sexta-feira, 28 de setembro de 2018

A arte da ciência, a ciência da arte

https://theconversation.com/lart-de-la-science-la-science-de-lart-85423

História da electricidade no ensino da Física

Informação recebida do Prof. André Assis (Unicamp, Brasil):

Palestra: História da Eletricidade no Ensino de Física (1 hora de apresentação e  meia hora de debate):

https://youtu.be/o4wesai8BNQ

Seminário realizado em 14/09/2018 no Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica da
Univ. Fed. de Santa Catarina, PPGECT/UFSC.

Resumo: Apresentamos alguns aspectos da história da eletricidade que podem ser explorados construtivamente no ensino de física.  Em particular, discutimos o efeito âmbar, a atração de um filete de água por um plástico eletrizado,  a atração e a repulsão elétrica, o mecanismo de atração/ contato/ repulsão ou mecanismo ACR,  os condutores e isolantes juntamente com suas principais propriedades. Mostramos como construir diversos instrumentos com  material acessível e de baixo custo: versório, pêndulo elétrico e eletroscópio. Fazemos algumas experiências como  a atração de pedacinhos de papel por um plástico eletrizado e a flutuação de uma penugem ou semente de dente de leão  por um tubo plástico eletrizado. Comparamos o eletroscópio de baixo custo feito com cartolina, canudinho e uma  tirinha de papel de seda com o eletroscópio de folhas de ouro que aparece nos livros didáticos. Mostramos as explicações  para o efeito âmbar e para o desvio de um filete de água que aparecem nos livros didáticos e enfatizamos que  não concordamos com essas explicações. Por último discutimos alguns mistérios do efeito âmbar que acreditamos que
ainda não foram totalmente solucionados até os dias de hoje.

Slides desta apresentação:

http://www.ifi.unicamp.br/~assis/eletricidade-14-09-2018.pdf

Essa palestra é baseada nos 2 volumes do livro Os Fundamentos Experimentais e Históricos da Eletricidade.

Volume 1: http://www.ifi.unicamp.br/~assis/Eletricidade.pdf

Volume 2: http://www.ifi.unicamp.br/~assis/Eletricidade-Vol-2.pdf

"BISSAIA BARRETO: ORDEM E PROGRESSO"

PATRIMÓNIO CULTURAL EM DEBATE: NOITE EUROPEIA DOS INVESTIGADORES NO RÓMULO EM COIMBRA


A Noite Europeia dos Investigadores 2018 é nesta 6ª feira, 28 de Setembro, com diversas actividades de ciência realizadas pelo país e em várias cidades europeias com o objectivo de aproximar investigadores e sociedade.

 No RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, a partir das 21h, terá lugar um debate informal subordinado ao tema "Preservação do Património Cultural" com a participação dos seguintes cientistas da Universidade de Coimbra:

 - FRANCISCO GIL do Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia e especialista na aplicação da física ao estudo do património  e à história.
- HELENA DAMIÃO da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, especialista em desenvolvimento curricular.
 - RAIMUNDO MENDES DA SILVA do Departamento de Eng.ª Civil da Faculdade de Ciências e Tecnologia, especialista em engenharia aplicada ao restauro de edifícios.
- WALTER ROSSA do Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia, especialista em história da arquitectura, do urganismo e da expansão portuguesa..

A moderação do debate estará a cargo do Professor Carlos Fiolhais, Director do RÓMULO.

 A entrada é livre e aberta a todo o público interessado, que poderá estabelecer diálogo com os cientistas convidados. Venha participar nesta grande festa da Ciência!

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

UMA REFLEXÃO SOBRE O "CIÊNCIA VIVA" QUE IMPORTA FAZER


Miguel Castanho (na foto), investigador de renome e ex vice-presidente da FCT, faz aqui uma reflexão sobre a comunicação de ciência em Portugal e o papel que tem sido desempenhado pelo Ciência Viva, na sua opinião excessivamente centralizador e desfasado das realidades actuais. Ora aqui está uma discussão que é preciso fazer não só na comunidade de comunicação de ciência mas também no debate público, do qual pode e deve emergir uma melhoria das políticas públicas nesta área:

 http://visao.sapo.pt/opiniao/2018-09-26-Comunicar-Ciencia-a-mudanca-dos-tempos-e-das-vontades

"Em contraste com a atividade fértil e em crescendo dos gabinetes de comunicação académicos em faculdades e institutos de investigação, a Associação Ciência Viva foi perdendo gás com o tempo, não foi renovando lideranças e não tem cumprido a promessa para que foi criada, pautando a atuação estatal em comunicação de ciência pela estagnação e pelo anacronismo. A Rede de Centros Ciência Viva está desestruturada e não tem consistência. Ao contrário do que o nome sugere, não tem a verdadeira orgânica de uma rede; é um conjunto de instituições díspares, dispersas e mal ligadas. A maioria dos Centros Ciência Viva depende de apertados orçamentos locais, sobretudo camarários. O subsídio concedido pela FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia) à Associação Ciência Viva pouca capilaridade tem desde Lisboa até outras zonas do país. E assim se esgota o apoio nacional: em vez de um sistema competitivo e meritocrático de distribuição de recursos, temos uma política de subsídios praticamente monopolizada numa instituição central. Este sistema, pouco escrutinado e de natureza clientelar, é um claro entrave ao desenvolvimento do setor. Portugal, com os seus cientistas e os seus profissionais de comunicação, está maduro para que universidades, centros e institutos de investigação, órgãos de comunicação social, agentes culturais e artísticos, museus, centros Ciência Viva e outras organizações de divulgação de ciência e quem mais demonstre capacidade e mérito, se possam associar e concorrer a financiamento para propor e executar projetos inovadores e de qualidade para comunicar ciência e divulgar a cultura científica. Falta apenas quem tenha coragem para transformar subsídios statu quo em financiamentos acessíveis por concursos transparentes e ao alcance de todos os investigadores e comunicadores."

terça-feira, 25 de setembro de 2018

PREFÁCIO DO AUTOR, LUÍS MIGUEL BERNARDO, A "VISÃO, OLHOS E CRENÇAS" (GRADIVA, 2018)


"Os animais, na sua generalidade, incluindo os humanos, obtêm a maior parte da informação do mundo exterior através da visão. A sua sobrevivência e bem‑estar dependem absolutamente dela e, durante a evolução, a Natureza criou as mais variadas e estranhas formas de a implementar. Para isso produziu uma grande variedade de olhos — detectores luminosos, capazes de captar a informação transportada pela luz — e sistemas de visão para processar essa informação.

 Como transportadora de informação, a luz é de fundamental importância para a visão e, através da sua permanente presença em todos os estágios da evolução da vida, impulsionou e condicionou o desenvolvimento dos olhos e dos processos visuais. Sem ela, a visão não existiria mas, se não houvesse olhos, a luz não teria adquirido a extraordinária relevância que tem no contexto geral da vida. Esta mútua interligação entre a visão e a luz é uma das mais interessantes manifestações dos condicionamentos evolutivos.

Neste livro aborda‑se o tema da visão e dos olhos sob os mais variados aspectos: físicos, fisiológicos, funcionais, históricos, etnográficos e culturais. Para além dos relatos históricos, das explicações científicas e das análises sobre a evolução das ideias, será dada grande relevância às crenças que em torno da visão e dos olhos se criaram em variados povos, culturas e civilizações, e, particularmente, em Portugal.

 No capítulo 1, trata‑se a visão animal, sendo descritas as características visuais de vários seres implementadas por diversos tipos de olhos, entre as quais a visão cromática. Dar‑se‑á uma particular relevância àquelas características que distinguem a visão animal da humana, como é o caso da visão ultravioleta ou da visão polarizada.

 No capítulo 2, discorre‑se sobre a visão humana, cujo estudo ocupou as mentes mais brilhantes de todos os tempos, desde os antigos filósofos aos cientistas actuais. Serão tratadas, neste capítulo, as várias teorias sobre a visão e as respectivas evoluções históricas, desde a Antiguidade até aos nossos tempos. Enquanto na ciência antiga a visão era abordada sob um ponto de vista holístico, na ciência moderna ela foi dissecada nas suas várias componentes: orgânica, funcional, sensorial e percepcional. Esta abordagem analítica, ao nível macroscópico e microscópico, produziu um vasto conjunto de conhecimentos. Estes abriram novas e amplas áreas de investigação que continuam actualmente a ser exploradas. Todos estes aspectos serão expostos neste capítulo.

 No capítulo 3, trata‑se o olho humano, nos seus aspectos fisiológicos e funcionais, e expõe‑se a história do conhecimento que sobre ele se foi adquirindo ao longo do tempo. No âmbito do ensino e da divulgação em Portugal dos assuntos relacionados com a visão e os olhos, dá‑se algum realce ao manuscrito Tratado de Óptica do jesuíta P.e Inácio Vieira que ensinou ciências matemáticas no Colégio de St.o Antão em Lisboa, no início do século xviii. Apresentam‑se algumas notas históricas sobre a oftalmologia em Portugal, realçando a prática clínica e cirúrgica de alguns médicos e cirurgiões estrangeiros, a influência que estes exerceram sobre o desenvolvimento da oftalmologia nacional e o aparecimento de alguns oftalmologistas portugueses que granjearam fama e prestígio.

Quando se perde um olho, perde‑se um elemento importante na estética facial e a capacidade visual que ele proporcionava. Para compensar estas perdas usaram‑se desde há séculos olhos artificiais, como os «olhos de vidro» e, mais recentemente, os «olhos fotónicos». Realizaram‑se esforços para produzir olhos artificiais tão semelhantes quanto possível aos naturais e até com algumas funcionalidades superiores. A história e o desenvolvimento tecnológico destes olhos protésicos são expostos neste capítulo 3.

