sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Património da ciência O património material das mais antigas universidades portuguesas


Meu artigo no último Colóquio Letras (na imagem o Laboratorio Chimico da Universidade de Coimbra):

Património significa, segundo o Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, «conjunto dos bens materiais e imateriais transmitidos pelos antepassados e que constituem uma herança colectiva». Quando se fala em património, pensa-se imediatamente em cultura e, como a ciência é parte da cultura, os edifícios, instrumentos e demais objectos científicos são decerto património cultural. A ciência é fonte de património, na medida em que resulta de um processo histórico que deixou abundantes marcas que importa preservar, para já não falar do património imaterial que a própria ciência constitui: a ciência é um corpo consolidado de conhecimentos, mas é sobretudo um método de produzir novos conhecimentos a respeito do mundo.

A educação superior, nas suas várias áreas disciplinares, não é mais do que a transmissão de uma parte, convenientemente escolhida, da herança recebida das gerações que nos precederam. A herança científica portuguesa é antiga, pois sempre houve ciência no país, existindo testemunhos muito valiosos dessa herança do tempo em que se percorreram mares desconhecidos. Nos séculos XV e XVI Portugal escreveu páginas da história mundial e para isso muito contribuiu o conhecimento científico e técnico. Se, depois disso, nem sempre foi criada ciência entre nós, o facto é que ela nunca deixou de ser ensinada. As universidades foram os sítios onde, na Idade Média, a ciência se estabeleceu e foram também os sítios onde, nos séculos XVI e XVII, teve lugar a Revolução Científica. No início do século XIX com a criação e difusão do conceito humboldtiano de universidade de investigação, as universidades viram reforçado o seu papel no conjunto das instituições científicas, onde se incluem outras instituições como academias de ciências e os laboratórios estatais e privados que emergiram com a Revolução Industrial.

Portugal tem uma das mais antigas universidades do mundo, a Universidade de Coimbra (a décima mais antiga entre aquelas que tiveram actividade ininterrupta), que sempre tentou adaptar-se às alterações que iam ocorrendo à escala global do conceito de universidade, empreendendo as necessárias reestruturações.

Neste Ano Europeu do Património Cultural, afigura-se oportuno valorizar o património associado à produção e transmissão de ciência em Portugal e, em particular, valorizar o património associado às quatro universidades nacionais mais antigas e, portanto, com maior património histórico: em primeiro
lugar, a Universidade de Coimbra, a mais antiga de todas por ser herdeira da Universidade fundada em Lisboa por D. Dinis em 1290; depois a Universidade de Évora, ligada intimamente à Companhia de Jesus e que funcionou entre 1559 e 1759, para só ser restabelecida em 1979; e, finalmente, com fundação paralela em 1911, logo no início da 1.ª República, as Universidades de Lisboa e do Porto, herdeiras de escolas pré-existentes, designadamente em Lisboa a Escola Politécnica e a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, e no Porto a Academia Politécnica e a Escola Médico-Cirúrgica do Porto.

A ciência e a tecnologia conheceram uma expansão muito forte em Portugal após a adesão à União Europeia em 1986 e, mais acentuadamente, após a constituição em 1995 do Ministério da Ciência e Tecnologia, cujo primeiro titular foi José Mariano Gago. Não admira por isso que as questões da
história da ciência, ligadas de perto ao património da ciência, tenham vindo a ser cada vez mais objecto de estudo entre nós. Com efeito, têm sido escritos numerosos artigos e memórias sobre a história da ciência em Portugal, embora sejam raros os trabalhos de síntese. Por outro lado, algumas iniciativas de recuperação de património científico — em particular o que está ligado às universidades históricas — têm tido lugar ou estão a ser preparadas. Neste artigo, apresenta-se um resumo do património científico material que está à guarda das nossas universidades históricas.

