quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Querido Monsieur Germain

O que ouve e o que lê sobre o ensino e a aprendizagem, sobre os professores e os alunos, para o futuro, para o século XXI, numa sociedade da informação, do conhecimento, tendo em vista o sucesso, o mercado de trabalho, a competitividade, a produção de capital humano... constituem uma amálgama de palavras que enviesa o sentido daquilo que é, que tem de ser, o educar em contexto escolar. Para não se perder de vista esse sentido é preciso voltar-se ao essencial, ao fundamental: às pessoas e ao conhecimento, ao valor que a educação tem e aos valores que a devem guiar. A relação entre Albert Camus e um dos seus professores Louis Germain ilustra esta breve nota.

Albert Camus em criança (imagem encontrada aqui).
Albert Camus, ensaísta, jornalista, filósofo e escritor, entra para a escola em 1918. É uma escola pública de um bairro argelino habitado por um operariado pobre.

Passados quatro ou cinco anos chega ao fim do que poderia ter sido a sua primeira e única etapa académica. A mãe entende que não vale a pena ele fazer o exame para entrar no liceu, pois além de não poder pagar as despesas não é do agrado da família mais alargada. Albert, apesar dos poucos anos que tem de vida, sente-se dividido entre o gosto de aprender na escola e o gosto de aprender uma profissão manual, como a do tio, e de ajudar a família.

Louis Germain, seu professor, vai falar com a mãe e convence-a a dar autorização, ter-lhe-á falado na possibilidade de uma bolsa de estudo. Ela cede; Albert passa de forma brilhante e continua até à universidade, faz doutoramento. Depois de receber o Prémio Nobel da Literatura escreve a Germain a carta que abaixo se transcreve, dedicando-lhe também os Discursos da Suécia [1]. 


19 de novembro de 1957 
Querido Monsieur Germain 
Deixei que o ruído que me rodeou nestes dias diminuísse antes de lhe falar um pouco do fundo do meu coração. Acabam de me conceder uma grande honra, que não procurei nem solicitei. Mas quando recebi a notícia, o meu primeiro pensamento, depois da minha mãe, foi para o senhor. Sem si, sem a mão afectuosa que estendeu ao pobre garoto que eu era, sem os seus ensinamentos e exemplo, nada disso teria acontecido. Não imagino um mundo com esta espécie de honra mas constitui uma ocasião para lhe dizer o que foi, e será sempre para mim, e para lhe assegurar que os seus esforços, o seu trabalho e o seu coração generoso, que sempre fazia valer, ainda se encontram vivos num dos seus pequenos pupilos que, apesar da idade, não deixou de ser um reconhecido aluno.
Abraço-o com todas as minhas forças.
Albert Camus
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  [1] Camus, A. (1983). O avesso e o direito seguido de Discursos da Suécia. Lisboa: Livros  do Brasil.

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