sábado, 25 de novembro de 2017

A IGREJA E CIÊNCIA


Meu capítulo no livro "Portugal Católico" que acaba de aparecer no Círculo de Leitores:

Portugal nasceu na Idade Média, num caldo de cultura católico. Uma das maiores criações da Idade Média - a Universidade – teve a Igreja na sua génese. A Universidade portuguesa foi fundada em 1 de Março de 1290, com a assinatura pelo rei D. Dinis do documento Scientia thesaurus mirabilis, que foi confirmado por bula do papa Nicolau IV. A universidade passou de Lisboa para Coimbra em 1308, tendo alternado entre as duas cidades até, em 1537, ter sido transferida definitivamente para Coimbra, por ordem de D. João III. A Universidade de Coimbra é a mais antiga universidade nacional e uma das mais antigas do mundo: é a 10.ª mais antiga das escolas em funcionamento ininterrupto. Tinha sido um grupo de clérigos que tinha solicitado ao papa em 1288 a criação de um Studium generali. Desde a sua fundação até à instauração da República, em 1010, foi íntima a relação entre a universidade e a Igreja, uma relação de que hoje é símbolo a celebração do dia da Padroeira, a Imaculada Conceição. A Universidade Católica Portuguesa, que surgiu em 1967, inclui estudos e investigação em Ciências da Vida e da saúde.

O cientista português mais destacado dos tempos medievais foi Pedro Hispano (ca. 1215- 1277) que, sob o nome de João XXI, foi papa durante alguns meses, até à sua morte inesperada no palácio de Viterbo. Pedro Hispano, o único papa português, estudou na Universidade de Paris, onde teve como mestre S. Alberto Magno e como condiscípulos S. Tomás de Aquino e S. Boaventura. Embora persistam dúvidas sobre a autoria dos numerosos manuscritos que lhe são atribuídos [1], era decerto profundo conhecedor da filosofia e da medicina coevas. As obras mais relevantes que lhe são atribuídas são Summulae Logica, tratado de lógica aristotélica, e Thesaurus pauperum, um tratado médico.

A ciência em Portugal conheceu o seu período aúreo no tempo dos Descobrimentos, nos séculos XV e XVI, quando os portugueses revelaram novas terras, novas espécies, novas gentes e novas culturas. Exemplo dessas novidades foi o rinoceronte oferecido ao papa pelo rei D. Manuel I em 1515. Se os Descobrimentos se deveram a um complexo de razões (político-económicas e religiosas) não há dúvida de que a curiosidade – a mola propulsora da ciência – acompanhou sempre os navegadores que alcançaram paragens remotas, de África, América e Ásia. A frase de um deles - a “experiência é a madre das coisas, por ela sabemos radicalmente a verdade” - resume a atitude dos lusitanos que antecipou a Revolução Científica. Aquele que foi talvez o maior cientista nacional de sempre, o matemático Pedro Nunes, afirmou nessa altura que as viagens marítimas não se fizeram ao acaso, mas sim com ciência. Nunes, professor na Universidade de Coimbra, foi um cristão-novo num tempo dominado pela Inquisição, estabelecida em Portugal em 1536. O ocultamento da sua condição permitiu que não fosse incomodado. Mas o mesmo já não aconteceu com o seu colega Garcia da Orta, médico que partiu para a Índia em 1534, autor de Colóquio dos Simples, uma obra pioneira sobre plantas orientais, que foi alvo de um auto-de-fé post-mortem, em Goa, por ter entretanto sido descoberta a sua origem judaica. A Inquisição não ajudou ao desenvolvimento da ciência. Só para dar um exemplo, Amato Lusitano, notável médico contemporâneo de Nunes e Orta, judeu como eles, teve de se exilar: andou pelos Países Baixos, Itália (onde assistiu o papa Júlio III), Croácia e Grécia. O facto de a Igreja estar então muito próxima da ciência é ilustrado pelo facto de a bula do papa Gregório XIII que promulgou em 1582 um novo calendário, tão bem fundado astronomicamente que ainda hoje vigora, ter sido imediatamente seguida em Portugal, Espanha, Itália e Polónia. Esse calendário tinha sido preparado por uma comissão de sábios, encabeçada pelo jesuíta alemão P. Christophoro Clavius (1538-1612), que estudou em Coimbra antes de fundar a famosa escola matemática do Colégio Romano (Clavius não chegou a ser aluno de Nunes, mas ajudou à difusão das suas obras).