Universidade de Coimbra

A Universidade de Coimbra (UC), herdeira da universidade medieval fundada em Lisboa, chegou a Coimbra em 1308, alguns anos após a sua criação. De facto, foi em Lisboa que D. Dinis fundou a primeira universidade portuguesa em 1290, ao promulgar a carta Scientiae thesaurus mirabili (de 1 de Março desse ano), que conferia vários direitos aos estudantes do Estudo Geral de Lisboa. O Papa Nicolau IV reconhece-a pouco depois através da bula De statu regni Portugaliae. Incluía as Faculdades de Cânones, Leis e Medicina. Mostrando a sua estreita ligação ao poder régio, funcionou em Coimbra no Paço Real, hoje Paço das Escolas, o sítio mais central e monumental da UC. Após algum vaivém entre Lisboa e Coimbra, foi fixada nesta cidade em 1537 pelo rei D. João III, cuja estátua domina o Pátio das Escolas. Marcos fundamentais da sua história foram a Reforma Pombalina, empreendida em 1772 pelo Marquês de Pombal, que se deslocou propositadamente a Coimbra em representação do rei D. José para instaurar a mudança. Datam desse tempo das Luzes duas novas faculdades, a de Matemática e a de Filosofia, contendo sítios essenciais do nosso património científico: o Laboratorio Chimico, o Gabinete de Física Experimental, o Gabinete de História Natural, o Observatório Astronómico e o Jardim Botânico. Acrescem o Hospital Universitário e o Dispensário Farmacêutico, associados à Faculdade de Medicina. Para isso foram aproveitados notáveis edifícios quinhentistas que pertenciam aos jesuítas: o complexo formado pelo Colégio de Jesus, fundado em 1542 pelos padres inacianos, e pelo Colégio das Artes, fundado também em 1542 mas apenas entregue aos jesuítas em 1555, onde se frequentavam cursos pré-universitários. A 1.ª República conduziu, em 1911, a nova reforma da UC, com o fim das duas
faculdades pombalinas, que foram integradas na nova Faculdade de Ciências, antecessora da actual Faculdade de Ciências e Tecnologia.

Um bom exemplo de valorização do património científico foi a inauguração em 2006 do Museu da Ciência da UC (MCUC), ao fim de um longo processo que, através de requalificação arquitectónica, a cargo de João Mendes Ribeiro e do Atelier do Corvo, visou transformar num moderno espaço expositivo o Laboratorio Chimico, criado em 1773. A exposição permanente que tem estado patente desde a abertura do museu, intitulada «Segredos da Luz e da Matéria», combina vários objectos históricos das colecções da UC com modernos módulos interactivos, construídos com vista à apropriação pelo público de ideias científicas essenciais. Essa chamada «prefiguração» do MCUC teve lugar num edifício que foi um dos primeiros em todo o mundo construído propositadamente para o ensino experimental da Química, uma vez que esta disciplina estava então a emergir. O processo de prefiguração permitiu não só abrir ao público um novo pólo de cultura científica em Coimbra e no país, como também preparar conteúdos e conhecimentos para a segunda fase do desenvolvimento do MCUC, que contempla uma intervenção de maior envergadura no edifício do Colégio de Jesus, em frente ao Laboratorio Chimico. Foi realizado em 2008 um concurso internacional de arquitectura para a transformação do edifício em museu, mas, nos últimos anos, pouco ou nada se avançou, para além de uma progressiva abertura ao público dos espaços com museologia antiga naquele Colégio.

Sendo um dos mais antigos da Companhia de Jesus em todo o mundo, talvez mesmo o mais antigo (é do mesmo ano o Colégio de Santo Antão-o‑Velho, em Lisboa), o Colégio de Jesus alberga coleções museológicas de relevância não só nacional mas também internacional. Por exemplo, o Gabinete de
Física foi reconhecido em 2014 pela Sociedade Europeia de Física como Sítio Histórico de Física, após alguns dos seus instrumentos terem estado expostos na Europália, em Charleroi, Bélgica, em 1991, e na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, em 1997. Mas a extensão do Colégio — possui três pátios interiores — permite que, devidamente recuperado e liberto da actual ocupação, seja o espaço adequado para mostrar um vasto e valioso legado patrimonial em várias áreas da ciência (astronomia, física, química, geologia, biologia, antropologia, medicina, farmácia, etc.), que se encontra ainda disperso e que deveria ser objecto de moderna musealização. Por exemplo, existem hoje colecções visitáveis de Etnologia (com uma notável secção relativa aos índios da Amazónia), no edifício do antigo Colégio de São Bento, e de Anatomia Patológica, no antigo edifício da Faculdade de Medicina.

