quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A verdadeira exclusão

Uma vez que na última testagem do PISA (Programme for International Student Assessment) ficámos acima da média da OCDE e que no TIMSS (Trends in International Mathematics and Science Study) conseguimos um lugar confortável, poderemos ser levados a pensar que ultrapássamos todos os problemas de aprendizagem que nos atormentavam. Se assim é, estamos muito errados. O artigo que uma colega brasileira acaba de me enviar retrata bem o que também acontece (ainda) no nosso país: muitos alunos terminarem o ensino básico sem saberem ler de modo a compreenderem o que lêem.

Esse artigo, de que abaixo se reproduzem extractos, foi escrito por Tânia Zagury, mestre em Educação, e professora de Psicologia Educacional e Didática (ver aqui).
"(...) O Brasil do século XXI não sabe ler ou não entende o que mal lê. Todos estão pasmos. Menos os professores, posso afirmar. Eles - que nos últimos 30 anos de mudanças na área educacional, lastimavelmente, não foram chamados a dar o seu testemunho, nem lhes ouviram as dúvidas e as certezas. Quem está na frente de batalha, teria dito: isso não vai dar certo... 
Algumas vezes, de fato, as Secretarias de Educação e o MEC colhem opiniões dos docentes. Mas, raramente esses dados essenciais são a base das decisões educacionais. E, quem alfabetiza, há muito sabe que, nas atuais condições de trabalho, não consegue bons resultados, por exemplo, com o idealizado Construtivismo, já abandonado em muitos países. Bem que muitos tentaram, mesmo a contragosto. Não lhes foi dada oportunidade de escolha, no ensino público especialmente (...). 
Não precisamos de reformas de ensino no Brasil, menos ainda daquelas que alteram apenas nomenclaturas ou que pseudo-adotam o que, de repente, alguém determinou que é a nova "fórmula mágica" de ensinar (...). Tomam-se medidas caras e aleatórias (...) 
Outro grave baque na qualidade do ensino se deu com o endeusamento da Escola Não-diretiva, transplantada da psicanálise para a sala de aula. Corrigir o aluno passou a "dar trauma". Riscar em vermelho os erros, nem pensar. Provas revelaram-se intervenções ameaçadoras. Memorizar qualquer coisa tornou-se feio. Herança que o Rogers, sem querer, nos legou: "não se ensina nada a ninguém". E o resultado aí está... Não se está conseguindo qualidade mesmo! 
Além disso, hoje, a cada problema social, surge mais um tema transversal no currículo: educação sexual, cidadania, ética, educação para o trânsito, educação ambiental etc. (...) 
O fracasso tinha que ocorrer. Era previsível. Com tantos encargos que não conseguem executar! (...)
Temos que deter o processo atual, no qual o aluno termina o Ensino Fundamental - quando termina - quase tal qual estava quando entrou. Essa é a verdadeira exclusão: de posse do seu diploma, mas com competência totalmente questionável, o jovem, especialmente o de classe social menos favorecida, que tanto precisa de trabalho, é ejetado do mercado de trabalho, sem dó nem piedade (...)"

13 comentários:

  1. li , há tempos , uma entrevista de uma escritora e historiadora espanhola ( já não me lembro do seu nome ) , e li-a porque o título da entrevista era fantástico : " sempre houve analfabetos , mas saídos da universodade é a primeira vez " :) :)

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    1. Comentário duro, como o são as verdades. Mas, infelizmente, tão duro quanto verdadeiro...

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    2. MARÍA ELVIRA ROCA BAREA:
      http://www.elmundo.es/opinion/2016/12/17/58541208268e3e257c8b465c.html

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  2. BORA LÁ VOTAR E DECIDIR O QUE FAZEMOS AMANHÂ
    A ESCOLA É PARA SER FIXE, TA-SE BEM!!!
    O que faz falta à escola? Alunos votam e decidem
    https://www.publico.pt/2017/01/06/sociedade/noticia/alunos-votam-e-proposta-vencedora-recebe-orcamento-participativo-das-escolas-1757349

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  3. Marina e os restantes comentadores:
    Algum de vós me sabe dizer se a senhora é formada nalguma universidade?
    O facto de ser aqui referida como escritora nada diz (Carolina Salgado, a ex-amante do Pinto da Costa, anuncia-se como escritora nas televisões), e historiador é um pouco quem se quiser dizer-se como tal.
    Se sim, se a senhora é mesmo formada nalguma universidade, é a prova provada do que ela própria afirma: ignorante até à quinta casa.
    O discurso da ignorância sobre as gerações vindouras é tão antigo como a Humanidade (pelo menos desde o desenvolvimento das civilizações no Próximo Oriente Antigo).
    Um bom exemplo português é, para o caso, o conjunto de excertos transcritos no livro «Evidentemente: Histórias da Educação».
    Podem lê-lo aqui: http://repositorio.ul.pt/jspui/bitstream/10451/4810/1/9789724142142.pdf
    Mas nos estrangeiro o fenómeno é semelhante.

