quarta-feira, 28 de março de 2018

“Prós e Contras”: a ciência não é democrática


Artigo de Daniel Oliveira, publicado no Expresso Diário:

Esta segunda-feira, no “Prós e Contras” da RTP, um senhor que se diz “terapeuta de biomagnetismo” (seja lá o que isso for) foi apresentado como “doutor” e perorou, com base nos seus “estudos” de bulas e na Internet, sobre os riscos das vacinas. Dispensado de qualquer rigor científico, que a sua atividade comercial não exige, foi debitando “estudos” e “factos” sem temer o risco das consequências para a sua credibilidade. Porque ele não depende dela. Do outro lado, médicos e cientistas eram obrigados a argumentar num terreno impossível: a ciência contra a opinião.

Dizia a dada altura Fátima Campos Ferreira: “cabe aos cientistas convencer a sociedade...” Como é que um cientista convence a sociedade sem ser com argumentos científicos? E como se usam argumentos científicos perante uma plateia que não domina a ciência? Eu digo como: a ciência está dotada de instrumentos de escrutínio que permitem corrigir-se a si mesma. Coisa que a pseudociência não tem de fazer. Não precisa de prova, de controlo dos pares. Basta-lhe as redes sociais e a ignorância de quem os lê. Por isso mesmo podemos, com todos os erros, ir confiando no trabalho de cientistas e não temos nenhuma razão para confiar no que nos dizem os curiosos. Não porque a ciência seja infalível, mas porque a ciência tem os instrumentos para ir corrigindo as falhas. Isto não isenta os cientistas de fazer um bom trabalho de divulgação e pedagogia e há vários que se dedicam a isso. Mas se o objetivo é “convencer” uma sociedade que decidiu recuar uns séculos, e em vez de querer formação e informação exige ser convencida da validade da ciência, estarão derrotados à partida.

A nobre ideia democrática de que todos têm direito a ter uma opinião e a vê-la livremente expressa no espaço público transformou-se noutra coisa: a de que tudo o que é dito no espaço público tem o mesmo valor

Ontem, estavam de um lado pessoas que, nas suas intervenções públicas, têm o dever de refletir o estado da arte do conhecimento científico. É nele que se baseiam e as divergências que possam apresentar entre si resultam de controvérsias científicas que podem existir. Do outro, estava alguém que podia escolher os factos à sua medida, sem ter que prestar contas perante os seus pares, sem qualquer dever perante a comunidade. E que, ainda por cima, foi elogiado por várias pessoas pela sua “coragem”. Sim, vivemos um tempo em que a ignorância prosélita é uma qualidade humana.

David Marçal resumiu bem o desencontro do debate: uma coisa é uma controvérsia científica, outra é uma controvérsia social. Nas controvérsias sociais todas as posições são possíveis, nas controvérsias científicas não. Ao colocar o debate científico no patamar onde acontecem as polémicas sociais, não se ajuda a qualquer esclarecimento. Cria-se uma equiparação entre discurso científico e opinião onde a ciência está condenada a ser derrotada. Porque ela, ao contrário da opinião de um leigo, está presa a uma verdade que não pode ser simplificada ou torcida.

A nobre ideia democrática de que todos os homens e mulheres têm direito a ter uma opinião e em vê-la livremente expressa no espaço público transformou-se numa outra coisa: a de que tudo o que é dito no espaço público tem o mesmo valor. E que todas as formas de autoridade são antidemocráticas. O que quer dizer que a autoridade científica, que não nasce da autoridade de um indivíduo mas da autoridade do método científico e do trabalho coletivo da comunidade científica, vale o mesmo que uma busca na Internet. Esta ideia foi traduzida na tal frase da moderadora do “Prós e Contras” – que os cientistas têm de convencer a sociedade da validade do que foi cientificamente verificado. É este clima geral que explica as famosas “fake news” ou a resistência durante décadas, com resultados fatais para o futuro do nosso planeta, a todas as evidências científicas sobre as alterações climáticas.

O que se espera da televisão pública não é que procure abordagens picantes para temas importantes para conseguir audiências. O que se espera é que, mesmo que tente encontrar formas apelativas de tratar um tema, escolha a abordagens rigorosas. Neste caso, isso passava por não convidar um “terapeuta de biomagnetismo”, sem qualquer formação na área da saúde – usando o seu método científico, descobri na Net que é um empresário do ramo, tem “formação em economia” e está a fazer “um mestrado integrado em psicologia”. Havia um debate a fazer e era o que estava no título deste programa: perante a evidência científica das enormes vantagens da vacinação, ela deve ser obrigatória? Isto é uma polémica social para a qual podem ser chamados cientistas, profissionais de saúde e cidadãos comuns. Isto sim, depende de um debate informado mas democrático no qual pode haver opiniões diferentes que não dependem exclusivamente do domínio técnico e científico do tema. Porque muitos valores discutíveis estão em causa: o papel do Estado e da família, os deveres comunitários e a liberdade individual, os nossos direitos e deveres sobre as crianças. Já a ciência não é democrática. Porque nem a crença da maioria numa mentira faz dela uma verdade.

