segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

NÓS NÃO DEVEMOS DEIXAR ACONTECER ISSO DE NOVO


“A História está repleta de pessoas que, em resultado do medo, ou por ignorância, ou por cobiça de poder, destruíram conhecimentos de imensurável valor que, em verdade, pertencem a todos nós. Nós não devemos deixar acontecer isso de novo”.

Carl Sagan

 Encontra-se, uma vez mais, a Educação sob a tutela do Partido Socialista. Quatro anos atrás, na secção de “Cultura” do "Público" (5 de Agosto de 2011), com um título à largura de toda a página - “Os franceses estão a redescobrir Camilo” - deparei-me com esta notícia: “O filme 'Mistérios de Lisboa’ já fez mais de 100 mil espectadores em França”.

 Este facto levou-me a escrever aqui um post, intitulado o “Ódio de Perdição” (09/08/2011), de que transcrevo, em itálico, uns tantos excertos com ligeiríssimas alterações. Assim:

 “Mesmo que mantidas as devidas proporções populacionais entre o país das “Luzes” e a pátria de Camões, não me faria estranhar muito que a preguiça dos espectadores portugueses preferisse (re)ver a adaptação cinematográfica de“ O Amor de Perdição”, de António Lopes Ribeiro (1943), a perder tempo e pachorra a ler, ou simplesmente a folhear, como diria Eça,  a respectiva obra literária que constava obrigatoriamente do currículo liceal de décadas passadas.

 Uma vez mais se cumpria o aforismo de que “santos ao pé da porta não fazem milagres”. Mas daí a cometer o pecado de expurgar a prosa camiliana, para Maria Amélia Vaz de Carvalho “personificação do génio português”, do altar da bibliografia dos programas escolares do ensino secundário tratou-se, em minha opinião,  de um crime de lesa-majestade às belas-letras.

 Aliás, sempre que falamos de Camilo não podemos divorciá-lo do seu papel de um dos melhores mestres da Língua Pátria e, muito menos ainda, de “O ódio de perdição” que os responsáveis da 5 de Outubro lhe dispensaram por omissão nos programas de Português do ensino secundário. A língua materna é a argamassa da nossa forma de bem nos expressarmos e que tanto é útil aos cientistas, como aos apresentadores de televisão, aos políticos e ao próprio homem comum. Um cientista que diga “supônhamos”, um professor que num documento escreva Senhor Presidente do “Concelho” Directivo, um aluno que [na ausência da muleta do corrector ortográfico dos computadores] em cada três palavras dê um erro ortográfico, o próprio homem comum que dê pontapés na gramática com a habilidade de um Cristiano Ronaldo a chutar à baliza, tornam-se mais notados no seu dia-a-dia do que um ilustre médico que não saiba extrair uma simples raiz quadrada, um distinto professor de Português que desconheça o Princípio de Arquimedes ou um aluno dotado para as letras que, simplesmente,  “não entre” na Matemática. Ou seja, o ignorante dos números defende-se melhor do que o ignorante das letras. Mas cuidado! Não se pense com isto que estou a fazer o elogio ( e muito menos a descriminar, com “e” ) qualquer destas formas de ignorância. Ambas são reprováveis.

 A ignorância oficial e oficializada é um crime de lesa-majestade por roubar ao aluno português o prazer cultural da leitura dos livros de Camilo podendo, como tal, em contágio epidémico, transmitir ao aluno espanhol a desnecessidade da leitura de Cervantes, sonegar ao aluno francês o deleite da visitação ao Museu de Louvre, impedir ao aluno alemão a audição da Orquestra Sinfónica de Berlim. Ou seja, a vivência num mundo em que um conhecimento demasiado científico possa vir a gerar um caldo cultural sensaborão por ausência dos condimentos das disciplinas de Humanidades!”

 Et pour cause, arrepio-me se, no dealbar deste novo ano, se assistisse ao reaparecimento das Novas Oportunidades para efeitos meramente estatísticos de um geração que é apregoada, pelo que deduzo, com intuitos meramente estatísticos, como a mais bem preparada de sempre omitindo o facto de ter sido à custa da obtenção de diplomas do ensino básico e secundário obtidos em descarado facilitismo.

 Simultaneamente, aos jovens do ensino convencional (por vezes, seus  próprios filhos) era destinado um exigentíssimo ensino. Sem percalços de percurso, com a duração de 12 anos, vencido, vezes sem conta, com explicações, que se tornaram moeda corrente de um verdadeiro negócio, em que os pais chegam a empenhar os anéis para as pagarem, sendo elas, há dezenas de anos atrás, excepção de meninos ricos e cabulões. Décadas atrás, quase se contavam pelos dedos os alunos do então chamado ensino liceal que tinham explicações. Hoje, com um certo exagero, concedo, não chegam os dedos de pequenas multidões de mãos para contar os alunos do secundário que têm explicações. E até, ainda que  em número bem mais escasso, de umas tantas crianças do 1.º ciclo do básico/antiga instrução primária!

