segunda-feira, 31 de julho de 2017

Identidade de género e paradoxos evolutivos


                                  
Vivemos tempos conturbados. Se por um lado vivemos numa época onde a informação e educação são cada vez mais acessíveis, por outro vivemos num tempo onde podemos escolher confirmar as nossas ideias do mundo, fechando-nos sobre as nossas ideologias e preconceitos. O grande problema dos preconceitos é que tendem a focar-se em minorias, geralmente ostracizando-as e retirando-lhes direitos. Nestas semanas assistimos às declarações de António Gentil Martins acerca da “anomalia” da homossexualidade. De uma fonte de preconceito semelhante, chegam-nos as notícias dos EUA – o afastamento dos transsexuais das operações militares estadunidenses.

Parte das discussões envolvem argumentos biológicos. Em algumas discussões, transsexualidade, homossexualidade são consideradas  desvios da norma, doenças, anomalias, abominações. Mas o que sabemos da biologia da identidade de género e das preferências sexuais?

Identidade de género: Género biológico? Género cultural?

Em Janeiro de 2017 a National Geographic dedicou a edição mensal da revista à “revolução do género” – Gender Revolution. Na capa surge o caso de Avery, uma menor transsexual. Com base em evidências científicas, o editorial lança a declaração de guerra à imposição de género à nascença:

“The most enduring label, and arguably the most influential, is the first one most of us got: “It’s a boy!” or “It’s a girl!” [O mais definitivo rótulo, e talvez o mais influencial, é o primeiro que é dado à maioria de nós: “É um rapaz!”, “É uma rapariga”.]
                       
Na revista discutem-se as bases culturais e biológicas atrás da noção actual de género. As bases científicas sugerem que devemos continuar a desenvolver o conceito de género além da dualidade Masculino/Feminino. Os géneros, sendo melhor retratados como um contínuo, devem incluir minorias transexuais, cissexuais, não conformistas, não-binários, sem género. Ressalvo os principais pontos retirados deste artigo, mas com o devido aviso - é de elevada relevância ler completo.

O “género”, como  o pensamos, é uma amalga de conceitos biológicos que incluem a anatomia interna e externa, hormonas e cromossomas sexuais, alicerçados a conceitos culturais. Focando-nos na biologia, é natural que indivíduos que sejam diagnosticados com base apenas nos órgãos sexuais à nascença possam não se sentir confortáveis, com o passar dos anos, com a construção e expectativas sociais associada ao seu género. A determinação “XX” / “XY” não é perfeita e a dualidade Masculino/Feminino é insuficiente em certas situações. A título de exemplo, existem casos onde o gene SRY - normalmente presente no cromossoma Y e responsável pela diferenciação sexual masculina - se torna disfuncional através de uma mutação, resultando com que uma pessoa “XY” seja diagnosticada como rapariga à nascença. Noutros casos, o gene aparece num cromossoma X e surge um rapaz com os cromossomas “XX”. Outras alterações incluem os Síndromes de Insensibilidade a andrógenos e o Síndrome de insensibilidade completa a andrógenos onde a resposta a sinais hormonais é insuficiente e surge uma rapariga “XY”. Neste sentido, a determinação biológica do sexo é complexa e não deve ser submetida a expectativas ou preconceitos de funcionamento pseudobiológico.


Identidade e preferência sexual: Homossexualidade, terceiro género – um paradoxo evolutivo?

Existem diversas comunidades espalhadas pelo mundo onde a existência do terceiro sexo é considerado um evento normal. No Sul da Ásia existem os <hijra>, na Nigéria os <yan daudu>, no México os <muxe>, em Samoa os <fa‘afafine>, na Tailândia os <kathoey>, em Tonga os <fakaleiti>, no Hawai os <mahu> e na República Dominicana existem os <guevedoce>.

Em relação à dimensão científica, ocorre a discussão do “paradoxo evolutivo” do terceiro sexo e da homossexualidade. Este paradoxo baseia-se no seguinte raciocínio: se o objectivo biológico de uma espécie é reproduzir-se, os genes associados ao terceiro sexo [geralmente infértil] e à homossexualidade, não teriam sido purgados através da selecção natural? Existem algumas hipóteses que exploram esta questão:

1.         A hipótese do gene de antagonismo sexual (sexually antagonistic gene hypothesis) postula que certos genes podem ter efeitos negativos quando presentes num sexo, porém esse efeito negativo é contrabalançado por benesses consideráveis no sexo oposto. Por exemplo um gene que “impeça” a reprodução de um homem mas que aumente a fertilidade quando expresso nas suas irmãs manter-se-à no fundo genético (gene pool)  da espécie.
2.         A segunda hipótese é a hipótese da selecção dos parentes (kin selection hypothesis) que postula que o investimento em termos de tempo, dinheiro e protecção dos indivíduos que não se reproduzem é investido nos sobrinhos e sobrinhas, aumentando assim as chances de sobrevivência e reprodução destes.
3.         Uma terceira hipótese discutida é a da “sobre dominância” (overdominance hypothesis) onde os heterozigóticos terão vantagens sobre homozigóticos, perpectuando a existência de um gene no fundo genético de uma espécie.