12 comentários:

  1. "David Marçal resumiu bem o desencontro do debate:"

    David dixit

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  2. Muita gente, ainda que alfabetizada, não está em condições de assumir, com verdadeira propriedade, o que é conhecimento científico. Têm umas noções muito vagas disto e daquilo, falam de quase tudo, pela rama e sem a devida propriedade. A Ciência só tem uma coisa a fazer: tornar-se cada vez mais acessível e explicar os seus métodos. O resto virá com o tempo, sendo certo que será sempre mais difícil estudar e adquirir verdadeiro conhecimento, do que acreditar em tretas. Mas a razão, como é evidente, nem sempre está com a multidão...

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  3. Um artigo que devia ser partilhado em todas as plataformas possíveis. Fiquei enojado com as intervenções desse "terapeuta" e de como ele basicamente estava a ocupar o tempo de antena que devia ser para toda a audiência com tretas e balelas. Que esta mensagem tenha a máxima adesão possível.

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  4. Já transmiti os meus parabéns ao David Darçal.
    Só apelidar-se de terapeuta de biomagnetismo diz tudo. O que me preocupa não é a imbecilidade, mas que é contagiosa. Este senhor é no mínimo ignorante e no limite burlão!

    João Junqueira

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  5. Concordo consigo.
    Não se pode discutir com um ignorante, este além de ignorante deve ser burlão.
    Mas qualquer um vai à TV. Da próxima irão ter um terapeuta em Vudu.

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  6. As vacinas não são a panaceia perfeita para todos os males. Como qualquer outro medicamento, ainda podem ser muito melhoradas, não sendo difícil de prever que a própria nano-tecnologia avance em força, já nos nossos dias, para dar uma ajuda decisiva ao nosso sistema imunitário, seja por via da própria composição da vacina seja por via de nano-cápsulas de toma oral, que viajarão por todo o nosso corpo, prontas a despejar seletivamente o seu conteúdo letal sobre os micróbios que nos fazem mal!

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  7. As bulas são claras e não confundíveis meramente com interesses comerciais.
    E a ciência não é nada daquilo que estes alegados defensores fazem dela. A visão vesga da ciência no Marçal e Fiolhais torna a ciência em algo puramente elitista, no mau sentido, torna-a num factor de fragmentação social. Sabemos que a ciência irá mudar de opinião no futuro, e isso é a maior certeza de todas que a ciência oferece. Por isso, quanto mais batem com as vossas certezas mais se afastam do objectivo que afirmam promover. E mais se expõe por aquilo que realmente são, uma fraude.

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    1. As bulas são documentos legais, não científicos. O que lá vem não são consequências directas do produto, mas sim tudo o que aconteceu durante os testes clínicos. Há vacinas que têm nas bulas que causam gravidez, acidentes de telemóvel e o incrível Hulk.

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  8. Nada mais conveniente do que um “terapeuta de biomagnetismo”, destemido, qual Trump da saúde, para dar conforto aos proto-, para- e cientistas do regime!

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  9. A ciência não pode servir como argumento ditatorial, especialmente agora que estamos a viver uma mudança tremenda de paradigma, esta defesa enraivecida da ciência é uma parvoíce. Afinal de que ciência é que estamos a falar? Daquele paradigma instalado à décadas que está prestes a desmoronar-se?

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  10. Texto retirado de SNS - Vacinação

    Antes de fazer qualquer vacina deve consultar o seu médico assistente, sobretudo em caso de:

    . Doença grave

    . Gravidez

    . Tratamento com corticosteroides

    . Tratamento com radiações

    As vacinas têm efeitos secundários?

    Apesar de seguras, as vacinas podem provocar algumas reações adversas, mas estas são normalmente de curta duração. As mais frequentes são inchaço, dor e vermelhidão no local da injeção, febre e mal-estar geral.

    Procure informar-se junto do seu médico ou do profissional de enfermagem na altura em que está a fazer a vacina ou, ainda, se tiver alguma reação intensa ou inesperada. (...)

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  11. “...É este clima geral que explica as famosas “fake news” ou a resistência durante décadas, com resultados fatais para o futuro do nosso planeta, a todas as evidências científicas sobre as alterações climáticas...”

    Este pequeno trecho, que faz parte do texto presente nesta publicação, é semelhante às bacoradas proferidas pelo sr.º José Cruz no programa “Prós e Contras”, transmitido pela RTP (Rádio e Televisão de Portugal).

    Mas uma coisa é certa, o Magneto existe, e é português:
    https://twitter.com/insoniascarvao?lang=pt_pt

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