sexta-feira, 14 de outubro de 2016

PÂNICO COM A PROIBIÇÃO DE CALCULADORAS GRÁFICAS?

Texto recebido de Manuel Salgueiro (professor ESSP - Vila Real):

A crer na notícia (aqui), haverá muita gente preocupada com o facto de, em 2017, não ser permitido aos alunos a utilização de calculadora gráfica no exame nacional de Física e Química A, tal como a tutela (Ministério da Educação, ME) determinou.

As calculadoras gráficas têm, e o próprio ME o reconhece no documento enviados às escolas, potencialidades que podem, e devem, ser aproveitadas, e são-no certamente, designadamente no tratamento de dados. O programa da disciplina recomenda-o e quem anda no terreno sabe que isto é verdade.

Há, no entanto, um lado muito perverso e quem anda no terreno também sabe que, infelizmente, há (desde os mais miúdos aos mais graúdos) quem acredite que se pode aprender Física e Química metendo nas calculadoras todo o tipo de informação auxiliar (noutros tempos, dizia-se "cábulas" e "copianços"), sem ter preocupação em fazer qualquer tipo de esforço por aprender.

E, quando se vão a ver os resultados, o “esforço” de atafulhar a máquina de informação (desde manuais, exercícios modelo e respetiva resolução, fórmulas, só para dar alguns exemplos) foi inglório: Nada disto resulta se não tiver sido feito algum tipo de trabalho e de esforço de aprendizagem.

De facto, criou-se a ideia de que é possível aprender Física e Química fazendo, por exemplo, o download da informação de uma calculadora ou de um programa da internet, o que é perfeitamente surreal e até falso. Aprender qualquer disciplina exige um trabalho sério, continuado, esforçado e alguma resiliência. Como diz Jonah Lehrer, por vezes para haver as epifanias é preciso haver previamente frustrações.

Não querendo prever o futuro, julgo que não há razões para alarme ou para pânico; qualquer aluno que, de facto, estude e se preocupe em aprender não precisa de calculadora gráfica para fazer o seu exame com sucesso. Não é (e o histórico dos exames di-lo) artilhando uma calculadora gráfica que se consegue aprender, nem Física, nem Química, nem qualquer outra disciplina. 

Manuel Salgueiro

PS) Coincidência, ou não, as ações da empresa (cotada no NASDAQ, Nova Iorque) que domina o mercado português de calculadoras gráficas estiveram, desde o dia 10 de outubro (data da famigerada comunicação do ME) em queda (http://br.investing.com/equities/texas-instru-historical-data ou http://br.investing.com/equities/texas-instru ), uma queda entretanto, aparentemente, atenuada e em visível recuperação. Ocrash nos “mercados” não foi nada de especial. 

1 comentário:

  1. A verdade é esta: há alunos a chegar à Universidade e com grandes dificuldades em realizar cálculos matemáticos básicos. Tais alunos entram em cursos de Engenharia, Ciências Sociais, Ciências da Vida, etc. cuja prova de Matemática A (12º ano) não é obrigatória, mas que têm diversas cadeiras de Matemática no plano de estudos.

    Tais alunos, por exemplo, não dominam correctamente a tabuada, não sabem fazer contas como -3+5 (embora possam saber fazer a conta 5-3) e têm dúvidas que 5*6 dê o mesmo resultado que 6*5. Determinar o mínimo múltiplo comum de fracções é uma operação simplesmente estranha a esses alunos. É escusado perguntar por quanto se deve multiplicar o número 2 para obter o valor -10. Silêncio e um olhar envergonhado para as mãos é a resposta que se obtém.

    Naturalmente, esses alunos ignoram que enquanto não conseguirem realizar, por eles próprios, correctamente este tipo de cálculos jamais obterão aprovação às cadeiras de Matemática, porque este tipo de cálculos são a base de muitos outros raciocínios em Matemática (e que a calculadora não os consegue fazer). Neste tipo de cadeiras, a melhor maneira de tais alunos aprenderam a realizar este tipo de cálculos é, simplesmente, proibir o uso de qualquer tipo de calculadora, mesmo que para tal seja necessário “limpar” da avaliação exercícios que apelem a cálculos elaborados (e.g. contas de dividir com vírgulas, raízes quadradas com números “grandes”, etc.) que habitualmente se realizam na calculadora. Há que ter muita calma e paciência face ao pânico dos alunos...

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