Social durante 12 anos em que foi minha sócia de um ginásio de recuperação física, encontra-se inscrita na ADSE desde 1975.
Quando fez oitenta anos de idade, em arrevesada interpretação do que deve ser entendido por retroactividade das leis, foi-lhe retirado o cartão de familiar cônjuge sendo tratada de forma que só encontra paralelo na Grécia Antiga em que os deficientes eram lançados ao mar ou em precipícios.
Ou seja, a ADSE trata de forma draconiana os idosos e doentes cônjuges familiares casados, através de uma legislação havida qual inamovível Rochedo de Gibraltar, insistindo numa lei mal feita pese embora Edmund Burke ter enfatizado  que as leis mal feitas são a pior forma de tirania!
Ou seja, os idosos, doentes e deficientes com magérrimas pensões são tidos como trapos velhos lançados para uma espécie de antecâmara da morte onde uma operação chega depois do doente já ter morrido pela sua idade avançada ou “para um serviço de urgências quase caótico” (“Público”, 24/10/2016).
Ainda que em indiscutível medida de humanismo a ADSE, ao que parece, tendo como leitmotiv justificar clientela para numerosas convenções futuras, escancara as portas ao descalabro total do Serviço Nacional de Saúde, passando a abençoar um numeroso número de cônjuges beneficiários em união de facto e expurgando uns tantos idosos casados, “com pesares que os ralam na aridez e secura da sua desconsolada velhice” (Almeida Garreth).

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