terça-feira, 31 de janeiro de 2017

NAQUELES TEMPOS BÁRBAROS E GÓTICOS

Saído no último número do "Jornal de Letras", é com o deleite de sempre que se reproduz mais um texto mordaz  do ensaísta e crítico literário Eugénio Lisboa sobre, como ele próprio escreve, "aclamados turcos do nosso mercado literário":

Sofro, com frequência, semanalmente, diariamente, horariamente, quando me ponho a ler colunas, livros, ensaios, ficções, testemunhos dos jovens e aclamados turcos do nosso mercado literário. Sinto-me, ai de mim, posto de lado, excluído, arrumado numa prateleira, de cada vez que mergulho naquela algaraviada debitada numa prosa “inovadora”, que ofende o bom senso, a gramática essencial e a mais elementar lógica do discurso. As palavras combinam-se, ali, naquela prosa intemerata e louca, de modo anárquico e perturbante – e deixam-me os olhos e o espírito enviesados. Palavra puxa palavra, na razão directa da falta de senso e na inversa da mais desejável higiene mental. Escreve-se uma prosa “fresquinha” e “novinha”, em que nada faz muito sentido, mas em que tudo soa muito a uma “revolução de linguagem” (sic). Aquela prosa não dá para pensar, para reflectir, para exprimir, dá apenas para parecer que está ali para prospectar territórios “novos”, mesmo à custa de uma total falta de senso e de uma pungente ausência de sentido de ridículo.

O grande escritor americano James Baldwin observou que “a função radical da linguagem é a de controlar o universo, na medida em que o descreve.” Descrever com acuidade o universo exige rigor, honestidade mental e um cuidado particular com a manipulação das palavras. Não é com combinações arbitrárias de palavras, com aproximações “novinhas” entre aquelas que mutuamente se não desejam, que se poderá descrever adequadamente o universo, quanto mais controlá-lo.

Leio, diariamente – e disso sofro – afirmações tontas, debitadas em ar de grande regozijo e descoberta. Observava Cervantes que uma observação tonta pode ser feita tanto em latim como em espanhol. Eu acrescentaria que o português também se presta maravilhosamente a acolher o dislate. Fazer isto à linguagem, agredi-la, levianamente, desta maneira, é coisa mui piadosa de ver. “Talvez que, de todas as criações do homem, a linguagem seja a mais assombrosa”, disse esse grande biógrafo que se chamou Lytton Strachey. Talvez, por isso mesmo, essa assombrosa criação devesse estar cuidadosamente preservada de tanta irresponsável e quotidiana agressão. Tal como Churchill sentia, até aos ossos, a estrutura essencial da frase inglesa mais comum, eu sinto, também, até aos meus ossos lusitanos, a estrutura essencial da frase lusa. Por isso me confrange este mergulho diário nesta prosa contentinha e magnificamente festejada – e galardoada! – com que os nossos jovens turcos inundam a praça literária. Confrange-me até porque seria de supor que um mínimo de bom senso lexical e gramatical presidisse, geneticamente, à empresa dos perpetradores de prosa. Dizia o grande linguista Noam Chomsky que “cada pessoa tem, programada nos seus genes, a faculdade chamada gramática universal.” Seria como se os nossos próprios genes nos impedissem de derraparmos em relação a um discurso claro e límpido.  “Fazer sentido” estaria por assim dizer inscrito no nosso código genético. Como se enganava o grande linguista! Derrapar, vagabundear, juntar, à toa, elementos lexicais que mutuamente se não toleram – parece ser a grande vocação dos geniais inovadores que atordoam a nossa praça literária.

Meditando sobre tudo isto, Anatole France, que, no seu tempo fora atingido por um sofrimento não muito diferente do meu, observava melancolicamente: “Era naqueles tempos bárbaros e góticos, em que as palavras tinham um significado; naqueles dias, os escritores exprimiam pensamentos.” Tempos remotos, bárbaros e góticos, em que o pensamento era claro e as palavras se não manipulavam de modo leviano ou mesmo arbitrário…


Ponho-me a ler estes textinhos “inovadores” e sinto a maior dificuldade em navegar no meio daquela frondosa “floresta de enganos”. Tudo me perturba, me intriga, me coloca fora de qualquer realidade palpável. A sintaxe, a morfologia, o bom senso – retraem-se, afrouxam, fazem caretas, dissolvem-se. Sinto-me, não no meio de um discurso clarificador e enriquecedor, mas, sim, no centro de um ruído ensurdecedor e altamente criador de vertigem e de confusão. “As palavras, como é sabido”, observava Joseph Conrad, “são grandes inimigos da realidade.” Estas palavras, manuseadas à balda, pelos jovens turcos bafejados pela glória, bloqueiam qualquer minguado acesso à realidade. Fazem um ruído novo, inesperado, intrigante, mas é um ruído que veda, obstrui a entrada do mais pequeno raio de luz. Uma análise combinatória focada nestes textos enviesados lega-nos um tecido estranho, feito de arranjos de palavras contra-natura, de acasalamentos improváveis e de um guião sintáctico arrevesado. Busca-se, não a finura e a luz, mas, antes, a obscuridade sonora e espessa. Tropeça-se, a cada passo, no contra-senso, na metáfora mal amanhada, na adjectivação forçada ou absurda, na dedução claudicante… Em vez da pureza gramatical, o pântano linguístico, que nos enlameia a alma e conspurca o espírito.

Esta prosa imatura feita de palavras que não apanharam sol – estou a lembrar-me do saudoso João de Araújo Correia – perturba-me de um modo quase físico: lê-se mal, ouve-se mal, respira-se mal. Causa dor física porque entope os pulmões e ofende a respiração. Feita de palavras míopes que mal enxergam outras cuja companhia melhor lhes convenha, vive de associações enviesadas e trôpegas que entulham o texto de neoplasias incómodas e dolorosas. Alheia ao discurso límpido concebido para gente chã, a prosa dos jovens turcos desconhece a claridade do amanhecer, saltando directamente de uma noite para outra noite.

O velho Samuel Johnson, que Boswell laboriosamente biografou, para a posteridade, observou um dia que tinha trabalhado “para refinar a linguagem até uma pureza gramatical e para a clarear de barbarismos coloquiais, de idiomas licenciosos e de combinações irregulares.” É este trabalho de refinaria da linguagem, para a libertar de “combinações irregulares”, que proponho aos jovens perpetradores de atropelos gramaticais que visam inculcar como inovações aurorais, mas que não passam de tumores incómodos e opacos. As palavras dão para tudo: para fazer luz ou para fazer noite. Tudo depende de quem as usa e de como as usa. Ou nos elevam acima dos brutos ou nos põem ao nível deles: escolha quem pode.
Eugénio Lisboa

COMO SURGIRAM AS NOSSAS CÉLULAS?

Texto primeiramente publicado na imprensa regional.



O estudo da origem e evolução das células no nosso planeta é uma das áreas mais estimulantes e fascinantes da ciência. Prende-se não só sobre compreender a origem da própria vida, mas também sobre como é que a complexidade celular evoluiu a partir das primeiras células simples para dar origem às células que compõem os animais, as plantas, os fungos e os protozoários.

Os animais e as plantas são edificados por células ditas eucarióticas. Estas são caracterizadas, entre outros aspectos, pelo facto de possuírem um núcleo rodeado por uma membrana onde se situam os cromossomas com a informação genética. Também se caracterizam por possuírem no seu interior organelos como as mitocôndrias e os cloroplastos, e um elaborado e dinâmico sistema de membranas que formam vesículas, que asseguram um transporte conveniente de diversas substâncias, não só no interior da célula, mas também entre o interior e o exterior celular. As células eucarióticas possuem também um complexo sistema de microfibrilhas proteicas, com várias funções, entre elas a de formar um citoesqueleto. Como é que surgiram estas complexidades todas ao longo da evolução celular?

