terça-feira, 25 de setembro de 2018

POR UM MUSEU DAS DESCOBERTAS EM LISBOA


Extracto da entrevista de Jared Diamond deu a David Marçal (parabéns David pela excelente entrevista!) e que foi publicada no Público de domingo:

O presidente da Câmara de Lisboa quer fazer um museu das descobertas. Algumas pessoas argumentam que a palavra “descoberta” esconde a escravidão e a colonização que se seguiram. Acha que devíamos ter um museu das descobertas em Lisboa?

Claro que devíamos ter um museu das descobertas em Lisboa! Possivelmente, a coisa mais importante acerca de Portugal nos últimos 600 anos foram as grandes descobertas feitas por navegadores portugueses. É verdade que Vasco da Gama não descobriu a Índia. Descobriu o caminho marítimo para a Índia. E também não é verdade que um português tenha descoberto o Brasil, já havia um milhão de nativos americanos a viver no Brasil, mas um navegador português foi o primeiro europeu a chegar ao Brasil. E isso teve uma importância enorme para a história mundial, porque levou à colonização europeia do Novo Mundo. Se Lisboa só pudesse ter um museu e tivéssemos de demolir todos os outros, esse único museu deveria ser das descobertas. Mas teríamos de entender o que significa descobertas.

Se escrevêssemos apenas uma página sobre Portugal num livro de história mundial, esse deveria ser o tema? Não o tráfico de escravos transatlântico?
É verdade. Claro que a coisa mais importante acerca de Portugal na história mundial foi o seu papel na expansão europeia pelo mundo. E a expansão europeia no mundo significou muitas coisas, boas e más. Significou o tráfico de escravos transatlântico, o que é mau. Significou a importação de sementes do Novo Mundo para a Europa, o que foi bom para a Europa. Significou o desenvolvimento de sociedades agrícolas altamente produtivas na Argentina, o que é bom. Uma pessoa pode ser selectiva tanto positiva como negativamente. Se uma pessoa disser que a descoberta portuguesa do Novo Mundo foi a coisa mais maravilhosa dos últimos 600 anos... não, disparate! Resultou no tráfico de escravos transatlântico e na matança da maioria dos nativos americanos, o que é mau. Se quisermos dizer que a descoberta portuguesa do Novo Mundo foi inteiramente má... não, não foi! Muitas pessoas querem que a vida seja simples. Que seja tudo bom ou mau. Lamento, talvez a vida seja assim na nebulosa de Andrómeda, mas aqui na Terra o bom e o mau misturam-sei.


O que aconteceu quando os europeus se encontraram com os nativos americanos foi em grande parte inevitável?
Infelizmente, sim. Ao longo da história humana quando povos mais poderosos encontraram povos menos poderosos, o resultado foi quase sempre a conquista, a expulsão, às vezes o extermínio dos povos menos poderosos. Foi apenas nos últimos 80 anos que começámos a ter excepções. Quando os europeus “descobriram” as ilhas da Nova Guiné, havia lá populações densas de milhões que viviam com tecnologia da Idade da Pedra. Quando os europeus chegaram, não os mataram todos porque em 1930 já não era considerado aceitável que os europeus exterminassem e expulsassem outros povos. Mas se os europeus tivessem descoberto as ilhas da Nova Guiné 80 anos antes, claro que os teriam matado ou expulsado a todos. Os comportamentos melhores são relativamente recentes. Isto não quer dizer que todos os comportamentos humanos nos últimos 80 anos foram bons. Podemos pensar em várias coisas que aconteceram na II Guerra Mundial que não foram boas.


Deveria um chefe de Estado português pedir desculpa pelo papel do país no tráfico transatlântico de escravos?
Caramba! Eu oiço esse argumento em relação à Austrália. Não estou familiarizado com os argumentos acerca de Portugal, mas devem ser sem dúvida semelhantes. Devem os australianos modernos pedir desculpa pelo que os europeus fizeram aos aborígenes australianos a partir de 1788, quando os britânicos colonizaram a Austrália? Eles mataram, infectaram com doenças e expulsaram das suas terras os aborígenes australianos. Devem os europeus modernos pedir desculpa pelo que os europeus de 1830, 1880 e 1920 fizeram? Um primeiro-ministro australiano chamado John Howard disse que os australianos modernos não devem pedir desculpa pelas coisas que os seus tetravós fizeram, mas sim pelas coisas que fazem hoje. Outros australianos acham que devem pedir desculpa por coisas que o seu povo, os seus antepassados, fizeram. É semelhante nos Estados Unidos. Devem os americanos brancos modernos pedir desculpa pela escravatura? Alguns americanos dizem que sim, outros dizem que foram os seus tetravós, como é que podem pedir desculpa pelo que eles fizeram? É um debate em aberto. A resposta para Portugal deve ser semelhante. Não foi você ou os seus colegas de escola que fizeram o tráfico transatlântico de escravos. Foram os vossos tetra-tetra-tetra-tetravôs. Sente-se responsável pelos actos deles?

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