segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

HÁ MONTANHAS E MONTANHAS


Em linguagem popular, toda a gente sabe que uma montanha é um monte grande, mas ninguém é capaz de dizer onde acaba o monte e começa a montanha. Tal acontece, porque a palavra, vinda do latim “montanea”, entrou na linguagem popular com a indefinição que a caracteriza e, embora não tendo a especificação exigível no léxico científico, entrou no vocabulário geológico. Situações idênticas são as que podemos exemplificar com os conceitos de rio e ribeiro ou de calhau e seixo.

Para o alentejano, com excepção da Serra de S. Mamede, com os seus 1025m de altitude, na vizinhança de Portalegre, a grande maioria dos relevos corresponde a elevações muito modestas quando comparadas com as do Centro e Norte do País. Porém, para o homem que escalou a pé todos estes relevos, na luta que travou pela sobrevivência, quaisquer colinas com cem metros de desnível lhe mereciam o nome de serras. Não obstante a ideia generalizada de “planície alentejana”, para os rurais meus conterrâneos “o que não falta aqui são serras”.

Basta consultar a toponímia da que é a mais extensa província de Portugal, para verificar que, além daquelas de que falam os manuais de ensino (Ossa, Grândola, Cercal e Portel) há muitas mais, só conhecidas pelos residentes.

Para o comum dos cidadãos e limitando-nos a três exemplos nacionais: o vulcão do Pico, a serra da Estrela, a de S. Mamede e a da Arrábida são montanhas, porque, por assim dizer, são grandes montes.
Na linguagem geológica o vulcão do Pico não é uma montanha, cresceu por acumulação de lavas, cinzas e outros piroclastos, derramados e projectados pela respectiva cratera.

A serra da Estrela, corresponde, “grosso modo”, a um bloco de terreno que subiu, ao longo de falhas, à semelhança de uma tecla de piano que se eleva acima das outras. A geologia não dispõe de nome em português para designar este tipo de relevos. Utiliza desde sempre o termo alemão “Horst”.
Para o geólogo só a serra da Arrábida é uma montanha, no sentido orogénico (do grego: “orós”, montanha, e “genesis”, origem, nascimento) da palavra.

Para explicar a formação de uma montanha neste último contexto, vamos imaginar uma série de lençóis, mantas de diversas qualidades e espessuras, cobertores, um édredon e o mais que se quiser, tudo bem esticadinho e empilhado em cima da cama.

Imaginemos que este empilhamento representa alguns quilómetros de espessura de camadas de sedimentos depositados no fundo de um oceano, ao longo de cem ou mais milhões de anos, como é, por exemplo, o que está a acontecer no Oceano Atlântico, aqui ao nosso lado.

Vamos agora abrir bem os braços e agarrar esta pilha de roupa, uma mão de cada lado, e apertá-la para o meio da cama. Fica tudo amarrotado, com dobras para cima e outras para baixo.

Com a força dos nossos braços, em metro e meio de extensão desta roupa e em um ou dois segundos, fazemos, assim, o que a Terra faz, com todas as forças do enorme brasido do seu interior, em milhares de quilómetros de fundo de um oceano e ao fim desses muitos milhões de anos.
- Então uma montanha são rochas sedimentares dobradas?.
A esta pergunta a resposta é:
- Sim, mas é mais do que isso.

A porção das dobras que fica para cima representa a parte da cadeia montanha que se eleva à superfície do terreno, como aconteceu na Arrábida e está a acontecer nos Alpes, por exemplo. A porção dobrada que fica para baixo representa a parte que se afunda na crosta terrestre, como se fossem a sua raiz.

Acontece ainda que, em virtude das elevadas pressões e temperaturas a que passam a estar sujeitas, as rochas sedimentares que assim se afundam na crosta, se transformam em rochas metamórficas. Na parte mais profunda destas raízes, com temperaturas na ordem dos 800 a 900 oC, as rochas começam a fundir, gerando magmas que, arrefecendo ao longo de milhões e milhões de anos, se transforma em rochas magmáticas como os granitos e outras menos conhecidas.

A serra de S. Mamede é o que resta de uma enorme cadeia de montanhas, verdadeiramente orogénica, que teve aqui, na Península Ibérica, há mais de 300 milhões de anos, tanta ou mais imponência do que os Alpes, hoje em grande parte arrasada pela erosão.

A. Galopim de Carvalho

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