quinta-feira, 19 de maio de 2016

INTRODUÇÃO A "JESUÍTAS, CONSTRUTORES DA GLOBALIZAÇÃO"


Já está em venda on-line em todas as lojas dos CTT a obra de José Eduardo Franco e minha, ricamente ilustrada (não erro se disser que  é o livro mais bonito de todos aqueles em que colaborei) que conta a história mundial dos jesuítas, de Santo Inácio de Loyola ao papa Francisco, Deixo aqui um sabor do texto com parte da Introdução:

"Os Jesuítas são uma das instituições mais fascinantes e mais controversas da história da Igreja, da Europa e até do mundo nos últimos quinhentos anos.

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 A Companhia de Jesus, projetada em Paris em 1534 pelo basco Inácio de Loiola (1491-1556) e aprovada pelo papa Paulo III em 1540, é uma das ordens religiosas mais estudadas em escolas ocidentais, facto que não é para admirar, uma vez que, em muitas delas, os membros dessa ordem marcaram presença durante largos anos. Os estudos sobre a Companhia de Jesus vão desde a história religiosa até às mais variadas ciências (matemática, astronomia, físico-química, biologia, etc.), passando pela antropologia, linguística e filosofia. Por outro lado, são frequentes os romances, peças de teatro e filmes em cujo enredo entram personagens, eventos ou referências ligadas à Companhia. O imaginário ligado aos Jesuítas tem inspirado criações artísticas condimentadas com mistérios, onde entram tanto a figura do herói e do santo como a do conspirador e do demónio.

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 Não se pode estudar a história da cultura, incluindo a religião, a ciência, a filosofia, a literatura e a arte, sem levar em conta os contributos dos Jesuítas. Os padres da Companhia estiveram nos centros nevrálgicos das decisões, das transformações e recomposições sociais e políticas desde o início da modernidade, tendo protagonizado o primeiro processo de globalização. Os religiosos da Companhia tornaram-se em poucas décadas educadores de elites europeias e transeuropeias, exploradores de regiões desconhecidas e missionários que levaram o cristianismo a paragens longínquas. Em nome da universalização dos Evangelhos, eles tanto foram pregadores inf luentes como conselheiros de reis e de príncipes cristãos, como ainda cientistas, escritores, comerciantes e diplomatas ao serviço dos imperadores da China e do Japão e de outros senhores gentios. Almejando a universalização da doutrina de Cristo, conheceram novas terras e novas gentes, quer nas selvas e montanhas americanas, quer nas savanas e estepes africanas, quer ainda nos imensos territórios do Sudeste Asiático, tendo sido os primeiros europeus a chegar ao topo do Tibete. Através de uma prática persistente de observação e escrita, e servindo-se de uma rede de correspondência intensiva por todo o mundo, ergueram aquela que pode ser considerada a primeira base de dados global sobre povos, culturas, línguas, religiões, hábitos e costumes, recursos minerais, fauna e f lora. Tendo surgido logo após as primeiras grandes viagens dos Descobrimentos, os Jesuítas participaram na dinâmica da globalização que essas viagens abriram, e contribuíram, com as suas sistemáticas recolhas, para a grande revolução do conhecimento.

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 Foi o rei D. João III que abriu aos Jesuítas as portas do mundo. Num século em que Portugal detinha um império marítimo polvilhado de fortalezas e feitorias, foi no nosso país que encontraram o acolhimento para se lançarem na sua aventura de evangelização planetária. Portugal ofereceu à Companhia de Jesus uma plataforma de lançamento para se tornar a ordem religiosa que melhor respondeu aos desafios das relações entre povos distantes. Em Portugal, como por toda a Europa e mesmo fora dela, foi enorme a produção escrita e iconográfica de e sobre os Jesuítas desde o século xvi. Semelhante interesse, e até, por vezes, obsessão, em produzir conhecimento e opinião sobre estes religiosos é de certo modo comparável ao que ocorreu em torno dos judeus. Aliás, Jesuítas e judeus foram duas elites que marcaram a história portuguesa e internacional e que acabaram por experimentar a crítica, a perseguição e o exílio: após a expulsão de Portugal em 1759, os Jesuítas foram erradicados de outros países, processo que culminou na extinção da Ordem pelo papa Clemente XIV, em 1773. Ainda hoje está por fazer uma avaliação rigorosa das consequências para o nosso país da expulsão em tempos diferentes, mas cruciais na história tanto de Portugal como da Europa, destes dois grupos qualificados e empreendedores. Em Portugal, mas não só, a imagem construída pelos mananciais de escritos sobre Jesuítas e judeus fez deles, em certos momentos, meios de explicação do atraso do país depois dos Descobrimentos. O potencial de transformação sociocultural, política e religiosa atribuído a Jesuítas e judeus originou, aliás, sedutoras teorias da conspiração.