O enorme esforço de recuperação patrimonial realizado na primeira fase do MCUC foi decerto uma extraordinária mais-valia para concretizar com êxito a candidatura da UC — Alta e Sofia a Património Mundial da UNESCO, que ocorreu em 2013. Já antes, em 2008, o MCUC tinha sido distinguido pelo Fórum Europeu dos Museus com o prémio Micheletti para o melhor museu de
ciência e tecnologia. Várias dificuldades terão de ser enfrentadas no processo, que se deseja próximo, da segunda fase do Museu: uma é a constituição de reservas com as devidas condições para albergar a maioria do espólio científico e mesmo não científico da UC, que é muito numeroso por ter escapado
a calamidades como incêndios que ocorreram noutras universidades; outro é a própria definição dos conteúdos do Museu, uma vez que existem na UC colecções que não são de natureza científica (por exemplo, de arte sacra, ligadas à Capela da UC, e de tradições estudantis, no Museu Académico); outro ainda é o financiamento do projecto de restauração do edifício e sua moderna musealização,
para já não falar da necessidade de um modelo funcional de gestão (existiu uma Fundação Museu de Ciência, formada pela UC e pela Câmara Municipal de Coimbra, mas ela foi dissolvida no tempo da troika).

Não é demais realçar a relevância cultural dos dois colégios jesuítas de Coimbra, quer do ponto de vista religioso quer científico. Eles foram sítios onde muitos missionários se prepararam para partir rumo ao Oriente (como o grande mediador entre as culturas ocidental e chinesa que foi o italiano
Matteo Ricci) e foi também o sítio que recebeu os primeiros japoneses, convertidos ao cristianismo, a chegar à Europa. Os dois colégios jesuítas de Coimbra, juntamente com o Colégio de Santo Antão em Lisboa e o Colégio do Espírito Santo em Évora, foram, nos séculos XVI e XVII, importantes pontos
de passagem de matemáticos e astrónomos de diversos países europeus, que pretendiam estudar ou ensinar antes de se dirigirem para o Oriente (por exemplo, o austríaco Grienberger e os italianos Lembo e Borri, que contribuíram para a divulgação das descobertas feitas por Galileu em 1609). Os colégios de Coimbra dispunham, como espaço de uso comum, de uma cozinha e refeitório, e nesse sítio foi erguido, pelo arquitecto militar inglês Guilherme Elsden, o edifício de fachada neoclássica do Laboratorio Chimico. Apesar de os Jesuítas terem sido, nos séculos XVI e XVII, famosos pedagogos (correram mundo os  Conimbricenses, comentários a Aristóteles por onde estudou Descartes), o seu ensino degradou-se ao ficar retido na neoescolástica, num tempo que era de renovação intelectual na Europa, não admirando por isso que, na afirmação de um projceto de poder muito pessoal, o Marquês de Pombal tenha, em 1759, expulsado a Ordem do território português, num processo que culminaria
com a sua extinção pelo papa Clemente XIV em 1773. O amplo edifício do Colégio de Jesus, no qual está inserida a Sé Nova (pertencente à diocese de Coimbra), foi adaptado a lugar universitário pela Reforma Pombalina, com a instalação de gabinetes e museus ao serviço da nova Faculdade de Filosofia, e do Hospital Universitário (com um projectado Teatro Anatómico, sobre o qual
se sabe muito pouco), ligado à Faculdade de Medicina. Os bens patrimoniais ligados à Reforma Pombalina, que pretendeu romper com a neoescolástica vigente e estabelecer o ensino experimental, estiveram na origem do MCUC, procurando este valorizar coleções antes dispersas por pequenos museus universitários, pouco cuidados por manifesta falta de meios. Os instrumentos e modelos de astronomia, física, química, história natural e medicina do século XVIII documentam bem o modo como foi perseguido o ideal iluminista da busca do conhecimento por via experimental. Mestres dessa época foram os italianos Dalla Bella, físico, e Vandelli, químico e naturalista. Aos instrumentos
setecentistas juntaram-se outros dos séculos XIX e XX e, mais recentemente, as colecções do extinto Museu Nacional da Ciência e da Técnica, criado por Mário Silva em 1971, mas com vida curta, uma vez que fechou em 2012.

