sábado, 20 de agosto de 2016

O LEVE ODOR DOS NOVELEIROS


Ângelo Alves, nascido em 1978 em Póvoa da Lomba (Cantanhede)  é co-autor deste blogue. Conheço-o há muitos anos por ter sido meu aluno no curso de Física em Coimbra (formou-se em Ensino da Física). Já na altura era um devoto da boa literatura tendo-me surpreendido com os livros que trazia para a aula. Decerto que tem surpreendido muitos leitores deste blogue com as suas escolhas literárias. Descobriu a certa altura a sua vocação poética, da qual dão testemunho três livros saídos até hoje: Doidivino (Temas Originais, 2012), Falo do Fundo (Papiro, 2014) e o mais recente O Leve Odor dos Noveleiros (Temas Originais, 2015).

O Leve Odor dos Noveleiros  é um pequeno livro que contém 369 haikus, a forma de poesia originária do Japão mas que encontrou grandes cultivadores no mundo ocidental. O mestre tradicional é  Matsuo Bashō (1644–1694), autor do mais famoso haiku, que em português se pode traduzir assim :

velha lagoa . . .
um sapo salta nela
o som da água

Há muitas outras traduções; no original há 17 sílabas, em três frases de cinco, sete e cinco silabas, ou melhor "sons", pois se trata de sílabas japonesas, mas essa estrutura perde-se normalmente na tradução. Por exemplo, Wenceslau de Moraes, que viveu no Japão, traduziu de um modo mais prolixo:


     Um templo, um tanque musgoso
     mudez, apenas cortada
      pelo ruído das rãs
      saltando à água... mais nada


Em Portugal, o haiku foi cultivado, embora por vezes com adaptações, por Eugénio de Andrade. Herberto Hélder, Jorge de Sena, Casimiro de Brito, Albano Martins e José Tolentino de Mendonça. 

Essa forma poética é normalmente utilizada para encapsular um instante, um contacto breve mas emocionalmente intenso entre o poeta e a Natureza. Há uma percepção sensorial imediata e necessariamente subjectiva, É típico existir uma pausa (um corte, por vezes com um sinal gráfico) para justapor ou contrastar duas imagens, sentimentos, ou ideias, por exemplo, no haiku de cima, o salto do sapo na água da lagoa e o som recolhido pelo ouvido. 

Ângelo Alves escreveu haikus literariamente muito expressivos, onde se encontram palavras muito  simples (as palavras mais frequentes são "ar", "sol", "terra", "água", "flor", "amor" e "rosa", mas também palavras pouco usuais como "cabrestante", "arrebol", "terebintina", "abrasão", "acme" (eu aprendi no seu livro palavras novas como "cacófato", "lúteo", "eufrásia", alcaçuz", etc.) Procura seguir o conceito que estrutura o haiku, mas não recorre à  rima, nem anda a medir o número de sílabas. Os temas são os da poesia universal: a Natureza, o eu, o amor, a vida, a morte, etc. Não há a preocupação de ordem temática, pois, tal como a vida, a poesia vai acontecendo. O livro é uma sucessão de 369 instantes, mais do que dias há no ano.

Para que apreciem a beleza dos versos de Ângelo Alves, escolho aqui alguns haikus. Sobre a natureza viva (há outros animais para além dos sapos):

Choro e os pardais
Cantam, no cebolal,
Ao arrebol e à chuva.

A terebintina
Desce pelo corte — a várzea
Aguarda as ovelhas.

O melro abandona
O ninho e é logo velho.
Tirocínio breve.

São agitadores,
Os gritos dos corvos com cio.
Soltam meu silêncio.

Entre escolhos negros,
No mar calmo, deambula
Um camarão lúcido.

O Sol impera, como se vê nos exemplos seguintes:

Ar árido. O sol
Assoma ao mar — e a âncora
Sobe ao cabrestante.

Dia solarengo
E aguardo a trégua da chuva.
Vejo-me, sozinho.

Eu deveria estar
Contigo, dentro de uma noz,
A inalar o sol.

E vejamos quando o amor (ou, pelo menos, a possibilidade dele) aparece ao sol:

Era a praia, quando
Te conheci. Eras o mar
Frio sob o zénite.

Vi-te a acenar
E os músculos dos meus pelos
Abriram o olhar!

Cavalos assombram
O noveleiro. Os teus seios
Galopam no nevoeiro.

O meu coração
Caiu no atrito do teu chão.
Arde, a abrasão!

A névoa humedece
O teu cabelo telúrico —
Carícia inefável.

Gravei o silêncio
Do teu corpo — as ondas do mar
Morriam perto.

Na tua blusa, cor
De alface-do-mar, o sol
Intumesce os cumes.

Os breves instantes,
Em que te vi, foram seis dias
E seis noites na acme.

Espraio o nome
Porque a dor é espinho, é barco
À espera da Rosa.

Mas há também livros, em particular, livros de poesia (o autor é um devorador de poesia e de facto só pode escrever poesia como ele quem leu muita)

Nos livros perenes,
Interno-me. Aí, reina o siso,
Voam pormenores.

Acumulo livros
Dentro do casulo preso
À folha das árvores.

Cresce o meu apego
À poesia — nimbo ou lágrima
Que à noite acalento.

É difícil escolher o melhor haiku dos 369. 369 leitores escolheriam, porventura, outros tantos. Eu escolho este:

Se pudesse rachar
O coração, como se racha
Uma romã, achar-me-ia.

Leiam o Ângelo Alves para escolherem outro...

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