terça-feira, 3 de outubro de 2017

"O poema que vive em nós, vive connosco"

Sobre a importância da memorização que a escola deve proporcionar, insiste George Steiner em entrevista (que, tendo mais de um ano, continua actual).
A poesia ajuda-me a concentrar, porque auxilia a memória, e eu, como professor, sempre defendi a memorização.
Carrego dentro de mim muita poesia; é, como dizer, as outras vidas da minha vida. A poesia vive... ou melhor, no mundo de hoje sobrevive. Alguns consideram-na quase suspeita. 
Estou enojado com a educação escolar de hoje, que é uma fábrica de incultos sem respeito pela memória. E que não faz nada para que as crianças aprendam as coisas com a memorização. O poema que vive em nós, vive connosco, muda connosco e tem a ver com uma função muito mais profunda do que a do cérebro. Representa a sensibilidade, a personalidade. 

6 comentários:

  1. O ato de ensinar pode ser uma crueldade. Imaginem um indivíduo português, com 17 ou 18 anos, que se sentiria feliz se o deixassem dar marteladas durante todo o dia em chapas de aço, ser obrigado, por lei, a assimilar teorias físicas e químicas sobre a constituição de átomos e moléculas -que ele nunca viu-, durante aulas, à porta fechada, com a duração de 90 minutos! Os cientistas da educação, responsáveis pela barbárie que está a destruir as nossas escolas, já se esqueceram de Fernando Pessoa:
    Ai que prazer
    Não cumprir um dever,
    Ter um livro para ler
    E não o fazer!
    Ler é maçada,
    Estudar é nada.
    O sol doira
    Sem literatura.
    O rio corre, bem ou mal,
    Sem edição original.
    E a brisa, essa,
    De tão naturalmente matinal,
    Como tem tempo não tem pressa...
    Livros são papéis pintados com tinta.
    Estudar é uma coisa em que está indistinta
    A distinção entre nada e coisa nenhuma.
    Quanto é melhor, quanto há bruma,
    Esperar por D. Sebastião,
    Quer venha ou não!
    Grande é a poesia, a bondade e as danças...
    Mas o melhor do mundo são as crianças,
    Flores, música, o luar, e o sol, que peca
    Só quando, em vez de criar, seca.
    O mais do que isto
    É Jesus Cristo,
    Que não sabia nada de finanças
    Nem consta que tivesse biblioteca...

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    1. Prezado Leitor
      George Steiner está longe, mesmo muito longe, de ser um "cientista da educação". Ele é crítico literário e professor de literatura.
      Mas tem razão numa coisa: os "cientistas da educação" são responsabilizados por muita gente pela dita "barbárie que está a destruir as nossas escolas". Há que responsabilizar alguém e, portanto, responsabilizam-se os "cientistas da educação", que, em muitos casos, são pessoas que não estudaram uma linha de educação. Faz-se isso quando se vê alguém defender a importância dos textos clássicos nos currículos ou quando se vê defender o seu afastamento, quando se vê alguém defender o desenvolvimento de capacidades como a memória ou quando se vê negá-lo. Não importa, pois quem sejam os "cientistas da educação" nem o que digam, são responsáveis e isso basta.
      Cordialmente
      MHDamião

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    2. Prezada Helena Damião,
      Criticar apenas os críticos dos cientistas da educação não resolve o problema da decadência das nossas escolas. Está muito longe de mim considerar George Steiner um cientista da educação. Para mim os cientistas da educação são os que obrigam jovens de 17 anos a frequentar escolas, onde, mesmo que nada aprendam, estão melhor do que numa oficina a aprender uma profissão! Mas o ponto essencial é que a maior parte dos cientistas da educação acham bem que não se ensine nas escolas desde que o sucesso escolar esteja garantido.

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  2. Reconheço que a memória é de suma importância. Quem me dera ter mais e melhor. Melhor em vez de mais, de preferência. Às vezes interrogo-me se as pessoas que não têm memória, quando estão sozinhas, têm em que pensar. Não sei a resposta.
    Cá eu, farto-me de pensar em imensas coisas que preferia ignorar e gostava de poder pensar em tantas outras, que nem sei.
    A memória ou a falta dela, domina a minha vida.
    Sem memória não me reconheceria e os outros teriam muita dificuldade em identificar-me, para já não falar em aspectos mais importantes ligados à memória (sem ironias), como o de reconhecer e identificar os outros.
    E tudo isto sem embargo de a memória ser algo que estamos habituados (há muitos milhares de anos) a perder.
    Agora, deixando essas teleologias de lado, que não nos interessam senão filosófica ou religiosamente, a memória dos poemas e dos anjos (há outras menos boas, más, tão más que têm de ser esquecidas) é uma fonte de água límpida que sacia a nossa sede (até ver) sem nos matar.

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  3. Cara Helena Damião,
    a propósito do tema deste seu 'post', aconselho a peça "By Heart", de Tiago Rodrigues, que vai estar em Coimbra no dia 8 de Dezembro, no Convento S.Francisco (http://www.coimbraconvento.pt/pt/agenda/by-heart-tiago-rodrigues/), e cujo texto está editado na colecção Dramaturgia da Imprensa da UC. É em tudo relacionado com o que publicou aqui. Deixo uma parte do texto de apresentação da peça:

    ""By Heart" é uma peça sobre a importância da transmissão, do invisível contrabando de palavras e ideias que apenas guardar um texto na memória pode oferecer. É sobre um teatro que se assume como esse lugar de transmissão do que não pode ser medido em metros, euros ou bytes. É sobre o esconderijo seguro que os textos proibidos sempre encontraram nos nossos
    cérebros e nos nossos corações, garantia de civilização mesmo nos tempos mais bárbaros e desolados. Como diria o professor de literatura George Steiner numa entrevista ao programa de televisão Beleza e Consolação: Assim que 10 pessoas sabem um poema de cor, não há nada que a KGB, a CIA ou a Gestapo possam fazer. Esse poema vai sobreviver. Em última análise, "By Heart" é uma recruta para a resistência que só termina quando os 10 guerrilheiros souberem o poema de cor."

    Cumprimentos,
    Mário Montenegro

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  4. Prezado Mário Montenegro
    Agradeço "de coração" o seu comentário. Darei proximamente atenção à peça que refere, que eu não conhecia. Muito obrigada.
    Dá-me também o pretexto para fazer alusão às belíssimas entrevistas reunidas no título "Da beleza e da consolação" (ou "A beleza e a consolação") que tenho guardadas desde que, há uns anos, a alta madrugada, passaram na televisão portuguesa. Pensei que a oportunidade estava perdida, mas ela voltou. Pensei mal, pois um trabalho daqueles não perde oportunidade.
    Cordialmente,
    MHDamião

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