quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Aprendizagens Essenciais: as posições residuais sobre o novo modelo/documento de aprendizagem da matemática

Diversos jornais online deram breve conta do comunicado recentemente emitido pela Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) em relação ao conjunto de documentos curriculares designado por Aprendizagens Essenciais, que um número significativo de escolas não agrupadas/agrupamentos de escolas aplicarão, em "turmas experimentais" do ensino básico e secundário, já a partir de Setembro.

Tanto quanto sei, foi a única entidade que se pronunciou formalmente sobre tal, o que aliado ao facto de esse conjunto de documentos não ter sido posto à discussão pública nega, quer da parte do Ministério da Educação quer do resto da sociedade, a ideia bastamente veiculada e aceite de que o currículo não pode ser imposto pelo Estado, deve ser descentralizado, sendo, portanto, nas suas diversas fases de construção, objecto de debate participado.

Ainda que esta ideia não seja de todo linear e esconda (ou revele) intenções alheias àquelas que devem ser as da Escola [dedicar-lhe-ei um texto posterior], a verdade é que os documentos curriculares da responsabilidade da Tutela, antes de se tornarem oficiais, podem e devem ser disponibilizados em consulta pública. Não sei se isto é obrigatório por força de lei, mas é do mais puro bom senso que se faça. E, de resto, nas última décadas, tem sido feito.

Voltando às notícias sobre o comunicado, seleccionei três delas, por apresentarem informação mais alongada e diferenciada:
Novo modelo de aprendizagem na matemática "aumenta desigualdades", TSF
Novo modelo de aprendizagem na matemática serve para "minimizar estragos", Diário de Notícias
Matemáticos criticam orientação do governo para turmas experimentais, Observador

A análise global da informação permite destacar o que se segue, só para a Matemática, naturalmente.

Entidades ouvidas pelos jornais
- Associação de Professores de Matemática
- Sociedade Portuguesa de Matemática
- Ministério da Educação

Designação dada pelos jornais às alterações curriculares em curso

- novo modelo de aprendizagem em matemática
- novo modelo/documento de aprendizagem da matemática

O que defendem estas entidades
A Associação de Professores de Matemática e o Ministério da Educação defendem que o novo modelo/documento:
- é uma solução para "minimizar os estragos feitos". "Qualquer coisa tem de ser feita para minimizar os estragos que foram feitos";
- não sendo ideal, permite a aprendizagem da matemática com uma "focalização em determinados conteúdos";
- permite "desenvolver capacidades cognitivas mais elaboradas;
- supera "a desadequação dos programas" de matemática à idade dos alunos;
- "muda a perspetiva com que se dá o programa".
Em suma, constituiu:
- "uma evolução muito positiva nos últimos 15 anos", caracterizada por "maior rigor, exigência, estruturação de programas e exames". 
A Sociedade Portuguesa de Matemática faz notar que esse modelo/documento:
- é “de uma forma geral excessivamente vago e, portanto, "ineficaz como orientador do ensino”;
- vai fomentar "diferentes aprendizagens da matemática";
- vai "aumenta as desigualdades" entre alunos;
- "na matemática não se aprende com base em projetos";
- poderá “comprometer seriamente o percurso escolar dos alunos”;
- poderá “reduzir drasticamente, e em alguns pontos desvirtuar gravemente, o programa e as metas em vigor. 
Em suma, constitui:
- "um retrocesso e desinvestimento no conhecimento e no ensino”;
- "um retrocesso" no ensino da matemática;
- "um amadorismo, um aventureirismo";
- "um desastre" se vingar em todos os anos dos ciclos de estudo.
Os argumentos que as entidades ouvidas são, como se vê bem, contraditórios. Estando em causa, nada mais nada menos do que a aprendizagem dos nossos alunos, deveriam merecer melhor atenção da parte de todos.

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