quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

CIÊNCIA E RELIGIÃO

Transcrição da minha intervenção oral no encontro "Palavras no Tempo" que se realizou em 2014 no Museu do Vinho na Anadia, no qual participou também o astrónomo João Fernandes (a moderação foi do químico João Paiva): 

Ciência e Religião… Se colocamos Ciência de um lado e Religião de outro, é porque são duas coisas diferentes e isto é um ponto sobre o qual estamos de acordo: os seus métodos são diferentes, os seus objectivos são diferentes. Mas, se concordamos que existe uma diferença essencial entre Ciência e Religião, podemos imediatamente dizer que também têm algo em comum, senão o diálogo tornar-se-ia impossível. Quem não tem nada em comum não pode dialogar. E, do meu ponto de vista, o que têm em comum é profundo.

Para começar, no nível mais simples: ambas correspondem a necessidades do Homem. A Ciência é algo de que o ser humano precisa. É algo feito pelo ser humano e que é entregue a todos. Apesar de ser realizada apenas por uma parte da Humanidade, a Ciência é para toda a Humanidade. E a Religião também é algo que é humano, que foi e é construído pelo ser humano; também tem este sentido de comunidade – aliás, religião tem etimologicamente a ver com “ligação”. Então, ambas as actividades são do Homem e para o Homem. Este é o aspecto mais básico. Agora, um aspecto mais profundo é que ambas tentam fornecer sentido. Trata-se de sentidos diferentes, bem entendido. Dito de uma outra maneira: ambas tentam penetrar no mistério, embora se trate de mistérios diferentes. De modo que somos todos seres humanos à procura... Do meu ponto de vista, o que a Ciência e Religião têm mais em comum é o seguinte: são expressões de incompletude do ser humano, que precisa de mais alguma coisa… e que precisa de mais alguma coisa em comunidade, em partilha.

Do ponto de vista histórico, quando a Ciência começou, já existia a Religião. Quando começou a Ciência Moderna, entenda-se… Com certeza que a Ciência é filha da curiosidade e a curiosidade existe desde que existe o ser humano à superfície, mas podemos situar o aparecimento da Ciência Moderna no início do século XVII. É bem conhecida a história trágica de Galileu, referida pelo João Fernandes, uma história marcante. A Ciência aparece hoje associada à Religião através do sinal gráfico do travessão (Ciência – Religião), muito por causa desse embate, um embate que deixou marcas que chegaram aos dias de hoje.

E o que é que aconteceu nessa altura? O que aconteceu é que havia um território – a tal busca de sentido, o tal mistério – que estava inteiramente unificado. O sentido era só um! E houve ali uma disputa de território. Galileu queria procurar um sentido, que era um sentido diferente daquele que então era corrente a propósito do mesmo objecto – o mundo. O sentido do mundo encontrava-se exposto nas Sagradas Escrituras. Bastava, portanto, ler o livro do Génesis para ver como é que o mundo tinha aparecido. E não apenas para ver esse, mas também para ver outros aspectos do mundo: no Antigo Testamento está escrito, numa passagem muito clara, que o Sol anda à volta da Terra. Aliás, não é só numa passagem. Há um milagre, o milagre de Josué, em que o Sol se imobiliza. Quando Galileu veio dizer, corroborando Copérnico, que, afinal, a realidade é ao contrário, ou seja, que a Terra anda à volta do Sol e que o Sol permanece imóvel,  ele estava a afirmar uma espécie de milagre permanente. Isto é o mundo era todo ao contrário do que estava nas Escrituras.

Não significa isto que, anteriormente, não tivessem ressaltado já diferenças entre o Livro Sagrado e as observações. Por exemplo, já se sabia, na época de Galileu, que a Terra era redonda. No entanto, há passagens na Bíblia que dão a entender ou afirmam mesmo que a Terra é plana. No século XVII, era bem conhecida toda aquela bela estrutura medieval do cosmos em que o Céu ficava por cima e o Inferno por baixo, relativamente a uma Terra esférica. Portanto, acreditava-se não só que a Terra era esférica, como também que o lugar final dos pecadores era no centro dessa esfera. No entanto, a questão de a Terra ser ou não esférica nunca provocou qualquer polémica. Pelo contrário, a tese do movimento relativo do Sol e da Terra constituiu nos tempos de Copérnico e Galileu um aceso pomo de discórdia.

