quarta-feira, 6 de setembro de 2017

AS AUTÁRQUICAS, OS INDEPENDENTES E COIMBRA


Meu artigo de opinião no Público de hoje:

Os grupos de cidadãos eleitores” só a partir de 2009 puderam concorrer a eleições autárquicas: das 56 listas independentes, sete ganharam. Passados quatro anos, o número de listas dessa índole subiu para 89, tendo obtido 13 vitórias, o que equivale à quarta força autárquica, ainda atrás do PS, PSD e CDU, mas já à frente do CDS e BE. Em 2017 as candidaturas independentes, nas 308 câmaras municipais do país, são 93, sendo bastante provável que aumente o número de triunfos.

Declaração de interesses: sou independente e, pela primeira vez na vida, vou concorrer, embora como suplente, numa eleição. Por imperativo de cidadania, dei o meu nome ao movimento independente Somos Coimbra, que tem como candidato à presidência da Câmara Municipal José Manuel Silva, ex-bastonário da Ordem dos Médicos. Comigo estão muitos cidadãos sem ou com partido, insatisfeitos com o comportamento dos partidos que têm governado Coimbra. Reconheço que ser independente não confere à partida nenhuma superioridade. Mas os partidos, imprescindíveis em democracia, de forma alguma a esgotam. Por vezes prejudicam-na: mancham a democracia ao originarem, na vida autárquica e não só, casos intoleráveis de desgoverno e corrupção. Aos interesses locais têm-se sobreposto não raramente os interesses partidários e, nalguns casos, pessoais. Já passaram, na democracia, 40 anos de poder local e o balanço é muito desigual. Se houve concelhos que são exemplos de desenvolvimento com base no trabalho de bons autarcas outros tem havido em que é notória a degradação da vida pública por falta de competência ou mesmo de idoneidade dos dirigentes. Têm-se registado casos indignos. Por exemplo, no PS, Abílio Curto, ex-presidente da Câmara da Guarda, esteve preso por corrupção. Isaltino Morais, dissidente do PSD, cumpriu também pena por infracções cometidas. Casos como estes – e são infelizmente muitos mais conduziram ao descrédito da democracia e ao afastamento dos eleitores, traduzido pelo aumento da taxa de abstenção. Há que dizer que metade das listas autárquicas ditas independentes são de falsos independentes, isto é, de antigos dirigentes partidários, obrigados por lei a interromper longos mandatos, que querem agora voltar, contra o seu ex-partido, aos lugares que ocuparam (no caso de Isaltino, a interrupção foi motivada pela prisão). Porém, alguns movimentos de cidadãos são genuínos e correspondem à legítima aspiração das populações de terem dirigentes competentes e impolutos, que ponham acima de tudo o futuro da sua terra.

O actual presidente da Câmara de Coimbra, Manuel Machado, tem sido, ao longo de quatro penosos mandatos (quer agora um quinto!), o responsável pela gradual desvalorização do concelho, que passou de um lugar de topo no todo nacional para um lugar subalterno. A população de Coimbra caiu mais do que a média nacional, a cidade não tem o dinamismo que outras têm, os jovens não encontram emprego no concelho. Neste quadro, o PS de Coimbra não tem mais ninguém para apresentar do que o representante maior do seu Parque Jurássico. De resto, o PS coimbrão tem um histórico lamentável do qual nunca se distanciou: por exemplo, o seu vereador Luís Vilar foi duas vezes condenado a prisão com pena suspensa por casos de corrupção. O PSD, que teria agora uma oportunidade, perdeu-a quando escolheu um candidato do seu próprio Parque Jurássico, Jaime Ramos, vindo de Miranda do Corvo, onde foi presidente por quatro vezes. Com equipas medíocres dos seus velhos aparelhos partidários, Machado e Ramos não passam de mais do mesmo.

