terça-feira, 11 de julho de 2017

ENTREVISTA DO FÍSICO JOÃO DA PROVIDÊNCIA


É um dos mais prestigiados físicos portugueses. Pouco conhecido do grande público, raramente dá entrevistas. Deu agora uma ao "Diário do Minho", que se interessou pelo facto de ele ser natural de Vila Verde, Braga. Transcrevo com a devida vénia de entrevista feita por Jorge Oliveira saída a 21 de Junho:

Perfil:

 João da Providência Santarém e Costa nasceu no dia 1 de março de 1933, na freguesia da Lage, concelho de Vila Verde. É licenciado em Ciências Físico-Químicas pela Universidade de Coimbra (1954), doutor em Física Matemática pela Universidade de Birmingham (1959) e doutor em Ciências Físico-Químicas pela Universidade de Coimbra (1960). Conta quase 50 anos de atividade profissional na Universidade de Coimbra, como professor, investigador-coordenador e responsável do Departamento de Física e da Faculdade de Ciências e Tecnologia. Colaborou com instituições científicas de universidades reconhecidas da Dinamarca, Grã-Bretanha, EUA, Alemanha, Brasil, Japão; participou em importantes projetos de investigação; tem o seu nome em 285 publicações (a título individual ou em co-autoria); recebeu os prémios Boa Esperança (Ministério do Planeamento, 1990), Gulbenkian de Ciência (Fundação Calouste Gulbenkian,1992), Oriente (exaequo, Fundação Oriente, 1994) e o "Estímulo à Excelência" (Ministério da Ciência, Inovação e Ensino Superior, 2014). Visitou também diversas vezes a Roménia onde conheceu o cientista e investigador de física nuclear Vladimir Nicu Ceausescu (filho do antigo Presidente Ceausescu). É sócio honorário da Sociedade Portuguesa de Física e sócio efetivo da Academia das Ciências de Lisboa.


 O professor jubilado da Universidade de Coimbra João da Providência Santarém e Costa, galardoado com o prémio Gulbenkian da Ciência (1992) e o prémio da Fundação Oriente (1994), considera que atualmente em Portugal faz-se «excelente investigação», na área da Física, em diversas universidades. O físico, nascido no concelho de Vila Verde, dá o exemplo da Universidade do Minho, academia que, no seu entender, conta, na área da Física, com investigadores de «excecional projeção internacional». «Pelo que vou acompanhando no nosso País, entendo que se faz excelente investigação, na área da Física, e a Universidade do Minho é um exemplo comprovado», refere.

 Em declarações ao Diário do Minho, João da Providência elogia os cientistas portugueses e não crê que haja no estrangeiro quem minimize o seu trabalho. «Não sinto isso. Os meus colegas de outros países nunca manifestaram menos apreço pela atividade científica desenvolvida em Portugal», afiança o cientista, de 84 anos, que colaborou com centros de investigação de reconhecidas universidades da Dinamarca, Grã-Bretanha, EUA, Alemanha, Brasil e Japão e tem o seu nome inscrito em quase 300 publicações científicas.

Num país onde os recursos financeiros para a Educação são escassos e as universidades reclamam do Estado português mais apoios, João da Providência entende que mais do que se reforçar o investimento na investigação científica, «o importante é apoiar criteriosamente a investigação realizada».

Questionado se temos em Portugal mercado suficiente (instituições, empresas, escolas, centros de investigação, entidades públicas ou privadas) para a absorção de todos quantos se formam em Física e querem fazer carreira nesta área, responde que este «é um assunto muito importante que deve ser objeto de debate sério e convenientemente esclarecido». «Pressupõe uma avaliação criteriosa e objetiva do mérito da atividade desenvolvida, seja na Física, seja em qualquer outra área científica», acrescenta.

João da Providência é especializado em Física Quântica e refere que este ramo da Física desempenha, hoje em dia, «papel crucial no desenvolvimento de quási todos os tipos de tecnologia utilizada na vida diária». Questionado se a Astrofísica levará o Homem a encontrar alguma forma de vida noutros planetas, o professor jubilado da Universidade de Coimbra considera que isso «não é impossível», lembrando que «surgem permanentemente, nessa área, desafios fascinantes». Já sobre a possibilidade de a Física um dia poder vir a responder à interrogação filosófica “quem somos, donde viemos, para onde iremos?”, afirma que «essa é uma questão cuja resposta, na sua plenitude, transcende a ciência. Continuará sempre a desafiar a nossa curiosidade».

 Aluno médio [«Nunca fui excecional»], João da Providência iniciou o seu percurso universitário matriculando-se nos Preparatórios de Engenharia Química, mas acabou por mudar para o Curso de Ciências Físico-Químicas. «Sentia-me mais atraído pela área científica. Não fui influenciado na escolha que fiz. Nos primeiros anos do liceu, a minha mãe ajudou-me muito, principalmente nas disciplinas de Francês e Português. Não perdi anos, mas não era bom aluno, e a ajuda da minha mãe foi muito importante. Durante as férias, o meu pai ensinava-me inglês, latim e até alguns tópicos de matemática», revela o cientista vilaverdense, nascido na freguesia da Lage, que conta quase 50 anos de atividade profissional na Universidade de Coimbra, como professor, investigador-coordenador e responsável do Departamento de Física e da Faculdade de Ciências e Tecnologia. Questionado de quem herdou mais traços de personalidade, se do pai ou da mãe, diz que ambos tiveram «muita influência» na sua «formação».

Proveniente de uma família aristocrata, João da Providência preparou o doutoramento em Inglaterra, com o Prof. Rudolf Peierls. Depois, regressou a Portugal e, mais tarde, visitou o Instituto Niels Bohr, em Copenhaga, o MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e o Laboratório de Brookhaven, nos EUA, e algumas universidades japonesas. Apesar de estar jubilado, continua a manter contacto regular com colegas de diversas nacionalidades e com alguns colaboradores, antigos e novos. E colabora com a sua filha Constança Providência, investigadora na Universidade de Coimbra e atual Presidente da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Física. «É sempre muito agradável cultivar relações de amizade, e de forma especial quando estão relacionadas com intercâmbio científico», sustenta.

Apesar de viver há muitos anos longe da terra onde nasceu, João Providência afirma que se sente um «lagense genuíno» e que «é sempre agradável» ir àquela freguesia do concelho de Vila Verde «matar saudades». Na Lage, o cientista frequentou, durante cerca de seis meses, a Escola Masculina, que fio.cava perto de um souto de sobreiros e do estabelecimento comercial da família Ruivo. «Lembro-me muito bem do Prof. Abel Madeira, bom professor. Guardo as melhores recordações da minha passagem pela Escola da Lage. Foi então que aprendi, com os meus colegas, a atirar o pião», revela. O tempo de escola primária de João da Providência coincidiu com o período da II Grande Guerra e receava-se a entrada de Portugal no conflito, sentimento que atormentava a população. «Supunha-se, por vezes, que estava eminente a entrada de Portugal na guerra. Daí, o pânico generalizado», lembra o filho primogénito de João da Providência Sousa Costa e de Maria Stella da Motta Campos Santarém, da antiga Casa de Bouçós ou "Casa Santarém". João da Providência fez os estudos primários, secundários e universitários em Coimbra, com exceção do breve período em que frequentou a Escola da Lage, e guarda «boas recordações» desses tempos de estudante. «Fiz muitos amigos no liceu. Ainda hoje, a minha turma do sétimo ano se reúne, no 1.º de Dezembro», diz, reconfortado.

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