sábado, 15 de outubro de 2016

Novas velhas crenças a dominarem a educação escolar

“O ensino é metade da aprendizagem.”
“O processo de ensino e de aprendizagem estimulam-se mutuamente.” 
CONFÚCIO 
 (citado por Lipinga Ma, Conferências em Portugal, 2010).


A actual equipa do Ministério da Educação está determinada (como a anterior e a anterior à anterior e a que antecedeu esta e outras) a elevar o nível de sucesso escolar, mais precisa e ambiciosamente, a torná-lo pleno.

Deixando de lado o sentido da expressão sucesso (e do seu contrário, insucesso, estabelecidos por referência a um critério classificativo), que preferia ver substituído por aprendizagem, a mensagem veiculada é a de que as super novas tecnologias da informação e da comunicação serão, indubitavelmente, o caminho.

A mensagem do ministério é corroborada por investigadores, formadores de professores, professores, representantes de empresas, responsáveis autárquicos, associações, conselhos e comissões várias. E, claro, pelos alunos, que dizem "adorar" os apelativos gadgtes,

Os jornalistas, de grandes e pequenos jornais, que têm sido profícuos a noticiar declarações e acontecimentos, em geral, negligenciam o aprofundamento da informação, o contraditório, a discussão, o esclarecimento, limitam-se a passar a mensagem que se espera que passem.

Veja-se o título acima - Novas tecnologias põem insucesso escolar a zero - que é tão acientífico como o anúncio de um produto para resolver os problemas de saúde de toda a gente. Será um desejo mas não é uma possibilidade real. Pelo menos duas razões justificam esta afirmação.

Em primeiro lugar porque, sendo certo que, com base no estado actual do conhecimento pedagógico, poderíamos melhorar substancialmente a aprendizagem (e devíamos empenhar-nos a fundo nisso) não conseguiremos que todos os alunos aprendam tudo o que pretendemos que aprendam e do modo como entendemos que o façam. Quem se situa no quadro da educação formal não tem esse saber, e o seu poder tem limites.

Em segundo lugar porque o ensino é afastado da estratégia. Tudo correrá bem se os alunos tiverem acesso aos muitos e sedutores gadgtes disponíveis, repletos de games com os correspondentes reforços imediatos. Enfim, se o professor se afastar deles e deixar de insistir em transmitir-lhes conhecimentos, porque, em rigor, daquilo que eles precisam é de desenvolver, de modo autónomo e colaborativo, "competências". A "motivação" advirá sobretudo destes "ingredientes" e será o caminho para se chegar ao tão almejado fim: o sucesso total.

A crença de que a aprendizagem é independente do ensino, de que os professores não são precisos para que os alunos adquiram a educação que se atribui à escola é devastadora. Ainda não tomámos consciência ou não queremos fazê-lo.

Sendo o ensino uma profissão profundamente humana é humanizadora, precisamos de professores que, antes de mais, entendam que a sua tarefa é artesanal e requer proximidade física. Serem excelentes técnicos de ensino (onde as tecnologias podem ser integradas) não contraria este desígnio, antes é integrado nele.

1 comentário:

  1. A escola está a mudar, por "imposição" externa. Da UE têm chegado algumas "sugestões", e do próprio processo de Bolonha, que apontam, de modo não completamente explícito, um caminho que é, para os mais canónicos, o fim da escola, tal como a conhecemos. A escola dos papagaios, dos reprodutores de discursos e de manuais, actores e protagonistas preferenciais do sistema classificativo e ordenador, mais do que inclusivo e desmistificador, é uma escola impossível e vamos tendo a experiência disso. O modo como a escola se pensa a si mesma tem-na impedido de ser a escola que não tem a coragem de ser, porque não sabe ser.
    A escola é uma instituição muito valorizada por uns e muito odiada por outros. É muito valorizada por aqueles que ela eleva e muito odiada por aqueles que ela "estigmatiza" e rebaixa. E tudo isto é muito natural, nem seria de esperar o contrário.
    A nossa sociedade ainda não aprendeu, e a escola também não, a viver sem um sistema de ensino/educação "classificador", ainda por cima, obrigatório. E, pelo jeito que as coisas estão a tomar, sobretudo na economia e nos desportos, tão cedo não vai mudar.
    A escola, nestes aspectos, continua monolítica, e apresenta-se como uma fatalidade e uma ameaça, como uma rede que, inexoravelmente, apanha toda a gente.
    Há pessoas que gostam ou não desgostam da escola e têm razões para isso, como há pessoas que têm razões para detestar ou não gostar da escola e nós sabemos as razões. Todavia, que tem sido feito para atender aos que não gostam da escola?
    O que a escola espera dos alunos é função do que dá, mesmo que eles rejeitem?
    O que a escola exige dos alunos é função do que espera?
    E o que, realmente, espera a escola?
    É possível uma escola diferente, em que se aprenda, ou não, sem ficar "classificado"?

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