terça-feira, 31 de maio de 2016

Dieta para sedentários

Por amabilidade da editora Gradiva, publicamos um excerto do livro "Dieta para Sedentários", que acaba de sair, da autoria de Ana Carvalhas:

"Para se perceber melhor a nova abordagem do tratamento da obesidade é necessário recuar muito no tempo. Os primeiros hominídeos evoluíram ao longo de milhões de anos, alimentando-se do que a Natureza lhes dava: peixe, carne, ovos, bagas e partes aéreas de certas plantas. Pensa-se que o desenvolvimento do cérebro humano foi favorecido por uma alimentação que fornecia essencialmente gorduras e proteínas que o homem primitivo extraía dos animais que caçava e pescava.

Mas, modernamente, a alimentação tomou um rumo contrário ao desses tempos antigos. A introdução nos Estados Unidos em 1977 das novas orientações alimentares, que recomendavam uma dieta rica em hidratos de carbono e pobre em gorduras, acabou por ter um efeito desastroso na saúde pública. A obesidade, diabetes tipo 2, síndrome metabólica e cancro têm aumentado de forma galopante na população dos Estados Unidos assim como na população da maioria dos países ocidentais, incluindo Portugal, atingindo valores nunca vistos.

É comum dizer-se que as gorduras saturadas são a principal causa de obesidade, doenças cardiovasculares e diabetes. Mas trata-se de um mito sem fundamentação científica sólida. Na realidade, não há estudos que mostrem com rigor este facto tantas vezes apregoado. A ideia de que as gorduras saturadas são o inimigo número um da saúde cardíaca surgiu de um estudo, realizado nos anos 50 do século XX pelo fisiologista norte-americano Ancel Keys, sobre a relação entre o consumo de gorduras saturadas e a incidência de doenças cardiovasculares na população de algumas dezenas de países. Todos acreditaram nas conclusões de Keys, um médico conhecido pela sua proposta da dieta mediterrânica (hoje património imaterial da Humanidade, após ter sido partilhada por portugueses e aprovada pela UNESCO), mas ele não considerou na sua estatística países como a Noruega, os quais, apesar de reportarem um consumo elevado de gorduras saturadas, tinham uma baixíssima incidência de doenças cardiovasculares. Por outro lado, também não considerou no seu estudo países como o Chile, que, apesar de apresentarem um baixo consumo de gorduras saturadas, tinham uma elevada incidência deste tipo de doenças. Alguns autores acusam--no, portanto, de extrair conclusões seleccionando resultados. Não obstante, as conclusões ditaram os últimos sessenta anos de orientações nutricionais a respeito das gorduras, que espalharam o medo em relação às gorduras saturadas e conduziram à diminuição do seu consumo.

Desde os anos 1960, óleos e margarinas vegetais e também alimentos magros começaram a aparecer por o todo lado, sendo muito procurados pelos consumidores que somos todos nós. O problema é que, se comermos alimentos com menos gordura, precisaremos de ingerir mais hidratos de carbono para nos sentirmos saciados.

São numerosos os estudos que mostram que os hidratos de carbono prejudicam mais a saúde do que as gorduras saturadas por fazerem aumentar os níveis de açúcar e colesterol sanguíneo, que contribuem para o aparecimento da diabetes tipo 2, de doenças cardiovasculares, fígado gordo e de algumas formas de cancro. Esses estudos provaram que uma dieta com baixo teor de hidratos de carbono melhora a glicemia, o colesterol e os triglicerídeos do sangue e reduz a inflamação, sem necessidade de recorrer a qualquer medicação.



