segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Agenda Solidária IPO



O IPO de Lisboa publicou a Agenda Solidária 2019, para o qual pediu a minha colaboração, 
que dei com todo o gosto por se tratar de uma boa causa. Como o tema era festejar,
escrevi este pequeno texto sobre uma minha festa recente, que a Marta Torrão ilustrou. 
Deixo aqui o meu singelo contributo, recomendando vivamente a aquisição da agenda 
que conta também com as colaborações de  Alice Vieira (escritora),  António 
Barreto (sociólogo), Cristina Ferreira (apresentadora), Eduarda Abbondanza (estilista),
Fernando Santos, José Gameiro (psiquiatra), Júlia Pinheiro (apresentadora), 
Laurinda Alves (jornalista), Luís Marques Mendes (político), Maria Antónia de Almeida Santos
(deputada) e Pedro Abrunhosa (músico).







CELEBRAR O FIM DO CURSO


 Fui, tanto quanto sei, a primeira pessoa a completar um curso superior na minha família, uma família humilde com raízes em Trás-os-Montes e Alto Douro. Corria o ano de 1978, estando o Verão a começar, quando terminei o curso de Física na Universidade de Coimbra. Aos 22 anos aproximava-se do fim a minha Primavera, o nome que podemos dar ao nosso tempo de formação, o tempo de preparação para a vida. Ainda haveria de estudar mais três anos e meio, na Universidade Goethe em Frankfurt/Main na Alemanha, até completar um doutoramento em Física Teórica. Só aos 26 anos, passados 20 anos depois de ter entrado pela primeira vez na escola, terminaria a minha preparação académica.

 Hoje, quase a passar o Verão da minha vida, recordo as celebrações que se seguiram à licenciatura, a chave que me foi essencial para entrar na vida plena. Os meus pais não quiseram deixar de fazer uma festa familiar, que teve lugar à volta da mesa na aldeia de Sedielos, Peso da Régua, nas faldas da serra do Marão. Confesso que, na altura, não percebi bem o motivo de tamanho júbilo, pois eu não tinha feito mais do que a minha obrigação, uma obrigação que de resto não me tinha pesado em demasia. Mas hoje percebo bem a alegria dos meus pais, os dois já falecidos (o meu pai, com um problema oncológico que lhe debilitou os últimos anos). Ao celebrar eles queriam mostrar o seu compreensível orgulho de terem um filho “doutor”. Antes dessa, já tinha havido uma outra celebração, esta com os meus colegas de curso, dois rapazes e uma rapariga (éramos quatro como os mosqueteiros!). Organizámos um almoço num restaurante perto de Coimbra, um encontro que foi fixado para a posteridade na máquina fotográfica de um de nós.

 Passaram em Junho passado quatro exactas décadas sobre essa fotografia, pelo que decidimos fazer outra. E, pela primeira vez após o curso, reunimo-nos de novo os quatro. Voltámos a celebrar, os mesmos e quase no mesmo sítio. Os dois rapazes são professores em três universidades portuguesas, depois de se terem doutorado na Alemanha e no Reino Unido, pelo que não tiveram de vir de longe. Mas a rapariga, com percurso em Boston, em Bruxelas e noutras partes do globo, veio do outro lado do mundo, mais precisamente do Myanmar, antiga Birmânia. Brindámos com espumante baga, genuinamente português. Já não tínhamos a mesma juventude de há 40 anos, mas ainda éramos os mesmos, pelo que reatámos a conversa, como se tivéssemos saído do último exame. Tínhamos todos, entretanto, vivido muito, pelo que o jantar não chegou para trocar todas as nossas ricas experiências de vida. Histórias de alegria e tristeza, amor e desamor, de saúde e doença, mas onde prevalecia o estarmos vivos. A vida é um bem maravilhoso, decerto o mais precioso de todos. Celebrámos a vida e a amizade. A nossa vida, que ainda tem um Outono pela frente, e a nossa amizade, que é intemporal. Como disse o escritor latino Públio Sírio: “A amizade que acaba é aquela que nunca começou.” E a nossa tinha começado há muito…

 Carlos Fiolhais
(Professor de Física da Universidade de Coimbra e divulgador de ciência)

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