O olho humano foi considerado um órgão de especial complexidade e perfeição. Criaram‑se à sua volta mitos, lendas, alegorias e superstições e atribuíram‑se‑lhe poderes extraordinários. Os sinais fisiognómicos foram particularmente explorados desde a Antiguidade até ao Renascimento. Através da configuração, forma e expressão dos olhos, procurou‑se descobrir as características interiores das pessoas.

Segundo se dizia, haveria homens e animais com capacidades visuais extraordinárias, que lhes permitiam ver o invisível e causar nos outros doenças e a morte. Os fluidos visuais, que supostamente saíam pelos olhos, seriam responsáveis por poderes maléficos, mas serviriam também para encantar. Para nos livrar de tão nefastos efeitos ou para nos curar das mazelas oculares, nada melhor do que fazer um pedido, sincero e cheio de fé, aos santos patronos que terão realizado muitos e extraordinários milagres.

 Os olhos tiveram significados alegóricos muito especiais na cultura popular, servindo como fonte de inspiração para poemas e canções. Muitas foram as superstições e receitas criadas e inúmeros foram os milagres que se contaram, envolvendo os olhos e os mais variados deuses e santos patronos. Muitas destas crenças do passado continuam ainda presentes em várias culturas por todo o mundo.

 Como portas de entrada de imagens sedutoras, que podiam despertar tentações diabólicas, os olhos foram subordinados aos preceitos da moralidade cristã, chegando a pensar‑se que a cegueira poderia ser um meio seguro para atingir a santidade. Toda esta temática maravilhosa, supersticiosa e milagrosa, envolvendo os olhos, está descrita com algum detalhe no capítulo 4.

 Por fim, na breve conclusão, sublinha‑se o elevado número e a complexidade das soluções adoptadas pela Natureza para implementar a visão nos seres vivos, o paralelismo entre a evolução dos conhecimentos oftalmológicos e o progresso científico global e a importância dos olhos nas tradições culturais, tão bem retratada nos estudos etnográficos de todo o mundo.

 O objectivo deste livro é apresentar a evolução dos conhecimentos sobre a visão e os olhos, em termos históricos, socioculturais e científicos, utilizando uma linguagem acessível de modo a servir um conjunto vasto de leitores, com diferentes formações, que se interessem pelas ciências e humanidades. Espera‑se que a opção de apresentar textos antigos na versão gráfica original contribua para despertar a curiosidade dos leitores e possa mais facilmente situá‑los no ambiente cultural das épocas em que foram escritos."

 Porto, Março de 2018

 Luís Miguel Bernardo

NOVOS LIVROS EM SETEMBRO DA GRADIVA


Informação recebida da editora:

Visão, Olhos e Crenças
Luís Miguel Bernardo
«Ciência Aberta» .  396 pp. Preço:  21,00 € . Categoria: Ciência

Sem o nosso sistema de visão – os olhos ligados ao cérebro – a nossa percepção do mundo seria muito limitada. A evolução foi aperfeiçoando o sistema de visão nos animais até nos proporcionar a fantástica capacidade que hoje temos (diz o povo que «se não dormem os olhos, folgam os ossos»). Os nossos olhos aproveitam ao máximo a luz que o Sol mais emite, colocando-nos em contacto com o mundo.
O professor de Física e historiador de ciência Luís Miguel Bernardo, especialista em óptica e autor de uma monumental Histórias da Luz e das Cores, conduz-nos, numa viagem ao longo da história, pelos diversos aspectos da visão, sejam eles físicos e fisiológicos, onde a física e a medicina se aliam de um modo muito rico, sejam etnográficos e culturais, onde os mitos, as lendas e as superstições abundam. Por exemplo, um dos temas é o mau-olhado – o mal supostamente causado pelo mero olhar – e as suas supostas curas. Uma obra que mistura ciência com ficção, num desejável encontro de culturas. Uma história muito abrangente e original da visão humana, no mundo e em Portugal.

Mais informação aqui - https://www.gradiva.pt/cat%C3%A1logo/detalhe-do-produto/?product=45339

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Magalhães - Até ao Fim do Mundo
Christian Clot, Thomas Verguet, Bastien Orenge
«Fora de Colecção» .  60 pp . Preço: 15,00 € . Categoria: Banda Desenhada

Uma edição conjunta Gradiva/ Comissão Cultural da Marinha a propósito das Comemorações do V Centenário da Viagem de Circum-navegação de Fernão de Magalhães

1519. Até onde se deve ir para demonstrar a rectidão das suas ideias, para viver os seus sonhos até ao fim?
É o que Magalhães irá saber, indo até ao derradeiro sacrifício para que o seu nome jamais seja esquecido...

Prefácio:

«Magalhães é um enigma. É um dos maiores exploradores de todos os tempos, revolucionou a navegação mundial, e no entanto ninguém conhece a sua vida. É porque ele é apresentado, por vezes, como um ser austero, frio e pouco afável? Com que base, pois praticamente não existe nenhuma linha, nenhum escrito, da sua autoria? Tudo foi destruído. De acordo com a maioria dos seus biógrafos, ele jamais pensou fazer a volta ao mundo: partiu apenas para descobrir uma nova rota para as ilhas das especiarias, para as riquezas. Efectivamente, é o que ele declara a Carlos I para obter uma armada. Mas eu não o creio: eu conheço a dificuldade de defender um projecto apenas pela nobreza, mais que pelo seu interesse financeiro. Mais ainda na época da Inquisição, quando declarar que a Terra era redonda era uma heresia passível de ser punida com a morte. Apenas interessavam as novas possessões e o número de almas convertidas. Há o que guardamos para nós e o que vendemos para convencer.
Para alcançar o seu fim, Magalhães terá de renunciar a tudo: aos seus ideais, ao seu amor de juventude e à sua pátria. Uma vez que os seus méritos não foram reconhecidos em Portugal, oferece o seu projecto a Espanha.
Terá de lutar durante meses sozinho, contra todos, para finalmente conseguir uma armada com navios de ocasião, comandados por comandantes hostis. Terá de afrontar mares desconhecidos, tempestades terríveis, motins e traições...
Tem apenas uma paixão, um último sonho, à partida impossível, para enfrentar de igual modo obstáculos e perigos. Um sonho que não pode ser apenas o de trazer especiarias com o intuito de respigar algumas riquezas e um título de nobreza. Não. O seu sonho era o horizonte! Ir mais além do que alguma vez alguém tinha ido. A visão de que, partindo em direcção a oeste, era possível regressar por leste: fazer, pela primeira vez na história da Humanidade, a viagem de circum‑navegação do nosso mundo! Esse objectivo nem o terá podido confessar a Carlos V, que o proibiria, e depararia muito provavelmente com a animosidade dos Portugueses.
Mas por esse sonho, e apenas por esse, valia a pena sacrificar tudo. Mesmo a sua própria vida...»

CHRISTIAN CLOT


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Manifesto Para a Produtividade - E o Desazo da Economia Portuguesa
António S. Carvalho Fernandes
«Trajectos Portugueses» . 192 pp. Preço:  15,00 € Categoria: Ensaio

É urgente questionar a persistente pobreza de Portugal.
As elites que nos governam há 40 anos não souberam tirar Portugal do fim da União Europeia e da OCDE. Políticos, empresários, professores universitários e corporações têm de se perguntar sobre este fracasso. Três bancarrotas adiaram o país 20 anos, produto de uma inaceitável ignorância dos dirigentes de então. Serão as nossas condições culturais insuperáveis? Não! Podemos crescer. Outros países o conseguiram. Um eficaz sistema de igualdade de oportunidades confirmaria essa possibilidade. Uma cultura de eficiência, de premiação do sucesso e de responsabilização levar-nos-ia ao bom caminho.
Primeiro será preciso, para que esse mandato surja, explicar aos cidadãos o que é necessário fazer para o país enriquecer com benefícios para todos. Segundo, esclarecer que não se pode esperar por melhor saúde, justiça ou educação sem o acréscimo de valor que não temos sabido criar. Terceiro, mostrar que só há desenvolvimento se as empresas assegurarem o crescimento económico do país. É condição imprescindível.
De facto, o crescimento sustentado depende do aumento das produtividades, o que requer mais iniciativa e muito mais investimento produtivo. E, para mais investimento, é necessário poupar, otimizar os nossos recursos e haver a visão de retornos atraentes. Todas as mães de família sabem isto, qualquer português o percebe se for bem explicado.

Este livro é um desafio às nossas elites e um Manifesto para a Produtividade.

Mais informação aqui - https://www.gradiva.pt/cat%C3%A1logo/detalhe-do-produto/?product=45343

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O Benefício da Dúvida - Impertinências de Antes e Depois de Abril de 74
Joaquim Silva Pinto
«Fora de Colecção» . Preço:  17,00 € Categoria: Ensaio

Impertinências de antes e depois do marco his­tórico da Revolução apresentadas com irreverên­cia, ironia, sentido crítico e desassombro polémico.
Como nasceu uma confederação sindical, es­cutas da ex-Pide a membros do Governo, ambien­te que precedeu o 25 de Abril, episódios pouco conhecidos da eleição e da reeleição de Mário Soares, quezílias e atropelos no PS, evolução dos costumes, confronto entre o antes e o depois de Abril, democracia versus demagogia na encruzi­lhada entre desalento e esperança.
Testemunhos autênticos, nalguns casos reto­cados para ficarem paradoxalmente mais verda­deiros.