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Até ao dealbar do século xx, enquanto não se apostou num conhecimento desapaixonado dos Jesuítas, revelou-se muito difícil encontrar análises equilibradas a respeito do seu papel na história dos últimos quinhentos anos. Ninguém nega que os padres da Companhia deixaram uma marca indelével, mas diverge-se, por vezes radicalmente, na avaliação da sua ação, começando logo pelos desígnios que estariam na base do seu protagonismo.

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É por isso que, chegados ao século xxi, ainda nos falta uma história que forneça uma visão panorâmica dos Jesuítas que não tenha sido feita por historiadores da Companhia como Serafim Leite, Francisco Rodrigues e António Lopes, ou por militantes antijesuítas como José de Seabra da Silva, que deu à estampa a Dedução Cronológica e Analítica a mando do Marquês de Pombal, e, no século xx, Lino d’Assunção, que nos deixou uma História Geral dos Jesuítas, reeditada nos anos 80 sem qualquer enquadramento crítico. De um lado da barricada, existe a literatura dos apologistas, que valorizam a exemplaridade tanto cristã como social da ação transformadora da Companhia, e que foram ajudados por intelectuais filojesuítas que reivindicaram o seu regresso após a expulsão, como chave para revigorar pastoralmente a Igreja, qualificar a educação nacional e recuperar competências perdidas. Por outro lado, na produção historiográfica fora dos muros da Companhia tem preponderado uma imagem negativa, resultante do tom negro cristalizado pela literatura pombalina e que passou pelo discurso antijesuítico de liberais e republicanos, que apresentaram os inacianos como causadores do fanatismo e do obscurantismo em Portugal, feitores da decadência.

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Não faltam, é certo, edições traduzidas e com a melhor qualidade sobre os Jesuítas, nem, sobretudo nas últimas décadas, monografias sobre figuras, temas e períodos específicos da história da Companhia de Jesus. Todavia, parece haver algum pudor em propor uma releitura geral da história destes religiosos que, na modernidade, surgiram com um espírito novo. Vinham com a intenção de reformar a vida religiosa da velha cristandade e dar um impulso à Igreja, que no século xvi se debatia com a rutura do protestantismo, mas ao mesmo tempo se confrontava com as oportunidades oferecidas pelas viagens marítimas de portugueses e espanhóis, que abriam caminhos à humanidade. Fundados neste tempo decisivo da história, os Jesuítas tentaram com dinamismo invulgar determinar o horizonte dessa história.

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 Este livro, escrito de uma forma muito sinóptica, com foco especial na relação dos Jesuítas com a história da globalização portuguesa, pretende revisitar a história mundial desta ordem, pouco mais de duzentos anos após a Restauração da Companhia de Jesus decretada pelo papa Pio VII em 1814. Partindo dos estudos e debates académicos dos últimos anos, faremos uma viagem pelos grandes trilhos da história da Companhia de Jesus, conferindo sempre especial atenção ao seu percurso em Portugal, país decisivo para compreendermos a expansão desses religiosos nas primeiras décadas após a criação da Ordem. De facto, não se pode hoje estudar a globalização dos séculos xvi e xvii – com a consequente revolução das geografias religiosa, económica e política mundiais, e introdução de novos modelos, métodos e iniciativas de grande escala na educação e na divulgação do conhecimento científico – sem levar em conta o papel dos Jesuítas.

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 A história dos Jesuítas é fascinante. Pode ser estudada e conhecida a partir dos mais variados ângulos. Seria ufano da nossa parte querer contê-la nos limites apertados deste livro, que mais não é que uma obra de divulgação para oferecer ao grande público uma visão rápida da história dessa Ordem, que tem interessado tanta gente dentro e fora das fronteiras do catolicismo. Pretendemos apresentar os grandes marcos desta história, a partir do território português, acompanhando a projeção mundial dos Jesuítas, que foi ocorrendo com a intermediação lusitana, sem deixar de propor uma leitura da sua ação em várias áreas, enfatizando as inovações e os sucessos, mas sem escamotear as fraquezas e os insucessos. Procuraremos evitar as armadilhas que consistem nas análises subjetivas orientadas para o julgamento das intenções que presidiram à sua ação."

José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais

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