sábado, 9 de junho de 2018

Crianças consumidoras, alunos clientes

Entrevista recentemente realizada a Daniel Pennac, professor, escritor, ensaísta francês. Destaco o seguinte (a partir do segundo minuto):


[Crianças consumidoras, alunos clientes]
As crianças de hoje são consideradas pela sociedade de consumo como clientes. Produz-se publicidade para as levar a consumir. Consumir tablets, consumir computadores portáteis, consumir roupa, consumir, consumir, consumir (…)É essa a cultura, a cultura quotidiana. 
Quando vão para a escola comportam-se face ao professor como pequenos consumidores. Mas eu, professor, não me dirijo aos teus desejos, dirijo-me às tuas necessidades fundamentais. Necessidade de aprender a ler, aprender a contar, necessidade de aprender a pensar, a reflectir. A maior parte destas necessidades opõem-se directamente aos teus desejos. 
É por isso que é muito mais difícil ser professor hoje que nos anos de 1950, quando os miúdos não eram clientes da sociedade de consumo. 
O que podem os professores fazer? 
O problema é que as criança deste muito pequena, desde o berço, são levadas a acreditar que os seus desejos são necessidades fundamentais. Acreditam que a sua felicidade depende da satisfação de desejos que tomam por necessidades fundamentais. O trabalho dos adultos consiste em separar estas noções – desejo e necessidade fundamental. 
A felicidade, a verdadeira felicidade, podemos consegui-la quando aprendemos a compreender. Isso é o que nos torna felizes. Quando compreendo as coisas, quando de repente compreendo (...) Compreendo que a publicidade é mentirosa… 
A compreensão é uma boa fonte de felicidade verdadeira.
Educar
Creio que não podemos descartar as nossas responsabilidades numa instituição. Primeiro é preciso que eu como pai seja responsável pelo meu comportamento face aos meus filhos. O que é que faz a educação das crianças? É o exemplo. 
Sobre o prazer de aprender 
Falta dizer aos jovens que, ao contrário do que dizemos, o amor faz com que sejamos mais inteligentes (…) 
Contrabandista é aquela pessoas que está consciente da sua própria cultura, sabendo que ela não lhe pertence e que pode fazer a felicidade dos outros (…). Meus jovens, é muito simples, tudo o que sabeis não vos pertence. Não é vossa propriedade privada. Apenas passa através de ti. Uma das vossas razões de estarem sobre a terra é partilhar isso 
Não tenhas medo de ser curioso, sê curioso. A curiosidade é realmente um remédio contra o medo. Sé, sobretudo, curioso (…) não te feches (…).

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