Mais informação aqui - https://www.gradiva.pt/cat%C3%A1logo/detalhe-do-produto/?product=45345

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Compreender o Mundo e Actualizar a Igreja - Grandes Textos do Padre Manuel Antunes, sj
José Eduardo Franco e Luís Machado de Abreu
«Fora de Colecção» . Páginas: 300 pp. . Categoria: Ensaio

Nos textos aqui reunidos, o mais apreciável e decisivo, creio, é o modo como essa (...) erudição se enraíza no aqui e no agora e se compromete numa racionalidade dialógica com o mundo do seu tempo e que é também o momento existencial do encontro com o outro. Muitos dos seus textos sobre a igreja ou sobre o mundo (...) respondem a questões concretas que a inteligibilidade da época ou os sinais dos tempos impunham, mas porque neles perpassa um enriquecida consciência (...) da ampla cultura, as suas reflexões, sem trair a fidelidade ao que é do tempo, ultrapassam-no, constituindo-se interlocutores privilegiados para nós e para homens que hão de vir. (...) As páginas aqui reunidas ajudam-nos a ver mais claro, convidam-nos, porfiadamente, a olhar a vida, pensando-a, e a pensar a vida, vivendo-a. Só isso é imensa herança.»   
                                                              
 J. PEDRO SERRA, do Prefácio

«Manuel Antunes não foi o único despertador de energias adormecidas a apelar à consciência dos homens bons e a propor linhas de rumo para a cidadania participativa, esclarecida e militante. Mas soube condensar, porventura como mais ninguém, com incomparável empenho e clareza um plano de salvação colectiva feito de propostas tão simples como decisivas para a construção do futuro.»

J. EDUARDO FRANCO e L. MACHADO DE ABREU, da Introdução

Mais informação aqui - https://www.gradiva.pt/cat%C3%A1logo/detalhe-do-produto/?product=45350

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O Motim
Miguel Franco

«Fora de Colecção» . 124 pp . Preço: €11,00 . Categoria: Dramaturgia

Inventa-se um crime. Forjam-se culpados. Simula-se um julgamento. Reais são o sangue e a morte. Dezenas de homens e de mulheres enforcados por serem ingénuos e humanos.
Crime verdadeiro é o do despotismo que governa.
Esta é a situação – desenrolada no século XVIII – a partir da qual Miguel Franco constrói uma alegórica vigorosa, admirável peça de teatro.
Grito de liberdade, protesto contra todas as tiranias, tocando profundamente o leitor ou o espectador, O Motim é uma obra intemporal.
Editado originalmente por Publicações Europa-América na colecção icónica «Os Livros das Três Abelhas», a peça foi então considerada pelo crítico muito exigente que era João Gaspar Simões «uma das obras mais importantes da dramaturgia portuguesa moderna».
Posta em cena pela Companhia Nacional do Teatro de D. Maria II, a representação de O Motim foi proibida pela Comissão de Censura da Ditadura depois de duas representações...
Miguel Franco foi considerado por Luiz Francisco Rebello, na História do Teatro em Portugal, o representante mais importante da dramaturgia histórica na década de 1970
.

Mais informação aqui – https://www.gradiva.pt/cat%C3%A1logo/detalhe-do-produto/?product=45352

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A Balada de Adam Henry
Ian McEwan
Colecção Obras de Ian McEwan 192 pp. Preço: 14,00
€ . Categoria: Romance
AGORA NOS CINEMAS. Veja o trailer aqui – https://www.youtube.com/watch?v=SrL1kF5Q4tU&feature=youtu.be

Estreia a 20 de Setembro
Trata-se de um romance que tem como personagem central Fiona Maye, uma juíza proeminente do Supremo Tribunal, que julga casos do Tribunal de Família. É bem sucedida profissionalmente, mas nem tudo lhe corre pelo melhor. Ao remorso latente por nunca ter tido filhos, junta-se a crise num casamento que dura há trinta anos. Ao mesmo tempo que tem de enfrentar um casamento onde a relação com o marido está a desmoronar-se, é chamada a julgar um caso urgente. Por razões religiosas, um bonito rapaz de dezassete anos, Adam, recusa o tratamento médico. Sendo Testemunhas de Jeová, tanto ele como os familiares, rejeitam a transfusão de sangue que poderia salvar-lhe a vida. Deverá o tribunal secular sobrepor-se à fé sinceramente vivida? Enquanto procura tomar uma decisão, Fiona visita Adam no hospital. Esse encontro tem consequências para ambos, agitando sentimentos que estavam enterrados nela e despertando novas emoções nele.
 Trata-se de um romance de elevada sensibilidade, em que McEwan prova, mais uma vez, a sua mestria em escrever sobre a natureza humana e sobre temas de grande actualidade que motivam a reflexão.
Mais informação aqui - https://www.gradiva.pt/cat%C3%A1logo/detalhe-do-produto/?product=14987

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O Invisível
Rui Lage
«Gradiva» .  288 pp. Preço: Categoria: Romance, Ficção

O Invisível foi o romance vencedor do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís, em 2017, instituído pela Estoril-Sol.
O júri do prémio considerou tratar-se de «um romance com notável fulgor imaginativo». Portugal, 1931. Fenómenos inexplicáveis semeiam o terror entre os habitantes de Cova do Sapo, um lugar isolado nas fragarias da serra do Alvão. Todas as noites, a aldeia é atormentada por entidades misteriosas e acorda com sepulturas violadas no cemitério. A exaustão abate-se sobre a pobre gente do povoado, incapaz de pregar olho.
Ora, se existe alguém capaz de solucionar o mistério e acudir aos habitantes de Cova do Sapo, esse alguém é certamente Fernando Pessoa, poeta de Orpheu, médium, perscrutador da quarta dimensão, necromante e perito em assuntos astrais.
Neste engenhoso romance, a meio caminho entre o policial e o fantástico, Pessoa revela-se um detective com talentos muito particulares. O poeta, que detesta viajar e ausentar-se do ambiente de Lisboa, mergulha no mundo arcaico de uma aldeia serrana do Norte de Portugal, assediada por influências e presenças sinistras.
Rui Lage revela-nos neste romance um novo e fascinante Fernando Pessoa, entre o poético e o rocambolesco, o desassossego cósmico e o encantamento telúrico, a comoção com o visível e a pesquisa do invisível.


A DESCOBERTA DA DESCOBERTA, no CLUBE DE LEITURA DO RÓMULO

O livro que tenho vindo apresentar (aqui é a 2.ª de 6 sessões) é "A Invenção da Ciência", de David Wootton (Temas e Debates/ Círculo de Leitores).

Praxe académica e educação para a cidadania

Na sequência do texto de Carlos Fiolhais "As praxes bestiais".

Imagem recolhida aqui.
As praxes académicas devem inquietar-nos em relação a vários aspectos, mas há um que não pode deixar de ser destacado. Trata-se da eficácia da educação e, de modo muito concreto, da educação escolar.

Os estudantes envolvidos nas praxes têm dezoito anos ou mais, são adultos; chegaram ou estão no ensino superior, estiveram, portanto, pelos menos doze anos na escola, e tiveram outros tantos de "educação para a cidadania".

Nas (cada vez mais) áreas dessa componente curricular (neste momento, pelo menos dezassete), a avaliar pelo conteúdo das dezenas, centenas de documentos reconhecidos e produzidos pelo Ministério, que lhe são anexas, para não falar dos projectos educativos de escola, dos projectos e das actividades que lá são dinamizada, todos os alunos deveriam sair do sistema muito bem formados no respeitante a valores éticos.

Valores que têm, à cabeça, a dignidade humana, que lhes dá coerência e sentido.

É a dignidade que em Coimbra se vê rastejar quando um estudante rasteja a mando de outro, ou quando um estudante manda outro rastejar. Nem um nem outro têm qualquer sentido da dignidade. Não o aprenderam e muito menos o interiorizaram, não conseguem defendê-lo. Também não aprenderam a resistir à pressão do grupo, nem a escolher o que concorre para a dignidade: sua e de todos os outros.

BLOGUES DE REGINA GOUVEIA

Mensagem recebida da professora e poeta Regina Gouveia:

Desde 2009 que escrevo mensagens no blogue (site abaixo), embora cada vez com menor frequência….

  https://docaosaocosmos.blogspot.com/

 Na altura abri, quase em simultâneo um outro blogue

  https://reflexoeseinterferncias.blogspot.com/ 

que abandonei passado pouco tempo, por me ser difícil gerir dois blogues ao mesmo tempo. Decidi retomá-lo e dedicá-lo essencialmente ao público infanto-juvenil mas todos serão bem vindos, nomeadamente pais, avós, encarregados de educação, educadores….

 Regina Gouveia

Entrevista a Harari, autor de "Homo Sapiens e "Homo Deus"

POR UM MUSEU DAS DESCOBERTAS EM LISBOA


Extracto da entrevista de Jared Diamond deu a David Marçal (parabéns David pela excelente entrevista!) e que foi publicada no Público de domingo:

O presidente da Câmara de Lisboa quer fazer um museu das descobertas. Algumas pessoas argumentam que a palavra “descoberta” esconde a escravidão e a colonização que se seguiram. Acha que devíamos ter um museu das descobertas em Lisboa?

Claro que devíamos ter um museu das descobertas em Lisboa! Possivelmente, a coisa mais importante acerca de Portugal nos últimos 600 anos foram as grandes descobertas feitas por navegadores portugueses. É verdade que Vasco da Gama não descobriu a Índia. Descobriu o caminho marítimo para a Índia. E também não é verdade que um português tenha descoberto o Brasil, já havia um milhão de nativos americanos a viver no Brasil, mas um navegador português foi o primeiro europeu a chegar ao Brasil. E isso teve uma importância enorme para a história mundial, porque levou à colonização europeia do Novo Mundo. Se Lisboa só pudesse ter um museu e tivéssemos de demolir todos os outros, esse único museu deveria ser das descobertas. Mas teríamos de entender o que significa descobertas.