Preconceito e sociedade

Da próxima vez que discutir este tema e ouça as palavras “aberrações” ou anomalias” biológicas, não se conforme com a pretensão de facto científico alternativo. Existe um contínuo sexual de género e fenómenos como a homossexualidade ou o terceiro sexo foram descritos em muitas espécies que não a nossa. Se há algo que se evade da lógica do natural é a construção social feita pelo ser humano. Rotular alguém de anormal nunca auxiliou ninguém. Pelo contrário, apenas se geram injustiças, violências pessoais e estruturais e se bloqueia o funcionamento saudável da sociedade. Anormal é escolher ser-se intolerante na era da informação.

José Cerca de Oliveira - Doutorando em Genómica Evolutiva e Zoologia
Paulo Nogueira Ramos - Licenciado em Relações Internacionais, estudante de Psicologia


9 comentários:

  1. aiiiii , o David Marçal já deu conta que um homeopata do género escreve no dererum ? está feito :) :) :)

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    1. Olá Marina,

      encaro o seu comentário com uma certa estranheza pois procurei ser científico e não pseudo-científico: Expondo uma fonte que julgo ser credível, e dando o relevo biológico da discussão, onde existe uma componente científica. É pena que tente descaracterizar o texto enquanto um "olha mais um a vender valores ao pontapé".

      O texto foi motivado por discussões que tive onde senti que a biologia é tratada ao pontapé.

      Sigo, respeito e admiro o trabalho do David Marçal, e não vejo a ligação ao que fala.
      José

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    2. estava a brincar , não leve a mal. muito sinceramente a nova classificação dos seres humanos em : homem ; mulher ; 1/4 homem ,3/4 mulher ; 1/2 homem , 1/2 mulher ; 2/3 homem , 1/3 mulher ; e por aí fora , dá-me vontade de rir . por mais científica que seja a classificação lembra-me a homeopatia e as suas doses diluídas em água :)

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    3. e já agora , quanto à homossexualidade enquanto 3º sexo ? não sei , mas há gays com comportamentos femininos completamente estereotipados e histriónicos , e há outros que em nadas se distinguem , em termos comportamentais , de outro homem qualquer género "masculino" tradicional ,portanto terão logo de criar um 4º sexo... e se calhar um 5º. isto vai ser um manual inteiro só para a taxonomia do ser humano em termos de género e sexo :)

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    4. A Marina confunde expressão de gênero e identidade de gênero com orientação sexual. Não compreender esses conceitos produz argumentos inócuos e sem sentido.

      Se para contemplar a diversidade humana for necessário haver 10 sexos, que hajam. O mais importante é termos Alteridade, enxergar o outro como OUTRO e não como extensão nossa ou confirmação de nossas convicções; e Empatia.

      Quem diz quem somos, somos nós mesmos e não os outros.

      Não podemos olhar a biologia sem levar em conta a subjetividade quando falamos de identidades ou mesmo de fisiologia e anatomia. Que definirão como se experiência a vida.

      Intersexuais existem, alguns são até férteis, outros têm genitálias ambiguas, que nem são pênis nem vaginas, funcionais.

      Com essas variações anatômicas bastante diversificadas que superam os milhões em todo mundo, vc acha que 2 sexos e 2 gêneros dão conta de tudo?



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  2. Um resumo da grande actualidade:

    Sem Papas Na Lingua - Olavo de Carvalho

    https://www.youtube.com/watch?v=mGnshiwJS_U

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  3. A questão que hoje é colocada pelos que defendem o "fim" dos géneros é o facto de entenderem que o género é uma construção social, e não uma natureza biológica ou fisiológica ou de algum modo baseada em factos "científicos" ou "naturais".
    A intolerância ou o uso de adjectivos insultuosos ou ofensivos é assunto, neste sentido, não primária, pois o essa corrente defende, em última instância, é que o género é uma opção de cada indivíduo, o qual pode de resto ir variando de acordo com os seus humores ou circunstâncias.
    Quero dizer que o que me parece é que a discussão actual (ou da moda) não é pela fobia aos géneros que não sejam masculino ou feminino, ainda muito pertinente mas sobejamente discutida, mas sim pela classificação do homem em géneros.

    cumprimentos

    luis Lopes

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  4. Caro José Oliveira,
    Ouça a entrevista muito recente do Olavo de Carvalho, sobre esta coisa das ideologias, da mentalidade revolucionária, das sociedades dirigidas por psicopatas que acabam por disseminar o histerismo pela população, ou seja, sob uma pressão patológica grande parte da população começa a duvidar do que a sua percepção e bom-senso lhes diz, originando neste processo um histerismo generalizado. A ideologia de género é apenas isso, uma ideologia que usa as minorias para manter a Agenda de implementação do Marxismo Cultural. É preciso saber distinguir entre inteligência e sabedoria, o mundo académico sofre do mesmo tipo de histerismo, tapar isso com teorias e conjecturas não esconde a realidade.

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  5. Leftist SCIENCE is JUNK science
    https://www.youtube.com/watch?v=wubljPdNopw

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