quinta-feira, 16 de junho de 2016

Aprendendo com o erro

Meu artigo no n.º 5 da revista XXI - Ter opinião, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, do qual saiu ontem um excerto [adaptado], no exame nacional de Português do 12.º ano:

[In memoriam José Mariano Gago]

A ciência tem, hoje, tantas e tão úteis aplicações nas nossas vidas que a associação mais imediata que o cidadão comum faz hoje à ciência não pode deixar de ser a tecnologia. Essa associação, embora não diga o essencial sobre a ciência – que é acima de tudo a descoberta do mundo pelo homem – não deixa de ser adequada. A tecnologia precedeu a ciência – isto é, o fazer antecipou o saber – mas, na modernidade, toda a tecnologia passou a derivar da ciência  –  o saber passou a ser a única fonte do fazer.

As aplicações da ciência não se fazem sem riscos. Aliás, nada na vida humana, se faz sem risco. Não existe risco zero: é inevitável que vivamos permanentemente sob ameaças. Há que distinguir, na análise dos riscos, entre aquilo que são azares, eventos naturais desfavoráveis (aquilo que, nas antigas apólices de seguro, se chamavam “actos de Deus”), e erros, que resultam de falhas humanas (“errare humanum est”), que podem ir desde insuficiente cuidado no planeamento até uma acção dolosa, passando por um acidente involuntário. Se os azares não podem ser evitados, os erros podem e devem, tanto quanto possível, ser prevenidos. É decerto virtuosa a aprendizagem que podemos fazer a partir deles. A ocorrência de um certo erro deve despoletar medidas para evitar situações do mesmo tipo. Podemos continuar a errar, mas os novos erros serão menores e, sobretudo, diferentes. A ciência, através do seu moderno braço armado que é a tecnologia, protege-nos dos riscos inerentes à Natureza e minimiza os riscos originados por acções humanas. Se é certo que os avanços da ciência, ao possibilitar novas intervenções do homem no mundo, geram riscos, não é menos verdade que a ciência, a aplicação correcta do método científico, ainda é o melhor instrumento de que dispomos para errar cada vez menos.

Como medir o risco? A ciência quantifica normalmente o risco usando a noção de probabilidade. [Por exemplo, voar é seguro, mas não é 100 por cento seguro. A probabilidade de o leitor sobreviver no seu próximo voo de avião é de 99,9999815 por cento.] Contudo, a noção de probabilidade não é de fácil apreensão pelo comum das pessoas. Muitos passageiros, mesmo sabendo do baixo risco de fatalidade (0,0000185 por cento), têm medo quando entram num avião. O nosso cérebro tem dificuldade em avaliar riscos.

[...]

[Como vimos,] o risco, correcta ou incorrectamente percepcionado, está por todo o lado nas nossas vidas, sendo várias as interrogações que se podem colocar em face dele. A ciência traz-nos constantemente novos riscos assim como maneiras de os minimizar. Os exemplos anteriores sugerem que a ciência, sendo assaz relevante, não é nem pode ser tudo numa tomada de decisão. [...]

Qual é então o valor da ciência? E quais são os perigos da ciência? De facto a ciência como processo intelectual de descoberta do mundo é inofensiva. É melhor saber do que não saber. Mas a actividade que o homem exerce ou pode exercer no mundo uma vez de posse do conhecimento científico, é sempre arriscada.

[...] 

3 comentários:

  1. A União Europeia é um colosso tecnocrático a evitar-se. Segue-se o referendo da Dinamarca e o neonacionalismo italiano. Adeus EU, não deixas saudades!

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  2. É um golpe profundo na estratégia para uma União Europeia, a caminho de um Governo totalitário mundial. Quem pode estar de acordo com qualquer tipo de regresso ao modelo que levou à 2ª Guerra Mundial?

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  3. Os perigos da ciência são bem reais, por isso só num mundo de múltiplas soberanias à moda antiga é possível manter um mundo 'opensource', uma ciência patrocinada pelo público, para o público.

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