terça-feira, 29 de novembro de 2016

"EMAGRECIMENTO CURRICULAR": GOVERNO AFASTOU SOCIEDADES CIENTÍFICAS

Já aqui falei da tentativa em curso por parte do ministro Tiago Rodrigues de "emagrecer" os currículos sem ouvir as sociedades científicas. O anterior presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática - SPM acaba de publicar no "Público" on-line artigo que aqui transcrevo de modo a ampliar a sua difusão (claro que concordo com o essencial do conteúdo):


Alterações curriculares: debate honesto ou vitória na secretaria?


Alterações curriculares são assuntos sérios. Devem, portanto, assentar em pressupostos claramente explicitados de modo a que possam ser confrontados com os necessários contraditórios, debates e auscultações.

O atual Ministério da Educação (ME), e mais concretamente o atual Secretário de Estado da Educação (SEE), Doutor João Costa, tomou como uma das suas bandeiras a necessidade de uma “flexibilização curricular sem alterar programas e metas”.

Esta convicção do SEE de que algo tinha de ser feito sobre os currículos de Matemática esteve na origem de duas reuniões, nos passados dias 2 de março e 6 de abril, nas quais a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) foi convidada a integrar dois grupos de trabalho sobre os programas de Matemática dos ensinos Básico e Secundário, os quais integravam também elementos da Associação de Professores de Matemática (APM), do ME, e professores convidados pelo ME e não filiados em qualquer das organizações. O objetivo seria o de responder às dúvidas e aos problemas reportados por professores ao ME e fazer propostas de gestão e flexibilização curricular que, sem alterar os programas nem as metas curriculares (pois, segundo o próprio SEE, não faria sequer sentido fazê-lo antes de os mesmos completarem um ciclo de funcionamento e consequente avaliação), facilitassem a sua implementação nesta fase de transição.

O resultado do intenso trabalho desenvolvido por estes grupos entre abril e final de julho passado foi divulgado publicamente pelo ME a 24 de agosto. Foi o que se poderia esperar de uma discussão intelectualmente honesta balizada por pressupostos claros: os atuais programas e metas foram mantidos sem alterações significativas mas foram feitas muitas sugestões práticas que permitiram dar resposta às naturais dificuldades sentidas por alguns professores nesta fase de implementação.

Mas, aparentemente, tal resultado, fruto de um debate duro mas honesto, não agradou ao SEE e, pelas declarações públicas oportunamente divulgadas, também não foi bem acolhido pela Direção da APM e, por algumas pessoas ligada às Ciências da Educação. Solução? Continuar o “debate” mas noutro formato.

No mais recente esforço de ``gestão curricular’’ promovido pelo ME o SEE decidiu não convocar as sociedades científicas mas apenas as associações de professores. A justificação foi que (supostamente) não se trataria de alterar programas e metas mas “apenas” geri-los. Isto apesar do SEE ter revelado que o trabalho tem como objetivo "emagrecer" os curricula e que o seu resultado começará a ser aplicado em 2017/18 nos anos iniciais do Ensino Básico (1.º, 5.º e 7.º). João Costa confirmou também que a revisão do currículo no secundário está dependente da conclusão do trabalho sobre o perfil do estudante à saída do 12.º ano que está a ser elaborado por um grupo presidido por Guilherme d’Oliveira Martins. As contradições do discurso prosseguem, tendo o próprio SEE afirmado que o resultado poderá significar um corte de até 25% da matéria lecionada. Ora “emagrecer” currículos é, efetivamente, modificá-los. Em Matemática este emagrecimento, por pequeno que seja, pode resultar em modificações profundas se se pretender preservar a consistência lógica e pedagógica do resultado final.

A exclusão das sociedades científicas deste diálogo é absurda: não só o ensino de uma Ciência é assunto de óbvia relevância para a Ciência em causa, como não é concebível uma reflexão séria sobre o ensino de uma Ciência excluindo deliberadamente aqueles que simultaneamente a ensinam, a investigam, a aplicam profissionalmente e têm dela uma visão de conjunto. O argumento é caricato no caso da Matemática, onde praticamente 100% dos sócios da SPM são, de facto, professores da disciplina nos vários níveis de ensino. Mas também o é no caso da Física e da Química, onde, não havendo associações de professores, não seria ouvido ninguém. Por fim, muito recentemente, após algumas notícias na comunicação social e alguma contestação pública, a Direção Geral de Educação convocou as sociedades de Física e de Química, e o SEE agendou uma reunião com a de Filosofia (disciplina que também tem uma associação de professores). Mas não ainda com a SPM…

De uma coisa não é possível duvidar: o SEE é inteligente e percebeu perfeitamente que ao incluir a SPM numa discussão séria, sem sound bites, sobre a Matemática e o seu ensino e sobre os programas e as metas curriculares de Matemática dos ensinos Básico e Secundário, estaria a correr o sério risco de repetir o que aconteceu em abril passado e ter como resultado algo que não se compaginava com o objetivo que, a priori, deverá ter delineado. Solução simples para este difícil problema: eliminar do diálogo a SPM.

Futebolisticamente falando, é ganhar na secretaria!

Fernando Pestana da Costa


(Professor da Universidade Aberta, Presidente da Mesa da Assembleia Geral da SPM)

4 comentários:

  1. Porém, o contributo das entidades científicas para a elaboração dos currículos no ensino básico, tem sido muito responsável pela medíocre aprendizagem que os alunos fazem da matemática. Temos assistido a verdadeiros disparates no que concerne o desenvolvimento de competências, atropeladas que são pelo excesso de unidades curriculares, pelos avanços de matérias desajustados à fase de desenvolvimento dos alunos e excessiva importância dada à avaliação quantitativa, que não traz qualquer feedback ao aluno sobre os erros cometidos e de que forma pode superar esses erros. A SPM, sem conhecer os alunos para quem elabora currículos e as salas de aula onde decorrem os processos de aprendizagem, é dispensável.

