quarta-feira, 25 de abril de 2018

O sublime e o horror. Três filmes, três monstros

Artigo de Guilherme Valente no Público de ontem:

O branco na pintura, o silêncio na música, o não dito na poesia e na literatura são o acme da expressividade na estética clássica chinesa. Ideia e recurso que seria posteriormente teorizada e praticado no Ocidente.

 O meu amigo Gary Negai é um “letrado” chinês a quem a cultura portuguesa em Macau deve estar grata. Para além da estatura intelectual (domina muitas línguas), Gary entra na categoria de seres humanos que designo por santos laicos. Encarna o ideal ético do espírito chinês, para o qual o saber não é um saber que se tem, mas um saber que se é. Sofreu a Revolução Cultural. Mas não se vislumbra nele o mais leve vestígio de humano ressentimento, rancor. Apenas uma lúcida inteligência daquela realidade medonha. 

 Num jantar com a mulher na nossa casa em Macau, disse-lhe: “Gary, nunca me falou desses dois anos terríveis...” Vi-lhe a face corar e senti o pé da senhora Ngai tocar-me no sapato. O assunto nem podia ser aflorado. Uma violência e sofrimento inexprimíveis, indizíveis. O que é verdadeiramente importante é indizível, escreveu um letrado chinês no século III a.C.

 Se o leitor quiser ver um filme, a muitos títulos admirável — metáfora sobre a impossibilidade da vivência partilhada do amor absoluto —, que transmite, sem gritos nem retórica, a dimensão de horror indizível da Revolução Cultural, veja O Regresso a Casa. Horror e sofrimento que só o “não dito” pode comunicar. Um filme sobre um monstro, Mao, que nunca é nomeado no filme.


 O Concerto é um filme que se vê com divertido interesse. No tempo de Brejnev, uma grande orquestra do Bolshoi é desmantelada, os músicos proibidos de o serem, o maestro, por ter contratado músicos judeus, reduzido a faxina do teatro. E a solista, uma grande violinista, enviada com o marido para o gulag na Sibéria. Quando preparavam obsessivamente a grande interpretação, muito aguardada, do Concerto n.º 1 para Violino de Tchaikovsky. 

 O filme, como referi, é divertido, com um happy end e um grand finale que faz estremecer: o Concerto tocado pela orquestra reconstituída no exílio em Paris. Sem a solista, mas por ela...

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 Sempre que ouço esta peça de Tchaikovsky, o que acontece com frequência porque a tenho gravada no automóvel, não consigo deixar de “ver” a cena que vale, afinal, o filme todo: a violinista judia, no campo de trabalho na Sibéria, a tocar o Concerto num violino imaginário, sem cordas, sem som. Sem som? Nunca ouvi interpretação mais sublime da peça de Tchaikovsky, que uma centelha de divino inspirou. Louca? Um filme sobre outro monstro. Mais uma vez, o indizível dito pelo “não dito”. 

 O filme sobre Churchill ainda nos cinemas, A Hora Mais Negra, é outro filme sobre outro monstro. Uma dimensão de bestialidade e loucura que todavia não é referida, não é descrita. Hitler, Churchill refere-o apenas como o louco, o monstro. O que o filme transmite, com a história verdadeira e as excelentes interpretações, é a intuição espantosa do primeiro político que percebeu a natureza nova, singular, da besta, a novidade dessa aberração, desse sumo mal que era imperativo parar. Mesmo que o combate estivesse antecipadamente perdido, disse Churchill, dizendo tudo o que apenas sem ser dito poderia ser comunicado, devia morrer-se a enfrentá-lo. Contra tudo e todos, contra a posição até aparentemente mais sensata de negociar, Churchill levou o parlamento, a Inglaterra, a Europa, os EUA, o Mundo às costas para esse combate... moral. E salvou a humanidade de um futuro inimaginável. Mais uma vez, no não dito, o horror e outro monstro.


 Três monstros, todos filhos do mesmo pai. 

 Numa das últimas cenas do filme, à saída do debate triunfante no parlamento, o assessor refere a mudança (que vibra...) do rei e Churchill faz um comentário que só por si valeria o filme: “Os que nunca mudaram de ideias nunca mudaram nada no mundo.” Confúcio disse o mesmo no século IV a.C. “Só não mudam o homem mais inteligente do mundo e os burros.”
Guilherme Valente (editor da Gradiva)

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