As bactérias são outro domínio celular da vida. São consideravelmente mais simples do que as células eucarióticas, pois não possuem compartimentos intracelulares e o cromossoma circular que possuem não está encapsulado num núcleo. São consideradas muito mais antigas evolutivamente do que as células eucarióticas

No início da década de 80 do século passado, a bióloga norte-americana Lynn Margulis (1938 – 2011; foi casada com Carl Sagan) propôs a teoria endossimbiótica para a origem das células eucarióticas. Segundo esta, as mitocôndrias e cloroplastos das células eucarióticas teriam surgido da associação de bactérias que se tornaram hospedeiras de uma outra célula microbiana. Esta teoria é hoje consensual entre a comunidade científica. Propõe-se, actualmente, que as mitocôndrias terão sido originadas de um grupo bacteriano conhecido e relacionado com as alphaproteobactérias.

Mas qual a origem da célula hospedeira? Teria sido um outro tipo de bactéria? Não! O conhecimento hoje disponível indica que a célula hospedeira teria pertencido a um outro domínio celular também muito antigo evolutivamente e conhecido por arqueia (palavra de origem grega significando antigo). As arqueias e as bactérias ter-se-ão separado na árvore da vida a partir de um ancestral comum e divergido evolutivamente.
As diferentes espécies de arqueias que se têm descoberto nos últimos anos possuem algumas características, principalmente genéticas, que estão ausentes nas bactérias e que se assemelham mais às das células eucarióticas. Assim, o conjunto de informação entretanto reunido sobre as arqueias coloca-as como as principais candidatas a terem sido as células antepassadas das eucarióticas. E as mais recentes técnicas de sequenciação genética têm permitido sondar o passado evolutivo na procura dessas semelhanças.

Neste contexto, foi publicado, no passado dia 19 de Janeiro de 2017 na revista Nature, um artigo que apresenta uma nova espécie de arqueia com características genéticas muito interessantes. Neste artigo, que tem como primeiro autor o sueco Thijs Ettema, os cientistas sequenciaram material genético recolhido de vários locais e identificaram um novo grupo de arqueias referido no geral por arqueias de Asgard. Segundo o microbiólogo António Veríssimo, professor do Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra, o “novo grupo de arqueias têm duas características muito interessantes: são muito antigas (do ponto de vista evolutivo) e parecem partilhar um ancestral comum com as células eucariotas e, para além disso, foram reconhecidas sequências genéticas que codificarão proteínas consideradas especificas de eucariotas e relacionadas com a translocação (“transporte”) de proteínas nas células com compartimentos celulares. Isto sugere que a origem de sistemas complexos de translocação de proteínas terá evoluído antes das mitocôndrias ou de outra maneira antes do hospedeiro ter “recebido “ as bactérias que originaram as mitocôndrias. E é mais uma informação importante que reforça a ideia que o hospedeiro original terá sido uma célula de tipo arqueia.”

É preciso referir que os cientistas ainda não conseguiram isolar estas arqueias de forma a poderem observar directamente as características relacionadas com os genes identificados no seu genoma agora sequenciado. Seria muito interessante poder-se observar e comparar as eventuais estruturas celulares que terão estado na origem da complexidade eucariótica.

De qualquer forma, esta descoberta vem adicionar mais algumas peças ao puzzle que continua a ser a evolução da vida complexa no nosso planeta.


António Piedade

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Logo à tarde vai estar frio


Apresentei recentemente o livro "Logo à tarde vai estar frio", romance publicado na Gradiva, que recebeu o prémio literário Maria Amália Vaz de Carvalho em 2015 para além de ter obtido uma menção honrosa no prémio João José Cochofel de 2013. O autor (de seu nome verdadeiro João Carlos Cruz), 52 anos, é natural de Cantanhede e trabalha em Aveiro na área da reinserção social. Estreou-se em 2005 com um romance que ganhou o prémio Carlos de Oliveira (um escritor de Febres, praticamente seu conterrâneo; a Gândara, à volta de Cantanhede, tem dado vários outros homens de letras como Augusto Abelaira e Jaime Cortesão). Depois os prémios literários continuaram a suceder-se: Prémio Alves Redol em 2011 ("Ao redor dos muros", Gradiva), Prémio João Gaspar Simões também em 2011 ("Largo da Capela", Gradiva), Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama em 2013 ("Silêncio solar das manhãs", Gradiva), Prémio Bocage em 2015 ("Na luz das janelas pestanejam as sombras", inédito), e prémio Alves Redol de novo em 2015 ("A luz vem das pedras", também inédito). É, portanto, uma voz literária reconhecida tanto na prosa como na poesia.

"Logo à noite vai estar frio" é uma biografia romanceada do escritor António Nobre (1867 - 1900), o poeta do Porto, nascido no mesmo ano que Camilo Pessanha e Raul Brandão,  que estudou em Coimbra e em Paris e, após várias viagens pelo mundo, acabou por morrer na sua terra natal com apenas 32 anos vítima da doença da época: a tuberculose, que vitimou também Cesário Verde, Júlio Dinis, Soares dos Passos e António Aleixo, só para falar de escritores portugueses. Nobre foi só o autor do livro "Só" (a primeira edição saiu em Paris em 1892 na Léon Vanier e a 2.ª edição, revista e ilustrada,  na Guillard,Aillaud & Co. em Lisboa em 1898, ainda em vida do autor). Nobre assemelha-se, numa metáfora astrofísica, a um cometa que brilha intensamente quando está perto da Terra durante um curto período de tempo para depois desaparecer. Sobre ele falarei num outro post, porque tendo relido o "Só" ("o livro mais triste que há em Portugal") não pude deixar de voltar a ficar impressionado por esse retrato tão pungente de Portugal e dos portugueses patente em poemas como "Lusitânia no Bairro Latino" ou "Carta a Manuel".

Canteiro adopta uma apresentação cronológica, começando com a vida do autor e terminando com a sua morte, baseando-se não só no "Só", que é uma espécie de autobiografia em verso, mas também na volumosa correspondência que Nobre nos deixou e que foi reunida por Guilherme de Castilho (Imprensa Nacional, 1982) e que nos permite seguir as difíceis relações consigo próprio e as relações, ainda mais difíceis, com o mundo à sua volta.  "Logo à noite vai estar frio" é, portanto, literatura sobre literatura, um livro a chamar por outros livros, como fazem aliás de uma maneira ou de outra todos os bons livros. A escrita, dando voz a Nobre na primeira pessoa, revisita as datas e lugares das vida do poeta, com um intermezzo a meio que se passa muito perto da actualidade, na cidade de Coimbra, e que não pode deixar de representar um retrato da experiência de vida de Canteiro em Coimbra onde ele, tal como Nobre, estudou. Com efeito, durante o período coimbrão de Nobre (1888-1890), Canteiro empreende no livro um salto temporal de um século até 1988 para, 40 páginas volvidas, regressar ao passado, em 1889. Sai da Torre do Anto (a torre medieval onde Nobre viveu uns dias, que figura na capa ao livro,e que tem hoje o nome do diminutivo de "António") para subir pelas vizinhas escadas do Quebra Costas e, após uma história que se passa na Coimbra moderna, voltar atrás no tempo para o Beco da Carqueja (perto da Sé Velha, onde também viveu José Afonso). O romance faz pois uma viagem no tempo e no espaço, com uma ida e volta ao futuro. A última parte do romance (de 1889 em diante ) refere-se à ida de Nobre para a Sorbonne em Paris, dado o seu falhanço académico em Coimbra, à publicação do seu singular livro, à doença (posterior ao "Só" embora haja neste uma estranha premonição), e uma acelerada peregrinação por vários locais do mundo em busca de cura (França e Suíça, mas o poeta também foi a Inglaterra e aos Estados Unidos, para não falar da sua estância na Madeira) até à morte anunciada. No trecho de Coimbra Canteiro coloca uma história ficcional com outro António que conhece na Biblioteca Joanina uma sua colega, Afrodite (o nome diz tudo) e a tragédia também assoma: em vez da bactéria da tuberculose a fatalidade é o vírus da SIDA. Nobre teve namoradas, a mais conhecida das quais a "Purinha", mas, talvez devido aos eu carácter solitário (ou, se quisermos, ao seu narcisismo) nunca teve uma paixão que lhe enchesse as medidas.

