quinta-feira, 26 de maio de 2016

A DESVALORIZAÇÃO DA FILOSOFIA


“Uma vida não questionada não merece ser vivida”.
Platão.

Numa época em que as disciplinas de Humanidades continuam parentes pobres dos currículos escolares, entendo ter interesse  reproduzir  no DRN um meu artigo publicado no Diário de Coimbra, em  6 de Fevereiro de 2007. Transcrevo-o com alterações:

“Vai para um ano, publiquei neste jornal (13/02/2006) um artigo de opinião em que criticava veementemente a desvalorização da Filosofia no  âmbito do ensino secundário.

Duas notícias posteriores, trouxeram  para os media esta temática:

Primeira: Um artigo do professor universitário de que ressalto: “Se a filosofia  deixar de ensinar nas escolas, a comunidade científica  no seu todo fica mais pobre” (Diogo Pires Aurélio, Jornal de Notícias, (19/12/2006).

Segunda: Algumas empresas norte-americanas decidiram recrutar para os conselhos de administração quadros com formação superior em filosofia” ( Mário Bettencourt  Resendes,  Diário de Notícias, 04/01/2007).

Os antigos helénicos, através da máxima latina primum vivere deinde  philosophari, zombavam dos que só sabiam filosofar não sendo capazes de ganhar meios de subsistência. Em nosso tempo, assiste-se  à guerrilha  institucional entre gigantes do conhecimento científico e luminares de saberes  humanísticos.

Como escreveu Georges Gusdorf, professor da Universidade de Estrasburgo, festejado autor da bem documentada  obra “Da História das Ciências à História do Pensamento” (PENSAMENTO – Editores Livreiros, Lisboa 1988), em meados de 60 do século das luzes, docentes da Faculdade de Medicina e da Faculdade de Ciências de Paris, preveniam, ex cathedra, a família e os interessados que a passagem por um estágio na classe de filosofia representava para os futuros médicos  “uma deplorável perda de tempo e de inteligência” Em testemunho, ainda, de Georges Gusdorf, um jornalista da radiodifusão foi então perguntar a estudantes de Medicina, escolhidos ao acaso, o que pensavam desta declaração. Com lúcida maturidade cultural, foi-lhe por eles respondido que lhes parecia, pelo menos, impensada.

Ainda segundo este mesmo autor, “os estudantes tinham cem por cento de razão em denunciar esta forma particularmente nociva de obscurantismo contemporâneo que existe entre os potentados universitários como no homem da rua”. Ora,  este descabido ataque à própria matriz de todas as ciências é tanto mais insólito porquanto nomes maiores da Ciência contemporânea se têm distinguido no deambular de uma Sabedoria sem fronteiras, v.g. Bertrand Russel e Albert Einstein. Razão de sobra para Georges Gusdorf sentenciar: “O fascínio tecnicista e cientista é um sinal dos tempos, cujas repercussões se fazem sentir na organização ou antes, desorganização do ensino a todos os níveis.

Esta desorganização do sistema educativo português, em que as reformas curriculares se sucedem em vertiginoso carrossel, tem conduzido à desvalorização da Filosofia e, ipso facto, ao desprezo por um importante legado da antiga civilização grega: a do Homem se questionar a si próprio e ao mundo que o rodeia, tornando-se, simultaneamente, num processo de realização ética. Desta forma, pondo em causa  o generoso papel do conhecimento filosófico como personagem de um processo cultural que abriria espaçosas fronteiras à Ciência hodierna.




8 comentários:

  1. Acho que sim, se for para acabar com o cientismo. Investir mais em Filosofia, sim, se for para afastar a noção de Progresso como lei da natureza. Sim, para defender a Ordem Natural das Coisas.

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    1. Investir mais na Filosofia, sim, porque matriz de todas as ciências.

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    2. Acabar com o cientismo? Para além de radical é absurdo. Ciência é saber o porquê das coisas. Tecnologia é o saber fazer, mesmo sem saber por que razão funciona.
      O progresso (evolução) é a ordem natural das coisas.
      Filosofia (reflectir e decidir o que fazer), ciência e tecnologia. Precisamos de todas, e certamente não de escolher uma e acabar com as outras.

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  2. Talvez se toda a gente tivesse Filosofia, fosse mais fácil explicar raciocínios puramente lógicos. E as pessoas rapidamente deixariam de seguir ideias peregrinas como "as vacinas causam autismo" ou "o meu filho é alérgico a Wi-fi". Se conseguisse combater esse tipo de pensamento sem lógica, a Filosofia seria muito bem-vinda na minha opinião.

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    1. A Lógica é uma das matérias estudadas na Filosofia, como refere. O pensamento lógico evitaria que os ignorantes dissessem, como por vezes se ouve, que a lógica é uma batata ou que "as vacinas causam autismo", por exemplo.

      Mas terão (ou terão tido) os próceres da 25 de Outubro essa percepção? Pensando logicamente, entendo que não!

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  3. Hoje não se quer que o cidadão pense. Quer-se que produza e que consuma. Ou seja que coma e faça cocó.

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    1. Não ter obstipação é uma dádiva. Não pensar é vegetar.

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  4. Vivemos num tempo em que a urgência é, em si mesma, de uma ordem quase transcendente, nas prioridades dos interesses, sobrepondo-se à própria necessidade de pensar e de avaliar, com critério, o que escolher. O que demora, porque demora, não interessa. Pensar? Pensa-se depois. Ou: pensa tu.
    E, por falar em lógica, a lógica do mercado vai ditando que seja mais fácil um fabricante de plásticos entrar no reino dos ricos do que um filósofo (mesmo que não seja ambientalista) conduzir um automóvel topo de gama ou gozar férias num paraíso.
    A Filosofia, por amor à sabedoria, não vende. Nem nas escolas, nem na praça pública. Para muitos, não passa de uma excentricidade inútil num mundo em que tempo é dinheiro e é o que de mais pessoal cada um tem para oferecer, dar ou vender... O amor à sabedoria muitas vezes só tem justificação numa paixão intelectual (incoerência e insensatez aos olhos de quem ama outras sobrevivências).
    Mas a Filosofia, o amor à sabedoria, é fruto do pensamento e ação que passaram e semente de um futuro mais sustentável e mais governável.

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