Outros espaços da «cidade dos estudantes» têm um valor patrimonial enorme: o Jardim Botânico, o segundo mais antigo do país e o primeiro de natureza universitária, também ligado à Reforma Pombalina. O espaço de 13,5 hectares é um dos tesouros da cidade, dividido entre uma parte ajardinada e outra florestal, conhecida por Mata do Jardim Botânico, que faz a transição entre a Alta e a Baixa vencendo um dos declives da cidade.

Mas há outros edifícios de ciências que têm valor patrimonial como o Instituto Geofísico, estabelecido em 1864 perto do Penedo da Saudade, e que foi o primeiro observatório magnético do país e também o primeiro observatório sismológico (o nome original era Observatório Meteorológico e Magnético), e o Observatório Astronómico, em Santa Clara, erguido no tempo do Estado Novo nos arredores da cidade, para substituir o belo Observatório que existia desde 1799 no Pátio das Escolas, em frente da Biblioteca Joanina, e que foi destruído num ato que não pode deixar de ser considerado lesivo da cultura científica (alegadamente para «limpar as vistas para o Mondego»). Esse Observatório no Pátio sucedeu a outro que começou a ser construído nas ruínas do castelo de Coimbra, no sítio onde está hoje a estátua de D. Dinis, e do qual já nada resta.

Universidade de Évora

A Universidade de Évora (UE) foi criada em 1559 pelo Cardeal D. Henrique, arcebispo de Évora e futuro rei, concretizando uma proposta que remonta ao tempo do rei D. João III, e tendo por base o Colégio do Espírito Santo, que ele próprio começou a construir em 1550 e a seguir entregou à Companhia de Jesus, que a geriu até à extinção da Ordem. O mesmo edifício voltaria a funcionar como escola de ensino superior em 1973, quando o ministro da Educação Nacional Veiga Simão criou o Instituto Universitário de Évora, que em 1979 se transformou na actual UE. A UE que funcionou durante dois séculos não era uma universidade completa, pois aí não se ensinava nem Medicina nem Direito Civil e parte do Direito Canónico. Dada a circulação de docentes na rede de colégios jesuítas, alguns professores foram comuns a Évora e a Coimbra, como Pedro da Fonseca, o mais importante filósofo português do século XVI, que a seu modo tentou renovar o pensamento aristotélico. À semelhança da de Coimbra, a UE não se revelou muito aberta à renovação imposta pela Revolução Científica. Ainda no tempo pombalino, o edifício do Colégio do Espírito Santo continuou a ser lugar de ensino. No século XIX foi sede da Casa Pia eborense, do Liceu Nacional de Évora e da Escola Comercial e Industrial da cidade.

No Colégio do Espírito Santo existe um precioso conjunto de azulejos de temas científicos, nas catorze salas de aula dispostas em volta de um claustro quadrangular. Alguns deles representam cenas de experiências, como a célebre experiência dos hemisférios de Magdeburgo, realizada nessa cidade alemã em 1634 por Otto von Guericke. Esses azulejos, que ocupam as salas, foram colocados no tempo de D. João V, com base em cartões holandeses, mas existem azulejos mais antigos no edifício, em particular na actual Sala dos Actos (antiga Capela). As salas de aula conservam ainda as respetivas cátedras, bancos corridos dos alunos, púlpitos e portas de madeiras exóticas. Hoje o Colégio está incluído num conjunto que é Património Mundial da UNESCO desde 1986.

