quarta-feira, 6 de junho de 2018

2027, CAPITAL EUROPEIA DA CULTURA


Meu artigo de opinião no Público de hoje:


Em 1994 Lisboa foi Capital Europeia da Cultura, em 2001 foi o Porto e em 2012 Guimarães. A iniciativa da União Europeia visa “acentuar a riqueza e diversidade de culturas na Europa, celebrar as marcas culturais partilhadas pelos europeus, aumentar nos cidadãos o sentido de pertença a um espaço cultural comum e fomentar o contributo da cultura para o desenvolvimento citadino.” Começou em 1985 com Atenas, sob o impulso da ministra grega Melina Mercouri, e prosseguiu nos anos seguintes com Florença e Amesterdão. A experiência tem mostrado que, para além dos objectivos atrás apontados, as capitais da cultura têm sido óptimas oportunidades para “regenerar cidades, aumentar o seu perfil internacional, aumentar a autoimagem dos habitantes, reanimar a cultura urbana e desenvolver o turismo.” Estes fins foram atingidos nas três capitais portuguesas, apesar das costumadas limitações orçamentais e dos também habituais percalços das organizações lusas. Do Porto 2001 ficou, para além da regeneração do espaço público, a Casa da Música, e de Guimarães 2012 ficou, para além de similar reabilitação urbana, a Plataforma das Artes e da Criatividade.

É, por isso, natural, que esteja instalada a corrida para a organização da próxima Capital da Cultura em Portugal. Será só em 2027, mas o processo de selecção é longo e complexo, iniciando-se seis anos antes. As regras europeias são exigentes e pormenorizadas e a escolha entre as várias candidaturas será feita até 2023 por um comité internacional de especialistas (o governo nacional será mero observador). Os critérios são “a contribuição para a estratégia a longo prazo, a dimensão europeia do projecto, o conteúdo cultural e artístico, a capacidade de realização, o impacto e a gestão”. Várias cidades de Norte a Sul do país aceitaram o desafio e arregaçaram as mangas: Viana do Castelo, Braga, Aveiro, Coimbra, Viseu, Guarda, Leiria, Caldas da Rainha (congregando vários sítios do Oeste), Oeiras, Cascais, Évora e Faro. Nalguns casos há responsáveis e equipas em pleno funcionamento: Aveiro nomeou Carlos Martins, que dirigiu a Fundação Cidade de Guimarães, Leiria escolheu João Bonifácio Serra, que liderou Guimarães 2012, e a Guarda optou por José Amaral Lopes, ex-secretário de Estado da Cultura. Algumas urbes procuraram reforçar o seu perfil internacional: foi o que fez Aveiro ao participar na Roménia numa conferência de cidades candidatas e ao anunciar que a próxima reunião será cá, Évora ao apresentar o seu projecto no Salão Internacional do Património Cultural em Paris, e a Guarda a propor uma ligação privilegiada a Salamanca. O envolvimento das organizações e agentes culturais locais tem enriquecido sobremaneira as candidaturas anunciadas: ele é bem visível em Aveiro (a Câmara prepara mesmo um Plano Estratégico de Cultura, valorizando os recursos regionais), Leiria e Guarda.

Eu gostava muito que a melhor candidatura fosse a de Coimbra. Se olharmos para a história, para o património, para a intensa actividade cultural nalguns sectores e pela presença científica e cultural da Universidade, verificaremos que existem condições ímpares para esse êxito. Infelizmente, por manifesta incapacidade da Câmara Municipal, o processo, que estava atrasado, começou da pior maneira. A Câmara acaba de anunciar, num passe de mágica, que o responsável pela candidatura será Luís de Matos, um ilusionista com o seu mérito mas a quem não é conhecida qualquer ideia sobre a cultura (curiosamente, integrou a comissão de honra da campanha eleitoral do Presidente da Câmara e tem feito vários contratos com ele). Há do lado da Câmara coimbrã, que nem sequer consegue fazer uma feira do livro decente, um penoso vazio cultural. Não são marcas fortes da intenção ora anunciada nem a necessária dimensão global, que deveria ser potenciada pela classificação em 2013 da Universidade de Coimbra como Património Mundial da UNESCO, nem o imprescindível trabalho conjunto dos agentes culturais da cidade, alguns deles com pergaminhos reconhecidos no país e lá fora, mas feridos pelo recente despautério na pasta da Cultura. Coimbra bem poderia ser uma lição. Mas, a continuar como começou, o seu projecto de Capital da Cultura não passará de uma ilusão.

4 comentários:

  1. A grande referência cultural de Coimbra é a sua Universidade.Se a Professora Teresa Lago, mulher de grande cultura científico-humanística, foi nomeada para dirigente da Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura, então, agora, nesta fase de candidaturas, Coimbra não pode esquecer a personalidade multifacetada do Professor Carlos Fiolhais, um homem de espírito renascentista, na senda de Galileu Galilei, que se sente como peixe na água quando se abordam quaisquer temáticas físicas ou metafísias, substituindo-o por um Luís de Matos qualquer, cujas altas manigâncias não são mais elevadas do que as facécias de um palhaço autêntico!

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  2. É que o Luís de Matos formou-se num Instituto Politécnico, o de Coimbra - Escola Superior Agrária e, por isso, tem muita qualidade, tal como toda a gente que se forma em Institutos Politécnicos. Além disso, é um bom orador, tem carisma, faz milagres e é bonito, Professor Fiolhais. Por causa dele, talvez Coimbra ganhe.

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    1. Euureka! " Luís de Matos tem muita qualidade, tal como toda a gente que se forma em Institutos Politécnicos". Ou seja, há esta regra sem excepções, contrariando a voz do povo que nos ensina não haver regras sem excepções". "Abracadabra" o sentenciou: há regras sem excepções, no que respeita aos Institutos Politécnicos.

      Opinião bem diferente tem Gustave Le Bon: "Grande número de políticos ou de universitários, carregados de diplomas, possuem uma mentalidade de bárbaros e não podem, portanto, ter por guia, na vida, senão uma alma de bárbaros". Desse opróbrio se livram os diplomados pelos Institutos Politécnicos.


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  3. Não precisa de dizer mais nada!
    Para a senhora Abracadabra, o Luís de Matos do politécnico é lindo como um cherne!

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