quarta-feira, 4 de julho de 2018

PORTUGAL NA AMÉRICA

Abade José Correia da Serra

Crónica de Carlos Fiolhais, no Público de hoje:

Marcelo Rebelo de Sousa no seu recente encontro com Donald Trump na Casa Branca não perdeu a oportunidade de dizer ao seu par, algo desinteressado, que a Declaração da Independência dos Estados Unidos, cujo rascunho foi escrito por Thomas Jefferson e cuja versão final data de 4 de Julho de 1776, foi celebrada com vinho da Madeira. E mais lembrou que Portugal foi um dos primeiros países neutros a reconhecer a independência da nova nação, em 1783.

Mas podia ter dito mais. Por exemplo, que o abade José Correia da Serra, um grande amigo de Jefferson, o terceiro presidente americano, após George Washington e John Adams, foi considerado por este o “homem mais ilustrado que conheceu”, o que não era dizer pouco, pois Jefferson além de estadista era um sábio. O abade chegou à América em 1812 e em 1816 foi nomeado embaixador do reino de Portugal, Algarve e Brasil, quando já era presidente o sucessor de Jefferson, James Madison. Sendo visita regular da casa de Jefferson, a mansão Monticelllo, na Virgínia, o dono da casa tinha reservado para ele um quarto, que hoje os visitantes podem ver (o Abbé Corrêa’s room). Com Jefferson, o Abade alimentou a utopia de uma nova civilização nas Américas, que ambos queriam mais avançada do que a europeia (para Serra os dois países eram “as duas grandes potências do hemisfério ocidental”). A América do Norte ficaria para os Estados Unidos e a América do Sul para Portugal. É curioso como um padre católico se entendia bem com um protestante unitarista, mas unia-os a filiação maçónica. Em 1820, no ano da Revolução Liberal, um ano antes do regresso da corte do Rio de Janeiro a Lisboa e dois anos antes da independência do Brasil, o embaixador luso regressava à sua terra natal.

Marcelo podia também ter dito que o prémio científico mais antigo da nação americana, e que ainda hoje é atribuído, foi estabelecido pela Sociedade Filosófica Americana, sedeada em Filadélfia, em 1786, com 200 guinéus doados pelo português João Jacinto Magalhães, que vivia em Londres e era amigo do fundador da Sociedade, o físico e diplomata Benjamin Franklin. O Magellanic Premium, que se destina a recompensar o “autor da melhor descoberta ou mais útil invenção relacionada com a navegação, a astronomia ou a filosofia natural,” já foi dado 34 vezes, uma das quais aos inventores do GPS.

Podia ainda ter dito que dois dos maiores escritores portugueses do século XIX - Antero de Quental e Eça de Queiroz - visitaram os Estados Unidos e que outros dois grandes nomes das letras, estes do século XX - José Rodrigues Miguéis e Jorge de Sena – lá viveram numa boa parte da sua vida (os dois morreram no exílio). E podia, como Onésimo Almeida referiu no seu discurso do 10 de Junho em Ponta Delgada, que grandes cientistas americanos contemporâneos como o Nobel da Medicina Craig Mello e o físico e ex-secretário de Estado da energia Ernest Moniz têm ascendência lusa, os dois com raízes na ilha de S. Miguel. E podia ainda ter acrescentado que numerosos cientistas portugueses trabalham hoje nos Estados Unidos como a bióloga Sílvia Curado, presidente da Portuguese American Postgraduate Society, que reúne a diáspora científica nos Estados Unidos e Canadá e que acaba de celebrar 20 anos com um encontro na Universidade de Harvard, em Boston (brindou-se com Porto). Receio, contudo, que, com essa overdose de informação, Trump tivesse ficado KO.

Marcelo rematou que “Portugal é um pouco diferente dos Estados Unidos” quando Trump engendrou uma candidatura de Ronaldo à presidência. É-o, de facto. Há coisas melhores cá (um emigrante gritou a Marcelo em Boston: “És melhor do que o Trump!”) e outras melhores lá (por exemplo, o sistema científico-tecnológico). A escritora micaelense Natália Correia, que em 1950 visitou a América (era na altura Mrs. Hyler pois tinha casado com um americano), resumiu no seu livro com o sugestivo título Descobri que era Europeia (Ponto de Fuga, 2018), o gap entre a América e a Europa: “A América é um problema de que só ela tem a chave. A solução desse problema só interessa aos americanos. Se tentarmos compreendê-lo partindo de nós próprios, da nossa concepção do que ela ‘possa ser’, escolhemos o caminho mais longo, pois somos estruturalmente diferentes.”

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