Universidade de Lisboa

A Universidade de Lisboa (UL) é a maior universidade do país sob todos os aspetos, após a fusão ocorrida em 2012 entre a Universidade Clássica e a Universidade Técnica de Lisboa. A primeira foi criada por um governo da 1.ª República em 1911, ao passo que a segunda remonta a 1930, embora a sua maior escola, o Instituto Superior Técnico (IST), tenha sido criada em 1911, sob o impulso de Alfredo Bensaúde.

Na altura da fundação da Universidade por D. Dinis, ela localizava-se no Campo da Pedreira, entre a atual Rua Garrett e o Convento da Trindade, no centro histórico de Lisboa. Em 1431 o Infante D. Henrique apoiou a Universidade, ao dar-lhe vários edifícios, onde hoje é a Rua das Escolas Gerais, em Alfama. São dessa época as mais antigas referências a estudos de Astronomia na universidade portuguesa, com o fim de ajudar na náutica.

Quando a Universidade foi transferida definitivamente para Coimbra, era mestre em Lisboa um dos maiores cientistas portugueses de todos os tempos, Pedro Nunes, o «cosmógrafo-mor do reino» que foi depois ensinar para aquela cidade. Um colega de Pedro Nunes, o médico Garcia da Orta, não o acompanhou, pois estabeleceu-se em Goa.

No século XIX, após a Revolução Liberal, sentiu-se que a UC já não conseguia satisfazer todas as necessidades de ensino numa época que começava a ser marcada pela Revolução Industrial. Foram assim criadas a Régia Escola de Cirurgia (1825), situada no Hospital de São José, à qual se sucedeu, em 1836, a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e, em 1911, a Faculdade de Medicina da UL. Em 1837, no quadro da reforma de Passos Manuel, foi fundada a Escola Politécnica, instalada no Príncipe Real, no antigo Colégio dos Nobres — uma instituição, criada pelo Marquês de Pombal numa antiga casa de jesuítas (o Noviciado da Cotovia), que não foi bem sucedida. Em 1911 foram criadas a Faculdade de Ciências, que substituiu a Escola Politécnica, e a Faculdade de Medicina, que substituiu a Escola Médico-Cirúrgica. Em 1906 a Escola Médico-Cirúrgica recebia em novas instalações no Campo de Santana o XV Congresso Internacional de Medicina.

O edifício da Escola Politécnica é hoje a sede dos Museus da UL/ Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC), cujo espólio é considerável e poderia ser maior não fora o trágico incêndio de 1978. O edifício, de fachada neoclássica, foi construído entre 1857 e 1878 sobre as ruínas de um outro, destruído por um incêndio em 1843, onde tinha estado o Colégio dos Nobres, no século XVIII. Um dos sítios de maior interesse, até porque escapou ao incêndio mais recente, é o Laboratório Químico, construído na segunda metade do século XIX, restaurado e aberto ao público em 2007. Tem em anexo um anfiteatro, onde foram dadas aulas de Química durante muitos anos (destacou-se no século XIX o químico Agostinho Lourenço) e reservas museológicas visitáveis. Perto está o Observatório Astronómico da Escola Politécnica, fundado em 1875, e o Observatório Meteorológico do Infante D. Luís, fundado em 1853 — o mais antigo do país. O Jardim Botânico de Lisboa, iniciado em 1873, anexo ao MUHNAC, não é o mais antigo do país, mas sim o Jardim Botânico da Ajuda, pertencente ao Instituto Superior de Agronomia da UL, que faz 250 anos em 2018. À UL pertence ainda o Jardim Botânico Tropical, junto aos Jerónimos, em Belém, que remonta a 1906. Os dois primeiros são mais pequenos: têm quatro hectares, ao passo que o terceiro tem sete.