O PS cometeu um erro quando decidiu que os actuais presidentes de Câmara podiam continuar se eles quisessem, independentemente de um juízo sobre a sua acção. Mas estou em crer que António Costa, homem inteligente, ficará contente com a queda de Machado, com presidência apagada na Associação Nacional de Municípios, desde que essa derrota não signifique a vitória do PSD. O movimento Somos Coimbraconseguiu rapidamente as necessárias assinaturas de cidadãos, foi o primeiro a apresentar-se oficialmente e a colocar na praça pública um programa de recuperação da cidade. É a alternativa. Se ganhar será acima de tudo uma vitória de Coimbra.



6 comentários:

  1. A deriva anti-partidos (e, portanto, anti-democracia) continua. Independentes de quê? Estão fora da sociedade? O que são independentes? Por vezes são pessoas zangadas com partidos, outras vezes são pessoas que não querem assumir a ligação a um partido por razões tácticas (basta deitarem fora o cartão para serem independentes). Outras vezes são pessoas bem intencionadas mas que raramente sabem explicar o conceito de independente. Por norma têm uma organização que os apoia, uma comissão política que os aconselha. Só que é tudo muito obscuro, ao contrário do que acontece com os partidos. Não se sabe bem quem é a comissão política (que até pode adoptar outro nome para fazer de contas que em política não se metem...), não se conhece a ideologia (ou conhece-se muito mal e por poucas pessoas) não têm passado, portanto é difícil avaliar a capacidade do José, do Manuel, da Ana que fazem parte da lista. Quando aparecem independentes a primeira coisa que apetece perguntar é quais sãos os partidos que os apoiam a fim de nos localizarmos no espectro político. Que interesses representam e vão defender? A resposta às vezes é "os interesses de ninguém, não representamos interesses". Mas se não representam os interesses de ninguém por que razão vamos votar neles uma vez que não defendem nada? Há, e tem de haver sempre, interesses a defender e isso deve ser o mais transparente possível.

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  2. "Se ganhar será acima de tudo uma vitória de Coimbra."
    É a afirmação standard.
    É de bom tom dizer-se "ganhou Coimbra", "ganhou o país" ou "ganharam os cidadãos".
    Quando aparecerá alguém com coragem para assumir a verdade e dizer: "ganhei eu (ou o meu partido) e o meu programa foi preferido pelos eleitores. Derrotei os meus adversário, o que pretendiam fazer foi rejeitado pelos eleitores. É o meu programa que vai ser posto em prática, não o dos outros".
    A verdade às vezes é difícil, ser-se directo e ir ao âmago das questões necessita coragem, às vezes muita. Mas evite-se o chavão e a linguagem standard.

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  3. Vou comentar como independente, que não concorre a nada, porque não gosta de concorrer e não quer, embora respeite e valorize quem gosta e quer e o faz de acordo com as regras e a boa fé.
    Todos os partidos deviam ser independentes. Isto não é ser anti nada, é ser a favor daquilo que justifica (deve estar na base) da criação de qualquer associação política.
    Unir esforços, intenções, meios, para atingir fins, só por si, não é coisa boa (pode ser péssima).
    Fazê-lo como reação a agressões ou forças ameaçadoras, ou como resposta sistematizada a pretensões contrárias, pode ser legítimo, mas não quer dizer que seja bom, necessário ou tolerável.
    O mais triste e preocupante sinal da democracia (e criticar a democracia não é ser contra a democracia, no sentido etimológico da palavra, muito pelo contrário, os democratas, hoje em dia, não se deixam entorpecer e revoltam-se contra a lorpice burocrática do número como fator que mais interessa aos partidos e têm de ser "antidemocráticos", por isso mesmo, e porque a democracia dos partidos (não independentes) é um simulacro cuja retórica oca já a destruiu.
    Eu não nasci ontem.
    Os partidos são organizações de interesses na senda da sua defesa e conquista e cultivam isso cada vez mais, como se essa fosse a sua razão de ser. Nem têm outro discurso. É medonho.
    Mas não é suposto que o sejam, nem devem ser.
    Eu sou partidário da independência e dos independentes e fico esperançoso que estes ganhem cada vez mais terreno e influência àqueles que promovem, defendem e logram o interesse corporativo e de grupos, à custa dos outros.
    Transformar estas realidades gravíssimas num faz de conta de um jogo de sorte e azar em que pode ganhar o palhaço ou o velhaco, mas no fim ganha sempre o mesmo, é do mais cínico e desumano que tem o nosso folclore político.
    É tudo uma questão de princípios, de valores de retidão e de verdadeiro sentido e prática social. Vender isto é trocar a ideia bonita e promissora de democracia por uma montanha de ouro escondido dos próprios guardiões. É vender o poder do povo. Como fatalmente (para o povo) tem sido prática.
    Enquanto o povo continuar a "acreditar" no negócio a coisa funciona.
    A independência, diferentemente dos interesses, é uma coisa que o nosso sistema político praticamente não pensa e não conhece, mas vamos ter de evoluir para lá, porque o que legitima um partido não são os interesses particulares e de grupos (em geral e abstrato, caso contrário, até um partido nazi estaria em pé de igualdade), mas outros, de caráter geral, humano, universal... E são muitos, são de todos, presentes e futuros, como, por exemplo, não permitir que alguém os sequestre, domine e destrua, porque sim, porque "eu quero".