Se escrevêssemos apenas uma página sobre Portugal num livro de história mundial, esse deveria ser o tema? Não o tráfico de escravos transatlântico?
É verdade. Claro que a coisa mais importante acerca de Portugal na história mundial foi o seu papel na expansão europeia pelo mundo. E a expansão europeia no mundo significou muitas coisas, boas e más. Significou o tráfico de escravos transatlântico, o que é mau. Significou a importação de sementes do Novo Mundo para a Europa, o que foi bom para a Europa. Significou o desenvolvimento de sociedades agrícolas altamente produtivas na Argentina, o que é bom. Uma pessoa pode ser selectiva tanto positiva como negativamente. Se uma pessoa disser que a descoberta portuguesa do Novo Mundo foi a coisa mais maravilhosa dos últimos 600 anos... não, disparate! Resultou no tráfico de escravos transatlântico e na matança da maioria dos nativos americanos, o que é mau. Se quisermos dizer que a descoberta portuguesa do Novo Mundo foi inteiramente má... não, não foi! Muitas pessoas querem que a vida seja simples. Que seja tudo bom ou mau. Lamento, talvez a vida seja assim na nebulosa de Andrómeda, mas aqui na Terra o bom e o mau misturam-sei.


O que aconteceu quando os europeus se encontraram com os nativos americanos foi em grande parte inevitável?
Infelizmente, sim. Ao longo da história humana quando povos mais poderosos encontraram povos menos poderosos, o resultado foi quase sempre a conquista, a expulsão, às vezes o extermínio dos povos menos poderosos. Foi apenas nos últimos 80 anos que começámos a ter excepções. Quando os europeus “descobriram” as ilhas da Nova Guiné, havia lá populações densas de milhões que viviam com tecnologia da Idade da Pedra. Quando os europeus chegaram, não os mataram todos porque em 1930 já não era considerado aceitável que os europeus exterminassem e expulsassem outros povos. Mas se os europeus tivessem descoberto as ilhas da Nova Guiné 80 anos antes, claro que os teriam matado ou expulsado a todos. Os comportamentos melhores são relativamente recentes. Isto não quer dizer que todos os comportamentos humanos nos últimos 80 anos foram bons. Podemos pensar em várias coisas que aconteceram na II Guerra Mundial que não foram boas.


Deveria um chefe de Estado português pedir desculpa pelo papel do país no tráfico transatlântico de escravos?
Caramba! Eu oiço esse argumento em relação à Austrália. Não estou familiarizado com os argumentos acerca de Portugal, mas devem ser sem dúvida semelhantes. Devem os australianos modernos pedir desculpa pelo que os europeus fizeram aos aborígenes australianos a partir de 1788, quando os britânicos colonizaram a Austrália? Eles mataram, infectaram com doenças e expulsaram das suas terras os aborígenes australianos. Devem os europeus modernos pedir desculpa pelo que os europeus de 1830, 1880 e 1920 fizeram? Um primeiro-ministro australiano chamado John Howard disse que os australianos modernos não devem pedir desculpa pelas coisas que os seus tetravós fizeram, mas sim pelas coisas que fazem hoje. Outros australianos acham que devem pedir desculpa por coisas que o seu povo, os seus antepassados, fizeram. É semelhante nos Estados Unidos. Devem os americanos brancos modernos pedir desculpa pela escravatura? Alguns americanos dizem que sim, outros dizem que foram os seus tetravós, como é que podem pedir desculpa pelo que eles fizeram? É um debate em aberto. A resposta para Portugal deve ser semelhante. Não foi você ou os seus colegas de escola que fizeram o tráfico transatlântico de escravos. Foram os vossos tetra-tetra-tetra-tetravôs. Sente-se responsável pelos actos deles?

UM AUTARCA MENTIROSO


Manuel Machado, actual Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, mentiu de uma maneira descarada e premeditada quando prometeu na campanha eleitoral transformar o aeródromo municipal de Coimbra em aeroporto internacional. A mentira transformou-se, em Coimbra como noutros sítios do país, na maneira normal de fazer política. Ficamos à espera que ele tenha um mínimo de honra e de sentido democrático se demita, por ter defraudado quem acreditou nele nas eleições. Por menos Egas Moniz (o aio) apresentou-se, com a família, de baraço ao pescoço, ao não conseguir manter a palavra dada. Conforme disse M. Ghandi: "A dignidade pessoal e a honra não podem ser protegidas por outros, devem ser zeladas pelo indivíduo em particular."

PS) Ontem, o referido edil, num acto antidemocrático que revela bem a sua falta de preparação para o cargo, retirou a palavra a um vereador, que expunha um ponto de vista que não era do seu agrado, suspendendo a seguir de modo inopinado a reunião. A democracia em Portugal ainda tem um longo caminho a percorrer, principalmente nalgumas autarquias. Coimbra, nesta capítulo, não é uma lição.

FESTIVAL LITERÁRIO DE OVAR

Estive recentemente no Festival Literário de Ovar, a falar de vida, literatura e ciência:


AS PRAXES BESTIAIS


Meu depoimento sobre a praxe publicado na revista de domingo do "Correio da Manhã" em artigo das jornalista Vanessa Fidalgo: 

 Estudei na Universidade de Coimbra entre 1973 e 1978 num tempo em que as praxes estavam interrompidas por “luto académico”. Nunca usei traje académico, que evoca tempos em que a Universidade estava casada com a Igreja. Mas, quando era aluno do liceu, conheci o pavor das trupes vestidas de preto, com tesouras e colheres de pau, que impediam que se saísse à noite. Eram os vampiros da noite! Considero a praxe actual completamente fora do tempo e, nalgumas das suas manifestações, abominável. Vejo passar filas de caloiros de mão dada a gritar impropérios a mando dos veteranos e acho o cortejo uma total estupidez. Não sei como é que tanta gente aceita ser humilhada. Os excessos são crimes, que muitas vezes ficam impunes: lembro os afogamentos na praia do Meco e a queda do muro em Braga. Lembro-me também do caso, mais antigo, de uma aluna da Escola Agrária de Santarém que foi besuntada com excrementos de suíno e, depois de ter sido vítima de sevícias sexuais, pendurada, de cabeça para baixo, em cima de um penico. E lembro-me também de um caso de um estudante da Escola Agrária de Coimbra que ficou paraplégico numa praxe ao escorregar sobre uma vala com bosta. Uma coisa bestial para os autores da ideia, mas que eu acho bestial por ser próprio de bestas.

 Importante: as mulheres são discriminadas nos códigos da praxe, feitos num tempo em que só havia homens no ensino superior. Um Dux veteranorum do Porto defendeu que os "fados e as serenatas são coisas de homens". Segundo ele, a interpretação do fado pelas mulheres na academia "seria inverter os papéis do macho e da fêmea, se as fêmeas fossem fazer serenatas aos homens onde é que íamos chegar?" Parece que há mulheres que aceitam estas restrições. E fico pasmado, pois não percebo a diferença entre isso e a proibição de as mulheres guiarem nalguns países árabes.

sábado, 22 de setembro de 2018

O estado do debate sobre o currículo escolar

Nas últimas duas semanas, diversos canais de televisão têm realizado programas na forma de debate sobre o Projecto de Autonomia e Flexibilidade Curricular que, a partir deste ano lectivo, passa a orientar o ensino básico e secundário em Portugal. Os jornais também lhe têm dado destaque com notícias e artigos de opinião, sem esquecer textos de apresentação desse Projecto, enviados pela OCDE e pelo Ministério da Educação.

São políticos, directores de escolas, pais e mães, alunos, empresários, professores, investigadores, sindicalistas, associações, confederações... Toda a gente opina, uma boa parte sem denotar qualquer sombra de dúvida, a partir da sua perspectiva e experiência.

Vejo e leio o que posso, o que consigo. O exercício não é fácil.

Não é fácil menos pelos erros e pela demagogia, do que pela sua persistência. Mesmo que venham a lume contribuições esclarecidas e ponderadas, elas escoam-se com gostas de água na areia quente.

Tenho-me lembrado por isso de um prefácio recente de António Muñoz Molina no qual reflecte sobre o sistema educativo da nossa vizinha Espanha. Eis o que diz:
"Imaginemos que os nossos sistemas de saúde caíam nas mãos de bruxos, gurus, homeopatas, curandeiros, astrólogos e vigaristas. Imaginemos que estes indivíduos ocupavam todos os postos de direcção, ditavam as políticas de saúde, os programas dos cursos de medicina e de outros pessoal de saúde. Apesar disso, a maioria dos profissionais tentaria fazer o seu trabalho (...) [Se isso acontecesse] a catástrofe seria tão imediata e devastadora e o clamor público tão intenso levariam a que fossem tomadas medidas correctivas imediatas (...). Está a ocorrer algo semelhante na educação espanhola, mas não estala qualquer escândalo.
O mais desolador é que essa calamidade, que de vez em quando aparece nas primeiras páginas dos jornais, não suscita nenhum debate verdadeiro (...) a não ser repetirem-se alguns dos lugares-comuns nauseabundos: a rejeição do alegado elitismo do saber por parte da esquerda, a obsessão pela competição e pelo mercado de trabalho por parte da direita (...)
O grau de disparate a que chegaram os nossos delírios verbais e, desgraçadamente, também as práticas dos charlatães e homeopatas da educação levar-nos-ia ao riso se não fosse o seu efeito sobre um dos factores mais importantes da nossa vida civil, da nossa economia, da nossa cultura, do nosso sistema democrático."
 In Royo, A. (2016). Contra da nueva educación, Barcelona: Plataforma Editorial, pp. 13, 15 e 16

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Património da ciência O património material das mais antigas universidades portuguesas


Meu artigo no último Colóquio Letras (na imagem o Laboratorio Chimico da Universidade de Coimbra):

Património significa, segundo o Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, «conjunto dos bens materiais e imateriais transmitidos pelos antepassados e que constituem uma herança colectiva». Quando se fala em património, pensa-se imediatamente em cultura e, como a ciência é parte da cultura, os edifícios, instrumentos e demais objectos científicos são decerto património cultural. A ciência é fonte de património, na medida em que resulta de um processo histórico que deixou abundantes marcas que importa preservar, para já não falar do património imaterial que a própria ciência constitui: a ciência é um corpo consolidado de conhecimentos, mas é sobretudo um método de produzir novos conhecimentos a respeito do mundo.

