domingo, 1 de maio de 2016

Homenagem ao Café de Santa Cruz, em Coimbra


Minha contribuição para o livro EM NOME DO TEU NOME, de homenagem ao velho Café Santa Cruz em Coimbra (uma antologia que assinala os 93 anos daquele café), que acaba de sair:

Mudei-me para Coimbra com sete anos de idade, após ter feito a primeira classe em Coimbra. E desde então, com algumas ausências (a maior das quais foi o período de três anos e meio entre 1979 e 1982 para efectuar o doutoramento em Frankfurt am Main, na Alemanha) a minha cidade tem sido Coimbra. E desde que resido em Coimbra que conheço o Café de Santa Cruz, na Praça 8 de Maio, colado à multicentenária Igreja de Santa Cruz., em miúdo de passar à porta e em graúdo de entrar e tomar uma bica e um pastel de nata (mais modernamente um crúzio).

A Praça 8 de Maio, cujo nome celebra o desfile das tropas liberais, chefiadas pelo Duque da Terceira, na cidade de Coimbra em 1834  (curiosamente o Café  foi inaugurado a 8 de Maio, mas quase um  século mais tarde, em 1923), era e é um sítio central da Baixa coimbrã, pela localização não só junto à Igreja de Santa Cruz como à Câmara Municipal. Aqui os ardinas vendiam os jornais  e aqui passava antigamente o eléctrico. Morador nos Olivais nos idos da minha adolescência, descia até à Baixa a pé para comprar um jornal dos periódicos “da tarde”, que chegavam vindos de Lisboa – era o tempo do famoso pregão político “Lisboa, Capital, República, Popular” – e depois regressar num dos saudosos eléctricos da linha n.º 3, com um bilhete que custava menos do que o jornal. Os cafés eram para mim nessa época, um mundo estranho e misterioso: era sítios onde se bebia, se fumava e se conversava. Eram pontos de encontro da gente adulta. Uma das recordações que guardo desses tempos, em que se descia uma escada para entrar na Igreja de S. Cruz, era a grande inundação que por vezes acontecia, devido ao facto de as águas do Mondego por vezes extravasarem das suas margens. Chovia um pouco mais e, sem a actual prisão das barragens, logo Santa Cruz ficava alagada nas águas do Basófias, como que a querer imitar Santa Clara, que há muito se tinha afogado do outro lado do rio. Eram dois mosteiros a banhos, um ocasional e outro permanente.

Hoje, quando tenho um visitante que conheça mal Coimbra, seja do país ou do estrangeiro, e tenha apenas um dia mostro-lhe primeiro a Universidade, com a indispensável Biblioteca Joanina e o Museu da Ciência no Laboratorio Chimico e no Colégio de Jesus, o mais antigo colégio jesuíta do mundo, em seguida passamos pelo Museu Nacional Machado de Castro, descemos para a Sé Velha, onde os claustros são visita obrigatória (aqui nasceu o gótico em Portugal), para depois, procurando não  escorregar no Quebra Costas, atravessarmos o Arco da Almedina, virarmos à direita na Rua Ferreira Borges em direcção ao Café de Santa Cruz e à contígua Igreja. Os claustros de Santa Cruz são, quer pela sua antiguidade quer pela tranquilidade que transmitem, um dos oásis da cidade de Coimbra. E o tour acaba inevitavelmente na mesa de mármore do café de Santa Cruz. Conto ao visitante que o Café teve origem numa igreja, mas não na Igreja de Santa Cruz, essa dos frades crúzios (aqui estudou, entre outros nome conhecidos, no século XVIII,  João Jacinto Magalhães, um “estrangeirado” que construiu e enviou para Portugal alguns impressionantes instrumentos de Física hoje patentes no Gabinete de Física Experimental no Colégio de Jesus) , mas sim na igreja paroquial de S. João da Cruz, construída cerca de 1530, que haveria de ser desactivada no século XIX quando as ordens religiosas foram extintas para conhecer vários usos civis antes de ser transformada em café, com o aspecto que tem hoje. Conto-lhe que o desenho é de um famoso arquitecto, um espanhol que passou por Coimbra no século XVI,Diogo de Castilho, que trabalhou também nos mosteiros dos Jerónimos, em Lisboa, e de Santa Cruz.  O escultor e arquitecto francês João de Ruão, construtor da Capela do Santíssimo Sacramento na Sé Velha, talvez tenha trabalhado no edifício. Um café, portanto, com muita pâtine.

Foi o ensaista Georges Steiner que disse que a Europa da Cultura assentava nos cafés. Em “A Ideia da Europa” (Gradiva, 2005) escreveu: 

"A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo [...] Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se um dos marcadores essenciais da 'Ideia de Europa'" 

 Basta visitar o canto da Europa que é Portugal para perceber logo a relevância dos cafés para a vida comunitária do Velho Continente. O Café de Santa Cruz tem sido, ultimamente mais do que nunca, o merecido palco de numerosos acontecimentos culturais, confirmando a “ideia da Europa”. E, como a ciência é parte essencial da cultura, o Café tem sido também lugar de eventos científicos. No Verão de 2015 o Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, organizou, no quadro do programa “Ciência Viva no Verão”,  uma actividade permanente de animação científica, com demonstrações que prenderam a atenção dos passantes, e um conjunto de quatro tertúlias, denominadas “Ciência ao Luar”, dedicadas aos quatro elementos da Antiguidade Clássica: o ar, a água, a terra e o fogo. Sobre o ar falou  Alex Blin, professor de Física na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, que é piloto aviador nas “horas feriadas”, e Salvador Massano Cardoso, professor da Faculdade e Medicina da Universidade de Coimbra, especialista em Medicina do Trabalho e ex-provedor do Ambiente da Câmara de Coimbra;  sobre a água falou Fernando Seabra Santos, professor de Engenharia Civil da Faculdade de Ciências e Tecnologia, ex-reitor da Universidade e actualmente empresário, e António Costa Canas, oficial da Marinha Portuguesa, historiador de ciência e director do Museu da Marinha em Lisboa; sobre  o fogo (ou melhor a luz) falou João Mendes Ribeiro, o arquitecto responsável, entre outros, pelos restauros do Laboratorio Chimico e da Casa da Escrita em Coimbra, e  João Fernandes, professor de Matemática na Faculdade de Ciências e Tecnologia e especialista em astrofísica solar, e sobre a terra falou Daniela Santos, professora da Escola Superior Agrária de Coimbra e especialista em solos agrícolas, e Paulo Coelho, professor  do Departamento de Engenharia Civil da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e especialista em tectónica. No ano que, por decisão das Nações Unidas, foi simultaneamente o Ano Internacional da da Luz e o Ano Internacional dos Solos, o programa do ciclo “Ciência ao Luar” juntou a luz, os solos e outros temas numa tertúlia participada pelo público na hospitaleira esplanada do Café de Santa Cruz. Com o Rómulo colaboraram nessa iniciativa o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, os Departamentos de Química e de Física da Universidade de Coimbra e o Centro de Competência SoftCiências. 

O Café de Santa Cruz só fará cem anos em 2023. Não falta muito, mas julgo que a melhor maneira de se aproximar dessa data, sem ninguém dar conta que o tempo está a correr, será a de continuar o que tem sido a sua actividade cultural nos últimos anos. Steiner tem razão: sem cafés não há Europa nem há cultura.

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