 E o que dizer, se me é permitida a adjectivação, da cultura “googliana” em que a leitura armazenada em engramas da memória, pelo estudo aturado e criterioso dos manuais escolares,  foi substituída por uma consulta ao google? Como tenho escrito outras vezes, chego a temer que alguns alunos ao ser-lhes perguntado qual o nome do 1.º  Rei da I Dinastia de Portugal, respondam: “Um momento, vou ver ao google!” Ferramenta milagrosa esta, com a sua torrencial fonte de consulta, que até serve para se plagiarem tese de doutoramento!

 Mas que fique bem claro. De forma alguma estou a pôr em questão o valor da utilização deste meio de informação em que a respectiva ignorância, ou deficiente conhecimento, nos torna iliteratos informáticos a exemplo dos que não sabem utilizar e tirar proveito da maravilhosa descoberta de  Gutenberg cujos caracteres  povoam muitas bibliotecas públicas e privadas adormecidas, muitas vezes, em prateleiras cheias de pó por desuso.

 E muito me espantaria, num mundo e num tempo em que já nada me devia espantar, com a possível continuação de Provas de Acesso ao Ensino Superior para maiores de 21 anos para  manter abertos cursos “superiores”, quase desertos, agora de acesso escancarado. Alguns deles, de natureza privada,  que muito ficam a dever  em exigência a antigos cursos médios como, por exemplo, Institutos Industriais e Comerciais.

 Como prova do que se tem passado em prejuízo da melhoria do nosso ensino, de mal ficaria eu com a minha consciência se não desse conta do papel de um certo sindicalismo, de que é exemplo a Fenprof, que exorbita os seus poderes ao discordar da criação de uma Ordem dos Professores por entender que essas funções são por si já exercidas, ainda que abusivamente.

 Em simples dever de cidadania, “nós não devemos deixar acontecer isso de novo” (Carl Sagan) para que se não continue a formar uma geração que se diz ser a melhor preparada de sempre  à custa de dados estatísticos que misturam quantidade com qualidade e estabelecem confrontos sem ter em conta as épocas em que decorreram não só em Portugal como em outros países europeus.

 Escreveu Vergílio Ferreira: “Tenho esperança. É o que me vem sustentando: a esperança de que amanhã é que é”. Também eu quero ter essa esperança. A esperança de que a actual equipa ministerial da Educação não reincida nos erros do passado opondo-se, isso sim, à mediocratização de um certo ensino em nome de uma despudorada democratização que atribui diplomas de ensino superior, ou de outros graus de ensino, a eito e sem jeito. Ou seja, assistimos a um fenómeno a que António José Saraiva, em título de jornal,  deu o sugestivo nome de “Diplomocracia” (“Diário de Notícias”, 31/08/1979), apresentando estes exemplos: “Há diplomas universitários para procuradores, diplomas para músicos, diplomas para pintores, diplomas para técnicos de máquinas, diplomas para guarda-livros, diplomas para toda a gente eu não é nenhuma destas coisas diplomas que dão direito a usar uma palavrinha antes do nome, embora não obriguem  a saber fazer coisa alguma”.

 Camões deixou-nos em legado: “Todo o mundo é composto de mudança”. No que respeita ao exagero da “diplomocracia” pouco se alterou no país de hoje, um país avesso a mudanças que possam pôr em causa a qualidade de diplomas atribuídos a magotes de gente e, principalmente, a uns tantos elevados  dignitários da nação portuguesa!

 

3 comentários:

  1. Este comentário não carece de publicação. Apenas duas observações, se me permite: "Há dezenas de anos atrás" redunda sendo, por isso, desnecessário; "se diz ser a melhor preparada de sempre à custa [...]" compare melhor para que seja a mais bem preparada!
    Obrigada,
    Maria Barbosa

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  2. Ao invés, entendo que este comentário é bem-vindo. Obrigado, portanto.

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  3. O comentário anónimo(06/01/2016), insito neste meu post, que agradeci em devido tempo, merece-me, em jeito de adenda, este esclarecimento: "Há dezenas de anos atrás", como nele escrevi, na verdade, é uma redundância. Há dezenas de anos, quanto bastava.

    Todavia, nem os nossos maiores escritores deixaram de a utilizar como forma de enfatizar a respectiva escrita. Por exemplo, o grande Herculano, escreveu: “Cada qual busca salvar-se a si próprio”.

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