A educação superior, nas suas várias áreas disciplinares, não é mais do que a transmissão de uma parte, convenientemente escolhida, da herança recebida das gerações que nos precederam. A herança científica portuguesa é antiga, pois sempre houve ciência no país, existindo testemunhos muito valiosos dessa herança do tempo em que se percorreram mares desconhecidos. Nos séculos XV e XVI Portugal escreveu páginas da história mundial e para isso muito contribuiu o conhecimento científico e técnico. Se, depois disso, nem sempre foi criada ciência entre nós, o facto é que ela nunca deixou de ser ensinada. As universidades foram os sítios onde, na Idade Média, a ciência se estabeleceu e foram também os sítios onde, nos séculos XVI e XVII, teve lugar a Revolução Científica. No início do século XIX com a criação e difusão do conceito humboldtiano de universidade de investigação, as universidades viram reforçado o seu papel no conjunto das instituições científicas, onde se incluem outras instituições como academias de ciências e os laboratórios estatais e privados que emergiram com a Revolução Industrial.

Portugal tem uma das mais antigas universidades do mundo, a Universidade de Coimbra (a décima mais antiga entre aquelas que tiveram actividade ininterrupta), que sempre tentou adaptar-se às alterações que iam ocorrendo à escala global do conceito de universidade, empreendendo as necessárias reestruturações.

Neste Ano Europeu do Património Cultural, afigura-se oportuno valorizar o património associado à produção e transmissão de ciência em Portugal e, em particular, valorizar o património associado às quatro universidades nacionais mais antigas e, portanto, com maior património histórico: em primeiro
lugar, a Universidade de Coimbra, a mais antiga de todas por ser herdeira da Universidade fundada em Lisboa por D. Dinis em 1290; depois a Universidade de Évora, ligada intimamente à Companhia de Jesus e que funcionou entre 1559 e 1759, para só ser restabelecida em 1979; e, finalmente, com fundação paralela em 1911, logo no início da 1.ª República, as Universidades de Lisboa e do Porto, herdeiras de escolas pré-existentes, designadamente em Lisboa a Escola Politécnica e a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, e no Porto a Academia Politécnica e a Escola Médico-Cirúrgica do Porto.

A ciência e a tecnologia conheceram uma expansão muito forte em Portugal após a adesão à União Europeia em 1986 e, mais acentuadamente, após a constituição em 1995 do Ministério da Ciência e Tecnologia, cujo primeiro titular foi José Mariano Gago. Não admira por isso que as questões da
história da ciência, ligadas de perto ao património da ciência, tenham vindo a ser cada vez mais objecto de estudo entre nós. Com efeito, têm sido escritos numerosos artigos e memórias sobre a história da ciência em Portugal, embora sejam raros os trabalhos de síntese. Por outro lado, algumas iniciativas de recuperação de património científico — em particular o que está ligado às universidades históricas — têm tido lugar ou estão a ser preparadas. Neste artigo, apresenta-se um resumo do património científico material que está à guarda das nossas universidades históricas.

Universidade de Coimbra

A Universidade de Coimbra (UC), herdeira da universidade medieval fundada em Lisboa, chegou a Coimbra em 1308, alguns anos após a sua criação. De facto, foi em Lisboa que D. Dinis fundou a primeira universidade portuguesa em 1290, ao promulgar a carta Scientiae thesaurus mirabili (de 1 de Março desse ano), que conferia vários direitos aos estudantes do Estudo Geral de Lisboa. O Papa Nicolau IV reconhece-a pouco depois através da bula De statu regni Portugaliae. Incluía as Faculdades de Cânones, Leis e Medicina. Mostrando a sua estreita ligação ao poder régio, funcionou em Coimbra no Paço Real, hoje Paço das Escolas, o sítio mais central e monumental da UC. Após algum vaivém entre Lisboa e Coimbra, foi fixada nesta cidade em 1537 pelo rei D. João III, cuja estátua domina o Pátio das Escolas. Marcos fundamentais da sua história foram a Reforma Pombalina, empreendida em 1772 pelo Marquês de Pombal, que se deslocou propositadamente a Coimbra em representação do rei D. José para instaurar a mudança. Datam desse tempo das Luzes duas novas faculdades, a de Matemática e a de Filosofia, contendo sítios essenciais do nosso património científico: o Laboratorio Chimico, o Gabinete de Física Experimental, o Gabinete de História Natural, o Observatório Astronómico e o Jardim Botânico. Acrescem o Hospital Universitário e o Dispensário Farmacêutico, associados à Faculdade de Medicina. Para isso foram aproveitados notáveis edifícios quinhentistas que pertenciam aos jesuítas: o complexo formado pelo Colégio de Jesus, fundado em 1542 pelos padres inacianos, e pelo Colégio das Artes, fundado também em 1542 mas apenas entregue aos jesuítas em 1555, onde se frequentavam cursos pré-universitários. A 1.ª República conduziu, em 1911, a nova reforma da UC, com o fim das duas
faculdades pombalinas, que foram integradas na nova Faculdade de Ciências, antecessora da actual Faculdade de Ciências e Tecnologia.

Um bom exemplo de valorização do património científico foi a inauguração em 2006 do Museu da Ciência da UC (MCUC), ao fim de um longo processo que, através de requalificação arquitectónica, a cargo de João Mendes Ribeiro e do Atelier do Corvo, visou transformar num moderno espaço expositivo o Laboratorio Chimico, criado em 1773. A exposição permanente que tem estado patente desde a abertura do museu, intitulada «Segredos da Luz e da Matéria», combina vários objectos históricos das colecções da UC com modernos módulos interactivos, construídos com vista à apropriação pelo público de ideias científicas essenciais. Essa chamada «prefiguração» do MCUC teve lugar num edifício que foi um dos primeiros em todo o mundo construído propositadamente para o ensino experimental da Química, uma vez que esta disciplina estava então a emergir. O processo de prefiguração permitiu não só abrir ao público um novo pólo de cultura científica em Coimbra e no país, como também preparar conteúdos e conhecimentos para a segunda fase do desenvolvimento do MCUC, que contempla uma intervenção de maior envergadura no edifício do Colégio de Jesus, em frente ao Laboratorio Chimico. Foi realizado em 2008 um concurso internacional de arquitectura para a transformação do edifício em museu, mas, nos últimos anos, pouco ou nada se avançou, para além de uma progressiva abertura ao público dos espaços com museologia antiga naquele Colégio.

Sendo um dos mais antigos da Companhia de Jesus em todo o mundo, talvez mesmo o mais antigo (é do mesmo ano o Colégio de Santo Antão-o‑Velho, em Lisboa), o Colégio de Jesus alberga coleções museológicas de relevância não só nacional mas também internacional. Por exemplo, o Gabinete de
Física foi reconhecido em 2014 pela Sociedade Europeia de Física como Sítio Histórico de Física, após alguns dos seus instrumentos terem estado expostos na Europália, em Charleroi, Bélgica, em 1991, e na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, em 1997. Mas a extensão do Colégio — possui três pátios interiores — permite que, devidamente recuperado e liberto da actual ocupação, seja o espaço adequado para mostrar um vasto e valioso legado patrimonial em várias áreas da ciência (astronomia, física, química, geologia, biologia, antropologia, medicina, farmácia, etc.), que se encontra ainda disperso e que deveria ser objecto de moderna musealização. Por exemplo, existem hoje colecções visitáveis de Etnologia (com uma notável secção relativa aos índios da Amazónia), no edifício do antigo Colégio de São Bento, e de Anatomia Patológica, no antigo edifício da Faculdade de Medicina.

O enorme esforço de recuperação patrimonial realizado na primeira fase do MCUC foi decerto uma extraordinária mais-valia para concretizar com êxito a candidatura da UC — Alta e Sofia a Património Mundial da UNESCO, que ocorreu em 2013. Já antes, em 2008, o MCUC tinha sido distinguido pelo Fórum Europeu dos Museus com o prémio Micheletti para o melhor museu de
ciência e tecnologia. Várias dificuldades terão de ser enfrentadas no processo, que se deseja próximo, da segunda fase do Museu: uma é a constituição de reservas com as devidas condições para albergar a maioria do espólio científico e mesmo não científico da UC, que é muito numeroso por ter escapado
a calamidades como incêndios que ocorreram noutras universidades; outro é a própria definição dos conteúdos do Museu, uma vez que existem na UC colecções que não são de natureza científica (por exemplo, de arte sacra, ligadas à Capela da UC, e de tradições estudantis, no Museu Académico); outro ainda é o financiamento do projecto de restauração do edifício e sua moderna musealização,
para já não falar da necessidade de um modelo funcional de gestão (existiu uma Fundação Museu de Ciência, formada pela UC e pela Câmara Municipal de Coimbra, mas ela foi dissolvida no tempo da troika).