A questão era, afinal, uma questão de autoridade: quem é que podia fazer as interpretações corretas do texto bíblico? A resposta era muito clara: Galileu não tinha o direito de dizer  as coisas da Bíblia de uma maneira diferente daquela que estava na Bíblia. Ele acabou por ser condenado a prisão domiciliária, como sabemos. Uma das emoções maiores que eu tive na vida foi numa ocasião em que visitei Roma ter visto exposta a abjuração de Galileu – assinada pelo próprio punho  Galileu Galilei –, numa exposição sobre o Arquivo Secreto do Vaticano. Galileu abjurou, o que só mostra que ele era humano… teve medo. O que é sobremaneira curioso é que, apenas passados quatrocentos anos, ele tenha sido reabilitado pelo Papa João Paulo II, que sustentou que Galileu era um grande cientista e que, a respeito do movimento da Terra, a razão lhe assistia.

Hoje é muito claro para nós aquilo que já era claro para Galileu. Galileu era católico e um católico fervoroso, era um homem de profunda fé; curiosamente, a fé dele não foi abalada pelas provas a que foi submetido no Tribunal da Inquisição. Era, por isso, uma fé muito forte, suficientemente forte para resistir àquela dolorosa experiência, porque ciência e religião estavam bem arrumadas na cabeça dele. Galileu dizia – e repito uma passagem que já aqui foi evocada – que a Bíblia, ou melhor o Espírito Santo, ensina como é que se vai para o Céu, mas não ensina como é que vai o céu. E essa interpretação de Galileu dos textos bíblicos continua a ser a nossa interpretação hoje: a interpretação oficial da Igreja Católica e a interpretação de todos.

Gianfranco Ravasi, o cardeal que dirige o Conselho Pontifício da Cultura do Vaticano, uma espécie de Ministério da Cultura da Santa Sé, escreveu, no seu livro Breve História da Alma, que a principal questão não dizia respeito ao Sol e à Lua; a principal questão era a de saber quem é que diz o quê e sobre o quê e, claro, com que intenção o diz. Escreve Ravasi: 

“Tinha razão Galileu - que, neste caso, se revelava melhor teólogo do que os seus opositores teólogos, quando escrevia ao abade beneditino Benedetto Castelli palavras esclarecedoras (que depois haveria de repetir à grã-duquesa Cristina de Lorena): ‘A autoridade do Espírito Santo teve em mira persuadir os homens sobre aquelas verdades que, sendo necessárias à sua salvação e superando todo o humano discurso, não podiam por outra ciência nem por outro meio ser conhecidas a não ser por boca do mesmo Espírito Santo’ ”. 

Quer dizer, há certas coisas que se podem estudar, através de determinado método, usando por exemplo o telescópio ou outros instrumentos, e há outras coisas que tem de ser o Espírito Santo... E, para Galileu, as duas abordagens coexistiam perfeitamente, sem dar azo a dúvidas. Para os seus juízes, as duas realidades não poderiam coexistir; mas, para ele, podiam. A questão hoje está resolvida. Até já houve alguém que, em tom irónico, disse que só faltava erguer no jardim do Vaticano uma estátua ao Santo Galileu… Santo será um pouco demais, mas qualquer dia alguém vai tratar de erguer a estátua; julgo que até já houve uma petição nesse sentido.

O grande Isaac Newton, um cientista anglicano profundamente crente em Deus, não só não colocava em questão que Deus tivesse criado todo o mundo num momento inicial, como também defendia que era impossível a Criação a partir do nada. E dizia até que Deus continuava presente na atualidade e que poderia intervir, e era mesmo necessário que interviesse, não apenas em assuntos humanos, mas também em assuntos astronómicos, como, por exemplo, o movimento das estrelas. Se a força de gravitação universal atrai as estrelas umas para as outras,  a certa altura as estrelas deveriam chocar umas com as outras. O que é que impediria alguns choques iminentes? Uma intervenção divina.

Portanto, os milagres não só eram permitidos, como eram mesmo necessários, na opinião de Newton.
Isto originou uma grande polémica à época. Por exemplo, o alemão Gottfried Leibniz, considerado o grande adversário de Newton, dizia que a posição newtoniana não fazia sentido nenhum, designadamente a existência de um Deus que corrige continuadamente a sua obra, uma Deus que  no início não criou o mundo de maneira perfeita e que tem de vir arranjar alguma coisa quando é preciso. Para Leibniz, Deus tinha criado o mundo perfeito e só lhe restava descansar eternamente. Não tinha de fazer mais nada, pois, a partir do momento da Criação, já tinha ficado tudo feito. Ao que Newton respondeu, por interposta pessoa: “Mas isso é heresia! Então está a dizer que Deus não faz hoje em dia absolutamente nada? Que Deus não está presente no mundo?” Esta foi uma das maiores polémicas do século XVII, uma controvérsia  na qual se misturavam Ciência e Religião. Porquê? Porque a distinção entre Ciência e Religião, que já estava organizada na cabeça de Galileu, não tinha sido interiorizada por muitos dos seus seguidores, nem mesmo pelos maiores cientistas, pelo que existia entre os cientistas  disputas teológicas sobre o papel de Deus no mundo. A separação de águas que hoje vemos – Ciência de um lado e Religião do outro – não era clara à época.