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  4. REcebi várias mensagens de apoio, entre as quais esta, cujo autor me autoriza a publicar. CF

    Boa noite Prof Carlos Fiolhais,

    Não é a primeira vez que lhe dirijo a palavra, desta vez pelo artigo de opinião abaixo indicado.
    É de louvar o seu espírito de iniciativa e cidadania. Sou eleitor no Porto e apoiante do dr Rui Moreira
    desde a primeira hora e que sentiu enorme orgulho por terem sido derrotados nas últimas eleições muitos dos fantasmas,
    alguns convertidos em moinhos de vento, que agora o levam a concorrer. A cidade do Porto está numa “boa onda”, seguramente
    não pela sua vitória, mas pelo dinamismo e resiliência que os diversos agentes converteram os projectos, Todavia partilhamos o sentimentos
    que deixamos de ser a moeda de troca em jogos partidários de “clãss” local e passamos a ter uma voz activa a nível nacional.
    Por isso não alinho com a “personalização”, leia-se “sebastianismo” da luta autárquica e dos deméritos de certas
    candidaturas. Torna-se imperativo que apresentem as suas iniciativas para a Cidade de forma a marcarem
    a diferença. Existe efectivamente outra via para fazer política. Coimbra bem o merece, a candidatura de V.Exa é
    um óptimo exemplo e os eleitores locais vêm renascer a esperança numa vida melhor. O país passará também a dispor do conhecimento e
    a experiência que a v/lista transporta para delinear um futuro mais azul. Assim queiram os eleitores de Coimbra. Estou a torcer por isso.
    Felicidades.
    Como sempre, os meus respeitosos cumprimentos,

    Ricardo Jorge

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  5. "Um dos aspetos mais curiosos da vida política portuguesa reside no fato de uma boa parte dos intervenientes filtrarem as suas ideias, escondem as suas ideologias, em vez de dizerem o que pensam dizem o que é vendável ou o que os outros esperam ouvir. Passos Coelho não é da extrema direita chique, é social-democrata. Os do BE não são trotskistas, marxistas-leninistas ou maoistas, são de tudo um pouco e usam bandeirinhas de todas as cores. O PCP detesta ditaduras e é o maior defensor da democracia. Os do CDS são todos republicanos."
    O que está acima foi retirado do blogue O Jumento.
    Vem a propósito de ninguém (ou poucos) gostarem de assumir o que são. Como em "não fomos nós que ganhámos", "isto foi tudo uma vitória de Coimbra". Hipocrisia! Gosto de quem vai directo à questão.

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  6. "A crer em Rui Moreira, o conceito de “independente” define-se exclusivamente face aos partidos políticos. As suas palavras contêm subjacente um pensamento anti-política, apesar de não o assumir claramente e, pelo contrário, aconselhar o ex-bastonário a “não abrir guerra aos partidos” e a “não dizer mal” deles."
    Esta foi tirada do blogue vaievem. Vale a pena ir lá e ler o resto e meditar. Parece que há muita gente a pensar como eu: isto da independência é uma aldrabice (ou quase).

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