Não é demais realçar a relevância cultural dos dois colégios jesuítas de Coimbra, quer do ponto de vista religioso quer científico. Eles foram sítios onde muitos missionários se prepararam para partir rumo ao Oriente (como o grande mediador entre as culturas ocidental e chinesa que foi o italiano
Matteo Ricci) e foi também o sítio que recebeu os primeiros japoneses, convertidos ao cristianismo, a chegar à Europa. Os dois colégios jesuítas de Coimbra, juntamente com o Colégio de Santo Antão em Lisboa e o Colégio do Espírito Santo em Évora, foram, nos séculos XVI e XVII, importantes pontos
de passagem de matemáticos e astrónomos de diversos países europeus, que pretendiam estudar ou ensinar antes de se dirigirem para o Oriente (por exemplo, o austríaco Grienberger e os italianos Lembo e Borri, que contribuíram para a divulgação das descobertas feitas por Galileu em 1609). Os colégios de Coimbra dispunham, como espaço de uso comum, de uma cozinha e refeitório, e nesse sítio foi erguido, pelo arquitecto militar inglês Guilherme Elsden, o edifício de fachada neoclássica do Laboratorio Chimico. Apesar de os Jesuítas terem sido, nos séculos XVI e XVII, famosos pedagogos (correram mundo os  Conimbricenses, comentários a Aristóteles por onde estudou Descartes), o seu ensino degradou-se ao ficar retido na neoescolástica, num tempo que era de renovação intelectual na Europa, não admirando por isso que, na afirmação de um projceto de poder muito pessoal, o Marquês de Pombal tenha, em 1759, expulsado a Ordem do território português, num processo que culminaria
com a sua extinção pelo papa Clemente XIV em 1773. O amplo edifício do Colégio de Jesus, no qual está inserida a Sé Nova (pertencente à diocese de Coimbra), foi adaptado a lugar universitário pela Reforma Pombalina, com a instalação de gabinetes e museus ao serviço da nova Faculdade de Filosofia, e do Hospital Universitário (com um projectado Teatro Anatómico, sobre o qual
se sabe muito pouco), ligado à Faculdade de Medicina. Os bens patrimoniais ligados à Reforma Pombalina, que pretendeu romper com a neoescolástica vigente e estabelecer o ensino experimental, estiveram na origem do MCUC, procurando este valorizar coleções antes dispersas por pequenos museus universitários, pouco cuidados por manifesta falta de meios. Os instrumentos e modelos de astronomia, física, química, história natural e medicina do século XVIII documentam bem o modo como foi perseguido o ideal iluminista da busca do conhecimento por via experimental. Mestres dessa época foram os italianos Dalla Bella, físico, e Vandelli, químico e naturalista. Aos instrumentos
setecentistas juntaram-se outros dos séculos XIX e XX e, mais recentemente, as colecções do extinto Museu Nacional da Ciência e da Técnica, criado por Mário Silva em 1971, mas com vida curta, uma vez que fechou em 2012.

Outros espaços da «cidade dos estudantes» têm um valor patrimonial enorme: o Jardim Botânico, o segundo mais antigo do país e o primeiro de natureza universitária, também ligado à Reforma Pombalina. O espaço de 13,5 hectares é um dos tesouros da cidade, dividido entre uma parte ajardinada e outra florestal, conhecida por Mata do Jardim Botânico, que faz a transição entre a Alta e a Baixa vencendo um dos declives da cidade.

Mas há outros edifícios de ciências que têm valor patrimonial como o Instituto Geofísico, estabelecido em 1864 perto do Penedo da Saudade, e que foi o primeiro observatório magnético do país e também o primeiro observatório sismológico (o nome original era Observatório Meteorológico e Magnético), e o Observatório Astronómico, em Santa Clara, erguido no tempo do Estado Novo nos arredores da cidade, para substituir o belo Observatório que existia desde 1799 no Pátio das Escolas, em frente da Biblioteca Joanina, e que foi destruído num ato que não pode deixar de ser considerado lesivo da cultura científica (alegadamente para «limpar as vistas para o Mondego»). Esse Observatório no Pátio sucedeu a outro que começou a ser construído nas ruínas do castelo de Coimbra, no sítio onde está hoje a estátua de D. Dinis, e do qual já nada resta.

Universidade de Évora

A Universidade de Évora (UE) foi criada em 1559 pelo Cardeal D. Henrique, arcebispo de Évora e futuro rei, concretizando uma proposta que remonta ao tempo do rei D. João III, e tendo por base o Colégio do Espírito Santo, que ele próprio começou a construir em 1550 e a seguir entregou à Companhia de Jesus, que a geriu até à extinção da Ordem. O mesmo edifício voltaria a funcionar como escola de ensino superior em 1973, quando o ministro da Educação Nacional Veiga Simão criou o Instituto Universitário de Évora, que em 1979 se transformou na actual UE. A UE que funcionou durante dois séculos não era uma universidade completa, pois aí não se ensinava nem Medicina nem Direito Civil e parte do Direito Canónico. Dada a circulação de docentes na rede de colégios jesuítas, alguns professores foram comuns a Évora e a Coimbra, como Pedro da Fonseca, o mais importante filósofo português do século XVI, que a seu modo tentou renovar o pensamento aristotélico. À semelhança da de Coimbra, a UE não se revelou muito aberta à renovação imposta pela Revolução Científica. Ainda no tempo pombalino, o edifício do Colégio do Espírito Santo continuou a ser lugar de ensino. No século XIX foi sede da Casa Pia eborense, do Liceu Nacional de Évora e da Escola Comercial e Industrial da cidade.

No Colégio do Espírito Santo existe um precioso conjunto de azulejos de temas científicos, nas catorze salas de aula dispostas em volta de um claustro quadrangular. Alguns deles representam cenas de experiências, como a célebre experiência dos hemisférios de Magdeburgo, realizada nessa cidade alemã em 1634 por Otto von Guericke. Esses azulejos, que ocupam as salas, foram colocados no tempo de D. João V, com base em cartões holandeses, mas existem azulejos mais antigos no edifício, em particular na actual Sala dos Actos (antiga Capela). As salas de aula conservam ainda as respetivas cátedras, bancos corridos dos alunos, púlpitos e portas de madeiras exóticas. Hoje o Colégio está incluído num conjunto que é Património Mundial da UNESCO desde 1986.

Universidade de Lisboa

A Universidade de Lisboa (UL) é a maior universidade do país sob todos os aspetos, após a fusão ocorrida em 2012 entre a Universidade Clássica e a Universidade Técnica de Lisboa. A primeira foi criada por um governo da 1.ª República em 1911, ao passo que a segunda remonta a 1930, embora a sua maior escola, o Instituto Superior Técnico (IST), tenha sido criada em 1911, sob o impulso de Alfredo Bensaúde.

Na altura da fundação da Universidade por D. Dinis, ela localizava-se no Campo da Pedreira, entre a atual Rua Garrett e o Convento da Trindade, no centro histórico de Lisboa. Em 1431 o Infante D. Henrique apoiou a Universidade, ao dar-lhe vários edifícios, onde hoje é a Rua das Escolas Gerais, em Alfama. São dessa época as mais antigas referências a estudos de Astronomia na universidade portuguesa, com o fim de ajudar na náutica.

Quando a Universidade foi transferida definitivamente para Coimbra, era mestre em Lisboa um dos maiores cientistas portugueses de todos os tempos, Pedro Nunes, o «cosmógrafo-mor do reino» que foi depois ensinar para aquela cidade. Um colega de Pedro Nunes, o médico Garcia da Orta, não o acompanhou, pois estabeleceu-se em Goa.

No século XIX, após a Revolução Liberal, sentiu-se que a UC já não conseguia satisfazer todas as necessidades de ensino numa época que começava a ser marcada pela Revolução Industrial. Foram assim criadas a Régia Escola de Cirurgia (1825), situada no Hospital de São José, à qual se sucedeu, em 1836, a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e, em 1911, a Faculdade de Medicina da UL. Em 1837, no quadro da reforma de Passos Manuel, foi fundada a Escola Politécnica, instalada no Príncipe Real, no antigo Colégio dos Nobres — uma instituição, criada pelo Marquês de Pombal numa antiga casa de jesuítas (o Noviciado da Cotovia), que não foi bem sucedida. Em 1911 foram criadas a Faculdade de Ciências, que substituiu a Escola Politécnica, e a Faculdade de Medicina, que substituiu a Escola Médico-Cirúrgica. Em 1906 a Escola Médico-Cirúrgica recebia em novas instalações no Campo de Santana o XV Congresso Internacional de Medicina.

O edifício da Escola Politécnica é hoje a sede dos Museus da UL/ Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC), cujo espólio é considerável e poderia ser maior não fora o trágico incêndio de 1978. O edifício, de fachada neoclássica, foi construído entre 1857 e 1878 sobre as ruínas de um outro, destruído por um incêndio em 1843, onde tinha estado o Colégio dos Nobres, no século XVIII. Um dos sítios de maior interesse, até porque escapou ao incêndio mais recente, é o Laboratório Químico, construído na segunda metade do século XIX, restaurado e aberto ao público em 2007. Tem em anexo um anfiteatro, onde foram dadas aulas de Química durante muitos anos (destacou-se no século XIX o químico Agostinho Lourenço) e reservas museológicas visitáveis. Perto está o Observatório Astronómico da Escola Politécnica, fundado em 1875, e o Observatório Meteorológico do Infante D. Luís, fundado em 1853 — o mais antigo do país. O Jardim Botânico de Lisboa, iniciado em 1873, anexo ao MUHNAC, não é o mais antigo do país, mas sim o Jardim Botânico da Ajuda, pertencente ao Instituto Superior de Agronomia da UL, que faz 250 anos em 2018. À UL pertence ainda o Jardim Botânico Tropical, junto aos Jerónimos, em Belém, que remonta a 1906. Os dois primeiros são mais pequenos: têm quatro hectares, ao passo que o terceiro tem sete.

Além das que estão depositadas no MUHNAC, a UL conta com outras coleções científicas, dispersas por vários locais. A Faculdade de Medicina, em particular, possui um valioso património histórico. Em 2005, o Núcleo Museológico dessa faculdade foi transformado em Museu de Medicina, ocupando
um espaço provisório no edifício principal da Faculdade, e procurou relacionar ciência e arte. Mais recentemente foi celebrado um acordo que permite uma integração, pelo menos parcial, no MUHNAC. Existe ainda o Museu Egas Moniz, constituído em 1957 no Hospital de Santa Maria. Inclui cerca de 400 objectos do Nobel da Medicina e Fisiologia, dispostos de modo a narrar o seu percurso científico.