Mais tarde, no século XIX, deflagrou outro grande problema, que veio reavivar o debate Ciência-Religião: a Teoria da Evolução de Darwin. De algum modo, o debate anterior tinha sido decidido no sentido de a organização do mundo dispensar a intervenção constante de Deus: os tais milagres de que Newton falava não eram afinal precisos. A visão de Leibniz ganhou, ou seja, o mundo seria uma máquina perfeita, um relógio perfeito e, quando muito, precisaria de Deus apenas como o relojoeiro construtor do mecanismo. Mas esta visão científico-teológica, em que a Ciência prevalecia sobre a Religião, foi muito abalada com o debate sobre a evolução das espécies, incluindo o ser humano.

A questão da evolução é simples: Darwin, depois da sua viagem à volta do mundo, chegou à conclusão de que todo o mundo vivo, existente ou já não existente, pode ser visto como uma árvore e que existiram ramos dessa árvore anteriores aos que se apresentam actualmente; há um tronco comum, uns ramos maiores, outros mais pequenos, e a nossa espécie não passa de  um pequeno ramo dessa árvore. Ele não sabia nada de ADN, nem de genoma, mas percebeu que havia uma unidade histórica no mundo vivo. Hoje, para nós, a Teoria da Evolução não oferece dúvidas, mas ofereceu na altura, tendo gerado enormes discussões. O próprio Darwin, que começou por estudar Teologia em Cambridge, era uma pessoa religiosa; só não foi ordenado pastor por pouco! Ele não interveio neste debate, que foi muito vivo no seio da religião anglicana, mas tinha outras pessoas que o faziam por ele, como Thomas Huxley. É conhecida a famosa controvérsia em Oxford entre Huxley, que foi chamado “cão de guarda” de Darwin, e um bispo anglicano poderoso, Samuel Wilberforce, na qual, a dada altura, este pergunta: 

“O senhor acha que descende do macaco? Então, se descende do macaco, acha que é pelo lado do seu avô ou pelo lado da sua avó?” 

E a resposta de Huxley ficou famosa:

“Se a questão é descender do macaco ou de uma pessoa que até tem bastantes dotes intelectuais mas que se serve desse género de argumentos para distorcer, num assomo de autoridade, o que era, ou não, matéria de verdade numa discussão livre, então eu prefiro descender do macaco.”

A discussão à volta da evolução persiste até aos dias de hoje, de forma muito nítida no mundo protestante, principalmente em certas regiões mais conservadoras e fundamentalistas dos Estados Unidos, o que tem sobretudo que ver com o facto de este debate ter ocorrido no interior do protestantismo. Atualmente, se perguntarem ao cidadão norte-americano típico se a Teoria da Evolução é verdadeira, ele responderá negativamente, e fá-lo-á não por razões de ordem científica mas por razões de ordem religiosa. Vi recentemente na televisão um documentário norte-americano, que mostrava jovens que tinham aulas de Religião e aulas de Biologia, e não sabiam como é que haviam de conciliar as duas aprendizagens a respeito da origem do Homem, tão diferentes elas eram. Existia um grande drama psicológico na cabeça deles: a mesma pessoa tinha de responder de uma maneira numa disciplina e de uma outra maneira na outra. Portanto, este embate entre Ciência e Religião ainda hoje faz sofrer muita gente.

