sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O novo, porém velho, método de "projectos".

"Do que estamos a falar é da possibilidade de gerir a carga horária - 
que se vai manter igual para projetos educativos - 
para haver trabalho interdisciplinar, multidisciplinar 
 dedicação a temas em concreto.” 
Tiago Brandão Rodrigues, Ministro da Educação.

"Um terceiro modelo de flexibilização passaria por dedicar uma 
parte do tempo letivo de uma disciplina para desenvolver projetos. 
Este esquema seria aplicado por todas as disciplinas, 
em momentos diferentes, ao longo de todo o ano. «A carga 
horária da disciplina não é afetada, é aproveitada de forma diferente»"
João Costa Secretário de Estado da Educação


A metodologia do "trabalho de projecto" ou " método de projecto" é afirmada como uma das grandes novidades da dita "reformulação"/"redefinição" curricular em curso no nosso país, integrada num "processo de flexibilização pedagógica".

Esbater as fronteiras de algumas disciplinas, levar os alunos a explicitarem e seguirem os seus interesses e a desenvolverem temas sob orientação de um ou vários professores é um dos aspectos mais destacados pelos representantes da tutela, que também salientam como sendo um dos mais inovadores e eficazes.

Ora o projecto, na forma que actualmente se lhe atribui, faz no próximo ano um século. Nada tem, portanto de inovador, deixando também muito a desejar em termos de eficácia. Vejamos o que se diz deste método pedagógico numa publicação de meados dos anos sessenta do século passado:
"O movimento começa nos Estados Unidos antes da primeira guerra mundial e prossegue entre as dias guerras. Um discípulo de Dewey, Kilpatrick lança «o método do projecto» (the projcet method) (1918), inspirado na filosofia de Dewey. Em 1922. H. Parkhurst publica Education of the Dalton plan em que enuncia os princípios e os métodos do que se chama hoje o «plano Dalton». C. Washburne elabora o sistema de Winnetka.  
O «método de projecto» introduziu pela primeira vez em pedagogia a iniciativa e a escolha da criança - não se contentando com a mera solicitação do seu interesse. Aceita o que era considerado impossível: que a crianças possa ter iniciativa das suas actividades, tomar decisões, exprimir as suas vontades. Pela primeira vez põe em causa a autoridade «sacrossanta» até então considerada o pilar da pedagogia. 
Infelizmente, este projecto reduz de um penada a iniciativa da criança, permitindo-lhe apenas «fazer projectos» escolares, isto é, optar por tal ou tal trabalho que a criança se propõe levar a termo. Desde o princípio este método vota-se a si próprio ao fracasso, impedindo o exercício pleno da dinâmica da acção (...) 
[Em ambos o projecto, de Parkhurst e de Washburne, era o método principal]. O erro destes movimentos consiste na oscilação entre o anarquismo, isto é, o facto de se deixar o aluno só entregue a si próprio, sem procurar com ele qualquer relação, e um autoritarismo mitigado, conservando um certo poder mas sendo limitado do exterior. 
Nenhum deles constituiu concepções estruturadas e coerentes mas apenas experiências interessantes. Estes movimentos são demasiados ambiciosos. Visam demasiado longe, sem possibilidade de resolver os problemas que se colocam." 
Lobrot, M. (1966). A pedagogia institucional. Iniciativas pedagógicas, pp. 246-249.
Citações usada na entrada deste texto: aqui.

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