quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O Padre Teodoro de Almeida e a Recreação Filosófica


Início da minha introdução ao volume "Primeiro tratado de física", do Padre Teodoro de Almeida, que está mesmo a sair da chancela do Círculo de Leitores, como uma das "Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa", com coordenação de José Eduardo Franco e minha. Espero que abra o apetite para o resto do volume e da colecção:

Padre oratoriano nascido em Lisboa, Teodoro de Almeida (1722-1804) foi um físico, astrónomo, pedagogo, filósofo e teólogo, considerado um expoente do Iluminismo católico. Escreveu a Recreação filosófica ou diálogo sobre a filosofia natural, para instrução de pessoas curiosas, que não frequentaram as aulas, uma obra pioneira na cultura portuguesa por ter sido a primeira a expor a física (na altura, dita «filosofia natural») de Galileu, Descartes e Newton na língua portuguesa e também por ter sido a primeira obra de divulgação científica, isto é, a apresentar, na nossa língua, a ciência a um público alargado. A Recreação filosófica foi publicada, entre 1751 e 1800, em 10 volumes, os quais conheceram numerosas edições em Portugal, em Espanha e em França, tendo uma larga projeção europeia e até mundial, uma vez que o seu impacto chegou até à América Latina.

Apresentamos aqui, em versão moderna, o volume i da obra, a 5.ª edição publicada em 1786, que não conhecia edição entre nós desde essa data. Tendo saído em vida do autor, foi por ele preparada, surgindo escrito no frontispício «muito mais correta que as precedentes»[1]. Após uma invocação ao rei D. José I, um prólogo explicativo das intenções do autor e uma breve história da filosofia que, começando na Antiguidade Clássica, vai dar lugar à filosofia natural do Iluminismo, então triunfante, o seu corpo principal é constituído por um diálogo entre três personagens que discutem as leis da mecânica e da hidrostática. A mecânica fundada essencialmente por Galileu e Newton, e que foi chamada «nova ciência» ou «moderna ciência», baseada na observação, na experiência e na matemática, é colocada em nítido contraste com a «antiga ciência», baseada na doutrina de Aristóteles e de outros autores clássicos, que tinha sido convenientemente adaptada ao cristianismo na Idade Média.

 Teodoro de Almeida, embora assuma cuidadosamente na forma retórica que escolheu uma posição dita «eclética», isto é, de apresentação das duas posições concorrentes, dá a entender claramente que está do lado dos «modernos». A sua prosa, num português claro, recorrendo amiúde a exemplos e a experiências, revela uma nítida preocupação pedagógica, uma vez que o objetivo era fazer chegar as novas ideias científicas ao maior número possível de leitores. Na época, só uma pequena percentagem da população – não mais de cinco por cento – era alfabetizada e, desse grupo, só uma elite, que dominava o latim, tinha acesso aos conhecimentos da ciência, quer a antiga, quer a moderna (também esta, pelo menos em parte, escrita em latim). A retórica dialogal poderá ter tido inspiração nos diálogos em italiano de Galileu, mas, em português, encontra antecedente nos Colóquios dos simples, de Garcia de Orta [2], diálogos sobre plantas orientais. Outros livros da época que expunham a nova ciência usaram também a forma de diálogo. Almeida faz um esforço de simplificação, deixando de lado demonstrações matemáticas e pormenores mais técnicos, que poderiam prejudicar a perceção das ideias essenciais.