A escrita de Canteiro obedece a um compasso nostálgico aparentado ao ritmo saudoso de "Só". Tal como o "Só" é poesia em prosa, esta é uma prosa poética. Vejamos, como exemplo, o início, que relata o nascimento do poeta (o itálico são versos do "Só"), o nascimento a respeito do qual Fernando Pessoa (nascido em 1888) declarou que "com ele, nascemos todos":

"Rua de Santa Catarina — Porto
I
Sonhei como fui nascer (em terça‑feira, um sino ouvia‑se dobrar!); era noite de agosto quando vim ao mundo... espera!, não há chão para este pé em desequilíbrio, como no inverso de cair à água, como se, bruscamente, me sentisse esvair no fundo de um poço, irremediavelmente descendo, a ficar sem fôlego, com o ar à volta a tomar conta de mim, a ocupar as reentrâncias do meu corpo por dentro; todo nu, um frio que me afagava a pele, um vento leve, estranho, e, tomado de um sopro, iniciei um choro... a par com o sino, ouviu‑se um grito!...
II
Vê lá tu, o que é nascer!: um choque, um gemido, um grito... e já está!; disse a parteira."
Outros autores têm-se apropriado literariamente da vida curta e trágica do autor do "Só". O caso mais notório é talvez o de Mário Cláudio, autor da peça de teatro "Noites do Anto" (1988), e de um texto inserto em "Triunfos do Amor Português" (2004) sobre a "amizade amorosa" entre António Nobre e Alberto de Oliveira, o "Purinho" (este suposto caso de homossexualidade tem feito correr rios de tinta, mas Canteiro não a explora).

Canteiro dá-nos um livro breve muito agradável de ler, que para mim teve o mérito de me fazer mergulhar não só na biografia de António Nobre (há uma bela fotobiografia da autoria de Mário Cláudio, na Dom Quixote, 2001) mas também, e acima de tudo, na obra literária do grande poeta. Não ficou só o autor do "Só", pois postumamente o irmão, o professor de Zoologia da Universidade do Porto Augusto Nobre, resgatou e publicou os "Primeiros Versos", 1921,  e "Despedidas", 1902. Lendo estes dois livros, percebe-se por que razão ele não os publicou: António Nobre quis ficar só autor de "Só", o livro da sua vida e o livro sobre a sua vida.


Educação: um PS sem causa própria

Artigo de Guilherme Valente, publicado no Público de ontem: 

 1. A escola como ascensor cultural e social, como sede privilegiada para promover o conhecimento, a cultura, a qualificação, a igualdade de oportunidades, é uma causa histórica comum da esquerda e da direita liberais. A Educação não é, não deve ser, portanto, um marcador na distinção ideológica (que é fundamental para o funcionamento da democracia pluralista) entre a esquerda e a direita liberais, um marcador na distinção ideológica desejável entre os partidos democráticos. Tal como não o são hoje as áreas da produtividade e da segurança ou, muito menos, a da virtude, como, lamentavelmente ainda acontece entre nós, com esquerda e direita a atribuírem a si próprias a exclusividade da bondade das respectivas intenções e propósitos.

Pelo contrário, pela Educação passa hoje uma linha demarcadora fundamental entre liberdade/totalitarismo, entre partidos democráticos. Por isso deve lamentar-se que os partidos do socialismo e da direita liberais, PS e PSD, designadamente, não se tenham unido depois do 25 de Abril para construírem, com coerência, competência e continuidade, a escola de que Portugal carece (1).

Por isso também, a entrega pelo PS da Educação ao programa ideológico esquerdista do BE, ferindo o interesse dos mais desfavorecidos e a causa do conhecimento e da cultura, condições da liberdade e do progresso, é um acto que trai a natureza e a identidade do socialismo democrático, o pensamento dos seus grandes vultos.

O PS esqueceu a preocupação social, herança fundadora do socialismo democrático, necessidade que o tempo e a História não desactualizaram. Sem cultura nem convicções para compreender o mundo novo em que vivemos (2), portanto sem imaginação para intervir nele, o PS deixou-se infiltrar pelo relativismo, abdicou da pretensão à objectividade e à racionalidade da tradição intelectual do Ocidente, e vem adoptando suicidariamente as causas societais do esquerdismo. Infiltração a que também não escaparam, aliás, grupos e militantes do PSD, acriticamente ofuscados pela moda e o politicamente correcto.

 Vamos ter pois de novo, mas agora assumidamente, essa "escola" do esquerdismo importada, como é costume, de França, directamente (3) ou via Boston, pelas sociólogas-ideólogas graduadas em "especialistas da educação. "Escola" relativista, niilista, vazia dos grandes ideais comuns, que a verdadeira escola deve transmitir. "Escola" da demissão educativa geral, da desconstrução e estigmatização do conhecimento e da cultura, a que chamam "burgueses" e, agora, "ocidentais", "reprodutores das desigualdades sociais" e "opressores das minorias", dizem. Cultura - e educação - em que Rousseau, o inspirador dessa "escola" como de todos os totalitarismos, via a causa da desarmonia social (4). "Escola" da ignorância e da irresponsabilidade, que querendo tornar toda a gente igual só podia, e só poderá, nivelar por baixo, ser, como foi, e vai voltar a ser, cada vez mais facilitista e mediocratizadora.

 "Escola" que prejudicou todos, mas feriu de morte os mais pobres, os que não podiam obter em casa o que ela não dava e voltará a não dar, os que não tinham meios para pagar o ensino privado. Os que vitimas da inutilidade dela a abandonaram num número nunca visto em qualquer outro país da OCDE. Ao contrário do que proclamava, foi a menos inclusiva que houve em Portugal. Igualitarista, com ela as desigualdades cresceram sempre.

 "Escola" que por tudo isto odeia o mérito, despreza os resultados, tal como são universalmente reconhecidos e desejados.

 Por isso o sucesso verificado no TIMSS e no PISA (embora não traduzindo a escola que se ambiciona), tal como a subida nítida das médias em todos os níveis e áreas de ensino e particularmente dos alunos dos meios mais desfavorecidos, lhes custa tanto a digerir. Sobretudo por isso, mas também por estar ligado inequivocamente às contra-medidas que começavam a começavam a transformar, iniciadas por David Justino, continuadas por Maria de Lurdes Rodrigues e, enfim, alargadas decidida e decisivamente por Nuno Crato. Sucesso num tempo mínimo, como muitas vezes previ.

Julgo haver hoje uma consciência alargada da devastação que durante mais de 40 anos essa "escola" promoveu na educação e os seus efeitos na sociedade. Consciência da qualidade intelectual, profissional, e cívica dominante dos que passaram por ela. Jovens iletrados, sem vontade nem causas, abúlicos, ou, num dos extremos sociais, selvagens violentos, tal como se manifestam, por exemplo, nas praxes asquerosas. Dizendo querer tornar todos iguais e livres, preparou escravos para as sociedades niilistas e atomizadas, de dissolução e violência, tal como cada vez mais parece configurarem-se no século XXI.

 2.Bastará o fim dos exames, repostos progressiva e arduamente por David Justino e Nuno Crato, concretamente o do exame vital do 4.º ano de escolaridade, o regresso da "gestão democrática" das escolas, farsa com que Maria de Lurdes Rodrigues teve o mérito e a coragem de acabar, e o bloqueamento, que também se espera, das vias de ensino técnico profissional, para voltarmos a ter essa "escola", que tivemos com a Doutora Ana Benavente, que por isso volta agora a excitar-se tanto. ("Escola" de um "conhecimento" que não é, seguramente, aquele em que o ministro da Ciência, Manuel Heitor, pensa e de que fala...).

 3.Leia-se, a propósito, o artigo do secretário de Estado da Educação, Dr. João Costa, publicado recentemente no Sol (17/12/16), que tão expressivamente anuncia o que aí vem. Cito apenas uma das várias pérolas: "Um 17 a biologia de quem não considera os outros vale menos do que um 15 de um aluno respeitador e solidário". E porque não do que um 14? Ou do que um 12, ou 10, pergunto?

