terça-feira, 14 de junho de 2016

Duas perspectivas sobre emigração: António Costa e Mário Nogueira


O comentário do engenheiro Ildefonso Dias feito ao meu post “O Conselho Nacional de Educação e a Avaliação dos Professores” (13/06/2016), leva-me a confessar desconhecer o caso por si relatado. Fui informar-me, e para que possam ser tomadas as ilações pertinentes, transcrevo do “Expresso” dois parágrafos:
1. “A história parece estar a repetir-se. Tal como Pedro Passos Coelho em 2011, este domingo António Costa incentivou os professores a emigrarem, ao referir-se ao alargamento do ensino da língua portuguesa em França. “É uma oportunidade de trabalho para muitos professores de Português que, por via das alterações demográficas, não têm trabalho em Portugal e podem encontrar trabalho aqui, em França”, disse.
2. Mário Nogueira, líder da FENPROF, diz ver um “significado diferente” nas declarações de Costa. “Passos Coelho disse para os professores emigrarem para outras áreas. Não disse para irem dar aulas”, explica ao “Jornal de Notícias”. 
Ponto 1: A leitura do texto não deixa dúvidas daquilo que António Costa queria dizer e não daquilo que quereria dizer, mas não disse. E para se justificar para o facto de não ter apelado à emigração, serve-se do sofisma: “A estrada da Beira e a beira da estrada não são a mesma coisa, pois não?” (“Económico”). Claro que não! Mas o que tem uma coisa a ver com a outra?

Ponto 2: Mário Nogueira, professor do 1.º ciclo do básico (por formação) e sindicalista (em exercício) escreveu aquilo que se costuma dizer ser pior a emenda que o soneto. Ou seja, como se emigrasse não fosse sair do próprio país, onde não se encontra emprego, independentemente do emprego procurado num país estrangeiro.

O que aqui está em questão é o flagelo do desemprego que grassa em Portugal, a exemplo do tempo da chamada "Mala de Cartão” tão criticada depois de 25 de Abril.

Moral da história: “A oposição é a arte de estar contra, mas com uma habilidade tal que logo se possa estar a favor” (Maurice de Tayllerand, político e diplomata francês, 1754-1838). E a coisa complica-se desastrosamente quando a habilidade cede lugar à inabilidade!

5 comentários:

  1. O grande António Gedeão resolve isso.
    Basta lê-lo com atenção.

    IMPRESSÃO DIGITAL

    Os meus olhos são uns olhos,
    E é com esses olhos uns
    que eu vejo no mundo escolhos
    onde outros, com outros olhos,
    não vêem escolhos nenhuns.

    Quem diz escolhos diz flores.
    De tudo o mesmo se diz.
    Onde uns vêem lutos e dores
    uns outros descobrem cores
    do mais formoso matiz.
    Nas ruas ou nas estradas
    onde passa tanta gente,
    uns vêem pedras pisadas,
    mas outros, gnomos e fadas
    num halo resplandecente.

    Inútil seguir vizinhos,
    querer ser depois ou ser antes.
    Cada um é seus caminhos.
    Onde Sancho vê moinhos
    D. Quixote vê gigantes.

    Vê moinhos? São moinhos.
    Vê gigantes? São gigantes.

    In Movimento Perpétuo (1956)

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    1. Várias vezes tenho citado os últimos versos do poema de António Gedeão que documentam duas perspectivas diferentes sobre um mesmo assunto: a de D. Quixote de la Mancha e a de Sancho Pança, da imortal obra de Cervantes.

      Oportuna, e merecedora do meu agradecimento, agora a transcrição completa que faz dos versos de António Gedeão/Rómulo de Carvalho.

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    2. Nesta sociedade depravada, dita de gente civilizada, atiram-nos lama, quando sabem que é lama que têm nas mãos, por isso a situação é mais grave! claramente que não se trata aqui de Vê moinhos? São moinhos.
      O professor Galopim de Carvalho escreveu "Se tiver errado esta minha análise, terei de me penitenciar." Talvez não soubesse que era lama que tinha nas mãos, agora que já sabe... aguardemos!

      http://dererummundi.blogspot.pt/2015/09/o-meu-voto.html

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  2. Os meus olhos veem tanto
    Tanto veem os meus olhos
    Que dificilmente me espanto
    Pelas flores, pelos escolhos...

    Tudo o que vejo parece igual
    Muda de forma a informe essência
    Toda a diferença é virtual
    Só igual em degenerescência

    À beira da estrada ou na estrada da Beira
    Muda o cliente e o atavio do pé
    A mesma condição, diferente peneira
    Salto alto ou chinela, é-se o que se é

    Dom Quixote ou Sancho Pança
    Em tosco burro ou fino cavalgar
    O passo é de vento em igual dança
    Moinho que gira no mesmo lugar

    É gigante a pequenez que sinto
    Pequena, sofro de gigantismo
    Se digo a verdade ou se dela minto
    Tudo não passa de puro cinismo

    Vejo pedras, gnomos e fadas,
    Todos no mesmo rosto cansado
    Umas vezes verde ou de asas aladas
    Outras, no chão do caminho pisado

    Não interessa quem foi ou quem será
    O teor da existência é resumido
    “Esteve cá uma vida mas já cá não está”
    Tudo é embalo de tempo perdido.

    Portanto, na rua onde passa gente
    A gente que passa só vai e vem
    Come, trabalha e diz que sente
    Parece ser gente, mas não é ninguém.

    F.C.

    Um beijinho professor Rui Baptista

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