Os Jesuítas, surgidos em 1534, usaram Portugal como “rampa de lançamento” para a evangelização que dinamizaram em paragens remotas [3]. No grupo inicial de S. Inácio de Loiola estavam o basco S. Francisco Xavier, que andou pela Índia, Japão e China, e o português Simão Rodrigues, que ajudou a fundar dois dos mais antigos colégios jesuítas do mundo, o Colégio de Jesus, em Coimbra, e o Colégio de Santo Antão, em Lisboa, em 1542. Os Conimbricenses, comentários à filosofia de Aristóteles, publicados em Coimbra entre 1592 e 1606, ganharam justa fama na rede mundial dos Jesuítas. Uma das escolas científicas de maior nomeada dessa época foi a Aula da Esfera, que funcionou em Lisboa entre 1590 e 1759 e onde pontificaram discípulos de Clavius [2]. Talvez o papel mais importante desempenhado por Portugal na história mundial da ciência tenha sido protagonizado por missionários jesuítas, portugueses ou estrangeiros que passavam por Portugal, ao concretizar o diálogo de civilizações: por exemplo, os italianos P. Christoforo Borri (1583–1632), que rumou ao Vietname, e P. Matteo Ricci (1552-1610), que rumou à China, onde se tornou figura maior da evangelização. Ricci cultivou um encontro intercultural através da ciência, tendo traduzido para mandarim os Elementos de Euclides. Os telescópios chegaram à China e ao Japão graças aos missionários, escassos anos após o seu uso por Galileu em 1609. E o primeiro hospital ocidental 1556 no Japão foi fundado pelo jesuíta P. Luís de Almeida (1525-1583). Portanto, a Revolução Científica chegou ao Oriente vinda de Lisboa pela mão da Igreja. Nessa “primeira globalização” a recolha de dados científicos por Jesuítas e outros missionários representou decerto um enorme avanço no conhecimento do mundo.

Em 1709, o brasileiro P. Bartolomeu de Gusmão (1685-1724), estudante da Universidade de Coimbra, pediu ao rei D. João V os direitos de utilização de um novo “instrumento para voar”, tendo demonstrado perante a Corte um pequeno balão de ar quente. A essa experiência, pioneira da aviação, assistiu o núncio em Lisboa, que viria a tornar-se papa sob o nome de Inocêncio XIII. O monarca, que era amigo da ciência, chamou para dirigir o observatório astronómico que criou no Paço o jesuíta italiano P. João Baptista Carbone (1694-1750). A acção dos Jesuítas prosseguiu no século XVIII em Lisboa, Coimbra e Évora, sendo o autor mais moderno o P. Inácio Monteiro (1724-1812), que haveria de se exilar em Itália com a expulsão da Ordem pelo Marquês de Pombal em 1759. No período joanino, ganhou proeminência a Ordem dos Oratorianos, donde emergiram alguns dos maiores cientistas lusos do século XVIII, que tal, como os Jesuítas, foram perseguidos: merecem destaque o P. João Chevalier (1722-1801), que chegou a presidir à Real Academia de Ciências de Bruxelas, e o P. Teodoro de Almeida (1722-1804), que encontrou acolhimento em Espanha e França, onde preparou alguns dos dez volumes da sua Recreação Philosophica, a primeiro obra de divulgação científica em português. No Colégio dos Oratorianos em Lisboa existia um gabinete onde se faziam demonstrações da ciência newtoniana. A expulsão dos Jesuítas, ordenada pelo Marquês poucos anos após a sua chegada ao poder em 1755, o ano do grande terramoto, pôs fim, com a ajuda de uma poderosa máquina de propaganda, a uma meritória acção em prol da ciência tanto na metrópole como no Ultramar. A Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra, realizada em 1772, fez-se contra o jesuitismo, apesar de Pombal ter tido vários clérigos como conselheiros, incluindo um ex-jesuíta  - o matemático P. José Monteiro da Rocha (1734-1819). É hoje, em geral, reconhecido que a educação e a ciência nacionais foram muito afectadas pelo desmantelamento da vasta rede de colégios jesuítas.

Em 1779, já na era pós-pombalina, foi criada a Academia das Ciências de Lisboa. O seu primeiro secretário foi o Abade José Correia da Serra (1750-1823), naturalista com um percurso internacional. No século XIX, em Portugal tal como no mundo, assistiu-se a um processo crescente de laicização, influenciado pelo positivismo e pelo darwinismo, tendo surgido polémicas entre religião e ciência. A mais famosa ocorreu entre o médico republicano Miguel Bombarda e o jesuíta P. Manuel Fernandes Santana (1864-1910) (a Companhia de Jesus tinha sido restaurada em 1814) [4]. A I República perseguiu os Jesuítas, que continuavam a distinguir-se na ciência. Um dos cientistas portugueses de maior renome do século XX, António Egas Moniz (1874-1955), prémio Nobel da Medicina e Fisiologia em 1949, estudou no colégio jesuíta de S. Fiel e ajudou, como político, ao restabelecimento das relações entre Portugal e a Santa Sé. Não era crente, mas houve nessa época como em todas as épocas cientistas crentes como, por exemplo, António Ferreira da Silva, professor de Química da Universidade do Porto, autor de Sciência e Crenças [5]. Merecem referência no virar do século dois padres do Norte ligados à ciência: um inventor, o P. Manuel António Gomes (1868-1933), o Padre Himalaia, e um divulgador da ciência, o P. Amadeu de Vasconcelos (1878-1952).