Não pode deixar de se reparar no atraso da chegada das ideias da «nova ciência», que se deu num ambiente de grande polémica, a famosa querela dos «antigos e dos modernos». A «nova ciência» é do século XVII: os dois livros maiores de Galileu foram Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo [3], em defesa do sistema heliocêntrico de Copérnico, e Duas novas ciências [4], propalando a nova mecânica e ciência dos materiais; e os dois livros maiores de Newton foram Princípios matemáticos da filosofia natural [5], onde surgem as três leis newtonianas do movimento assim como a lei da gravitação universal, e Óptica [6], onde é apresentada a teoria corpuscular da luz e se explica o arco-íris. O atraso português na receção da física moderna dever-se-á, pelo menos em parte, ao domínio pedagógico da Companhia de Jesus, cujos professores seguiam, com algumas notáveis exceções, o aristotelismo, numa linha pedagógica de que é paradigma a obra coletiva os Conimbricenses (1592-1606) [7], em 8 volumes, publicados em Coimbra [8]. Note-se que Descartes, um dos modernos, se insurgiu contra esta obra, que estudou num colégio jesuíta, afirmando, numa carta ao padre Mersenne, que «Os Conimbricenses são longos, sendo bom que fossem mais breves». Embora tenha havido tentativas de modernização por parte de alguns jesuítas, o certo é que o ambiente, tanto externo como interno, nos seus colégios portugueses não era favorável à modernização de conteúdos e de métodos. De resto, a preocupação conservadora revelou-se, por exemplo, tanto no indeferimento pelo rei D. João V, em 1712, de um pedido por parte de professores conimbricenses para se atualizarem os programas, como no edital do reitor do Colégio das Artes, em Coimbra, em 1746, que proibia a difusão das obras de Descartes, Gassendi e Newton («se não ensine defesa ou opiniões novas pouco recebidas, ou inúteis para o estudo das Ciências maiores como são as de Renato Descartes, Gazendo, Newton, e outros»[9]). Mas a interdição de ensino não impediu a existência, nas bibliotecas jesuítas, de obras desses e de outros autores contemporâneos, nem impediu a modernidade de alguns textos dos jesuítas, de que é excelso exemplo o Compendio dos elementos de mathematica de Inácio Monteiro [10], o mais moderno dos jesuítas setecentistas.

A Companhia de Jesus, fundada em 1534, em Paris, por S.to Inácio de Loyola, chegou a Portugal em 1540, com a vinda de Simão Rodrigues e S. Francisco Xavier. Este partiu para o Oriente, mas Rodrigues ficou, criando os primeiros colégios jesuítas em Portugal e no mundo, núcleos de partida de uma vasta rede global: os colégios de S.to Antão, em Lisboa, e de Jesus, em Coimbra, os dois fundados em 1542 [11]. A ação pedagógica dos jesuítas, que cresceu muito rapidamente, passou, no século XVIII, a conhecer a concorrência dos oratorianos, ou Congregação do Oratório, fundada por S. Filipe Néri em Roma em 1565, os quais, tal como os jesuítas, demonstraram desde o início claras preocupações com a instrução pedagógica, literária e científica dos jovens. Os oratorianos tinham chegado a Portugal em 1667 por iniciativa do padre Bartolomeu de Quental, um açoriano antepassado de Antero de Quental, e atingiram o seu apogeu a meio do Século das Luzes, na época da publicação da Recreação filosófica. Depois, entraram em decadência, devido, primeiro, à perseguição de Pombal e, seguidamente, após uma reanimação de poucas décadas, à perseguição às ordens religiosas no tempo do Liberalismo (hoje em dia a única casa de oratorianos no vasto espaço de língua portuguesa situa-se em São Paulo, no Brasil).

A Congregação do Oratório instalou-se de início na Casa do Espírito Santo, no Chiado, em Lisboa. Os padres oratorianos começaram logo no início do século xviii a disputar a primazia pedagógico-científica dos jesuítas, para o que terá contribuído o facto de o rei D. João V ter, em 1709, declarado a sua proteção aos oratorianos e, em 1712, ter escolhido para seu confessor um oratoriano, que sucedeu a um jesuíta. À medida que os ataques aos jesuítas cresciam, ao longo do prolongado reinado joanino, tendo por base as suas ações na América do Sul, os oratorianos, mais abertos às novas correntes pedagógico-científicas que vinham de fora, iam aumentando a sua influência, com o beneplácito da Coroa. Em 1745, D. João V concedeu aos padres de Néri o edifício do então chamado Hospício de Nossa Senhora das Necessidades, depois chamada Casa das Necessidades, que é hoje a sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros português. Entre 1750 e 1768, teve lugar na Casa das Necessidades uma atividade pedagógica regular, apoiada num gabinete ou laboratório de física experimental, bem equipado de instrumentos, num observatório astronómico, também razoavelmente equipado, e numa muito bem recheada biblioteca, que contribuíram decisivamente para a renovação da cultura científica portuguesa. A atividade de Teodoro de Almeida, assim como a do seu confrade e amigo João Chevalier, entre 1745 e 1760, antecipou em cerca de um quarto de século a renovação do ensino que ocorreu na Universidade de Coimbra com a reforma pombalina de 1772, não sendo por isso sustentável a tese, que ainda hoje circula e que tem origem na extraordinária propaganda pombalina, de que o ensino experimental foi introduzido em Portugal apenas com essa reforma.