Como se um bom aluno não pudesse ser solidário. Como se para ser solidário um jovem tivesse de ser ignorante, irresponsável e... desempregado no futuro.

Deduz -se, pois, que iremos ter em breve avaliações a disciplinas como - sei lá? - Solidariedade, Simpatia, Humildade, Docilidade e, determinada por esse acme de iluminação da grande líder... Felicidade.! ("Prefiro ser operada por um cirurgião que tenha sido um aluno feliz, do que por um cirurgião que tenha sido um bom aluno", Catarina Martins, cito de memória). E com essa escola da Felicidade ficará resolvido o problema da divulgação dos resultados escolares.

 Como um secretário de Estado deve ser uma pessoa, pelo menos, de mediana inteligência, e como não quis gozar com toda a gente, a insensatez do que escreve - objectivamente indutora de falta de ambição e de preguiça nos alunos e.. professores - só pode ser explicado por uma contagiada (colonizada, diria, bem, Francisco Assis) cegueira ideológica.

Não é difícil imaginar o ensino e o ambiente quotidiano nessa escola da Felicidade, prever o futuro dos alunos que a frequentarem, a sociedade em que irão viver, a vida dos professores que ao longo do ano não desistirem de tentar fazer-lhes entrar alguma coisa na cabeça. Como um autor escreveu sobre a situação na França, de onde, repito, o delírio foi importado, "o terror não é apenas o de um camião enlouquecido num mercado de Natal: é,no quotidiano, 30 macacos entregues a eles mesmos, face a professores desarmados". Que a "escola" que aí vem desarmará ainda mais.

 (1) Para isso lançámos o Manifesto para a Educação da República, o abaixo-assinado que maior número de assinaturas reuniu num menor número de dias. Consenso democrático invulgar, que, infelizmente, não foi aproveitado.

(2) Determinado pelas rápidas sucessivas revoluções ocorridas a partir dos anos sessenta, revoluções tecnológica, no trabalho, nos costumes, na geopolítica, nomeadamente. Michel Roccard (Le Point, (23/06/2016): "Os políticos são uma categoria da população fustigados pela pressão do tempo. Nem serão, nem fim de semana tranquilo, nem um momento para lerem, ora a leitura é a chave para a reflexão. Por isso nunca inventam nada. As eleições sucedem-se sem que surja um projecto novo de sociedade, nem de um lado nem do outro. O socialismo tinha um projecto , mas desde há muito tempo que não é claro".

(3) Quem são os assassinos da escola, título do livro de uma jornalista do Nouvel Observateur, uma investigação sobre a Educação em França.Teorias e práticas assassinas exportadas para Portugal, personagens francesas de que os nossos protagonistas são clones equivalentes (Qui sont les assassins de l' école, Paris, 2016, edição portuguesa a publicar em breve).

(4) Rousseau que pregava o desprezo por todos os factos, antecipando o mundo da "pós-verdade". Princípio que as "especialistas da educação", sociólogas de uma "sociologia" sem factos, praticaram entre nós com o despudor mais absoluto.

 Guilherme Valente

sábado, 28 de janeiro de 2017

A BÍBLIA EM PORTUGAL


Acaba de sair na Esfera do Caos o primeiro de seis volumes (um dos quais em dois tomos) sobre a história da Bíblia em Portugal, um livro sobre a recepção entre nós do livro mais divulgado de sempre. É seu autor Frei Herculano Alves, um dos mais prestigiados biblistas portugueses. Depois de ter estudado Filologia Românica em Coimbra, Ciências Bíblicas em Roma e Teologia em Toulouse, doutorou-se em Teologia Bíblica na Universidade Pontifícia de Salamanca. Coordenou e traduziu vários livros da Bíblia dos Capuchinhos (Herculano Alves é franciscano capuchinho) e publicou vários livros e artigos sobre assuntos bíblicos. Dirigiu durante duas décadas a Revista Bíblica.

O primeiro volume intitula-se "As línguas da Bíblia. 23 séculos de traduções" e é uma boa introdução à questão dos originais e das traduções da Bíblia, que tem sido debatida nos últimos tempos entre nós devido ao início da publicação da tradução da Bíblia em grego por Frederico Lourenço. O 2.º volume vai tratar da Bíblia na Idade Média. O II da Bíblia nos séculos XVI-XVII. O IV volume é o coração da obra - trata a Bíblia de João Ferreira Annes d'Almeida, o pastor protestante que produziu a primeira tradução completa da Bíblia em português (o segundo tomo deste volume, que foi a tese de doutoramento do autor, é o catálogo das obras bíblicas de Almeida), o volume V tratará da Bíblia nos se´culos XVIII-XIX. Por último, o volume VI tratará da Bíblia nos séculos XX-XXI.

O autor fala, com erudição, do que conhece em resultado de toda uma vida de estudo. O prefácio é e José Eduardo Franco e a apresentação de Manuel Clemente, cardeal patriarca de Lisboa. É já - e vai ser mais - uma obra de referência fundamental, que nos permitirá, entre outras questões, perceber melhor porque apareceu tão tarde a Portugal a primeira tradução da Bíblia na nossa língua. Importa conhecer a nossa história para conhecermos melhor quem somos.

Educação e promoção da evolução na Europa


 Informação recebida dos organizadores:
A 1ª edição do EvoKE – encontro dedicado aos interessados pelos tópicos associados com educação e promoção da evolução na Europa - decorrerá dentro de poucas semanas na cidade do Porto e conta, entre outras, com a organização da cientista Portuguesa Xana Sá-Pinto e com o apoio da APBE – Associação Portuguesa de Biologia Evolutiva.

Créditos da foto: Pedro Cardia (fonte: EvoKE)
EvoKE 2017

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Na era da "pós-verdade" os factos só podem ser "alternativos"


O pós-modernismo parece ter passado de moda nas discussões a que se quer dar um toque mais erudito mas engana-se quem julgar que isso também aconteceu no plano social. 

Esse modo de pensar está entranhado na nossa vida quotidiana e, por isso, o esforço para voltarmos a patamares mínimos de racionalidade terá de ser grande.

Veja-se o exemplo patente no vídeo acima reproduzido: num programa de televisão, uma conselheira do recém eleito presidente do EUA afirma uma mentira, o jornalista confronta-a com isso mesmo e apresenta factos, ela, muito desenvolta, diz que se baseia em “factos alternativos", ao que o jornalista responde que “factos alternativos, não são factos, são falsidades”... ela nega, ele... 

Ao que o Público noticia, exemplos como este estão a aumentar a venda de livros distópicos, sobretudo 1984, de George Orwell. 


Esperemos que se trate de um sinal positivo, de que valores como a verdade e a honestidade não foram (ainda) completamente abastardados. 

A história de Elaina M. Tuttle e o Pardal com 4 sexos

Novo texto do biólogo José Cerca de Oliveira:


A Nature News destaca o trabalho e a vida de Elaina M. Tuttle numa crónica comovente e interessante. Elaina Tuttle, professora e ornitóloga, dedicou a sua carreira ao estudo do pardal-de-garganta-branca (Zonotrichia albicollis). Meses antes de falecer, Elaine e a sua equipa publicam um artigo curioso onde descrevia uma inversão de uma porção do 2.º cromossoma da espécie. Esta inversão, com mais de 1100 genes contidos no seu interior, resultou na alteração de características como coloração, comportamento e hábitos reprodutivos destes pardais.

Ainda que a ocorrência de mais de dois sexos numa espécie não seja uma novidade para os biólogos (o artigo original da Nature destaca um protozoário com 7 sexos), esta descoberta acarreta um potencial tremendo. Se por um lado as inversões cromossómicas têm estado em voga nos últimos anos devido às suas implicações no processo de formação de novas espécies – por exemplo validando modos de especiação até então tidos como extremamente raros e/ou improváveis. Por outro lado, esta inversão levou à formação de quatro sexos nestes pardais, abrindo possibilidades de entender como se formaram os cromossomas sexuais dos mamíferos e pássaros, pois suspeita-se que as diferenças nos cromossomas X e Y dos mamíferos (W e Z em aves) tenham surgido de inversões como esta. Com o passar do tempo os sinais de inversões vão desvanecendo do genoma devido a efeitos de deriva genética e selecção (os cromossomas sexuais têm geralmente taxas evolutivas maiores que os cromossomas normais) e assim, esta recente inversão permite abrir portas no estudo de inversões passadas!