Por seu lado, no IST existem os seguintes museus com conteúdos de Ciências da Terra e de Engenharia: Museu Alfredo Bensaúde, de mineralogia e petrologia; Museu de Engenharia Civil; Museu Décio Thadeu, sobre geologia e jazigos minerais; e Museu Faraday, com instrumentos elétricos.

Para completar o elenco de edifícios e colecções históricas da UL, há que referir o Observatório Astronómico de Lisboa, na Tapada da Ajuda, construído em 1861.

Universidade do Porto

A Universidade do Porto (UP) foi criada em 1911 ao mesmo tempo que a de Lisboa. São suas antecessoras mais remotas a Aula de Náutica, fundada por D. José I em 1762, e a Aula de Debuxo e Desenho, fundada por D. Maria I em 1779. A UP assentou em duas instituições de ensino superior
oitocentistas: a Academia Politécnica e a Escola Médico-Cirúrgica do Porto. A Academia Politécnica tinha como fim principal o ensino das ciências industriais e formava engenheiros, além de oficiais de marinha, pilotos, comerciantes, agricultores, directores de fábricas e artistas. Herdeira em 1837
da Academia Real da Marinha e Comércio do Porto, criada em 1803 pelo Príncipe Regente D. João (futuro D. João VI), surgiu, tal como a sua congénere de Lisboa, em resultado da reforma de Passos Manuel. Foram cientistas notáveis da Academia Politécnica o matemático Gomes Teixeira e o químico Ferreira da Silva. Por sua vez, a Escola Médico-Cirúrgica do Porto surgiu em 1836, sucedendo à Real Escola de Cirurgia, criada em 1825 por D. João VI, e funcionava junto ao Hospital da Misericórdia do Porto, hoje Hospital de Santo António. A nova escola médica fixou-se neste Hospital, anexando uma Escola de Farmácia. Em 1911, surgiu a UP, que inclui a Faculdade de Ciências, destinada ao ensino das várias ciências exactas e naturais, e tendo anexas as cadeiras de engenharia da Academia Politécnica do Porto, e a Faculdade de Medicina, tendo anexa uma Escola de Farmácia. Em 1915 foi criada a Faculdade Técnica que viria a ser renomeada Faculdade de Engenharia em 1926. A Faculdade de Farmácia autonomizou-se em 1921 da Faculdade de
Medicina.

Estabelecido em 2015 como resultado da fusão dos preexistentes Museu de História Natural e Museu da Ciência (Núcleo da Faculdade de Ciências), o Museu de História Natural e da Ciência da UP (MHNC-UP) propõe-se desenvolver e difundir conhecimento sobre a evolução do mundo vivo e procurar pontes entre a ciência e a arte. Pretende preservar, valorizar, estudar e divulgar património ligado às actividades de educação e de investigação levadas a cabo pela UP ao longo do tempo. Possui um pólo central no edifício da Reitoria da UP, na Praça dos Leões, em zona classificada em 1996 como Património Mundial, e outro no Campo Alegre, que inclui a Galeria da Biodiversidade, na Casa Andresen, para o efeito completamente remodelada, e o Jardim Botânico do Porto, criado em 1837 e que ocupa quatro hectares. O pólo central, que vai albergar colecções históricas de geologia, paleontologia, botânica, zoologia e arqueologia, encontra-se em processo de reestruturação (um elemento importante será um Laboratório Químico do início do século XX), ao passo que o segundo se encontra aberto ao público desde 2017. O MHNC-UP juntou na Galeria da Biodiversidade um Museu de Ciência e um Centro Ciência Viva, com fins de educação, divulgação, conservação e investigação. Nele se contam histórias sobre a vida, destacando-se objectos e fenómenos significativos, assim como personalidades históricas, com recurso a soluções museográficas inovadoras.

A Faculdade de Ciências da UP dispõe de algumas instalações históricas, que incluem o Observatório Astronómico Prof. Manuel de Barros, no Monte da Virgem, o Instituto Geofísico na Serra do Pilar e a Estação de Zoologia Marítima, na Foz. A Faculdade de Engenharia, na Asprela, dispõe de um
museu sobre as suas actividades.

A Faculdade de Medicina da UP possui dois espólios museográficos: o Museu de História da Medicina Maximiano Lemos — situado no edifício comum da Faculdade com o Hospital de S. João —, que apresenta a história da disciplina e inclui uma galeria de arte, e o Museu de Anatomia, fundado em 1825 por dois professores dessa disciplina na então recente Real Escola de Cirurgia do Porto. Em 1959/60, este último transitou, com a Faculdade de Medicina, para o edifício do Hospital de S. João, onde passou a ocupar uma área do Instituto de Anatomia Prof. Pires de Lima. Mais tarde foi transferido para o sítio onde hoje se encontra, perto do Anfiteatro Norte da Faculdade de Medicina. O Museu de Anatomia possui importante acervo de centenas de peças anatómicas, algumas das quais bastante antigas. A Faculdade de Farmácia da UP tem um museu próprio inaugurado em 2013.

No Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, existe um outro Museu de Anatomia, que tem o nome do Prof. Nuno Grande. Em S. Mamede de Infesta, nos arredores do Porto, pode ser visitada a Casa Museu Abel Salazar, onde viveu o ilustre professor da UP e também artista plástico que o Estado Novo afastou da docência.

Conclusão

Em resultado da sua história, as Universidades de Coimbra, Évora, Lisboa e Porto possuem um notável património científico. Sítios cimeiros desse património são o Museu de Ciência da UC, um projeto onde se destacam o Laboratorio Chimico e o Gabinete de Física Experimental de Coimbra — os dois quase únicos à escala global —, mas que permanece incompleto à espera da segunda fase (que devia acima de tudo valorizar coleções de História Natural e de Etnologia únicas no país); o Museu Nacional de História Natural e de Ciência da UL, que remodelou a área do Laboratório Químico, mas que precisa igualmente de obras de requalificação; e o Museu de História Natural da UP, que aguarda ser complementado pelo seu segundo pólo, no edifício da Reitoria, onde está a ser recuperado um Laboratório Químico centenário. Nos três sítios existem também jardins botânicos históricos que podem ser desfrutados pelo público. Na UE existe um antigo colégio jesuíta que ainda funciona como lugar de ensino. São louváveis os esforços realizados em Coimbra, Lisboa e Porto para reunir colecções, organizando-as de um modo profissional e colocando-as à disposição de quem as queira visitar. Nos três sítios do país aqui considerados existem laboratórios químicos, de diferentes épocas, que, no seu conjunto, dão uma ideia do desenvolvimento da química desde a sua origem. Por outro lado, não se pode dizer que os museus da área das Ciências da Saúde e da Engenharia tenham o mesmo grau de desenvolvimento e visibilidade que os museus de História Natural e de Ciências Físico-Químicas.

Uma nota final: As universidades têm funcionado com um orçamento que não contempla a componente patrimonial. Faria todo o sentido que o Estado se interessasse pelo património científico, pelo menos tanto quanto se interessa pelo restante património.

Referências Bibliográficas

Geral

- AA.VV., História da Universidade em Portugal, vol. I, t. I (1290-1536) e t. II (1537-1771), Coimbra/ Lisboa, Universidade de Coimbra/Fundação Calouste Gulbenkian, 1997.
- Fiolhais, Carlos, História da Ciência em Portugal, Lisboa, Arranha-Céus, 2013.
- Museologia.PT, n.º 4, Lisboa, Instituto dos Museus e da Conservação, 2010 (inclui um dossier
sobre Museus de Ciência).

Coimbra

- AA.VV., O Engenho e a Arte. Colecção de Instrumentos do Real Gabinete de Física, Lisboa/Coimbra, Fundação Calouste Gulbenkian/Universidade de Coimbra, 1997.
- AA.VV., Les Mécanismes du génie. Instruments scientifiques du XVIIIe et du XIXe siècles. Collection du Cabinet de Physique et de l’ Observatoire astronomique de l’ Université de Coimbra, Charleroi, 1991.
- Antunes, Ermelinda Ramos (com.), Laboratório do Mundo. Ideias e Saberes do Século XVIII,
São Paulo, Ministério da Cultura, Pinacoteca/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004.
- Lobo, Rui, Os Colégio de Jesus, das Artes e de S. Jerónimo: Evolução e Transformação no Espaço
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- Martins, Décio, Carlos Fiolhais, e Carlota Simões (eds.), História da Ciência na Universidade de
Coimbra (1772-1933), Coimbra, Imprensa da Universidade, 2013.
- Mota, Paulo Gama (coord.), Museu da Ciência. Luz e Matéria, Coimbra, Universidade de
Coimbra, 2006.
- Pimentel, António Filipe, A Morada da Sabedoria I — O Paço Real de Coimbra: Das Origens ao
Estabelecimento da Universidade, Coimbra, Almedina, 2005.
- Torgal, Luís Reis, A Universidade de Coimbra/L’Université de Coimbra/The University of
Coimbra/Die Universität Coimbra, Coimbra, Almedina, 2002.

Évora

- Lobo, Rui, O Colégio-Universidade do Espírito Santo de Évora, Évora, CHAIA, 2009.
- Nunes, Maria de Fátima, e Augusto da Silva, SJ (coords.), Da Europa para Évora e de Évora para
o Mundo. A Universidade Jesuítica de Évora 1559-1759, Évora, ISES, 2009.
- Pereira, Sara Marques, e Francisco Lourenço Vaz (coords.), Universidade de Évora (1559-2009).
450 Anos de Modernidade Educativa, Lisboa, Chiado Editora, 2012.

