terça-feira, 7 de novembro de 2017

Quem deve pedir desculpa?

Artigo de opinião de Guilherme Valente no Público de hoje:

"O discurso do arrependimento do Ocidente é esclerosante. É preciso libertar-se dele e pensar para além da vitimização. [...] A pergunta que devemos colocar a nós próprios não é: porque sou mal acolhido; mas é: porque parto, porque deixo a minha terra."
Kamel Daoud, argelino, combatente por um islão iluminista, condenado a uma sentença de morte por um imã

O discurso de vitimização de africanos e islâmicos já não se pode ouvir. É hoje um contra-senso que funciona como desculpa para elites e governantes não assumirem a responsabilidade que há muito lhes cabe na situação endémica dramática em que vivem a maioria das sociedades e povos da Africa e do Médio Oriente.

Elísio Macamo, professor moçambicano numa universidade suíça, brindou-nos recentemente com um rebuscamento "académico" desse queixume absurdo (PÚBLICO, 11/10/17). É a si próprio que Portugal deve pedir desculpas "por ter violado os seus próprios valores" no período dos Descobrimentos e da colonização, escreveu. "Tantas vezes quanto for necessário"!

Ou seja, quer que eu inclua nas minhas orações um pedido de perdão a mim próprio pelas atrocidades que, por exemplo, Vasco da Gama praticou no Índico, com as quais não tive nada a ver e me repugnam! Eu e Portugal estaríamos assim condenados a uma espécie de inferno católico, absurdo histórico há muito abandonado pela própria Igreja.

 Convém lembrar com o historiador João Pedro Marques que esses "nossos" [1] valores [concretamente o anti-esclavagismo] não eram, então, reconhecidos universalmente e que desde há muito "o Estado português os oficializou e os portugueses os interiorizaram" (com alguma excepção aberrante e punível pela lei, como em todo o lado houve sempre).

Pelo contrário, a maioria dos africanos e islâmicos não os interiorizou. E vários Estados africanos e islâmicos não os oficializaram. E nenhum pediu desculpa por os terem violado no passado, pela colonização durante séculos de muitos territórios na Europa e na Ásia. Nem se ouvem pedidos de desculpa das elites por muitos deles os continuarem a violar, pela escravatura continuar a verificar-se na África e no Médio Oriente, sobretudo sobre a mulher.

Se o professor Macamo considera esses valores tão elevados que Portugal deveria continuar a pedir desculpa por os ter violado há séculos, então cumpre-lhe fazer tudo para os transportar para África, para os ver consagrados em todas as suas regiões, interiorizados e defendidos pelas suas gentes. Devo devolver-lhe a exigência que nos fazem, passando a ser nós a exigir que denunciem claramente o crime de africanos e islâmicos que agora, por todo o mundo, violam esses valores até ao paroxismo da crueldade. Devemos exigir a todos esses intelectuais e políticos que pretendem dar-nos lições de consciência que assumam essa realidade, ou culpa se assim o preferirem. Sigam Mandela. Combatam por essa causa humaníssima, como muito boa gente se sacrificou por ela na Europa durante séculos.

As elites africanas só poderão liderar a mudança do destino do seu povo se reconhecerem a realidade e assumirem a responsabilidade que hoje realmente lhes cabe. E prepare-se, professor Macamo, para enfrentar a barbárie do islamismo que começa a manifestar-se na sua terra, erva daninha que quando pega nalgum lugar conduz inelutavelmente à ignorância, obscurantismo, destruição, terror, à última expressão da miséria.

 Não continuem a abandonar a imensa maioria do islão silencioso, submisso pelo medo e a pobreza, sem instrução, incapaz de discernir e se situar no labirinto de contradições dessa religião primitiva. Maioria silenciosa onde o islão assassino recruta.

 Quanto a nós, portugueses e Portugal, o melhor que podemos fazer por africanos e islâmicos é não continuar a alimentar masoquistamente a desculpa que é a vossa vitimização, é afirmar frontalmente a responsabilidade que vos cabe.

 Por mim dispenso, portanto, o desvelo com que continuam a preocupar-se com o meu país por causa dessa suposta culpa que deveríamos carregar. Por mim liberto-os desse cuidado. Guardem o vosso tempo para se preocuparem com o vosso país, o vosso martirizado continente, as suas gentes que tanto precisam que se preocupem com elas. Não venham distrair-nos com essa vitimização sem sentido, distrair os nossos governantes daquilo que é importante fazer-se para melhorar Portugal e a vida dos portugueses.

Corrigirem, nomeadamente, as condições para a discriminação que subsistam na nossa sociedade. Erguer uma escola que ensine e eduque pelo conhecimento, pela História contada nas suas grandezas e misérias, para que sejam cada vez mais residuais as manifestações racistas conscientes ou inadvertidas. Manifestações reais, não as imaginadas, que se dispensam.

 [1] A sua formulação moderna surgiu de facto na Europa, mas emergiram há mais de dois milénios noutras latitudes, na China, por exemplo, onde Confúcio afirmou a unicidade da espécie humana.

Guilherme Valente

1 comentário:

  1. Isso de pedir desculpas é completamente absurdo. Nós levámos a luz da cultura e da civilização a vastas regiões cuja barbaridade ia, desde o sacrifício de vítimas humanas aos deuses, até ao canibalismo! Só não fomos mais longe na nossa ação civilizadora porque, no século XX, entrámos em rota de colisão com os capitalistas americanos que nos viram como um estorvo a uma exploração rápida e eficiente dos povos e matérias-primas africanos. Convém não esquecer que os peles-vermelhas foram praticamente exterminados!

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