Elaina faleceu vítima de cancro da mama a 15 de Junho de 2016, deixando para o futuro a perspectiva de um sistema de estudo fantástico. Melhor do que esta minha pequena homenagem, deixo a hiperligação com a história original e completa desta naturalista.


 José Cerca de Oliveira

Quando as editoras de manuais escolares tomam decisões que cabem aos professores...


Uma editora de manuais escolares mandou, por estes dias, uma mensagem a professores de Filosofia com o seguinte texto:
Caro(a) colega [nome completo do destinatário]
As Nações Unidas assinalam o dia 27 de janeiro de cada ano como Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Esta data foi escolhida por coincidir com o aniversário da libertação do campo de concentração de Auschwitz. Quisemos associar-nos a esta evocação internacional e, nesse sentido, enviamos-lhe duas propostas de trabalho que esperamos se revelem úteis.
Continuação de bom ano letivo!
[Assinatura de representantes da editora]
Não obstante a "sensibilidade" se quer fazer passar há, nestas linhas, duas coisas obviamente intoleráveis:

Uma é aproveitar a data em causa, com tudo o que ela representa, para publicitar o manual e os seus anexos (que aparecem numa destacada fotografia que antecede o texto).

Outra é ter a veleidade de fazer propostas didácticas a professores, que se pressupõe saberem como ensinar. Não precisam, nem devem aceitar, que quem não é do ofício lhes diga o que fazer. Isto não é novo, mas deve acabar sob pena de se acentuar a desprofissionalização docente.

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Nota: Presumo que não tivesse sido apenas uma editora a ter esta iniciativa. Práticas destas tenho-as visto a diversos propósitos e por parte das várias empresas instaladas. E não tenho dado conta de grande contestação por parte das escolas e dos professores. Infelizmente!
Acrescento, o que já escrevi por diversas vezes neste blogue: o problema não está na actuação das editores, que são empresas; o problema está do lado das escolas e dos professores que não percebem exactamente o que está em causa.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Sobre os Jesuítas no mundo

Notícia da agência Ecclesia sobre a entrevista que dei na RTP e em que falo do livro "Jesuítas, Construtores da Globalização", no filme "Silêncio" de Martin Scorsese e do papa Francisco:

http://www.agencia.ecclesia.pt/noticias/nacional/igrejaciencia-papa-tem-tentado-unir-as-pessoas-a-volta-de-coisas-essenciais-carlos-fiolhais/



FALTAM 2,5 MINUTOS PARA O APOCALIPSE

Pelo menos é que diz o relógio do Boletim dos Cientistas Atómicos. É uma afirmação simbólica, mas à qual devíamos dar atenção Desde os anos 80 que o ponteiro não esteve tão próximo. Ver artigo no Observador:

http://observador.pt/especiais/relogio-do-apocalipse-quanto-tempo-falta-para-uma-guerra-nuclear/

e ver no original a justificação. Não é só a questão da proliferação nuclear, mas é também o aquecimento nuclear. Os dois são assuntos sobre os quais as palavras de Trump só nos podem nos assustar
.

TRUMP E O CAMINHO DAS TREVAS


Nunca tive ilusões sobre Donald Trump. Ele não passa de um ignorante, que venceu as eleições (um processo fraudulento, segundo o próprio) apelando aos instintos mais básicos da população e usando a mais rasteira demagogia. Para ele não há factos nem verdade, mas sim os factos dele e a verdade dele. Por isso não me admirou nada que o discurso de tomada de posse fosse um discurso de campanha. Estão enganados aqueles que, colocando paninhos quentes, pensavam que ele se ia moderar, uma vez investido na presidência. Ou aqueles que falam dos "checks e balances" da democracia americana, que segundo eles iriam impedir os estragos: existem, com efeito, esses mecanismos de controlo, mas eles não vão impedir todos os estragos. O planeta deve ser, segundo Trump, paulatinamente destruído. As vacinas devem ser postas de lado pela sua perniciosidade. O muro é mesmo para fazer, pago pelo México. Os suspeitos de terrorismo devem ser torturados e as suas famílias exterminadas.

Não podemos fazer nada? Claro que podemos. Como sumariou o astrofísico Neil de Grasse Tyson, "Let us make America smart again". Há muitos americanos instruídos e honestos que vão resistir, esgrimindo essa arma maior que é a razão. Na democracia americana vai haver - está já haver - um combate pacífico, usando a palavra, por coisas que julgávamos adquiridas como o reconhecimento da verdade. Nos Estados Unidos a opinião (ainda) é livre.

Na actual geopolítica mundial, a América conta muito e a ascensão local da irracionalidade vai ter efeitos globais: levar o mundo a tempos difíceis, não só na política e na economia como na cultura e na ciência. A Europa, esse berço antigo da filosofia e da ciência, parece não ter hoje forças, minada como está por brechas na unidade e ausência de liderança. Vamos ver que papel vai ter a China, que poder-se-á ver, por muito imprevisível que isso fosse há anos atrás, catapultada para líder mundial. Já era o motor económico do mundo, poderá ver-se obrigada, talvez contra vontade, a ser o motor político.

O "cartoon" de cima foi-me enviado pelo Dalai Lima, cujos ditos bem humorados não perco todos os dias. Fechar a luz na casa Branca tornou os Estados Unidos da América uma casa escura. Esperemos que volte, em breve, a haver luz.

Cientistas estão à beira do desespero


Declarações de Maria Mota à TSF: aqui.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

LEIBNIZ EM PORTUGUÊS


Por ocasião dos 300 anos da sua morte, a "Babelia", suplemento cultural do "El Pais" de 24 de Dezembro, é feito um bom resumo da obra de Gottfried Wilhelm Leibniz  (1646-1716), enfatizando tanto a abrangência da actividade criativa de Leibniz como a sua actualidade. Escreveu Juan A. Nicolás:

"Leibniz aportó ideas de tan largo alcance como el sistema numérico binario, la idea del inconsciente, la concepción de Europa como unidad cultural, la formulación de una metafísica de la individualidad, la relevancia de la creación de revistas y sociedades científicas, la consideración de la mujer como sujeto científico y filosófico equiparable al hombre, o una concepción intercultural de la constitución del saber. Estos son algunos ejemplos de ideas leibnizianas que antes o después tuvieron un efecto multiplicador y constituyeron la trama intelectual sobre la que se construyó la Modernidad. 

Fue la de Lebniz una mente desbordantemente criativa, tanto en profundidad como en extensión. A diferencia de otros grandes genios como Kant, Einstein o Picasso, Leibniz fue creador en ámbitos muy diferentes del saber, su innovación no se restringe a una disciplina (¡que ya sería bastante!). Participó creativamente en materias tan distintas como la matemática, la ingeniería, el diseño industrial, la metafísica, la ética, la lógica, la teoría del conocimiento, la política, la gestión cultural, la diplomacia, la física, la dinámica, la psicología, la medicina, la salud pública, la estadística, la teoría de probabilidades, la filología, el derecho, la música, la geología, la historia, la teología..."

Esse artigo fala também da publicação em curso em espanhol da obra de Leibniz, procurando seguir embora sem a mesma abrangência a Obra Completa que está a ser feita por Academias alemãs (Berlim e Goettingen). A obra escrita de Leibniz é desmesurada: não só os seus escritos científicos, filosóficos como a sua epistolografia a grandes nomes da época como Newton (é famosa a polémica entre os dois) e Malebranche. Existem mais de 30.000 escritos, alguns deles ainda inéditos8em vida o filósofo só publicou 1% dos seus manuscritos!). Leibniz escreveu, por exemplo, sobre o catolicismo na China, após ter recebido informações de um jesuíta português.