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  2. No ano passado enviei para a SPM uma reclamação sobre a qualidade dos manuais escolares. Toda ela baseada na discussão que mantive em comentários neste link do blog De Rerum Natura: Escusado será dizer que não obtive da SPM qualquer resposta!

    http://dererummundi.blogspot.pt/2015/09/o-meu-pais-e-o-que-o-mar-nao-quer.html

    Confrontava-me um Anónimo, com ar petulante, de Doutor, de quem sabe da poda, desta forma “ … acha que era razoável pôr os planetas à escala numa imagem que não deve ocupar sequer meia página A4?” Bem, na verdade, a resposta poderia vir de Stephen Hawking, que tem um livrinho de divulgação cientifica em que apresenta no A5 aquilo que este sujeito, ignorantissimo, dava por impossível. A SPM (sociedade científica) não sabe nada do assunto, nem se pronuncia. Leia-se a discussão.

    Este ano, aqui neste blog, denunciei a ma qualidade do manual do 5. ano.

    http://dererummundi.blogspot.pt/2016/08/a-educacao-deu-me-cabeca-para-pensar.html

    Se se perguntar a uma criança do 5. ano para dar uma definição da “Divisão”, verificamos que a maioria não a sabe, ou pelo menos não a sabe desta forma: “Diz-se que a divide b se existe um inteiro x tal que ax=b”. Porque não existe esta definição no manual? (respondam as sociedades cientificas s.f.f.), o enfoque vai então todo para os critérios de divisibilidade, nada fundamental!

    Neste pais chega-se facilmente a presidente de qualquer instituição, sem que isso exija grande inteligência do individuo, e os resultados estão a vista. Neste processo começa-se por afastar, nos primeiros anos de ensino, os potenciais candidatos. Evidentemente que os familiares de uma personalidade como o senhor SEE, do senhor Guilherme D'Oliveira Martins e outros, tem, porque podem pagar, quem lhes ensine que os números decimais não existem propriamente, como o assinala Sebastião e Silva, e com isso são levados a compreender a Aritmética Racional, os outros, a grande maioria, nunca a chegarão a compreender... ainda estamos, sob disfarce, no tempo em que o presidente do conselho dizia, “ler e escrever e suficiente para a maioria”.

    O SEE não tem currículo para a compreensão de matérias desta natureza, nem tão pouco pode contar com as sociedades cientificas (uma casta), então porque ocupa o lugar?, porque ele próprio é um produto de generosidade, daquela generosidade que o senhor professor Galopim de Carvalho, testemunhou que o primeiro ministro António Costa é portador. é assim que vamos construir um pais com futuro?!

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    1. Ildefonso Dias, as piruetas argumentativas deste seu comentário deixam qualquer um abalado com tantas voltas!
      Os manuais são maus, mas certificados pelos académicos brilhantes. Guilherme d'Oliveira Martins e o SEE são de uma casta sem currículo? Deixe-me rir! Tivesse você um décimo do currículo de qualquer um deles é já não argumentava como argumenta.
      Já agora diga lá qual é o contributo deste Fernando Pestana da Costa para o avanço do conhecimento matemático?

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    2. Anónimo, os manuais são maus, são péssimos, são indignos, e são certificados por académicos brilhantes, como diz, Ontem enviei um comentário demonstrativo com mais um exemplo, espero não o deixar muito abalado com mais uma pirueta, que não é minha, é Deles!!

      Diz-me, dos currículos do senhor Guilherme d'Oliveira Martins e do SEE; eu penso que o país nada lhes deve, muito pelo contrario, são pagos a "peso de euro", em todos os cargos que ocupam, e diga-se a verdade são pessoas cuja inteligência é igual e não maior que a de muitos milhares de portugueses; as oportunidades é que já são diferentes...

      Quando me fala do professor Fernando Pestana da Costa e do "avanço do conhecimento matemático", hà que distinguir o que o Anónimo entende por "avanço do conhecimento matemático"... para mim, esses "contributos devem ser de verdadeiro peso para a evolução de algum dos sectores da matemática no mundo", pelo que, não conhecendo a obra do senhor professor Pestana da Costa, é contudo pouco provável que tenha essa grandeza criadora, numa palavra, o seu contributo será infelizmente Nada! Demonstre-me que estou errado!
      Para que o Anónimo tenha consciência do nível de exigência, criadora, digo-lhe que, em 1966-1968 a Academia de Ciências da U.R.S.S., sob o título 'Progress in Mathematics' publicou dois volumes, onde apenas constam os nomes de dois portugueses, o de Sebastião e Silva e o de Almeida e Costa, com "contributos de verdadeiro peso para a evolução de algum dos sectores da matemática no mundo".

      Repare neste testemunho: “Tens muita sorte em ter o Professor Sebastião e Silva como mestre; ele não é um Professor bom qualquer, como eu por exemplo, ele tem uma cabeça superior ao nível do genial” [Almeida e Costa] retirado daqui: http://www.sebastiaoesilva100anos.org/Testemunhos/Alunos/Maria_Teresa_Gomes_da_Silva.pdf

      Queira o Anónimo desculpar as muitas "piruetas" mas fica agora a perceber o que é uma "cabeça superior ao nível de genial" onde não hà lugar, evidentemente, para Guilherme d'Oliveira Martins e outros, esses só se podem lamentar por os "deuses" não os terem escolhido... mas não muito, até porque como já disse são "pagos a peso de ouro", num país de miséria; Nunca o país lhes deverá coisa alguma!

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