Actualmente, há uma outra questão, que diz respeito às neurociências. Na Ciência levantamos interrogações e procuramos respostas a respeito do cérebro, da mente e da alma. Colocam-se hoje questões muito interessantes. Inclusivamente – imagine-se! – alguns cientistas interrogam-se sobre os processos neuronais que estarão na base da Religião e, mais do que isso, sobre os processos da Teoria da Evolução que determinaram o aparecimento e o fortalecimento da crença religiosa. Há quem diga, por exemplo, que os povos muito unidos pela Religião, como o povo judaico, têm uma capacidade de sobrevivência maior do que outros e que, a certa altura, a Religião foi-se enraizando porque a ligação mais forte ajudava as populações a manterem-se. Claro que tudo isto é discutível, não se pode provar nada, mas este tipo de assuntos está a ser discutido no âmbito da Ciência: qual é a origem da crença e quais são os mecanismos da crença? São assuntos muito preliminares dentro da Ciência, mas eu receio que qualquer dia tenhamos uma polémica do género dos que já houve no passado.

Agora, quanto ao embate… pode haver a ideia de que não se deve falar de certas coisas, para evitar problemas. A minha opinião é  que não só se pode, como se deve falar de tudo, e é por isso que estamos aqui hoje. Eu estou absolutamente de acordo com o João Fernandes de que é possível uma coexistência entre Ciência e  Religião. A história mostra isso. O caso de Galileu, o caso de Newton e tantos outros casos mostram perfeitamente que é possível uma coexistência pacífica. Mas isso não significa de modo nenhum que a crença seja obrigatória.

Como é que eu vejo a questão? Bem, julgo que é São Paulo que fala do “escândalo da fé”. A fé, de algum modo, é um escândalo, no sentido em que alguns têm e outros não.  Agora, o que eu não sei é se é um escândalo ter, ou se é um escândalo não ter. A fé é, de algum modo, uma coisa assombrosa. Tê-la ou não tê-la, conforme queiram. Há outros nomes para a fé como a graça. A graça… ou se tem ou não se tem. Não há maneira nenhuma de resolver esta questão. Porque podem dizer assim: “Tem que ver com a educação, com o ambiente.” Claro que tem que ver com a educação e com o ambiente, mas também conhecemos muitos contraexemplos. Temos visto que a Ciência pode ser feita por crentes ou por não crentes. O conjunto de metodologias e o conjunto de objetivos que a Ciência usa e persegue são hoje completamente independentes da Religião. Não é preciso ter nenhum sentimento religioso para trabalhar em Ciência.

Há bastantes cientistas ateus; alguns até exageram no seu ateísmo, como o biólogo Richard Dawkins, muito famoso nos tempos que correm. Alguns até chamam “cruzada” ao movimento que ele encabeça contra a Religião, o que não deixa de ser um nome bastante curioso. Eu considero que o discurso dele é demasiado radical, embora seja interessante ler os seus argumentos. Dawkins defende que a Religião é não só inútil como perniciosa, dando exemplos históricos. Ajudou a promover um anúncio do Movimento Ateísta nos autocarros no Reino Unido que apregoava: “Deus não existe. Vive a tua vida!” Enfim, não sei se é por se veicular uma mensagem desse tipo nos autocarros que as pessoas ganham ou perdem a “graça“, passam a acreditar ou deixam de acreditar em Deus…  Mas, jogando com a palavra, tem graça.

A graça não será inata, não  nascerá connosco; mas é inerente ao indivíduo no sentido de que este pode ouvir uma voz interior que apela à fé. S. Paulo explica muito bem o apelo de Deus. Ele ia na estrada de Damasco quando ouviu a chamada: “Saulo, Saulo, porque me persegues?”  Saulo, que não era crente, viu então a luz, passando a Paulo. A graça não é inata nem definitiva: há pessoas que, como S. Paulo, adquiriram a fé, e outras que a perderam, como é o caso de Darwin, que terá perdido a fé de uma forma lenta e gradual,  não querendo fazer escândalo com isso. A mulher dele, Emma, que era extremamente religiosa, sentiu a certa altura que o marido já não era o mesmo. Mas ele, provavelmente porque não quis que tal mudança prejudicasse o seu casamento,  apenas escreveu sobre o assunto numas notas autobiográficas que escondeu numa gaveta –  só foram publicadas postumamente –, nas quais revelava o aparecimento e desenvolvimento das suas dúvidas. A mulher, quando se apercebeu daquele processo, terá entrado em pânico. Ela tinha jurado ficar com ele até que a morte os separasse, mas queria estar com ele também após a morte. Deixou de ter a certeza de que Darwin pudesse ir para o Céu junto com ela...