Em português vale a pena referir o trabalho continuado que Adelino Cardoso está a fazer de tradução e comentário das obras do génio alemão. Ainda recentemente promoveu uma exposição na Biblioteca Nacional (BNP) à qual esteve associado um colóquio, cujos textos acabam de ser publicados pela  BNP ("O Labirinto da  Harmonia. Estudos sobre Leibniz"). Textos de vários especialistas, alguns estrangeiros, dão uma perspectiva da obra imensa de Leibniz, Pode ser visto aqui o resumo (custa só 7 euros em papel e 3 euros em ebook).

Não são muitas as traduções de Leibniz nas livrarias. Fui ver à Wook. Uma muito recente é a "Monadologia", da autoria de Adelino Cardoso, na Colibri, uma das suas obras de síntese. Mas há também o "Discurso de Metafísica" (também na Colibri, mas há uma outra edição nas Edições 70, com tradução de Artur Morão), o "Discurso sobre a Teologia Natural dos Chineses" (ainda na Colibri). E, na Fim de Século, os "Princípios da Natureza e da Graça. Monadologia" (tradução de Miguel Serras Pereira). Com sorte nas livrarias ou, melhor, nos alfarrabistas encontram-se os seguintes livros, cujas fichas consultei na BNP e que estão nessa e noutras bibliotecas:

Correspondência entre G. W. Leibniz e Lady Masham / org. Adelino Cardoso, Maria Luísa Ribeiro Ferreira ; trad. Helena de Jesus, Teresa Tato Lima. Lisboa : Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2010.  ISBN 978-972-8531-87-4.


Da reminiscência e da reflexão da mente sobre si mesmo / G. W. Leibniz ; introd., trad. e coment. Nuno Ferro. Porto : Fundação Engo António de Almeida, 2008.  ISBN 978-972-8386-74-0.

Discurso de metafísica : texto integral : 12o, novos programas, ensino secundário / Leibniz ; trad., análise e coment. Miguel Real. 1a ed. Lisboa : Lisboa Editora, 1997.  ISBN 972-680-362-4.

Novos ensaios sobre o entendimento humano / Gottfried Wilhelm Leibniz ; trad., introd. Adelino Cardoso. Lisboa : Colibri, 1993.

Princípios de filosofia ou monadologia / Leibniz ; trad., introd. e notas de Luis Martins. Lisboa : Imp. Nac.-Casa da Moeda : Fac. Ciências Soc. Hum.Univ. Nova, 1987.


A monadologia : discurso de metafísica / Leibniz ; trad. António Novais Machado. Coimbra : Casa do Castelo Editora, 1947.

"CIÊNCIA E FALSA CIÊNCIA"



No próximo dia 31 de Janeiro, terça-feira, pelas 18h00, realiza-se no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra intitulada "Ciência e falsa ciência". O palestrante será David Marçal.



Esta palestra insere-se no ciclo "Ciência às Seis" coordenado por António Piedade.


Resumo da palestra:
"A pós-verdade há muito que está instalada no discurso de massas, no que diz respeito à ciência. Ideias, produtos e tratamentos que não têm qualquer fundamento científico, são apresentados como se o tivessem. Às provas científicas, os seus detractores respondem com "factos alternativos". Mas não é tudo igual. Há uma diferença entre ciência e falsa ciência e é importante ter ferramentas para as conseguir distinguir."

À palestra seguir-se-á um momento de conversa entre o público presente e o David Marçal.

Entrada livre. 
Palestra destinada ao público em geral.

Link para o evento no facebook.

LER, ESCREVER E SER LIVRE


"Lire, écrire et être livre" é o título  do mais recente livro de José Morais, professor de Psicologia emérito da Universidade de Bruxelas, que foi publicada em França pela editora Odile Jacob.  O subtítulo - "Da alfabetização à democracia" - enfatiza a ligação profunda que o autor expõe entre alfabetização e democracia.

Os dois temas são uma presença na vida e trabalho de José Morais.  Como explica a nota biográfica, a autor é um emigrante político portuguesa que deixou Portugal nos anos 60 depois de ter lutado na clandestinidade contra o regime deposto a 25 de Abril. Em 1969 foi reconhecido como refugiado político da ONU. Algumas das suas "aventuras" desse período estão descritas no livro "À espera de Godinho", escrito por vários emigrantes qualificados na Bélgica (entre os quais o físico luso-belga Manuel Paiva) que a Bizâncio publicou.

A sua investigação centrou-se ao longo de toda uma vida profissional nos processos cognitivos associados à leitura. O seu livro mais conhecido é talvez "L'art de lire", publicado em França em 1994 e traduzido depois em português. José Morais fez também, em português, algumas incursões na literatura.

Os seus conselhos de perito em assuntos de educação foram ouvidos  não só no seu país natal e no seu país de adopção, mas também em França e no Brasil. O problema da alfabetização no Brasil é particularmente notório, mas mesmo em Portugal as estatísticas ainda nos indicam cerca de cinco por cento de analfabetos, o que contrasta pela negativa com a generalidade dos países europeus.

Sem a capacidade de ler e entender o que se lê, assim como de escrever de forma entendível, ser-se-á um cidadão com capacidades diminuídas. Neste livro, Morais fala de "pseudo-democracia"... O tema da relação entre alfabetização e literatura (em dois capítulos, "Por um mundo letrado" e "Por um pensamento livre e crítico") já tinha sido abordado pelo autor no seu  livro "Alfabetizar em Democracia", publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e que foi apresentado no Liceu Camões por António Sampaio da Nóvoa.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Fogo pesado sobre o acordo ortográfico - País - RTP Notícias

Fogo pesado sobre o acordo ortográfico - País - RTP Notícias

Questões climáticas na presidência Trump


No próximo dia 26 de Janeiro de 2017, pelas 18h00, no RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, sito no piso 0 do Departamento de Física da FCTUC, Filipe Duarte Santos vem conversar sobre as “Questões climáticas na presidência Trump”.

Nesta sessão, o físico Filipe Duarte Santos abordará  a ciência das alterações climáticas, o movimento dos negacionistas, a chamada “pós-verdade” associada ao Presidente Donald Trump, a luta entre a indústria dos combustíveis fósseis e os partidários da transição energética, o Acordo de Paris e o o futuro do clima da Terra. Num tempo de mudança da política mundial serão discutidos os problemas ambientais que nos afectam a todos. Haverá diálogo com a audiência.

Filipe Duarte Santos é licenciado em Geofísica pela Universidade de Lisboa, doutorado em Física Nuclear pela Universidade de Londres e, desde 1979, professor de Física na Universidade de Lisboa, regendo várias disciplinas nas áreas da Física, Ambiente e Alterações Globais, além de professor convidado em várias prestigiadas universidades dos Estados Unidos e Europa. Foi vice-presidente do Instituto de Meteorologia de Portugal entre 1987 e 1988, tendo posteriormente coordenado a redacção do primeiro e único Livro Branco sobre o Estado do Ambiente em Portugal, publicado em 1991. Posteriormente, em 1998, passou a integrar o Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável e entrou como membro efectivo da Academia das Ciências de Lisboa. Ao longo dos anos tem coordenado diversos projectos nacionais e internacionais nas áreas do ambiente e alterações globais, dos quais se destacam a sua acção como investigador coordenador do Projecto SIAM – Climate Change in Portugal. Scenarios, Impacts and Adaptation Measures, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (1999-2002) e responsável do projecto PORTCOAST, Centro de Geofísica da Universidade de Lisboa. É autor de vários livros, alguns dos quais publicados na Gradiva. Foi  director do Centro de Física Nuclear da Universidade de Lisboa e foi galardoado em 2008 com Prémio Universidade de Lisboa.

Carlos Fiolhais, director do RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, apresentará o convidado. Convidam-se todas as pessoas interessadas em questões ambientais e, em geral, nas relações entre ciência, política e economia a assistir à sessão.