Em 1755, a Casa do Espírito Santo ficou destruída com o grande terramoto, pelo que a casa-mãe da Congregação passou a ser a das Necessidades [12]. Os oratorianos acabaram, porém, por serem vítimas da ação despótica do Marquês de Pombal à semelhança do que tinha acontecido antes com os padres inacianos. A causa próxima foi a recusa do padre oratoriano João Baptista, que era censor da Inquisição, em autorizar a publicação de uma obra de conteúdo regalista. Entendendo ser prejudicial o ensino oratoriano, o Marquês de Pombal encerrou a Casa das Necessidades em 1769, após ter proibido expressamente os oratorianos de pregarem e confessarem (a ordem não foi extinta, como tinha ocorrido 10 anos antes com a expulsão dos jesuítas, apesar de ter sido redigido um decreto de extinção). A Casa das Necessidades só reabriu em 1777, após a morte de D. José e a consequente queda do Marquês, que desencadeou um rápido movimento de mudança, a chamada «Viradeira».

A Recreação filosófica, com o tomo I saído no ano seguinte ao da morte de D. João V, corresponde a um ato de afirmação da pedagogia e da ciência oratorianas numa época em que havia aulas com boa audiência na Casa das Necessidades e em que os jesuítas estavam já a ser perseguidos. Por causa da perseguição movida pelo Marquês de Pombal aos oratorianos, Teodoro de Almeida, tal como João Chevalier, tornou-se num estrangeirado, como outros eruditos do século XVIII português: viveu um exílio de 10 anos, primeiro em Espanha e depois, durante a maior parte do tempo, em França, só regressando após a destituição do Marquês. O padre Teodoro de Almeida viu-se durante quase duas décadas (entre 1760 e 1778) afastado da sua cidade de Lisboa.

(...)
NOTAS
 [1] Foi precisamente por esta razão que a escolhemos para base da presente edição. Além disso, o «Discurso preliminar sobre a história da filosofia», que aparece a seguir ao Prólogo, é um acrescento importante.

[2] Garcia de Orta, Colóquios dos simples, e drogas he cousas mediçinais da Índia [...], Goa, Ioannes de Endem, 1563. Publicado na presente coleção das Obras pioneiras da cultura portuguesa, volume 15.

[3] Galileo Galilei, Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo, Fiorenza, Gio Batista Landini, 1632 (edição moderna em português, embora parcial: Diálogos dos grandes sistemas, Lisboa, Gradiva, 1979).

[4] Galileo Galilei, Discorsi e dimostrazioni matematiche intorno a due nuove scienze attenenti alla mecanica e i movimenti locali, Leiden, Elsevier, 1638 (edição moderna em português: Duas novas ciências, São Paulo, Instituto Cultural Luso-Brasileiro, 1985).

[5] Isaac Newton, Principia mathematica philosophiae naturalis, Londini, Societatis Regiae ac Typis Josephi Streater, 1789 (edição moderna em português: Princípios matemáticos da filosofia natural, Lisboa, FCG, 2010).

[ 6] Isaac Newton, Opticks: or, a treatise of the reflections, refractions, inflexions and colours of light, London, Sam. Smith and Benj. Walford, 1704 (edição moderna em português: Óptica, São Paulo, EDUSP, 1996).

[7] O primeiro volume foi Commentarii Collegii Conimbricensis Societatis Iesu. In octo libros Physicorum Aristotelis Stagiritae, Conimbricae, Antonij à Mariz, 1592. Os autores, não declarados, foram Manuel de Góis, Baltazar Álvares, Cosme de Magalhães e Sebastião do Couto.

[8] Carlos Fiolhais e José Eduardo Franco, «Os Jesuítas em Portugal e a ciência. Continuidades e rupturas (séculos xvi-xviii)», Brotéria, n.º 183, 2016, pp. 9-28.

[ 9 ] Cf. Décio Ruivo Martins, Aspectos da cultura portuguesa até 1772, dissertação de doutoramento apresentada à Universidade Coimbra, 1997.

[10 ] Inácio Monteiro, Compendio dos elementos de mathematica, Coimbra, Real Collegio das Artes da Companhia de Jesus, 1754-1756.

[11 ] José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais, Jesuítas: construtores da globalização, Lisboa, Edições CTT, 2016.

 [12 ] Eugénio dos Santos, «Pombal e os oratorianos», Camões: revista de letras e culturas lusófonas, n.os 15-16, jan.-jun. de 2003, pp. 75-86.

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