quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Não há finais felizes. Que importa isso? "Dê-lhe contos de fadas".


“Na nossa pátria ainda abunda por todo o lado este tesouro 
que os nossos antepassados nos legaram.
Apesar de todo o ridículo e troça de que tem sido alvo,
ele sobreviveu em segredo, inconsciente da sua beleza 
e transportando a sua essência irreprimível. 
Se este tesouro não for estudado em pormenor, não se poderá 
compreender plenamente as origens autênticas e 
remotas da nossa poesia, da nossa história e da nossa língua.”
Jacob Grimm, circular de 1815 (aqui). 

"[O monstro da história A bela e o monstro] é perigoso 
porque o monstro mostra estar sempre perto da violência, 
reforçando a ideia de que se uma mulher esperar, 
consegue mudar o seu parceiro"
Victoria Cann (aqui).


Para uma ideia esquisita triunfar basta surgir, que logo começa a circular. Nada de novo neste antigo fenómeno no presente em que vivemos, com excepção de que, por este meio que eu e o leitor estamos a usar, espalha-se em segundos, ou menos do que isso, pelo mundo fora. Sem os filtros do conhecimento ou da "simples" ponderação, a crítica fica fragilizada, anulada, muitas vezes, ou, a existir, torna-se recatada; é, quanto muito, usada em surdina.

Isto é tanto mais certo se a ideia esquisita for veiculada por especialistas e se "sentirmos" no discurso que a veicula uma obrigação em a aceitarmos. Efeitos estudados na Psicologia Social estão aqui em destaque: "submissão à autoridade" (do especialista), "politicamente correcto", "conformismo social" são alguns deles.

Passo ao objecto deste texto.

Há umas três décadas, crescia, sobretudo nos Estados Unidos da América, uma "crítica" às histórias que, no Ocidente, por tradição, se contavam, às crianças, sobretudo àquelas que foram exemplarmente compiladas pelos irmãos Grimm.

Nesse clima, que se aproximava perigosamente de perseguição intelectual musculada, um americano, James Finn Garner, publicou o livro Contos de fadas politicamente correctos cujo sucesso conduziu a outro livro Mais contos de fadas politicamente correctos. A inteligência e o humor patentes em ambos deveriam fazer corar de vergonha os "críticos" a essas histórias.

Mas não fizeram, pois, como se sabe, a inteligência e o humor, que, de resto, andam de mãos dadas, não pode ser entendido por quem não tenha sido bafejado por eles. E a perseguição continuou.

Continuou e alojou-se em universidades, onde ganhou progressivo destaque. Ora, seria aí que isso não poderia, em circunstância alguma, acontecer, dada a vocação de estudo aprofundado e de análise racional deste tipo de escola.

Surgiram, em crescendo, estudos, que passaram para a comunicação social, que, por sua vez, passaram para as cabeças individuais, constituindo-se no pensar aceitável. Em textos que publiquei neste blogue - nomeadamente no A Bela não deu consentimento, estava adormecida! - dei conta de reacções de pessoas comuns em que esta transmissão é bem visível. Ver, também, a título de exemplo, notícias em português, aquiaqui, aqui, aqui.

Foi agora notícia o estudo de duas investigadoras (Victoria Cann, da Universidade de East Anglia e Laura Coffey-Glover, da Universidade Nottingham Trent) sobre as ditas histórias, mais precisamente sobre a sua versão fílmica, da Disney. Deixo, abaixo, algumas notas com base no que é dito na comunicação social (artigos estrangeiros: aqui e aqui; artigo em português: aqui), registando o título destacado de uma das notícias: "Não há finais felizes", dando o texto a ideia de que o conteúdo das histórias, o seu desenrolar e o remate se desviam do que "deve ser" a felicidade, à luz de parâmetros redefinidos na actualidade.
A Branca de Neve, promove o ciúme e a rivalidade feminina, cria uma relação errada entre o amor e a beleza (o homem alto, distinto do homem anão). A Bela Adormecida, promove a anorexia, a rivalidade entre mulheres. Ambas as histórias traduzem a dependência da mulher em relação ao homem.
A Pequena Sereia, abdica da sua condição, sua vida, da sua família e sobretudo do seu corpo e da sua voz em favor da paixão por um desses homens belos, que não pertence ao seu mundo.
A Bela e o Monstro é uma das histórias mais perturbadoras pois promove a violência doméstica: aquele príncipe transformado num animal perigoso faz a princesa prisioneira. Além disso, o feio é associada à maldade e o belo bondade, nada de mais enganoso para que as crianças se possam defender de ameças. 
Aladdin é uma história racista: as personagens boas têm pele clara e as más pele escura. Acresce que a princesa, para estar segura, é obrigada a casar com um rico e poderoso e quando se apaixona pelo pobre Aladino cai numa possessão que a cega. Há uma dupla e inaceitável dependência da mulher em relação aos homens.
A Cinderela veicula a ideia de que a beleza é requisito para se encontrar um marido rico e que o modo como nos apresentamos, nomeadamente o modo como nos vestimos, se sobrepõe ao nosso verdadeiro "eu". Também veicula a ideia de que a bondade é uma característica das mães e a perversidade uma característica das madrastas, o que num mundo com famílias tão diversas só pode ser disfuncional.
E continuam, mas prefiro não avançar nas suas considerações e recomendar algumas obras, anexando as sinopses que as acompanham e que subscrevo inteiramente.