Para mais informações:

RÓMULOCentro Ciência Viva da Universidade de Coimbra 
                     Maria Manuela Serra e Silva
                     Telefone – 239 410 699
                     E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com

                     Facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100002912006773

DIÁRIO DE ESCRITA

Novo texto recebido do psiquiatra Nuno Pereira:


    Só se aprende a escrever bem, lendo... e escrevendo. O treino regular é fundamental para o domínio da escrita. Ora, os estudantes raramente fazem de modo autónomo uma composição escrita em casa, o que quase só acontece nos testes de avaliação da disciplina de Português, já que nas aulas contam com o apoio do professor ou praticam em grupo. Um diário manuscrito, que reúna relatos íntimos com outros géneros textuais, pode ser das melhores maneiras de aprimorar a técnica de escrever, ao desenvolver uma rotina que aproveita não só as virtudes dum diário pessoal como as vantagens dum caderno de exercícios.

    A narrativa autobiográfica constitui hábito antigo e universal, em que geralmente a análise de experiências amargas alivia a dor e a recordação de experiências maravilhosas reforça o prazer. Para além da sua característica confessional, o diário pode desempenhar papel motivador, ajudando a clarificar e a atingir objetivos pessoais. Muitos alunos não conhecem os seus objetivos. Citando Séneca, não há vento favorável para quem não sabe aonde quer ir. De facto, um jovem sem um sonho ou projeto de vida está desmotivado, pelo que pode ser inspirador definir os objetivos principais em termos positivos (isto é, o que quer), desdobrá-los em metas de curto prazo, listar os recursos pessoais (isto é, o que tem e pode controlar) e ir registando o grau de cumprimento das etapas programadas em direção ao destino determinado.

    No caderno para exercitar a escrita de textos literários e não literários, o estudante em dias sucessivos relata um acontecimento, descreve algo ou alguém, constrói um diálogo, expõe e explica um facto, justifica uma opinião, conta uma história, representa um drama ou compõe um poema. Facilita a produção de textos reconhecer simplesmente que a maioria obedece a uma estrutura comum de apresentação, desenvolvimento e conclusão. Se a competência, por exemplo, em Matemática exige prática constante de resolução de problemas e de treino de exercícios, por que razão em Português não se estabelece uma rotina diária, dado o evidente benefício para a vida académica e profissional de saber expressar bem o pensamento?


    Em suma, junta-se o útil ao agradável, criando um diário de escrita que intercala páginas de reflexão pessoal de carácter íntimo (apenas para serem lidas pelo próprio autor) com curtos textos de outros géneros (que podem ser submetidos à avaliação do professor). Muito em particular, no 3º ciclo de escolaridade, período da primeira grande decisão vocacional, o professor de Português deve entusiasmar o aluno a cultivar em casa a escrita autónoma, que por sua vez estimula a leitura.
                                                                               

                                                                        Nuno Pereira (psiquiatra)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Sobre uma crónica anti-ciência de Miguel Sousa Tavares

Texto recebido de F. Pacheco Torgal (Universidade do Minho):

O Semanário Expresso serviu este fim de semana de repositório ao lixo de uma crónica canalha do Dr. Miguel Sousa Tavares. Diz o famoso articulista que os bolseiros de investigação são, principalmente na área da sociologia, um grupo de indolentes que mais não fazem do que produzir “estudos ou investigações” absolutamente redundantes. E que terminada a sua bolsa deveriam seguir à sua vida “agradecidos pelo apoio recebido”. Escreve ainda que os mesmos bolseiros conseguiram obter do Ministro Tiago Brandão Rodrigues (esquecendo-se do pequeno pormaior que o Ministro que os tutela dá pelo nome de Manuel Heitor) a transformação de bolsas em contratos de trabalho “de três anos renovável por mais três”. Escreve também que não contentes com uma tal benesse que o sonho dos ingratos bolseiros de investigação é apenas o de serem funcionários públicos. E que para isso, pasme-se, contam com o bizarro apoio do BE e do PCP. O segredo do arranjinho é por ele revelado de forma muito sui generis "Entra-se como bolseiro por um ou dois anos com a contrapartida de ir investigar qualquer coisa e sai-se como funcionários públicos para vida, com a vaga função de ir investigando-sem prazo, sem programa, sem obrigação de resultados". 

Como se a sua crónica não contivesse alarvidades suficientes o Dr. Sousa Tavares ainda achou necessário escrever que não percebe porque é que não houve largas dezenas ou mesmo centenas de investigadores alocados ao estudo da febre hemorrágica dos coelhos bravos, gravíssimo problema segundo ele e para o qual já tinham alertado as associações de caçadores, as quais representam nada mais nada menos que cerca de 300.000 caçadores e onde o Dr. Sousa Tavares se inclui. A tal insigne classe a que o nosso país tanto deve, que retira um bizarro prazer no abate de indefesas criaturas, a mesma que têm o criminoso hábito fertilizar os espaços agrícolas e cursos de água com um metal pesado de toxicidade bem conhecida assim envenenando todos os anos milhões de espécies e cujo real custo ambiental e económico ainda está por apurar http://www.humanesociety.org/issues/campaigns/wildlife_abuse/toxic-lead-ammunition-poisoning-wildlife.html? Não foi certamente por acaso que uma das últimas medidas tomadas pelo Presidente Obama no último dia como Presidente dos EUA foi precisamente a de proibir a caça com cartuchos de chumbo http://freebeacon.com/issues/obama-official-issues-ammunition-ban-federal-lands-last-day-office/ Infelizmente esse não é porém um tema que incomode a consciência do Dr. Sousa Tavares obcecado que anda em revelar os tenebrosos planos do BE e do PCP que segundo ele não têm pejo em delapidar o erário público com a impensável e inadmissivel nomeação por tempo indeterminado de algumas poucas centenas de bolseiros de investigação.

É deplorável que o Dr. Miguel Sousa Tavares tenha uma tão insuficiente, redutora e até inverdadeira opinião sobre o trabalho dos bolseiros de investigação (não vale sequer a pena comentar o que ele acha que conhece sobre o que se passa em termos de investigação noutros países) mas a culpa da sua atrevida ignorância não será só dele pois quem na nossa excelsa classe política permitiu que uma tal ignóbel narrativa fosse construída e que em resultado da mesma uma tal ignara opinião se formasse também tem muitas culpas no cartório. Num tempo em que a nível mundial viceja uma oligarquia que manipula a seu bel-prazer a classe politica e brinca com a democracia reservando para si apenas privilégios e nunca deveres, num tempo em que parece que quase ninguém se pode designar de incorruptível, num tempo em que o papel da academia enquanto garante de um conjunto de valores éticos fundamentais é mais necessário do que nunca é incompreensível que aqueles cujo trabalho é apenas e tão somente o da procura da verdade e ainda por cima quando se sabe que muitos deles até se sujeitam à extrema humilhação de trabalhar sem nada receber (situação que em nada parece incomodar a boa consciência do Dr. Sousa Tavares) apenas na ilusória expectativa de um dia poderem aceder a um eventual contrato de trabalho, assim sejam sujeitos a este enxovalho gratuito que a todos não pode deixar de ofender profundamente.


F.Pacheco Torgal

Contra o Acordo Ortográfico

Fiz hoje declarações à jornalista Luciana Leiderfarb do "Expresso" contra o Acordo Ortográfico de 1990 a propósito do Manifesto recentemente divulgado. Ver aqui:

http://leitor.expresso.pt/#library/expressodiario/23-01-2017/caderno-1/temas-principais/os-autores-do-acordo-ortografico-nunca-foram-capazes-de-explicar-a-sua-bondade

