quinta-feira, 12 de maio de 2016

O lugar das línguas clássicas no curriculum escolar

A minha comunicação na Conferência Currículo para o Século XXI - Competências, conhecimentos e valores numa escolaridade de 12 anos, que teve lugar na Fundação Calouste Gulbenkian no dia 30 de Abril.

Que currículo para o século XXI ?
Na página da DGE que anuncia a realização da 3ª conferência europeia da Literacia organizada pela Rede Europeia ELINET que teve lugar na Holanda no passado mês de Janeiro, lê-se que:
“Um em cada cinco adultos e um em cada cinco jovens de 15 anos, não tem as competências de leitura de que necessita para funcionar plenamente numa sociedade moderna. Este facto traduz-se numa dificuldade acrescida para encontrar emprego, para além de contribuir para o aumento do risco de pobreza e exclusão social.”
Trata-se de um problema muito grave que nos deve levar a reflectir sobre o papel da escola, sobre o que se aprende na escola, que competências deve possuir o jovem que termina a sua escolaridade. É urgente analisar, com clareza, sem preocupações com o que é “politicamente correcto”, o que tem sido feito nas nossas escolas nos últimos dez, vinte anos e encontrar os erros cometidos para os poder remediar, para não termos mais uma geração prejudicada com as experiências, as modas e modismos que constantemente passam no nosso sistema de ensino. As constantes reformas que as nossas escolas têm vivido, nos diferentes graus de ensino,  provocaram muitos danos que se repercutem depois, numa reacção em cadeia, nas gerações seguintes.
É tempo, pois, de repensar o ensino que é ministrado nas escolas, repensar as prioridades curriculares, definir com clareza o rumo a seguir, independentemente de quem esteja a legislar.
Se queremos educar jovens para um futuro melhor, pois é sempre a perfeição que a educação deve ter no seu horizonte, é esse o fim que deve perseguir, se queremos formar adultos que pensam sobre o seu mundo, que reflectem, jovens com valores firmes, com ideais e capazes de usar a sua inteligência, a sua imaginação na construção de uma sociedade mais justa, não podemos ter uma escola que os educa apenas para o utilitário, para o interesse prático, para os problemas do quotidiano, sobretudo não podemos ter um currículo escolar feito com base naquilo que, numa determinada circunstância, convém às empresas,  ao empreendimento, com base apenas no sucesso imediato e financeiro.
É essencial que se considere que um currículo para o século XXI não pode deixar de lado as Humanidades, que devem estar subjacentes não só ao que designamos por Letras, mas também às Ciências e às Artes. A formação de base do jovem do nosso tempo tem de ter em conta uma forte base humanística, procurando, neste mundo virado para a técnica, uma identidade humana, uma forte convicção nos valores universais, nos valores que contam, que são importantes e dão sentido à vida.
A este painel foi dado como tema “A Literacia no Currículo e a Aprendizagem da Língua”. Ora, se literacia é a capacidade de saber ler e interpretar, compreender, analisar e criticar, só esse conhecimento pode formar cidadãos independentes e livres, capazes de pensar por si, senhores de um espírito crítico que os faça interrogar a realidade e não apenas seguir  aquilo que lhes é incutido.
Para tal é preciso não esquecer que pensar sobre o presente não pode deixar de lado o passado, pois foi esse passado que nos fez chegar aqui, são as lições da história que nos ajudam a construir o presente e a projectar o futuro.
O professor e filósofo italiano Nuccio Ordine, autor de um livro com o sugestivo título “A utilidade do inútil”, afirmava numa entrevista à Folha de S.Paulo em Março deste ano:
“Sem memória não há conhecimento nem identidade. O passado é fundamental para compreender o presente e o futuro. Se matamos as disciplinas humanistas e as línguas clássicas, criamos o deserto do espírito,  [1]