E chego então ao fim, perguntando: o que é isso de acreditar ou não acreditar? Uma pessoa acredita sempre em qualquer coisa. Há o acreditar em Deus e há, com certeza, outros tipos de crença, que podem mesmo recorrer à palavra . É evidente que toda a gente acredita nalguma coisa. Podem não acreditar no transcendente, mas toda a gente acredita nalguma coisa. Li um diálogo muito interessante entre um filósofo ateu, o italiano Paolo Flores d'Arcais, e um teólogo católico, o cardeal Joseph Ratzinger, antes de se tornar Papa com o nome de Bento XVI, em que, a certa altura, o moderador pergunta a d’Arcais: “Então, você não acredita em nada?” E o filósofo respondeu de um modo muito interessante:


“Quanto à pergunta que me fez - «será possível viver sem fé?» -  falta apenas pormo-nos de acordo sobre a palavra fé. Se, por fé, se entender qualquer paixão existencial profunda por alguns valores, que justamente façam da existência própria algo de sensato, e da nossa relação com os outros algo de significativo, não, não se pode viver sem fé; mas esta seria, na realidade, uma definição de fé incrivelmente genérica.”


Com certeza que os seres humanos partilham valores humanos. Toda a gente partilha valores, embora não necessariamente idênticos, sobre o que é bom e o que é mau, o que é justo e o que é injusto. Para mim, essa destrinça não é exclusiva de nenhuma religião. 


Einstein disse isso mesmo de uma forma muito clara. Ele considerava-se uma pessoa religiosa, mas não no sentido de acreditar num Deus pessoal, no Deus do Antigo Testamento, o Deus dos judeus e dos cristãos, o Deus que se revela aos homens e que fala com os homens, o Deus cujo filho morreu na cruz. Para Einstein, isso não fazia sentido, mas fazia sentido pensar na harmonia do mundo como algo de transcendente. É uma visão um pouco panteísta, na linha de Espinosa. Ele tinha uma tal ligação intelectual a essa harmonia do mundo, que a considerava  algo de religioso.  Era o Mistério. E Einstein não se importava de escrever Mistério com maiúscula e não se importava de descrever a reverência que sentia perante esse Mistério como uma forma de Religião. Reconhecia que essa ligação ao Transcendente poderia não ser acessível a toda a gente. Para quem não conseguisse aceder a esta ligação profunda entre o cérebro e o mundo, considerava útil a ligação a alguma das religiões, digamos “normais”, do leque de religiões que são professadas e ensinadas. Einstein cresceu no seio da religião judaica, mas ensinaram-lhe também a religião católica. E depois, a certa altura, na adolescência, largou essas formas de religião: nunca entrou numa sinagoga para rezar. Ele achava que a Religião funcionava como cimento, que era algo de natural no ser humano, mas de que ele não necessitava. Einstein considerava-se uma pessoa religiosa, mas não precisava das manifestações religiosas tradicionais. Quanto à ética, considerava-a um assunto unicamente humano. Paolo Flores d’Arcais acrescenta:


 “Em contrapartida, se, por fé, se entender uma crença religiosa, respondo tranquilamente que sim, é possível viver sem fé; a fé não é necessária para dar sentido à própria existência. Pode-se conferir sentido à existência de muitas  formas.” 


Agora, podemos perguntar-nos: num mundo em que a fé não é obrigatória, por que é que o diálogo entre a Ciência e a Religião é um diálogo não apenas útil, mas também necessário? É que, devia ser fácil, quer a um cientista, quer a um teólogo – porque são ambos seres humanos, que vivem em comunidade – saírem das respectivas esferas e colocarem a questão de saber o que é, da  sua experiência, partilhável pelos outros. Muita coisa é... 


Quando entramos na questão da ética, dos valores, com certeza que a Religião tem contribuições a dar e a Ciência também. As contribuições da Ciência não têm de ser impostas a quem quer que seja mas poderão ser úteis, sendo por vezes mesmo indispensáveis, quando se trata do conhecimento do mundo natural. Se estamos a falar de problemas de base científica  – por exemplo, temos hoje os problemas da clonagem, da manipulação genética, etc. –, a Ciência diz qualquer coisa, diz como se faz ou como se pode fazer, embora aquilo que se faz com o conhecimento já lhe escape.  A Ciência fornece informação, mas não fornece valores. Não compete aos cientistas, ou pelo menos não compete só a eles, dizer o que é que se deve fazer com as imensas possibilidades que a Ciência oferece. Uma coisa é o saber, outra coisa é o poder, embora Francis Bacon tenha dito que “saber é poder”. E o poder não pode ser dado aos cientistas de maneira nenhuma. Do mesmo modo, os teólogos, as pessoas que estudam Religião e que tentam interpretar as doutrinas religiosas, têm coisas a dizer que vão muito além do domínio estrito da Religião. A questão dos valores, a questão das orientações a dar à nossa vida em conjunto, é algo que nos deve envolver a todos. 


