segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Contra o Acordo Ortográfico

Fiz hoje declarações à jornalista Luciana Leiderfarb do "Expresso" contra o Acordo Ortográfico de 1990 a propósito do Manifesto recentemente divulgado. Ver aqui:

http://leitor.expresso.pt/#library/expressodiario/23-01-2017/caderno-1/temas-principais/os-autores-do-acordo-ortografico-nunca-foram-capazes-de-explicar-a-sua-bondade

O Manifesto hoje divulgado começa por falar em "golpe político", na medida em que o AO a ser aplicado sem que todos os Estados o tivessem ratificado. Que opinião lhe merece esta situação?
O AO é uma boa confusão e nunca me convenceu. A ideia, diziam os seus autores, era unificar a ortografia do portuguesa e contribuir para a afirmação no mundo da comunidade dos países de língua
portuguesa. Ora, o AO ficou muito longe da unificação ortográfica - aliás impossível e de resto nem sei se desejável -   e quanto  à afirmação da lusofonia é claro que o projecto não ficou fortalecido.
A falta de harmonia quanto ao AO pelos diversos países salta à vista. Há uns à frente e outros atrás, quando a ideia era um avanço conjunto. Na minha opinião, a língua não tem de andar mandada pela política. A língua é de todos, é um património comum, no qual tanto a unidade como  a diversidade são valores.  A língua demorou muito tempo a  formar e não pode ser formada (para muitos deformada) de repente na secretaria. Lembro que a língua portuguesa é uma das grandes línguas de cultura no Ocidente, o que inclui não só a literatura como a ciência.
Os subscritores erguem-se contra o principal critério do AO - o da pronúncia - e elenca as "aberrações" que tal critério produziu. Pessoalmente, em que medida isso o incomoda ou alterou a sua relação com a língua?
O AO não me incomoda nada, pois não o sigo. Escrevo como aprendi e sei. Não cortei consoantes mudas, não mudei as maiúsculas, nem os hífens. Felizmente que os polícias da língua ainda não me prenderam.  No manifesto estão elencadas apenas algumas das aberrações. Os autores do AO nunca foram capazes de explicar a sua bondade. Criaram mais problemas do que resolveram, ao pretenderem relacionar mais a escrita com a fonética. Eu sei que a  ortografia não é eternamente fixa e admito que, tal como no passado, possa haver mudanças consensualizadas. Mas neste caso não houve consenso nenhum. Foi à trouxe-mouxe (nem sei se lhe tiraram o tracinho)!
Fala-se também de um abuso de poder relativamente ao AO90, aplicado sem discussão pública e escondendo 25 pareceres negativos de especialistas. Por que acha que isto aconteceu? Pensa que ainda vamos a tempo de o discutir e reverter o processo?
Não sei por que aconteceu. Talvez pela procura de protagonismo de alguns actores. Estamos sempre a tempo de emendar o que está mal. Aliás já ouço falar em revisão do acordo...A melhor revisão seria
provavelmente anulá-lo.
Com o AO, tentou-se unificar as ortografias oficiais e anular as diferenças entre o diferentes usos do Português. O que é que isso revela sobre os portugueses?
Eu não penso que seja possível anular as diferenças. Nem sei para que isso possa servir. Como se diz no texto, nenhuma outra língua com variantes, como o inglês, o castelhano ou o francês, se preocupou com tal coisa,. Até agora o AO não trouxe qualquer benefício prático. Só um aumento de entropia.
Uma revisão do AO não criaria confusão a quem hoje aprende a escrever segundo as novas regras?  
Se se rever o AO, incluindo uma revisão total que seria a sua anulação, não penso que houvesse grande incómodo. Uma coorte de crianças e jovens, que aprenderam segundo o AO, continuariam
sem dificuldade a perceber tudo e reaprenderiam facilmente a escrever segundo outra norma.

2 comentários:

  1. Este AO é um pouco como a Teoria da Relatividade, depois a física subatómica de Heisenberg, etc... A cada nova descoberta na linguística, melhora-se um bocadinho, mas ainda andamos a procurar a "Teoria do tudo". Deixem os linguistas trabalhar. Este AO resolve imensas questões que estavam encalhadas com o anterior acordo (de 1945, remendado em 1973) e não há um único problema relatado no Manifesto que não se mantenha se voltarmos à ortografia de 1945/73. Há, isso sim, cerca de 210 situações resolvidas. Relembro, aliás, que as inconsistências encontradas pelos signatários do Manifesto estão ligadas a menos de 0,001% das situações de operação de língua escrita. Em tempo, caro Professor: a ortografia não é a língua, como o eletrão não é o átomo.

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    1. Nem mais, caro Pedro! Parabéns pela clarividência.

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