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    1. A "Srª", MARÍA ELVIRA ROCA BAREA, lec(c)ionou, em Harvard, seja qual for o significado ou relevância que isso tem (para cada um).

      MARÍA ELVIRA ROCA BAREA:
      http://www.elmundo.es/opinion/2016/12/17/58541208268e3e257c8b465c.html

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    2. acontece que as "gerações vindouras" do passado eram educadas nos valores da comunidade e seguindo a experiência dos antepassados( que eram considerados sábios...) , não havia , graças a Deus , 500 mil teóricos e especialistas em inducação que a primeira coisa que fizeram foi dizer que tudo até ali estava errado e que os humanos da "ante pós pós modernidade xpto " eram todos burros :)

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    3. parece que agora é prof. de liceu , licenciada há-de ser..

      entrevista por paco linares

      https://www.youtube.com/watch?v=YhkulQ0uiXk



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  4. Senhor Anónimo das 14:38, de 8/1/17:
    Já viu o trabalho que dá identificá-lo?
    E ainda fica por saber se não estou a usar o género errado, se não se trata de uma anónima.
    Nunca percebi a atracção pela cobardia que o anonimato implica.
    Enfim!
    O meu ponto mantém-se de pé.
    É falso que, pela primeira vez, no nosso tempo, saiam analfabetos das universidades.
    Como é evidente, o termo analfabeto está a ser usado metaforicamente.
    Por maioria de razão, sempre houve desses analfabetos: é só procurar na literatura, que desde sempre refere o analfabetismo que certas pessoas sempre viram nos outros.
    Mas nunca em si nem nos seus mais próximos, os próprios e os seus sempre foram muito inteligentes, obtiveram excelentes resultados, tiveram professores muito competentes que os marcaram para a vida.

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  5. peço desculpa , já estou a abusar da paciência aqui da casa , mas as conversas são como as cerejas e as buscas parece que também... fui parar ao site dos profs da andaluzia procurando pela escritora e lá dei com esta entrevista de um psicanalista italiano , sobre o que se passa na educação.

    http://www.elmundo.es/sociedad/2017/01/04/58654955e5fdea7d2f8b45a1.html

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  6. marina:
    Vejo que fala demasiado de cor, baseada nas convicções pessoais e desprezando a realidade.
    E nada melhor do que os números para nos iluminarem a realidade.
    Esse antes idílico de que fala, em «que as "gerações vindouras" do passado eram educadas nos valores da comunidade e seguindo a experiência dos antepassados(que eram considerados sábios...)», não passa de um triste tempo em que a esmagadora maioria das pessoas era analfabeta, por nem sequer ter escola para onde ir estudar, mesmo que tal estivesse nos seus horizontes.
    Em Portugal, o analfabetismo era assim:
    1890 - 75,9% a)
    1900 - 74,5% a)
    1911 - 70,3% a)
    1920 - 66,2% a)
    1930 - 61,8% a)
    1940 - 49,0% a)
    1950 - 40,4% a)
    1960 - 30,3% a)
    a) Fontes: Decreto-Lei n.º 38 968, 27/10/1952 e X Recenseamento Geral da População - 1960
    1970 – 25,75% b)
    1981 – 18,6% b)
    1991 – 11,0% b)
    2001 – 9,0% b)
    2011 - 5,2% b)
    b) – Fonte: Pordata
    Se calhar, neste tempo poupava-se uma pipa de massa com especialistas da Educação.
    Veja se consegue fazer que regressemos a esse tempo.
    Uma maravilha!

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    1. quando os mais velhos falavam ( e falam) das "incapacidades" dos mais novos não se referiam especificamente a saber ler e escrever e contar... tem a ver com atitudes e formas de estar também. e incluia a escola, onde a cultura tinha de ser de trabalho e séria , porque a vida é dura.
      de todas as maneiras ler e não perceber o que se lê , o célebre analfabetismo funcional , foi posto na moda por quem ? de quem é a culpa de não conseguirem fazer uma simples divisão com decimais? de quem é a culpa de não conseguirem relacionar factos , e retirarem conclusões , porque nem sequer se conseguem lembrar dos factos dado que exercitar a memória parece que é doloroso e traumatizante ? :) :)
      digamos que houve uma evolução no conceito de analfabetismo , porque para mexer no pc e telemóvel e mandar uns sms , todo mundo sabe alinhavar umas letras e uns smiles.

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  7. marina:
    O pior que se faz é generalizar.
    É o que a senhora faz a partir de ideias comuns erradas, muito difundidas para esconder outras agendas político-educativas que lhe escapam.
    O que é evidente, mente
    Os lugares-comuns, são apenas lugares-comuns, não verdades, muito menos absolutas.
    Tem, então, a certeza, de que, nos tempos antigos, que considera luminosos, não havia analfabetismo funcional?
    Fique com a sua.
    Sabe como foi feita a Campanha Nacional de Educação de Adultos, do Secretário de Estado Henrique Veiga de Macedo, em 1952?
    Sabe como nela se davam diplomas da 4.ª Classe para apresentarmos números mais aceitáveis na OCDE, onde queríamos entrar?

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