A Suécia foi o primeiro país ocidental a emitir orientações que rejeitam o dogma da dieta baixa em gorduras em favor da redução dos hidratos de carbono e aumento das gorduras na alimentação. A mudança das orientações nutricionais seguiu-se à publicação de um estudo realizado pelo Conselho Sueco Independente de Avaliação das Tecnologias da Saúde, após rever 16 000 trabalhos científicos publicados, em todo o mundo, até Maio de 2013. Daí resultou a proposta de uma nova pirâmide alimentar, recomendada na Suécia desde 2013 (ver figura). Nessa tabela, os alimentos fornecedores de hidratos de carbono, como os cereais, tubérculos e leguminosas (fornecedores de amido e açúcares), ocupam os lugares cimeiros, ao passo que os vegetais, com valores muito reduzidos deste macronutriente, se encontram na base. O pescado, todos os tipos de carne e os ovos situam-se no segundo estrato da pirâmide. Seguem-se as frutas com teor reduzido de frutose, como, por exemplo, os morangos ou os frutos vermelhos, depois as gorduras naturais, como o azeite, a manteiga e as que se encontram naturalmente nos alimentos animais e vegetais e nos frutos gordos (como nozes, azeitonas, coco e abacate). Os óleos vegetais não entram na pirâmide sueca por conterem demasiados ácidos gordos ómega-6, que são prejudiciais à saúde.  Depois das gorduras surgem os lacticínios integrais, leite gordo, iogurtes sem açúcar e todos os tipos de queijo, terminando, como referi, com as leguminosas e, no topo, com os cereais.

A difícil luta para a mudança dos padrões de alimentação, que resultou das orientações alimentares que surgiram nos Estados Unidos da América no final da década de 1970, já começou e está a ser travada por um grupo de cientistas como Gary Taubes, físico norte-americano, jornalista científico e investigador em Saúde Pública da Fundação Robert Wood Johnson, Tim Noakes, professor sul-africano da Universidade da Cidade do Cabo, Richard K. Bernstein, médico e autor de seis livros sobre controlo da diabetes, Stephen Phinney, professor da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia – Davis, e Jeff Volek, professor no Departamento de Ciências Humanas da Ohio State University, nos Estados Unidos, entre muitos outros.

Os trabalhos destes e de outros cientistas, que tenho lido com atenção, e os bons resultados alcançados por centenas de doentes que tenho seguido nas minhas consultas foram as fontes de inspiração para este livro. Como diz o Professor Tim Noakes:

”Não estamos a comer os alimentos certos e é por isso que estamos a engordar e a ficar doentes.”


Os ensinamentos deste livro, se forem seguidos à risca, ajudarão as leitoras e os leitores a emagrecer e a ter mais saúde. Se seguirem durante apenas vinte e um dias a Dieta para Sedentários os leitores sentir-se-ão mais saudáveis, em parte por terem eliminado uma boa quantidade de gordura e água armazenada em excesso no corpo. A longo prazo sentir-se-ão mais enérgicos, com o corpo revigorado, dormirão melhor e viverão mais anos com maior qualidade de vida, uma vez que a dieta aqui indicada previne, ou retarda, o aparecimento de uma série de doenças, desde problemas cardiovasculares ao cancro, passando pela diabetes. Esta promessa está apoiada por literatura científica bastante sólida. 

Apresentarei aqui a mais recente informação sobre as formas de tratamento. Não se admire a leitora ou o leitor de ver uma longa série de afirmações, tidas, até agora, como certas sobre a alimentação, cair por terra. De facto, está em curso uma nova revolução na alimentação. Em Portugal, sou uma das primeiras nutricionistas a dar a boa nova. Devemos estar atentos às mudanças nutricionais que estão a acontecer. O mais importante é estarmos de posse da informação mais relevante sobre o que devemos comer para ficarmos mais saudáveis e vivermos mais e melhores anos."

Ana Carvalhas

1 comentário:

  1. O que descreve é uma imposição científica que pode ser resumida em dois pontos, abrangendo mais do que a própria alimentação. Trata-se de impôr à população um grau mai elevado de privação do sono e um maior nível de obesidade/diabetes. Estas têm sido as duas armas para arruinar a saúde da população do Ocidente. Associado a isto está o anular da vantagem de consumir as cascas das frutas, ricas em fibra e antioxidantes, hoje implica ingerir restos de pesticidas e muita parafina. Minha cara nutricionista, faz 20, 30 anos que os actualmente denominados terapeutas não convencionais pregavam o que escreve e muito mais. Por isso, considero o seu artigo politicamente correcto, ou seja, diz algo que deixou de ser novidade e não assume que continuamos a ser praticamente impedidos de ter uma alimentação e uma vida equilibrada. Neste momento, não basta querer, nem basta ter dinheiro para isso, é preciso conseguir. O que é realmente, extremamente difícil, mesmo sabendo escolher.

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