O P. Manuel Gonçalves Cerejeira, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra na I República que haveria de ser cardeal patriarca de Lisboa, escreveu em 1924 o livro A Igreja e o Pensamento Contemporâneo [6], uma análise da ciência que suscitou polémica. O Estado Novo, regime que vigorou entre 1933 e 1974, não foi muito favorável à ciência. Só após a revolução de 1974 esta cresceu em Portugal de uma forma notória. Entre os sacerdotes que foram cientistas na contemporaneidade são de realçar o jesuíta P. Luís Archer (1926-2011), introdutor da moderna genética em Portugal e director da Brotéria [7], revista fundada em 1902 que foi difusora de ciência, e o P. João Resina (1930-2010), professor de Física no Instituto Superior Técnico em Lisboa.

Em 2010 Bento XVI reuniu em Lisboa com cultivadores das ciências e das artes, num gesto que denota a coexistência pacífica entre religião e ciência. Prosseguindo propósitos distintos, e reconhecidas hoje como anacrónicas as disputas entre ciência e religião, a ciência e a Igreja convivem hoje em Portugal em interacção e diálogo. Como afirmou D. Manuel Clemente, hoje cardeal patriarca de Lisboa, em 2009 na Universidade do Porto [8]:

“Como importante será compreendermos como religião e ciência se tornam complementares e interactivas na melhor definição recíproca. Como geralmente acontece, o crescimento delas realiza-se como autêntica ‘crise de crescimento’: a afirmação da mentalidade científica exigiu a redefinição da esfera religiosa; e a persistência da religião, em sucessivas decantações, situou a ciência no seu campo específico, tanto em termos de método e objecto como em lúcida auto-limitação, para poder prosseguir com segurança e acerto.”

Referências:

[1] José Meirinhos, Bibliotheca Manuscrita Petri Hispani: os manuscritos das obras atribuídas a Pedro Hispano, Fundação Gulbenkian, 2011.
[2] José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais, Jesuítas: Construtores da Globalização, CTT, 2016.
[3] Henrique Leitão (coord.), Sphaera Mundi: A Ciência na Aula da Esfera, Biblioteca Nacional de Portugal, 2008.
[4] Manuel Fernandes Santana, O materialismo em face da ciência a proposito da consciência e livre arbítrio do sr. prof. Miguel Bombarda, 2 vols., Typographia da Casa Catholica, 1899.
 [5] António Ferreira da Silva, Sciência e Crenças, Cruz e Cª, 1914.
[6] Manuel Gonçalves Cerejeira, A Igreja e o Pensamento Contemporâneo, Coimbra Editora, 1924. 2.ª ed. 1928.
[7] Hermínio Rico e José Eduardo Franco (coords.), Fé e Ciência Cultura: Brotéria – 100 Anos, Gradiva, 2003.
[8] Manuel Clemente, Porquê e para quê? Pensar com esperança o Portugal de hoje, Assírio e Alvim, 2010. 

1 comentário:

  1. Não passam de narrativas, fixadas em livros, as bases que sustentam as religiões e as ciências exatas. A narrativa religiosa é mais literária, no sentido artístico, do que a narrativa científica que, poeticamente, é muito despojada. Ambas, resultando da imaginação de homens, mulheres e crianças, pretendem dizer-nos o que é a verdade nos campos respetivos. A forte componente literária da religião, com imensas histórias de encantar, explica a difusão rápida do cristianismo por todo o Império Romano, mas a narrativa seca da ciência, embora mais aborrecida e difícil de entender, pelo vulgar cidadão que lê o jornal sentado num banco de jardim à sombra de um castanheiro multi-secular, tem permitido alavancar a vida quotidiana do homem moderno até alturas estratosféricas, porque nunca houve tanta gente a viajar de avião como nos nossos dias !...
    De qualquer maneira, dado que cada vez há mais cidadãos pouco dotados mentalmente para entenderem complicadíssimas teorias científicas, a literatura religiosa e profana vai aguentar-se, conforme pode ser demonstrado com obras de arte que continuam a ter muitos leitores deleitados, como A Bíblia Sagrada ou A Relíquia, de Eça de Queirós.

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