Além das que estão depositadas no MUHNAC, a UL conta com outras coleções científicas, dispersas por vários locais. A Faculdade de Medicina, em particular, possui um valioso património histórico. Em 2005, o Núcleo Museológico dessa faculdade foi transformado em Museu de Medicina, ocupando
um espaço provisório no edifício principal da Faculdade, e procurou relacionar ciência e arte. Mais recentemente foi celebrado um acordo que permite uma integração, pelo menos parcial, no MUHNAC. Existe ainda o Museu Egas Moniz, constituído em 1957 no Hospital de Santa Maria. Inclui cerca de 400 objectos do Nobel da Medicina e Fisiologia, dispostos de modo a narrar o seu percurso científico.

Por seu lado, no IST existem os seguintes museus com conteúdos de Ciências da Terra e de Engenharia: Museu Alfredo Bensaúde, de mineralogia e petrologia; Museu de Engenharia Civil; Museu Décio Thadeu, sobre geologia e jazigos minerais; e Museu Faraday, com instrumentos elétricos.

Para completar o elenco de edifícios e colecções históricas da UL, há que referir o Observatório Astronómico de Lisboa, na Tapada da Ajuda, construído em 1861.

Universidade do Porto

A Universidade do Porto (UP) foi criada em 1911 ao mesmo tempo que a de Lisboa. São suas antecessoras mais remotas a Aula de Náutica, fundada por D. José I em 1762, e a Aula de Debuxo e Desenho, fundada por D. Maria I em 1779. A UP assentou em duas instituições de ensino superior
oitocentistas: a Academia Politécnica e a Escola Médico-Cirúrgica do Porto. A Academia Politécnica tinha como fim principal o ensino das ciências industriais e formava engenheiros, além de oficiais de marinha, pilotos, comerciantes, agricultores, directores de fábricas e artistas. Herdeira em 1837
da Academia Real da Marinha e Comércio do Porto, criada em 1803 pelo Príncipe Regente D. João (futuro D. João VI), surgiu, tal como a sua congénere de Lisboa, em resultado da reforma de Passos Manuel. Foram cientistas notáveis da Academia Politécnica o matemático Gomes Teixeira e o químico Ferreira da Silva. Por sua vez, a Escola Médico-Cirúrgica do Porto surgiu em 1836, sucedendo à Real Escola de Cirurgia, criada em 1825 por D. João VI, e funcionava junto ao Hospital da Misericórdia do Porto, hoje Hospital de Santo António. A nova escola médica fixou-se neste Hospital, anexando uma Escola de Farmácia. Em 1911, surgiu a UP, que inclui a Faculdade de Ciências, destinada ao ensino das várias ciências exactas e naturais, e tendo anexas as cadeiras de engenharia da Academia Politécnica do Porto, e a Faculdade de Medicina, tendo anexa uma Escola de Farmácia. Em 1915 foi criada a Faculdade Técnica que viria a ser renomeada Faculdade de Engenharia em 1926. A Faculdade de Farmácia autonomizou-se em 1921 da Faculdade de
Medicina.

Estabelecido em 2015 como resultado da fusão dos preexistentes Museu de História Natural e Museu da Ciência (Núcleo da Faculdade de Ciências), o Museu de História Natural e da Ciência da UP (MHNC-UP) propõe-se desenvolver e difundir conhecimento sobre a evolução do mundo vivo e procurar pontes entre a ciência e a arte. Pretende preservar, valorizar, estudar e divulgar património ligado às actividades de educação e de investigação levadas a cabo pela UP ao longo do tempo. Possui um pólo central no edifício da Reitoria da UP, na Praça dos Leões, em zona classificada em 1996 como Património Mundial, e outro no Campo Alegre, que inclui a Galeria da Biodiversidade, na Casa Andresen, para o efeito completamente remodelada, e o Jardim Botânico do Porto, criado em 1837 e que ocupa quatro hectares. O pólo central, que vai albergar colecções históricas de geologia, paleontologia, botânica, zoologia e arqueologia, encontra-se em processo de reestruturação (um elemento importante será um Laboratório Químico do início do século XX), ao passo que o segundo se encontra aberto ao público desde 2017. O MHNC-UP juntou na Galeria da Biodiversidade um Museu de Ciência e um Centro Ciência Viva, com fins de educação, divulgação, conservação e investigação. Nele se contam histórias sobre a vida, destacando-se objectos e fenómenos significativos, assim como personalidades históricas, com recurso a soluções museográficas inovadoras.

