sexta-feira, 11 de novembro de 2016

CAIXA BAIXA


A triste novela da Caixa Geral de Depósitos continua. E isso só pode colocar a Caixa em baixa. Já é claro para toda a gente - espero que também para os próprios - que os administradores da Caixa, a começar pelo Presidente António Domingues, têm de apresentar  no Tribunal Constitucional as suas declarações de rendimentos e património não para ficar lá guardado mas para que seja do conhecimento público, como manda a lei.  Não percebo por que é que demoram tanto tempo a fazê-lo. O prazo fixado na lei já passou aliás há muito. A cada dia que passa aumenta a suspeição sobre os motivos por que não o fazem. Não é, decerto, por terem rendimentos e património elevado:  é normal que os tenham como gestores bancários de longa data. Não sei então por que será. Já ouvi que é por existirem conflitos de interesses, isto é, por terem rendimentos ou património de instituições em concorrência directa com a Caixa.

O governo não se portou bem neste processo. Aparentemente o ministro Mário Centeno prometeu o que não podia prometer, que eles estavam isentos da entrega da declaração. Parece que há até um papel assinado e tudo. Ele mostrou não só que não conhecia bem a lei com também alguma imaturidade política (e nisso contrasta com António Costa, muito mais habilidoso). Um ministro das Finanças tem de ter uma forte componente política, ainda por cima num governo que vive de um apoio parlamentar e essa componente não é nada evidente. Não ficou bem fazer uma "lei de isenção" à medida, exigida pelo próprio interessado, curiosamente uma lei que não assegura aquilo que o interessado pretendia.

A oposição também não se sai nada bem. O líder da oposição, Passos Coelho, andou a "reboque" do comentador de serviço Marques Mendes, que praticamente sozinho conseguiu criar um caso político. Além do mais não percebeu o verdadeiro problema da transparência dos gestores da coisa pública, quando começou por acusar o Presidente da Caixa de ter tido acesso a informação privilegiada na preparação de um plano para a Caixa. Esse não é o problema principal: o governo dever-lhe-ia ter dado toda a informação necessária, logo que houvesse um compromisso firmado, o que pressupunha que António Domingues se tivesse afastado imediatamente do banco onde trabalhava, o BPI, rival da Caixa como toda a gente sabe.

António Domingues, se percebe alguma coisa de gestão (acredito que sim), não percebe nada de política. Não percebeu que a presidência do banco público lhe trazia grandes responsabilidades políticas. Não percebeu que primeiro a sua recusa e depois o seu prolongado silêncio sobre a entrega de declarações seria mal aceite pelos contribuintes que somos todos nós. E, mais do que tudo, ao ameaçar que se vai embora (segundo consta nalguns jornais) mostra que o seu interesse pessoal é mais importante do que o interesse do país. Se o fizer, mostrará que a sua causa é, para ele, mais importante do que a causa pública.  

Enfim muita gente a não dar uma para a caixa.


1 comentário:

  1. Se as notícias que temos correspondem aos factos, temos que lamentar as condutas dos visados, como o faz, e muito bem, o Carlos Fiolhais.
    Se as notícias não correspondem aos factos, temos que lamentar, tanto ou mais ainda, que não sejamos informados, mas desinformados, com a conivência dos responsáveis políticos que deixam andar tudo em águas turvas, por conveniência inadmissível.
    Seja como for, a ideia de que a gestão de uma empresa privada e de uma instituição/empresa pública se pauta pelos mesmos princípios e lógica de interesses, apesar de ser bastante comum (como se o Estado concorresse com os privados para arrecadar os ganhos que estes pudessem ter) é estapafúrdia e demagógica.
    Eu apostava que indivíduos que fazem muitos lucros nas empresas privadas (se calhar o Trump é um desses) não podem ser bons gestores, nem governantes, em instituições públicas.
    Não discuto questões de eficiência e de produtividade física, refiro-me, por exemplo, ao facto de que o Estado, quando tira é para dar/pagar e, quando paga, toda a gente tem o direito de saber o quê e a quem e porquê.
    A gestão do aparelho do Estado, se tem algum paralelo com a gestão privada de uma empresa, ou grupo de empresas, é por estar nos "antípodas" destas. Acredito que, mais cedo ou mais tarde vai ser preciso assumir a necessidade de formação de gestores vocacionados para a gestão pública e, no que respeita à política, a mera vontade, ainda que sufragada por maiorias, não convém aos que querem e esperam e lutam pelo melhor, ou seja, pelo que assenta em fundamentos de governabilidade consistentes.
    No mesmo sentido, se queremos que a política deixe de ser o domínio dos oportunistas e dos oportunismos, se queremos afastar da política a peçonha da demagogia e dos pedintes de votos, que vergonhosamente se sujeitam até serem eleitos, chantageando e sendo chantageados, vai ser preciso definir um perfil ao qual deverá corresponder quem quiser candidatar-se e submeter-se a eleições. Nada é mais desmoralizador do que o espectáculo e as consequências que nos têm proporcionado as democracias e os seus sistemas eleitorais.
    Mas, voltando à gestão, existe uma cortina "blackout" no domínio financeiro, que separa o comum dos mortais (robertos) dos senhores desse(s) mercado(s) manipuladores dos cordelinhos. Eles riem dizendo que toda a gente sabe que assim é, que faz parte do "espectáculo", mas quando o espectáculo não tem graça, o que se passa atrás da cortina é o que mais interessa e vemos que é um jogo que nos diz respeito.

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