E acrescentava:
“Não estudamos latim e grego para falar, mas porque é uma forma de educação à lógica, ao rigor, uma postura para compreender de onde vem o nosso saber. Praticamente todas as questões que discutimos em filosofia, na ciência, na vida social, vêm da Grécia.”
Então, promover a literacia passa por promover a língua, a aprendizagem da língua materna e das outras línguas, promover a leitura, promover  a lentidão para a reflexão, para a leitura silenciosa, sem pressas, conferindo-lhe o tempo que a reflexão exige. E para um melhor conhecimento da nossa língua é necessário debruçarmo-nos sobre a sua estrutura, sobre a sua origem, sobre a língua-mãe de onde ela provém.
O estudo das línguas clássicas, o conhecimento da cultura greco-latina deve fazer parte do currículo obrigatório. Estes estudos não podem ser privilégio de alguns, devem ser oferecidos no ensino público a todos os jovens, pois só assim a escola contribuirá para a igualdade de direitos, ajudará a esbater as diferenças, sociais ou outras.
E a promoção da leitura terá de ser feita através de uma cultura da reflexão, sobre a língua, sobre o texto, numa “guerra” contra a rapidez a que uma certa utilização das tecnologias do nosso tempo conduziu. O conhecimento forma-se na reflexão, no silêncio, não no ruído da técnica e na rapidez da informação. As tecnologias têm de ser vistas como aliadas do saber, como ferramentas de ajuda e não como meios para alcançar apenas objectivos funcionais, à pressa.
É também por isso que o estudo das línguas clássicas é importante: ele obriga a uma reflexão sobre a palavra, leva-nos ao conhecimento mais profundo de cada vocábulo, explica-nos a origem de muitos dos nossos usos linguísticos e culturais, ajuda a formar um saber consistente e, como tal, duradouro. É preciso promover o conhecimento como um valor em si, para além do utilitarismo imediato.
O jovem que termina o ensino secundário tem de estar munido de um conjunto de saberes que o ajudarão a compreender melhor o que se passa no mundo à sua volta, tem de possuir conhecimentos que lhe permitam a leitura e a compreensão da linguagem corrente, mas também da linguagem das artes, tal como de tudo o que precisa compreender  no dia a dia da sua vida, sem estar a todo o momento dependente da “máquina” informativa. Só um saber de base, adquirido na escola, formará o cidadão para a selecção da informação, para saber rejeitar, combater, criticar o que não interessa, seguir o seu próprio rumo com ideias próprias, com valores em que acredita e que defende.
As constantes reformas curriculares do nosso ensino secundário têm conduzido, há várias décadas, os estudos clássicos a uma situação de tal modo catastrófica que, muitas vezes, quando um professor fala em ensinar latim e grego é considerado uma avis rara. Aparecendo apenas como opcional no ensino secundário, o latim e o grego quase desapareceram das escolas portuguesas, estando o seu estudo limitado a um número muito restrito delas, graças ao esforço, nem sempre compreendido, dos professores.
A APLG, que sempre tem lutado pelo ensino das línguas clássicas, defende um ensino da cultura e das línguas clássicas a partir do ensino básico. No ano lectivo que agora termina, o projecto introduzido com a Oferta de Escola mostrou-nos que esses estudos têm viabilidade. Formaram-se turmas desde o 1º ciclo até ao 9º ano, clubes frequentados por alunos dos diversos anos de escolaridade, do básico e do secundário, cursos livres, acções diversas. Os inúmeros trabalhos realizados são a prova da dedicação dos nossos professores, do interesse dos alunos e da importância que esses projectos tiveram na dinamização das escolas, no trabalho de equipa, promovendo a interdisciplinaridade. Em algumas escolas o dinamismo dos professores levou à oferta de cursos livres de iniciação à língua latina e os alunos apareceram com entusiasmo, com interesse.
Mas o projecto não pode ficar apenas ao sabor da boa vontade da direcção da escola e da dedicação dos professores que prescindem de horas de descanso. É necessário que a disciplina de Introdução à Cultura e Línguas Clássicas seja parte integrante do currículo, mais ainda, que uma disciplina de Introdução à Língua Latina e à Língua Grega seja oferecida no 3º ciclo do ensino básico, como opção, para os alunos que queiram frequentá-la.
Só assim se promoverá um ensino público que dê a todos as mesmas oportunidades, a mesma formação.
Depois vem o Ensino Secundário, que não pode ser entendido como uma especialização. A formação humanística de base deve continuar. A Língua Latina tem de ser obrigatória no Curso de Línguas e Humanidades (noutros países é mesmo obrigatória para os alunos de cursos científicos), pois não se compreende uma formação em Cursos da área das ciências humanas e mesmo do Direito sem um mínimo de conhecimentos das línguas clássicas e da cultura que, através delas, herdámos. E, nessa promoção da igualdade, no campo das opções, propomos que no 12º ano, para além da hipótese, que já existe, da opção de Grego em todos os cursos, haja também uma opção de Iniciação à Língua Latina igualmente para todos os cursos. Disso muito beneficiariam, certamente, os alunos que seguem o curso de medicina e os cursos da área científica, não esquecendo a sua importância na formação geral dos jovens que após o 12º ano não pretendam o prosseguimento de estudos e se encaminhem  para o mundo do trabalho.

Que currículo para o século XXI? Tal como em qualquer século: um currículo que promova o saber, que dê competências gerais para a independência e a liberdade na tomada de decisões, que promova o ser humano e os seus valores.

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