quinta-feira, 28 de julho de 2016

Universidade, Politécnicos e o Reflexo dos Nomes nas Instituições e Cidadãos

 

Meu artigo de opinião saído no "Público" de ontem:

“A ambição dos homens é colher aquilo que nunca plantaram”.
Adam Smith

Recuso-me  em comungar do desalento do poeta de “Orpheu”: “Já não me importo / Até com o que amo ou creio amar. / Sou um navio que chegou a um porto / E cujo movimente é ali estar”.

Em consequência, obrigo-me, uma vez mais, em dar conta da  teimosia  ou se quiserem, num adoçar de pílula, da persistência de Rui Antunes, presidente do Instituto Politécnico de Coimbra, de parceria com os seus congéneres de Lisboa e Porto, em ameaçar (ameaça que veio a ser cumprida), de “não assinar o contrato que o Governo está a propor às instituições de ensino superior, demonstrando oposição às ideias do ministro do Ensino Superior desde o início da negociação e decidiram  não comparecer à cerimónia marcada para amanhã” (PÚBLICO, 15/07/2016).

E como não podia deixar de ser , ainda no teor dessa mesma notícia, “o descontentamento entre os maiores politécnicos [Lisboa, Porto e Coimbra] prende-se também com a manutenção da impossibilidade de atribuírem doutoramentos”. Anteriormente, foi mais longe Rui Antunes, ao propor a criação de uma Universidade Técnica de Coimbra (“Diário de Coimbra”, 10/11/205) ou, em alternância, de uma Universidade de Ciências Aplicadas (“Diário as Beiras”, 05/08/2013), em substituição do nome original de  Instituto Politécnico de Coimbra. Em defesa deste seu propósito, a opinião pessoal de que a universidade e o politécnico fazem o mesmo, como se fazer a  mesma coisa  fosse a universidade preparar professores para ministrar, apenas, uma disciplina do 2.º ciclo do ensino básico, enquanto o politécnico diploma professores para ministrarem, simultaneamente, duas disciplinas desse mesmo ciclo. E isto para já não falar no facto de a nota de acesso aos politécnicos ser menor e maior a classificação de saída  com evidente vantagem para os detentores dos respectivos diplomas em concursos docentes. Ou seja, assiste-se aqui, a uma injustiça na selva em que se transformou a formação desses docentes  que enclausura em grades de iniquidade os professores melhor preparados abrindo a jaula de saída aos menos habilitados para que, em feliz imagem camiliana, “as feras façam das garras o seu argumento”!

Consequentemente, não posso deixar de estabelecer analogia entre esta situação e a maneira de pensar de uma personagem de Eça de Queiroz, por si retratada  em uma das suas sarcásticas e saborosas críticas sociais:

“Caso surpreendente! E sobretudo surpreendente para mim porque descubro que a Academia tem sobre os livros a mesma opinião do meu velho criado Vitorino. Este benemérito, quando em Coimbra lhe mandava-mos buscar a um cacifo, apelidado de ‘Biblioteca de Alexandria’, um livro de versos, trazia sempre um dicionário, um Ortolan ou um tomo das Ordenações, e se, por maravilha, nos apetecia justamente um destes tomos de instrução era certo aparecer Vitorino com Lamartine ou a ‘Dama das Camélias’. Os nossos clamores de indignação deixavam-no superiormente sereno. Dava um puxão do colete de riscadinho, e murmurava com dignidade: ‘Isto ou aquilo tudo são coisas de letra redonda’”.

Detenho-me,  agora, sobre o reflexo do nome dos cidadãos e, em alguns casos, seus paradoxos:

Uma Sofia ignorante? É uma questão da antonímia!

Ana é um doce nome de mulher solteira. Perde a musicalidade com o casamento:  Dona Ana. É uma questão de estado civil!

Uma Anabela (feia) não se livra do comentário: Anabela? Hum! Anafeia. É uma questão de genética!

Minha falecida  mãe contava, com muita verve, o caso de uma amiga, de sua graça Felisbela, que, de quando em vez, pondo os olhos em alvo, sussurrava, em longo e conformado suspiro: “Bela não digo que não, agora feliz?”. Em boa verdade, era muito infeliz, tanto como uma nubente a quem o noivo foge, com a sua melhor amiga, no dia do casamento. Mas essa não a sua desdita maior: era bem mais feia do que infeliz. Feia como uma noite de trovões. Apesar de tudo, tivera sorte, ninguém se chama Infelisfeia. È uma questão de bom senso!

Há também aquela história de um pai que à pergunta do funcionário do Registo Civil sobre o nome a dar à  filha, respondeu: “Prante-lhe Ana”. E ela ficou Prantelhana. É uma questão  de regionalismo léxico!

Todavia, nomes há bem mais embaraçosos. Recordo  uma polémica de Camilo, temível fundibulário, que, segundo Jacinto Prado Coelho, tinha “o demónio da polémica violenta na massa do sangue” que em polémica com o poeta brasileiro Tomás Filho, não se coíbe da chacota: “Depois disto, Tomás Filho deputa e delega na bengala de Artur (Barreiros) a sua desforra” (“Crónicas das Nossas Letras”, A.M.Pires Cabral). É uma questão de filiação!

Quiçá pela ausência do necessário esprit de corps, em busca de falso prestígio,  assiste-se, por vezes, ao facto de uns tantos alunos do ensino politécnico apelidarem de  faculdade as escolas ou institutos que frequentam. Por seu turno, através da medida em transmutar o ensino politécnico em ensino universitário, não se livram facilmente  os seus mentores da suspeita de se tratar de uma tentativa  em satisfazer egos institucionais ou meramente pessoais. E esta situação é tanto mais insólita  porque, para Charles Baudelaire, “apenas é igual a outro quem o prova sê-lo”!

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