Lisboa

- Fernandes, Hermenegildo (coord.), A Universidade Medieval em Lisboa, Séculos XIII-XVI,
Lisboa, Tinta-da-China, 2013.
- Janeira, Ana Luísa, Sistemas Epistémicos e Ciências. Do Noviciado da Cotovia à Faculdade de
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- Janeira, Ana Luísa, Maria Estela Guedes e Raquel Gonçalves (eds.), Divórcio entre Cabeça e Mãos?
Laboratórios de Química em Portugal (1772-1955), Lisboa, Livraria Escolar Editora, 1998.
- Lourenço, Marta C., e Ana Carneiro (eds.), Spaces and Collections in the History of Science. The
Laboratorio Chimico Overture, Lisboa, Museu da Ciência da Universidade de Lisboa, 2009.
- Lourenço, Marta C., e Maria João Neto (coords.), Património da Universidade de Lisboa. Ciência
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- Matos, Sérgio Campos, e Jorge Ramos do Ó (coord.), A Universidade de Lisboa, Sécs. XIX-XX,
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- Ribeiro, José Lopes, O Edifício da Faculdade de Ciências. Quatro Séculos de Retratos Institucionais, Lisboa, Edições 70, 1987.

Porto

- Bernardo, Luís Miguel (coord.), Dois Séculos: Instrumentos Científicos na História da Universidade
do Porto, Porto, Universidade do Porto, 2011.
- Santos, Cândido dos, Universidade do Porto: Raízes e Memórias da Instituição, Porto, Universidade
do Porto, 1996

A imaginação, a ciência... e as crianças


Meu artigo na última revista PAIS:

Perguntaram um dia a Einstein se “ele confiava mais na sua imaginação ou no seu conhecimento”. A resposta foi rápida: “A imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento do mundo é limitado. A imaginação dá a volta ao mundo.” Esta resposta merecia ser mais conhecida, pois, para muita gente, a imaginação é estranha à ciência. Nada mais falso: a imaginação é, afinal, o meio que os cientistas usam para fazerem as suas viagens mentais ao mundo todo. Ao contrário do que é pensamento comum, não são só os artistas que recorrem à imaginação para criarem, mas são também os cientistas. Poder-se-á pensar que, se a missão do cientista é descrever e explicar o mundo, então eles não poderão ter mais do que a “imaginação do mundo,” isto é, só terão que imaginar como é o mundo, ao passo que os artistas podem, mais livremente, imaginar “outros mundos.” Acontece, porém, que o mundo em que vivemos tem muita imaginação, no sentido em que não tem sido fácil chegar às leis do funcionamento do mundo. Por outro lado, a liberdade dos artistas também não é tanta como em geral se crê, porque os mundos que imaginam estão obviamente limitados pela sua familiaridade com o mundo real.

O nosso cérebro, sendo parte do mundo, é fruto de um longo convívio com ele. Imaginar é, segundo os dicionários, a faculdade que a nossa mente tem de criar imagens, representações, fantasias. A imaginação consiste sempre em dar um salto mental, um salto que pode ser maior ou menor conforme a imaginação nos levar mais perto ou mais longe. O que acontece no cérebro humano, essa prodigiosa conexão de neurónios, quando imagina é algo que ainda desafia as neurociências, apesar de todos os progressos que estas têm realizado nos anos mais recentes. Mas o certo é que os grandes cientistas, como Einstein, foram grandes imaginadores. Em busca de uma melhor compreensão da realidade, criaram imagens, representações, fantasias, que têm à partida de ter alguma coerência. E, depois, tiveram de escolher, entre essas imagens, representações e fantasias, aquela ou aquelas que melhor se ajustavam ao que eras observado e experimentado. O confronto com a realidade é obrigatório para os cientistas.

Imaginar o mundo 

A ciência consiste, assim, em imaginar o mundo. Não é tanto um corpo fixo de conhecimentos, mas mais a capacidade  de alargar continuamente esses conhecimentos, usando em primeiro lugar a imaginação, e depois o raciocínio lógico, a observação cuidadosa, o pensamento adequado. Usando o chamado método científico, um método que tem dado resultados extraordinários.

 Um exemplo do uso da imaginação encontra-se em Arquimedes, o maior cientista da Antiguidade. Conta a lenda que, um dia, ele desatou a correr nu pelo centro da cidade de Siracusa, na Sicília, porque, estando a tomar banho, imaginou que ele próprio era um barco: dentro de água uma força opunha-se à força da gravidade ou peso, fazendo-o flutuar. Arquimedes era pesado, mas dentro de água era como se não pesasse. Formulou então a lei que tem o seu nome: todo o corpo mergulhado num líquido está sujeito a uma força, dirigida de baixo para cima, cujo valor é o do peso do volume de água deslocada. Isto é, Arquimedes dentro da banheira imaginou que o volume de água que deslocava tinha um peso igual ao seu. Eureka!

Outros exemplos de leis físicas podem ser dados. Por exemplo, desde temos imemoriais que se sabe que uma pedra de uma certa região da Ásia menor (a Magnésia, na actual Turquia) tem a propriedade de atrair pequenos corpos metálicos. Só mais tarde – aconteceu na China – se percebeu que uma agulha feita desse material, um magnete ou íman, apontava sempre para a mesma direção, a direção aproximada do pólo norte, o que permitia a orientação na Terra. O instrumento inventado pelos chineses e depois usado pelos descobridores portugueses chama-se bússola. Foi preciso, mais tarde, um salto mental para se perceber que a Terra é, ela própria, um grande íman. Concluiu-se que a bússola funcionava porque o pólo norte da agulha aponta para o pólo sul magnético da Terra, que está perto do pólo norte geográfico.

Curiosidade natural 

As crianças são curiosas a respeito do mundo. Nascem com uma curiosidade natural. Olham para o mundo logo desde que nascem, começam por agarrar os objectos à sua volta para melhor para ganharem uma compreensão do mundo. Logo que o seu cérebro, ligado aos olhos e às mãos, tenha o desenvolvimento necessário, colocam perguntas, primeiro “o quê?” e depois “porquê?”. O seu cérebro faz representações que a sua experiência vai confirmar ou desmentir. Muitas vezes as coisas são como a criança pensa que são e outras vezes não são. Neste quadro, podemos dizer que as crianças são “pequenos cientistas”: elas querem saber como é o mundo, querem compreender o mundo.

É, portanto, fácil, pelo menos em princípio, levar a ciência às crianças, mesmo pequenas. Isso consegue-se fazendo experiências simples, que permitem aos infantes uma percepção cada vez maior do mundo à sua volta. Por exemplo, podem ver se um objecto flutua ou afunda em água e até classificar objectos entre aqueles que flutuam e aqueles que afundam. A seguir vem o “porquê”: o que é que determina que umas coisas se afundem e outros flutuem? Podem pensar que é o peso, mas a realidade é um pouco mais complicada: uma bola de plasticina afunda-se em água, mas o material da mesma bola já flutua se lhe for dada a forma de um barco. O segredo está na lei de Arquimedes: a bola transformada em barco desloca mais água! A criança pode usar o conhecimento adquirido para melhorar o seu barco. E passa a ver os barcos de uma outra maneira.

 Uma semelhante aproximação à ciência pode ser realizada com ímanes: as crianças são fascinadas por eles. Há muitas experiências simples de magnetismo que podem ser feitas por crianças sobre magnetismo. Podem verificar que pólos do mesmo tipo se repelem e que pólos de tipos diferentes se atraem e podem também verificar que alguns objectos são atraídos por ímanes e outros não.

A propósito, recomendo a série “Ciência a Brincar” (Bizâncio), 10 livros que ajudei a preparar com o apoio de sociedades científicas, há alguns anos, mas que não se desactualizaram, pois a ciência que apresentam não mudou. E recomendo também a rede de Centros Ciência. Viva, espalhada pelo país, onde se podem fazer muitas actividades de experimentação a brincar. Sim, a brincar, pois a ciência pode começar como jogo.

Exercitar desde cedo

Os educadores - pais ou professores - devem estimular a imaginação das crianças, proporcionando-lhes contextos para exercitar o pensamento: uma maçã e uma batata terão destinos diferentes quando colocadas na água? Conseguir-se-á pôr um íman a flutuar no ar só com outros ímanes? As crianças adoram experimentar e essa sua atitude deve ser aproveitada, desde cedo, para lhes inculcar a noção de que há uma diferença entre o certo e o errado. Caberá naturalmente à escola promover o desenvolvimento intelectual, de modo a que a sua interação com o mundo seja cada vez mais elaborada.

Einstein passou a sua tenra idade no meio estimulante da sua família, antes de ir para a escola (onde, ao contrário do que é voz corrente, teve boas notas). Numa fase final da vida, contou uma das suas recordações mais antigas relacionadas com a ciência: “Observei um milagre […] quando em criança, com quatro ou cinco anos, o meu pai me ofereceu uma bússola”. O pequeno Einstein, conforme ele disse, “tremeu e arrepiou-se.” Acrescentou: “Por detrás dos objectos deve haver algo que permanece profundamente oculto […] o desenvolvimento do nosso mundo de pensamento é, num certo sentido, uma fuga ao milagre”. Que força misteriosa era essa que impelia a agulha de bússola, uma e outra vez sempre para o mesmo lado?

Einstein acabava de observar uma lei física – a lei das ações magnéticas à distância – e começou a imaginar o que seriam essas acções. A imaginação foi a chave da sua vida científica. Para chegar à sua teoria da relatividade, começou por pensar como veria o mundo alguém que viajasse à velocidade da luz? Como essa experiência é impossível, Einstein só podia imaginar. A imaginação, que o acompanhava desde criança, levou-o muito longe…

Em resumo: a entrada na ciência deve fazer-se estimulando a imaginação infantil através de actividades interactivas e lúdicas. A ciência pode começar a brincar. Exercitar desde muito novo, e sem receios, a imaginação é a chave para uma vida criativa, alicerçada na família e na escola e posta em prática na sociedade.