quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Como o fascínio pelas aves contribui para a ciência


Trepadeira-dos-muros - Tichodroma muraria
Foto retirada do pinterest ::: https://no.pinterest.com/pin/384917099381957772/

“Há meses que se falava numa ave na Barragem de Sta. Lúzia, na Pampilhosa da Serra. Estávamos no início de Março, em pleno inverno, mas isso não nos impediu de viajarmos ao local na tentativa de localizar essa ave incomum. Acordámos pelas 5h30 da manhã e fizemo-nos à estrada. 100 quilómetros depois, chegámos ao local e preparámos o material de captura: binóculos, telescópio e máquinas fotográficas. Passaram 6 horas e… nem sinal da ave. Acordámos cedo, viajámos uma centena de quilómetros e esperamos pacientemente. Nem sempre temos sorte. 6 horas no topo da barragem e não vimos o que viemos para ver. Cansados, com frio, sono e fome aproveitámos a oportunidade de provar a famosa chanfana da região. De estômago composto, decidimos tentar mais uma vez a observação da ave - talvez uma pessoa sã teria desistido após 6 horas de espera-galego. Num espaço de 10 minutos após termos voltado ao local ei-la: a Trepadeira-dos-muros (Tichodroma muraria). Passaram apenas 30 segundos, a ave levantou voo e deixou o nosso campo de visão - mas 30 segundos foram suficientes para alegrar um domingo de observação de aves e deixar 3 pessoas incrivelmente felizes.”

Esta história, igual às de muitos outros, revela a paixão de um observador de aves. Há quem viaje centenas ou milhares de quilómetros, quem planeie férias de forma estratégica para poder observar um grupo de aves migratórias, há até quem tire um ano sabático para viajar pelo mundo para observar aves. A Tichodroma muraria (na imagem), em particular, é raramente observada em Portugal, sendo avistada sobretudo nos meses de Inverno em regiões montanhosas (Alvão, Gerês, Estrela, Barragem de Santa Luzia). Entre os períodos reprodutivos, a espécie move-se de regiões montanhosas de elevada altitude (Picos da Europa, Cantabria, Pirinéus, entre outros) para regiões montanhosas de menor altitude, onde o inverno é menos rigoroso. Ainda que a presença de indivíduos desta espécie em Portugal se deva a estas mudanças geográficas, não existem indícios da ocorrência de populações em Portugal. Desde 1976 foram registadas apenas 28 observações desta espécie em território nacional (http://www.avesdeportugal.info/ticmur.html), fazendo-a um alvo apetecível dos observadores.

Se cada maluco com a sua mania - os observadores de aves têm uma contribuição importantíssima: contribuem directamente na recolha de dados científicos na obtenção de mapeamento de espécies (coordenadas GPS), estudo da densidade das populações, entre outros. Esta informação é integrada em modelos de ecologia ou na decisão de medidas de conservação. Num exemplo muito concreto, o Atlas da Aves Nidificantes em Portugal, que tem o objectivo de fazer um levantamento completo da distribuição e abundância das espécies de aves nidificantes em Portugal, apenas é possível graças aos esforços de dezenas de observadores voluntários que fazem censos de aves nos mais diferentes locais, registando o número de espécies e indivíduos de cada espécie. Da mesma forma, após o Furacão Sandy em 2012, os observadores localizaram mais de 100 Moleiro-pomarinos (Stercorarius pomarinus; uma ave marinha) que haviam sido arrastados para o interior dos Estados Unidos durante a migração. Alguns indivíduos encontravam-se a cerca de 200 quilómetros do seu habitat costeiro.

Esta paixão pela observação promove uma uma competição amistosa: a life list, ou a lista de espécies observadas por um observador ao longo da sua vida. Entre outros websites, o Portugal Aves eBird (
http://ebird.org/content/portugal/) permite aos observadores seguirem a sua life list, carregarem dados de observações e seguir o número de espécies observadas em cada região, criando listas anuais e vitalícias em que os observadores se destacam pelo número de espécies observadas. Em 2017, à data de escrita deste texto um total de 272 espécies diferentes haviam sido observadas e registadas no Portugal Aves eBird. O observador n. 1 registou 195 espécies (71,69%) - http://ebird.org/ebird/portugal/top100?locInfo.regionType=country&locInfo.regionCode=PT&year=2017  

Serve este texto para homenagear todos os ornitólogos voluntários e/ou amadores, que heroicamente contribuem para o conhecimento, conservação e investigação das aves. Quem observa por gosto não cansa.

Rui Machado (Biólogo da SPEA - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves)
José Cerca de Oliveira (Investigador no Museu de História Natural de Oslo)

Sem comentários:

Enviar um comentário

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.