E há questões essenciais: se Ciência e Religião são características do ser humano, capacidades do ser humano, que podem surgir em conjunto, muitas vezes a conjugação das duas pode ser necessária, designadamente quando é o futuro do ser humano que está em causa. E dou um exemplo, um exemplo extremo, mas que se percebe muito bem: a sobrevivência da espécie humana. Vivemos aqui neste pequeno planeta e somos a maior ameaça para o nosso planeta. Hoje estamos a discutir questões de ameaças globais, como, por exemplo, o stock de armas nucleares, o aquecimento global, etc. A Terra, vista ao longe, é um minúsculo ponto azul – mas é um sítio onde se deram sangrentas batalhas, onde se dão batalhas!, onde se criaram fantásticas obras de arte, onde se criam obras de arte…  Vista ao longe, nada disso é nítido! Somos todos habitantes deste minúsculo ponto. De um ponto de vista cósmico, o nosso planeta não passa de um pontinho. Qual é o futuro deste pontinho? É evidente que todos os habitantes da Terra têm responsabilidade nesse futuro. Somos a única parte do mundo que percebe o mundo no qual se situa a Terra. Não sabemos se há vida inteligente noutros lados, nem sequer sabemos se há vida tout court noutros lados. E, no entanto, se há alguém que percebe o mundo, ainda somos nós! Percebemos minimamente o funcionamento do mundo, percebemos qual é o nosso canto do mundo e percebemos qual é a relação entre o Sol e a Terra e qual é a origem do Homem e das outras espécies, uma história antiga e que continua hoje em dia. Estamos agora a começar a perceber como é que funciona a mente. Não há mais ninguém capaz disso e essa capacidade chama-se Ciência. Para a sobrevivência colectiva, Ciência e Religião têm de falar uma com a outra.


 Carl Sagan, um agnóstico, foi um astrofísico norte-americano que gostava de ouvir os outros, de falar para os outros, pelo que procurou líderes religiosos para falar do futuro da Terra, na altura mais ameaçada do que hoje por um holocausto nuclear. Ele dizia que todos somos precisos, no que toca ao futuro da espécie, ao futuro do planeta, porque somos a única parte do Universo que consegue compreender o Universo e que, por isso, tem um certo controlo sobre ele. Se a nossa espécie se extinguisse, o pobre Cosmos ficaria sem ninguém que o compreendesse. E eu acho isto fantástico! Já pensei noutras razões para a existência humana, mas esta de termos, que saibamos, o exclusivo da compreensão do Cosmos não para de me confrontar! Sagan viveu no tempo da Guerra Fria, no qual se temia que um desastre pudesse acontecer. Hoje estamos perante uma crise financeira com características globais, mas já tivemos crises bem maiores, crises políticas, económicas, sociais, etc. Então, termino dando a palavra a Carl Sagan. Num livro intitulado Variedades da Experiência Científica, ele escreve, textualmente: “Será que tentar perceber de alguma maneira o Universo revela uma certa falta de humildade?” Esta é uma pergunta que deixo aqui, porque normalmente diz-se que os cientistas são arrogantes. É uma acusação que, em geral, até é justa – alguns que eu conheço são-no de facto –, mas acho bastante injusto generalizar. Continua Sagan: 


“Creio que é verdade que a humildade é a única resposta adequada perante o Universo, mas não uma humildade que nos impeça de procurar descobrir a natureza do Universo que estamos a admirar. Se procurarmos essa natureza, então o amor pode ser inspirado pela verdade, em vez de se basear na ignorância ou na auto-ilusão.” 


O amor é, decerto, um valor comum. E a relação com o próximo é uma relação que tem de ser construída em permanência. Mas Sagan diz que o amor tem de ser inspirado pela verdade, em vez de se basear na ignorância. Afirma: 


"Se existe um Deus criador, será que Ele ou Ela ou Isso [do inglês It] ou seja qual for o pronome apropriado preferiria uma espécie de cepo embrutecido que O adorasse sem nada compreender? Ou preferiria que os seus devotos admirassem o Universo real em toda a sua complexidade? Quanto a mim, parece-me que Ciência é, pelo menos parcialmente, adoração informada.”


Esta frase de Sagan lembra-me muito a posição de Einstein: a admiração, a reverência mesmo, perante o mundo considerado como Transcendente.

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