sábado, 8 de abril de 2017

"Perfil dos Alunos para o Século XXI" - UM DOCUMENTO PARA EMBRULHAR TUDO, MESMO A BARBÁRIE

Com o habitual desassombro, Guilherme Valente disseca os novos planos para a educação em Portugal:


"Ignorar os factos é desprezar a liberdade." ("On Tyranny", T. Snyder)

O estilo, as tretas de má memória, enjoam. Lido inadvertidamente, pode imaginar-se nele   um esboço tosco de uma escola humanista. Mas, no seu todo, não engana ninguém. Dá para esconder tudo, mesmo a barbárie. E desde logo vai agravar as desigualdades. Na  escola e na sociedade. Acresce que tudo o que este Ministério da Educação fez e parece  preparar aponta para desígnios inconfessáveis. 

Mas se o documento tresanda a desacreditados delírios, o regresso  da "Educação para a Cidadania" (EC), não é a treta que parece.

Educação para a cidadania é o que num país livre uma Escola a sério promove em todas as disciplinas, aulas, actividades, momentos. 

E pode haver uma Escola a sério sem, nomeadamente, TODAS as  crianças aprenderem a ler e a tabuada no primeiro ciclo do Básico? Sem um ensino centrado no Conhecimento? Nos saberes fundamentais, Humanidades, Filosofia e História, Artes, que iluminam a inteligência, qualificam, formam a sensibilidade e o carácter, induzem o espírito crítico?  Sem  a descoberta do valor e prazer da  leitura, com a grande literatura, bem escolhida,  encontro esclarecido com o outro?; Sem a transmissão e reflexão da Cultura e dos grandes valores comuns da Humanidade, que cumpre  legar às novas gerações?; Sem um ensino das ciências, convívio com a cultura e espírito científico, vitais para a democracia? Realizado com "as mãos na massa", como o sonhou José Mariano Gago, que equipou os laboratórios? Hoje cheios de meios, mas quase vazios de  alunos, professores e técnicos preparados, que os encheriam de sentido e futuro?*; Sem música, bandas, canto, dança, teatro?; Conferências, debates, esses sim momentos de produtiva interdisciplinaridade**?; Sem prática  do desporto e da educação física?; Sem  assistência e solidariedade social reais no meio envolvente de cada escola, tão carente dela?; Sem assentar no ensino da língua, (gramática e ortografia), condição para tudo o que referi? Língua que é estrutura do pensamento e da cidadania, "minha pátria...". Construir uma frase é já reflectir. Saber  exprimir-se  é  ordenar o pensamento, ascender ao espírito crítico.

E, para  isso,  com  currículos, programas e metas competentes. Manuais certos, que a mais  fazem mal. Alunos apoiados para ambicionarem e atingirem o seu melhor. Professores, trave-mestra da educação, dominando o que é preciso ensinar, bem formados e acarinhados. Directores (livres...) com autoridade e responsabilizáveis, referência e face. Com as escolas a recrutar os docentes. Avaliação a sério de alunos, professores e directores. Uma Escola, enfim, regida pelo respeito pelos factos, exercício da razão, procura da verdade.

É esta  a desejável, real, eficaz, educação para a cidadania. A única que o País deve permitir. 

Se o Primeiro-ministro se lembrar da educação para a cidadania que teve em casa, talvez lhes trave o desígnio. Se não travar, veremos  as crianças do Básico, sem saberem nada de tudo, a opinar sobre temas como, por exemplo, a eutanásia. Isto é, a engolirem o que estes (e depois outros) lhes queiram meter na cabeça. O equivalente à  "EC" dos meninos-soldados do Boko Aram ou do Daesch, das juventudes fascista, comunista e nazi.

NOTAS

"Depois das Escolas Speriores de Edicação, a infecção assaltou a Universidade. No ramo educacional de Física, Universidad de Lisboa, disse um Catedrático, a generalidade dos futuros professores do Secundário terminam o curso sem saberem "nada"... de Física. Pior, sem saberem pensar. Física, só nos primeiros dois anos. Depois, pedagogices.