Uma dessas obras, que li no tempo em que estudava Psicologia, é Psicanálise dos Contos de Fadas. Não sendo nada próxima da Psicanálise, tenho na maior consideração por alguns dos seus teóricos. Bruno Bettelheim, autor do livro abaixo mencionado é um deles.

"Bruno Bettelheim foi um dos grandes psicólogos infantis do século XX (...).

Da lenda de Sinbad aos Três Porquinhos, passando pela Bela Adormecida e pela Branca de Neve, estuda uma panóplia de contos de fadas, desvendando os seus significados mais profundos, libertados do simbolismo que camufla aprendizagens essenciais. Ao fazê-lo, torna-se clara a importância do papel que as histórias tradicionais desempenham no desenvolvimento infantil, com ecos até à nossa vida adulta.

Os contos de fadas podem ser fantásticos, cruéis e profundamente significativos, dotando-nos de um mapa para superar conflitos e dificuldades e encarar a maior tarefa de todas: dar sentido às nossas vidas."

“Os contos de fadas não inspiram na criança a sua primeira ideia de papão. Aquilo que os contos de fadas dão às crianças é a primeira ideia clara da possibilidade de vencer o papão. O bebé conhece bem o dragão desde que tem imaginação. O que o coto de fadas lhe dá é um S. Jorge para derrotar o dragão" G. K. Chesterton.

Outra dessas obras é Contos Maravilhosos Europeus, de Francisco Vaz da Silva, antropólogo e professor no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL) onde lecciona uma disciplina designada por Contos Populares Europeus. São sete volumes revelando investigação de três décadas e passagem por universidades estrangeiras.

"Coloca o universo dos contos tradicionais ao alcance do grande público, facultando conhecimentos especializados de um modo acessível a não especialistas. Cada um dos volumes da colecção apresenta as variantes literárias mais relevantes de um certo conto e as variantes orais ilustrativas do mesmo. Todas as variantes são apresentadas em texto integral, com comentários sucintos.
Os contos apresentados resultam de uma selecção a partir de fontes diferentes em várias línguas e foram traduzidos para o português contemporâneo a partir dos textos originais."

"Os contos tradicionais ditos maravilhosos, ou de fadas, descrevem terríveis tribulações, prodígios de abnegação, sofrimentos insondáveis; mas simultaneamente dão a entender que o sofrimento gera a compreensão, o sacrifício propicia a renovação, a abnegação prepara proventos futuros. Incitam auditores e leitores a não baixar os braços, convidam a porfiar. Proclamam que a crise é necessária ao crescimento, que a adversidade fornece alento e inspiração. Os contos tradicionais maravilhosos são, ontem como hoje, um importante recurso espiritual."

A terceira dessas obras, em três volumes intitula-se Contos da infância e do lar e é coordenada pelo mesmo Francisco Vaz da Silva.

"Dirigido inicialmente a um público adulto, muitas das cenas potencialmente chocantes que figuravam nos manuscritos originais de 1810 e na primeira edição de 1812 foram posteriormente suavizadas na edição de 56/57, adequando-se ao gosto e convenções morais burguesas e aos destinatários infantis, e afastando-se, por isso, das suas fontes populares e literárias. Independentemente de todas as críticas da etnografia e filologia especializadas, são inegáveis a seriedade fecunda e labor criativo dos Grimm.

Para o estudioso e para o leitor comum, as descrições e diálogos, bem como os provérbios vivos e as poéticas sonoridades, passam agora a importar tanto quanto os motivos e enredos em que se movimentam essas nossas conhecidas, ancestrais e mágicas personagens

Para além de modelo para recolhas de contos populares posteriores um pouco por toda a Europa, as exaustivas e absorventes pesquisas dos irmãos Grimm foram absolutamente essenciais também enquanto manifesto defensor da legitimidade da literatura oral e tradicional, consubstanciando a etnografia, e o conto em particular, como projeto válido e precioso.

O remate deste texto só pode ser um conselho: independentemente da idade ou de outra coisa qualquer, quem puder, quando puder, leia contos de fadas e deixe-se levar pela sua magia para onde quer que ela o leve. E dê-os a ler...

Este conselho é, ao que se diz, de Albert Einstein a uma mãe que lhe perguntou como poderia tornar o filho, ainda criança, tão inteligente como ele: "Dê-lhe contos de fadas".

4 comentários:

  1. Magnífico, admirável, imperdível artigo! Gosto tanto que gostaria de ter sido eu a escrevê-lo. Vou partilhar.

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  2. Eu gosto d'O Patinho Feio.

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  3. Porque ele, afinal, não era feio.

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  4. Em certos meios meios, sou visto como uma ovelha negra...
    À luz do sol, a minha pele é láctea!

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