terça-feira, 5 de julho de 2016

SALAZAR, A HISTÓRIA E SIMPLES OPINIÕES

“É preciso dizer a verdade apenas a quem está disposto a ouvi-la”.
Séneca

Embora faltando-lhe a funda e as pedras lisas, mas  querendo, apesar disso, assumir a personagem bíblica de David em luta com o gigante Golias, emitindo meras opiniões  pessoais  em desagravo  pessoal contra António José Saraiva - havido pelo historiador  José Mattoso,  “como um dos espíritos mais fascinantes da cultura portuguesa contemporânea” - ,  teceu ele o comentário anónimo, escrito passadas 48 horas, ao meu post “Salazar: não bate a bota com a perdigota” (02/07/2016), com a seguinte argumentação que transcrevo (parcialmente) ipsis verbis:

“O facto de António José Saraiva ‘admirar’ Salazar nada diz do Salazarismo e do Estado Novo, pior, diz tudo, diz muito sobre o culto à personalidade, assente em ideias muito concretas e repetidas vezes e vezes durante o ensino - a dignidade (a ideia do ditador bonzinho que pacificou o país) aliás própria do camponês (não há, portanto, camponeses indignos), tentativa de resolver o problema português, da identidade nacional (como se o liberalismo não tivesse também fabricado os seus heróis... daí a ideia do Estado "Novo"), progresso económico notável (não, houve uma mudança de sistema económico, do sector primário para o secundário, daí a questão da fábrica, do take-off), grandes obras públicas (grandes obras públicas sempre houve desde o liberalismo), vontade portuguesa de ser (não sei o que isso significa...), ‘ter dívidas da mesma forma que um homem pobre não o pode fazer. Só os ricos podem ter dívidas’ (pois, os pobres não podem endividar-se a comprar uma banheira ou uma lâmpada, também não precisam disso para nada... que tomem banho no Mondego e já estão com sorte).

Será que não se mantém o modo de pensar salazarista, a ideia do ‘corte’?

É que, vejamos, caciques e gente indigna, corrupta, sempre existiram, ligados à política explodiram com o liberalismo.

A ideia ridícula que durante meio século tudo foi ‘novo’, ‘um mundo digno’ sem muita ambição pessoal, ‘pacífico’, ‘mole’, ‘notável crescimento económico’, ‘só os ricos se podem endividar’, não passa de uma construção mental, o controle das massas, ser ‘pobre mas honrado’, imitando no fundo o ditador.

Salazar então era como devia ser o povo português: vigilante dos comportamentos sociais, auto-censório, pacífico mas punitivo em qualquer caso de desvios (politicamente, financeiramente, socialmente), honrado mesmo pobre porque trabalha e não se endivida, recebe o suficiente para manter uma família nuclear, etc.

‘Caindo’ a novidade, a democracia ‘trouxe’ de geração espontânea, a ‘porcaria’ toda... como se ela já não estivesse viva. Foi magia, lá canta o outro.

Engraçado que hoje em dia começa a ruir devagarinho um certo sistema corporativista, ainda muito presente, de grandes famílias ‘donas disto tudo’, muito ligadas ao poder político... se calhar o ‘novo’ criou um ‘antigo’ que não nos deixa crescer”.


Como toda a moeda tem anverso e reverso,  trago uma nova achega (que se não baseia em opiniões pessoais escritas, como diria Eça, “de pena ao vento”) sobre um época da nossa história  contemporânea envolvendo a controversa personagem  de  António de Oliveira Salazar.

Reporto-me, para o efeito, de uma entrevista ao “Diário de Notícias” da autoria do historiador Filipe Ribeiro de Meneses (que elaborou  em 7 anos de labor uma biografia intitulada: “Salazar”) , intitulada “O regime salazarista não era monolítico”.  A páginas tantas, declara este doutorado pelo “Trinity College Dublin” que lecciona no Departamento de História da “University of Ireland”:

“Salazar é também o único líder de direita do seu tempo que não é cabo de guerra, como Hitler, Franco, ou Mussolini. Ele não vem do campo de batalha, vem da universidade.

Ele é chamado para vir resolver as finanças da Nação, não tem nada a ver com Hitler nem com Mussolini. E, ao mesmo tempo, está a examinar a situação política e a trabalhar para ser o último a ficar em pé - embora isso não tenha sucedido logo desde o início. Todos os políticos do pós-I República acabam por desaparecer e Salazar fica sozinho no poder: "Eu faço isto, mas, se me for embora e tudo voltar ao estado em que estava, então o esforço não valeu a pena." O medo do regresso ao caos da I República ajuda Salazar a legitimar o que sucede depois, e isso é consolidado pela propaganda do regime. E não esqueçamos que uma das grandes correntes de apoio a Salazar são os republicanos conservadores, que estão dispostos a esperar, que sabem que, apesar de Salazar ser monárquico, não vai voltar atrás em termos de regime. Salazar procura manter estes grupos todos razoavelmente satisfeitos, nunca lhes quebrando a ilusão de que não irá na direcção que eles não querem, e vai assim fazendo o seu caminho. E ele sabia também manipular muito bem os sentimentos dos monárquicos e falar-lhes ao seu patriotismo, alimentando-lhes até a vaga esperança de que um dia a Restauração pode dar-se”.

Alea jacta est sobre a polémica personagem de António de Oliveira  Salazar.  Compete, agora, ao leitor, parafraseando Mestre Aquilino,  despojado da mochila de simples opiniões pessoais, tirar as ilações pertinentes tendo presente que a “história é uma mediação entre e o passado e o presente num círculo hermenêutico” (Paul Ricoeur).


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