** A "interdisciplinaridade" (sem se saber nada de nenhuma disciplina fundamental?), as áreas de projecto, são outras ideias aparentemente bonitas  cujo capcioso objectivo é o mesmo: desvalorizar o Conhecimento, os saberes essenciais, promover a antiescola.
Guilherme Valente

4 comentários:

  1. Adorei os delírios do senhor Valente.
    Mas do que gostei ainda muito mais foi deste naco de prosa: «a generalidade dos futuros professores do Secundário terminam o curso sem saberem "nada"... de Física. Pior, sem saberem pensar. Física, só nos primeiros dois anos. Depois, pedagogices» (na nota de rodapé).
    O senhor Valente publicou, na sua editora, em 2006, o livro «Rómulo de Carvalho: Ser Professor», compilado por Nuno Crato, onde outro «catedrático», mas esse, dos verdadeiros, dos que «meteram as mãos na massa», como sonhou Mariano Gago (concretamente Rómulo de Carvalho), nos traçava um panorama muito sombrio sobre o Ensino Liceal da Física, de 1964 a 1970. É este o título do Capítulo (páginas 109 a 120), em que se mostra que os problemas são de todos os tempos, mesmo daqueles tempos (áureos para o senhor Valente) antes de «Os Anos Devastadores do Eduquês».
    Mas como passaram alguns anos e o senhor Valente comeu muito queijo, esqueceu-se do que publicou.
    Também gostei bastante da comparação com o «Boko Aram ou do Daesch, das juventudes fascista, comunista e nazi.»
    Temos que nos pôr a pau com a barbárie a que o Perfil dos Alunos para o Século XXI nos irá levar, inexoravelmente.
    Mas ainda bem que temos um senhor Valente para nos avisar dos perigos em curso.

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  2. "Ignorar os factos é desprezar a liberdade." ("On Tyranny", T. Snyder)
    "Se não conhecermos o passado não podemos escolher o nosso futuro", (Tó, assessor de presidentes da república);
    "Chuta, marca golo" (treinador de futebol (teórico?)).
    De treta desta estamos nós fartos, e da ideologia do Crato, que só tinha um objetivo a médio prazo: o liceu e a escola técnica. Para «nós», «humanistas» incluídos, o liceu, para os «outros» a escola técnica, «prática», «objetiva», pois fazem falta operários e até podem enriquecer a trabalhar (se quiserem).
    Faz bem o governo insistir em escolarizar e em flexibilizar os currículos.

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  3. Caro Dr. Guilherme Valente: Dizer as verdades para os defensores do "eduquês" causa engulhos.

    A título de mero exemplo, embora eu saiba de antemão que "nada mais fatigante do que explicar o que toda agente deveria saber" (René Andrieu), não resisto, todavia, à seguinte transcrição do reputado sociólogo Francesco Alberoni:

    “Na verdade a pedagogia que nivela tudo por baixo no intuito de esbater as diferenças tem como consequência tornar ignorantes milhões de pessoas e não privilegiar aqueles que podiam ir para a universidade e para escolas cde excelência com professores respeitados e programas rigorosos; é por esta razão que há cada vez mais pessoas a quererem uma escola mais séria, mais rigorosa, com professores preparados e mais respeitados".

    Mas, por outro lado, como toda as regras têm excepções, haverá pessoas a quererem cada vez mais uma escola de um declarado facilitismo em que as antigas reprovações eufemisticamente se denominam hoje de retenções, sendo mesmo postas em causa na tentativa de igualar alunos cábulas a alunos esforçados tentando dar a esta desonestidade um ar de virtuosa medida quando se trata, isso sim, de uma medida de duvidosa moralidade.

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  4. Ana-Alice S. Pereira12 de abril de 2017 às 00:06

    Estou inteiramente de acordo com este artigo de Guilherme Valente. Esta história de encarar a cidadania como uma disciplina escolar e não como um conjunto de valores da pessoa é algo que também me arrepia. Principalmente porque se percebe que o que aí vem é uma endoutrinacao do politicamente correcto. Há-de acontecer ainda pior que com as famosas aulas de educação sexual, que estão transformadas em aulas de higiene sexual ( sei bem do que falo, tenho m centro de estudos e é isso que a minha miudagem me conta - só falam de prevenir doenças!).
    Mas o mais preocupante de tudo é que são muito poucas as pessoas verdadeiramente atentas ao que se está passando Como se a vasta maioria dos cidadãos estivesse a viver naquela caverna em que se confundem as sombras com a realidade e quem diz a verdade ainda se arrisca a ser morto (felizmente só em sentido figurado). Pois, não há como recorrer aos clássicos para perceber as coisas ( falo por mim, que só entendi a crise grega quando finalmente li a Ilíada)...

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