segunda-feira, 25 de julho de 2016

LIVROS PARA O VERÃO


Minha crónica na última revista "As artes entre as letras":

De há muito que venho defendendo que o “Verão”, que alguns chamam a “silly season”, não tem necessariamente de ser um tempo morto para os miolos. Assim como não se deixa o corpo sem alimento, também não me parece sensato deixar o espírito sem alimento ou com mau alimento (como a chamada literatura “light”, que cobre os escaparates e as montras das livrarias). No Verão, quando os horários são mais relaxados e o ambiente eventualmente muda, é o tempo para pôr as leituras em dia, mesmo leituras mais exigentes que foram por falta de tempo postergadas.

Venho propor como leituras de Verão seis livros de divulgação científica publicados recentemente em Portugal, três de autores portugueses e três traduções do inglês. Não são leituras pesadas, mas também não são livros para consumir rapidamente. São livros para desfrutar com tranquilidade, para que regressemos de férias com mentes mais abertas. A ordem é a do apelido do autor.

- Jorge Dias de Deus, “Ciência Cosmológica”, Gradiva, 2016

Este n.º 215 da colecção “Ciência Aberta” da Gradiva (o último) traz como subtítulo três interrogações fundamentais do ser humano: “De onde vimos? Onde estamos? Para onde vamos?”.  Estas são quase as mesmas interrogações que dão título a um quadro do pintor Paul Gauguin, uma grande obra, inspirada no Taiti, realizada em 1897 rapidamente numa situação de grande angústia pessoal (no final Gauguin tentou suicidar-se). Tentando explicar como a humanidade tem progredido nas respostas a estas magnas questões, o físico Dias de Deus, autor de outros livros da colecção “Ciência Aberta”,  apresenta uma história  da ciência cosmológica desde a Antiguidade (quando ela se confundia com o filosofia e a mitologia) até aos nossos dias (quando, fundada na matemática e na observação, ganhou uma forte base empírica). É um relato,  escrito com com rigor mas acessível, da evolução nosso conhecimento do cosmos, das histórias antigas dos deuses até à teoria do Big Bang.

- Jordan Ellenberg, “Como não errar”, Marcador, 2016.

O autor é um matemático norte-americano, professor na Universidade de Wiscosin-Madison, que escreve sobre a sua disciplina para a grande imprensa norte-americana. Ellenberg comunica a sua paixão pela matemática de uma forma assaz cativante, num texto onde as histórias concretas e o humor ingredientes fundamentais. O subtítulo transmite a intenção do autor: “O poder do pensamento matemático no dia a dia”. A matemática não é uma disciplina afastada da realidade, como alguns pensam,  mas sim uma maneira de olhar para a realidade, que nos pode ajudar no nosso permanente confronto com ela: De posse de matemática é mais difícil deixar-mo-nos enganar.

- Walter Lewin (com Warren Goldstein), “A Paixão da Física”, Gradiva, 2016.

O autor principal é um físico norte-americano, professor jubilado do famoso MIT de Boston, que, para além de uma carreira no estudo dos raios X que nos chegam do espaço exterior, ficou mundialmente conhecido pelas suas aulas divertidas, que ganharam uma audiência mundial graças ao Youtube. Como mostra a capa e o leitor poderá verificar facilmente na Internet, para exemplificar as leis do pêndulo, o Prof. Lewin faz ele próprio de badalo do pêndulo, pendurando-se num grande cabo e balançando-de diante dos seus alunos. O livro conta a história da sua vida (é comovente a sua fuga aos nazis na nativa Holanda) e conduz o leitor por uma “viagem pelos prodígios da física”, que vão do arco-íris cujas cores nos encantam aos buracos negros que perturbam a nossa mente.

- Leonard Mlodinow, “De Primatas a Astronautas”, Marcador, 2016.

Se o livro de Lewin é recomendado por Bill Gates, este é recomendado por Stephen Hawking, que foi parceiro do autor, na autoria de dois outros livros publicados pela Gradiva na “Ciência Aberta”: “O Grande Desígnio” e “Brevíssima História do Tempo”. Mlodinow, físico e escritor norte-americano descendente como Lewin de judeus perseguidos pelo nazismo, é ainda autor de obras traduzidas em português como “Subliminar” (Marcador, sobre processos mentais), “O Passeio do Bêbado” (Bizâncio, sobre o acaso) e “Guerra entre Dois Mundos” (Estrela Polar, diálogo sobre espiritualidade com Deepak Chopra). O seu livro mais recente é um excelente resumo da história da civilização, enfatizando o papel da ciência e da técnica.

- Luís Moniz Pereira, “A Máquina Iluminada, Cognição e Computação”, Fronteira do Caos, 2016

O autor, professor jubilado da Universidade Nova de Lisboa distinguido com vários prémios, é um dos maiores especialistas portugueses sobre inteligência artificial. Este livro é uma sua reflexão para o grande público sobre cognição e computação, quer dizer sobre a possibilidade de os computadores poderem imitar os humanos conseguindo aquilo que se chama “conhecer”. Questões que nos inquietam neste mundo inundado por computadores e robots sobre a “consciência” artificial ou mesmo a “ética” artificial são abordadas por Moniz Pereira. Até onde poderão ir as máquinas que criámos? Poderão um dia as criaturas escapar ao criador?

- Natália Bebiano da Providência, “A Matemática e os seus Labirintos”, Gradiva,  2016.

Professora de Matemática da Universidade de Coimbra, historiadora de ciência e autora de vários livros de ficção, Natália Bebiano, ensaia nesta obra uma excursão diversificada com numerosos exemplos (com ilustrações numa edição em bom papel graficamente muito atraente) pela estética da matemática: Começa com questões da literatura (a matemática em Fernando Pessoa e em Jorge Luís Borges e a aversão à matemática de José Saramago e de Gabriel Garcia Marques), passa para o diálogo entre a matemática e as artes visuais, a íntima relação entre a matemática e a música e fecha com o contacto entre a matemática, em particular a lógica, com a filosofia. Uma delícia para a os olhos e para a mente!

Boas leituras estivais!

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