O Manifesto hoje divulgado começa por falar em "golpe político", na medida em que o AO a ser aplicado sem que todos os Estados o tivessem ratificado. Que opinião lhe merece esta situação?
O AO é uma boa confusão e nunca me convenceu. A ideia, diziam os seus autores, era unificar a ortografia do portuguesa e contribuir para a afirmação no mundo da comunidade dos países de língua
portuguesa. Ora, o AO ficou muito longe da unificação ortográfica - aliás impossível e de resto nem sei se desejável -   e quanto  à afirmação da lusofonia é claro que o projecto não ficou fortalecido.
A falta de harmonia quanto ao AO pelos diversos países salta à vista. Há uns à frente e outros atrás, quando a ideia era um avanço conjunto. Na minha opinião, a língua não tem de andar mandada pela política. A língua é de todos, é um património comum, no qual tanto a unidade como  a diversidade são valores.  A língua demorou muito tempo a  formar e não pode ser formada (para muitos deformada) de repente na secretaria. Lembro que a língua portuguesa é uma das grandes línguas de cultura no Ocidente, o que inclui não só a literatura como a ciência.
Os subscritores erguem-se contra o principal critério do AO - o da pronúncia - e elenca as "aberrações" que tal critério produziu. Pessoalmente, em que medida isso o incomoda ou alterou a sua relação com a língua?
O AO não me incomoda nada, pois não o sigo. Escrevo como aprendi e sei. Não cortei consoantes mudas, não mudei as maiúsculas, nem os hífens. Felizmente que os polícias da língua ainda não me prenderam.  No manifesto estão elencadas apenas algumas das aberrações. Os autores do AO nunca foram capazes de explicar a sua bondade. Criaram mais problemas do que resolveram, ao pretenderem relacionar mais a escrita com a fonética. Eu sei que a  ortografia não é eternamente fixa e admito que, tal como no passado, possa haver mudanças consensualizadas. Mas neste caso não houve consenso nenhum. Foi à trouxe-mouxe (nem sei se lhe tiraram o tracinho)!
Fala-se também de um abuso de poder relativamente ao AO90, aplicado sem discussão pública e escondendo 25 pareceres negativos de especialistas. Por que acha que isto aconteceu? Pensa que ainda vamos a tempo de o discutir e reverter o processo?
Não sei por que aconteceu. Talvez pela procura de protagonismo de alguns actores. Estamos sempre a tempo de emendar o que está mal. Aliás já ouço falar em revisão do acordo...A melhor revisão seria
provavelmente anulá-lo.
Com o AO, tentou-se unificar as ortografias oficiais e anular as diferenças entre o diferentes usos do Português. O que é que isso revela sobre os portugueses?
Eu não penso que seja possível anular as diferenças. Nem sei para que isso possa servir. Como se diz no texto, nenhuma outra língua com variantes, como o inglês, o castelhano ou o francês, se preocupou com tal coisa,. Até agora o AO não trouxe qualquer benefício prático. Só um aumento de entropia.
Uma revisão do AO não criaria confusão a quem hoje aprende a escrever segundo as novas regras?  
Se se rever o AO, incluindo uma revisão total que seria a sua anulação, não penso que houvesse grande incómodo. Uma coorte de crianças e jovens, que aprenderam segundo o AO, continuariam
sem dificuldade a perceber tudo e reaprenderiam facilmente a escrever segundo outra norma.

A Fé dos Homens de 23 Jan 2017 - RTP Play - RTP


Entrevista minha que passou hoje na RTP2 sobre o livro que escrevi com José Eduardo Franco, "Jesuítas Construtores da Globalização" (CTT), a propósito do filme "Silêncio" de Martin Scorsese:

A Fé dos Homens de 23 Jan 2017 - RTP Play - RTP

José Pires Ferreira da Silva, meu professor

Faz hoje, dia 23 de Janeiro, um mês que faleceu o Doutor José Pires Ferreira da Silva, professor catedrático da Universidade de Coimbra, um dos fundadores da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação e também um dos seus primeiros e mais marcantes docentes.

Tive a honra de ser sua aluna na Licenciatura em Psicologia em mais do que uma disciplina, mas foi em Introdução à Psicologia, logo no primeiro ano, que me fez perceber a exigência do pensamento académico. Continuo a esforçar-me para conseguir corresponder a essa exigência.

Não escreveu muito o Professor Ferreira da Silva mas o que escreveu não parece ressentir-se com o passar do tempo. Relendo artigos que publicou há quarenta, trinta, vinte, dez anos vislumbro neles uma frescura que não os fixa no passado, antes os impele para o futuro. As múltiplas leituras que lhes estão subjacentes, a síntese rigorosa, a acutilante crítica, a honestidade irrepreensível e a fina ironia, numa escrita depurada, claríssima, onde não há uma palavra a mais nem a menos, significando exactamente o que pretende significar, tornam esses artigos e outros textos, bases de trabalho na Psicologia, na Pedagogia, na Epistemologia.

Sendo um homem discreto, pouco deu a conhecer a sua obra: ela ia saindo nas revistas e nos livros, tornando-se independente do autor.

Deixo ao leitor a possibilidade de perceber isso mesmo num dos seus últimos artigos intitulado Freud e os seus doentes: notas marginais, cujo resumo ilustra exemplarmente o texto.
"Depois de algumas considerações críticas sobre a experiência clínica de Freud, procura-se, na base sobretudo da sua correspondência, confidências e outros testemunhos, lançar uma luz, nem sempre lisonjeira, sobre a sua real atitude para com os seus doentes. Palavras-chave: psicanálise; tratamento psicanalítico, relação analista/ analisado."

domingo, 22 de janeiro de 2017

Ainda o PISA

Aitor Hernández, correspondente de um jornal espanhol, fez-me algumas perguntas para preparar um trabalho sobre a subida de Portugal no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, promovido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

Que razões justificam os resultados de Portugal no último PISA?
Os resultados que Portugal obteve na primeira avaliação PISA, publicados em 2001, foram, por referência à média, muito baixos, o mesmo acontecendo com a segunda avaliação. Isso teve repercussão no sistema, nas escolas e nos professores, sobretudo nos professores das disciplinas visadas: Matemática, Ciências e Português. Independentemente das discussões e acusações que vieram a público, foram tomadas medidas por parte do Ministério da Educação, que, apesar de sujeitas a críticas, algumas delas pertinentes, conseguiram mobilizar as escolas e os professores para um ensino estruturado e para o acompanhamento dos alunos. Os resultados desse trabalho começaram a ser visíveis a partir de 2006, mas só agora se destacaram, ao ponto de Portugal ficar, nas três áreas disciplinares, num lugar acima da linha crítica desse Programa. Isso foi, certamente, significativo para as escolas e para os professores; foi também, ou deveria ser significativo para a sociedade, que viu uma certa vertente da aprendizagem escolar melhorada.
Estes resultados devem ser motivo de celebração?
Devem ser motivo de celebração mas também de apreensão. Para explicar a minha posição, que pode parecer ambivalente, relembro que PISA mede, compreensivelmente, as competências que a OCDE entende serem adequadas ao desenvolvimento económico-financeiro, o que implica a resolução de problemas com que nos confrontamos no quotidiano. Por isso, devemos celebrar, como antes expliquei, o facto de os nossos alunos terem começarem a ter sucesso a esse nível. Agora o motivo de apreensão: a educação escolar não pode ter em conta apenas a aquisição das competências instrumentais no âmbito dessas três disciplinas, tem de ter igualmente em conta o alargamento de horizontes conceptuais, o discernimento crítico, a fruição estética… competências que estão associadas às artes e às humanidades mas também ao que no campo das ciências e da matemática não é de ordem pragmática.
O que pode Portugal fazer para subir na pontuação?
Certamente, continuar a trabalhar no sentido no sentido de levar os alunos do ensino básico a melhorar a aquisição e demonstração das competências que o PISA mede. Se nos esforçarmos, conseguiremos atingir esse propósito, mas entendo que essa deve ser uma preocupação entre outras. Tendo chegado aqui, é altura de revalorizarmos as componentes “mais contemplativas” das ciências e da matemática, mas sobretudo das artes e das humanidades que concorrem para a formação do pensamento livre. Há uma urgência particular de revalorizar a cultura e as línguas clássicas que chegaram praticamente à extinção. 
Como vê a educação em Portugal em comparação com Europa? 
As políticas educativas dos países europeus tendem a aproximar-se. Vejo as mesmas tendências curriculares nas reformas mais recentes feitas em Portugal, Espanha e França. A verdade é que instâncias supranacionais, como a União Europeia, que acentuam substancialmente a competição económica, exercem uma forte influência nas decisões que cada país toma. Não desmerecendo a importância de programas de avaliação como o PISA, talvez seja tempo de os países se articularam no sentido de proporcionarem às novas gerações uma educação escolar que não dependa directamente dessa preocupação..