A Faculdade de Ciências da UP dispõe de algumas instalações históricas, que incluem o Observatório Astronómico Prof. Manuel de Barros, no Monte da Virgem, o Instituto Geofísico na Serra do Pilar e a Estação de Zoologia Marítima, na Foz. A Faculdade de Engenharia, na Asprela, dispõe de um
museu sobre as suas actividades.

A Faculdade de Medicina da UP possui dois espólios museográficos: o Museu de História da Medicina Maximiano Lemos — situado no edifício comum da Faculdade com o Hospital de S. João —, que apresenta a história da disciplina e inclui uma galeria de arte, e o Museu de Anatomia, fundado em 1825 por dois professores dessa disciplina na então recente Real Escola de Cirurgia do Porto. Em 1959/60, este último transitou, com a Faculdade de Medicina, para o edifício do Hospital de S. João, onde passou a ocupar uma área do Instituto de Anatomia Prof. Pires de Lima. Mais tarde foi transferido para o sítio onde hoje se encontra, perto do Anfiteatro Norte da Faculdade de Medicina. O Museu de Anatomia possui importante acervo de centenas de peças anatómicas, algumas das quais bastante antigas. A Faculdade de Farmácia da UP tem um museu próprio inaugurado em 2013.

No Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, existe um outro Museu de Anatomia, que tem o nome do Prof. Nuno Grande. Em S. Mamede de Infesta, nos arredores do Porto, pode ser visitada a Casa Museu Abel Salazar, onde viveu o ilustre professor da UP e também artista plástico que o Estado Novo afastou da docência.

Conclusão

Em resultado da sua história, as Universidades de Coimbra, Évora, Lisboa e Porto possuem um notável património científico. Sítios cimeiros desse património são o Museu de Ciência da UC, um projeto onde se destacam o Laboratorio Chimico e o Gabinete de Física Experimental de Coimbra — os dois quase únicos à escala global —, mas que permanece incompleto à espera da segunda fase (que devia acima de tudo valorizar coleções de História Natural e de Etnologia únicas no país); o Museu Nacional de História Natural e de Ciência da UL, que remodelou a área do Laboratório Químico, mas que precisa igualmente de obras de requalificação; e o Museu de História Natural da UP, que aguarda ser complementado pelo seu segundo pólo, no edifício da Reitoria, onde está a ser recuperado um Laboratório Químico centenário. Nos três sítios existem também jardins botânicos históricos que podem ser desfrutados pelo público. Na UE existe um antigo colégio jesuíta que ainda funciona como lugar de ensino. São louváveis os esforços realizados em Coimbra, Lisboa e Porto para reunir colecções, organizando-as de um modo profissional e colocando-as à disposição de quem as queira visitar. Nos três sítios do país aqui considerados existem laboratórios químicos, de diferentes épocas, que, no seu conjunto, dão uma ideia do desenvolvimento da química desde a sua origem. Por outro lado, não se pode dizer que os museus da área das Ciências da Saúde e da Engenharia tenham o mesmo grau de desenvolvimento e visibilidade que os museus de História Natural e de Ciências Físico-Químicas.

Uma nota final: As universidades têm funcionado com um orçamento que não contempla a componente patrimonial. Faria todo o sentido que o Estado se interessasse pelo património científico, pelo menos tanto quanto se interessa pelo restante património.

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