segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

DECISÃO PRECIPITADA

Numa conhecida anedota científica, julgo que da autoria do escritor brasileiro Millôr Fernandes, alguém pergunta se um químico pode tomar decisões "precipitadas"? A resposta é: pode, mas nunca é uma "boa solução". Começa mal o novo ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues. É óbvio que a sua decisão sobre a avaliação do ensino básico - exames e provas de aferição - não está suficientemente fundamentada. É uma medida tomada à pressa sem falar com praticamente ninguém nem apresentar em seu abono qualquer investigação séria sobre o sistema educativo nacional.

 Começa por não fazer sentido mudar as regras a meio do jogo, neste caso a meio do ano lectivo. Assim continua a má tradição de cada ministro, antes que seja substituído, decretar rapidamente novas regras da sua lavra. Além disso, o ministro não se dignou aparecer para explicar o que pensa sobre a educação básica, refugiando-se atrás de um comunicado. Por que razão não dá ele uma entrevista em que explica o que quer para o sector, como e porquê?  Finalmente, embora possa fazer algum sentido que as provas da 4.ª classe não contem para a nota do aluno mas apenas para monitorização do sistema ("aferição" como diz o "eduquês") , a mudança dos anos de realização das provas só introduz confusão, impedindo comparações estatísticas continuadas. Uma prova de aferição no 2.º ano parece-me absurda. Querem medir o quê? Em comparação com quê?

O nosso sistema educativo precisa de estabilidade em vez de mudanças permanentes. Os professores e alunos precisam de fazer o seu trabalho em paz.  Agora temos novas mudanças, que será preciso levar à prática nas escolas, o que só poderá ser feito aumentando a entropia.  A única nota positiva do comunicado ministerial é a indicação, ainda que vaga, de que são precisas provas noutras disciplinas, como as ciências experimentais. Claro que são  precisas - para não ficarmos no fundamentalismo da Matemática e do Português - mas obviamente para além das provas existentes, e não em vez delas ou, pior, incluídas dentro delas.

O "eduquês", que sempre foi inimigo da avaliação, está de volta, ainda mais forte do que antes. Entre os responsáveis por esse retorno está decerto o ministro anterior que tentou hostilizar toda a gente com uma política radical de mudança, uma mudança mais na superfície do que profundidade, pois o "eduquês" sempre ocupou a 5 de Outubro, por vezes nas secretarias de Estado e em órgãos pretensamente independentes, mas afinal dependentes do ministro,  como o IAVE - Instituto de Avaliação Educativa, incapaz de produzir pensamento próprio e  autónomo sobre a avaliação. Mostrando grande inabilidade política Nuno Crato apresentou os exames como o ícone maior da sua política, esquecendo que eles são um meio e não um fim em si mesmo. Agora não me admira nada - nem deve admirar a ele - que venham os iconoclastas.

Por último, estranho muito que o governo de António Costa, que agora se mostrou  tão lesto a revogar a avaliação do ensino básico, não tenha semelhante pressa a reverter a política desastrosa de Crato na ciência - sobre a qual há de resto vasta matéria publicada e sobejas provas condenatórias. Lembro que na ciência a FCT - Fundação para a Ciência e Tecnologia  ainda mantém a mesma direcção, uma direcção que caucionou e continuou a execução de um processo de  pseudo-avaliação das unidades de investigação com consequências altamente lesivas para o sistema nacional de investigação e, portanto, para o país.

10 comentários:

  1. Foi um disparate de António Costa não ter posto em Ministro da Educação ou da Ciência o Doutor Carlos Fiolhais.

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    1. Isso era se António Costa, além da ambição pelo poder, tivesse em conta o país! Mas... Veja-se o que fez, sem mais - embora todas as culpas possam ser atribuídas ao anterior governo que escondeu tudo do povo até à eleições - com o Banif. E lá foram 2 mil milhões dos nossos impostos!

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  2. Não me parece que tenha sido uma decisão precipitada deste novo novo ministro da educação. Parece-me mesmo que ele não tomou qualquer decisão. O que me parece é que outros a tomaram por ele.
    Também não me parece que Nuno Crato tenha esquecido que os exames “são um meio e não um fim em si mesmo”. Nada do que tem escrito e dito permite tirar essa conclusão. Quem sempre se opôs aos exames é que tentou, e pelos vistos conseguiu, que se passasse essa ideia, recorrendo principalmente à dramatização, quando o que era necessário e correcto seria o inverso (ver as conclusões do CNE sobre o papel dos exames na retenção dos alunos). Claro está que toda esta gente que se opõe à avaliação dos alunos o que não quer mesmo é que seja possível uma avaliação objectiva dos professores.
    Tal como em muitos outras bandeiras da “esquerda”, também aqui o papel dos idiotas úteis foi fundamental.

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  3. Não me parece que o sistema precise de "estabilidade" (que aliás nunca teve nem aparece recomendado nos relatórios internacionais que conheço). Precisa é de "adaptabilidade" em função do que se vai conhecendo de novo sobre o nosso sistema e a educação em geral nacional e internacional (por exemplo, os relatórios do PISA são invarivelmente ignorados, começando pelo próprio Nuno Crato). Nem a avaliação dos professores precisa dos resultados de muitos exames, nem a comparabilidade dos exames ao longo dos anos é uma variável essencial (os alunos vão variando tanto de geração para geração, como podem os resultados dizer algo de relevante?). Atingimos em 2015 o paroxismo da mudança frenética com o terceiro exame de Matemática A do 12º ano diferente em 3 anos consecutivos!!! Com o desastre das Metas de Matemática muita mais mudança rápida e urgente precisa de ser feita! O IAVE poderia ir mais longe e a existência de um Instituto Nacional de Educação que inclua as funções do IAVE e outras de algumas direções gerais é fundamental mas precisa de haver orçamento para isso. O IAVE nem consegue ter orçamento para fazer provas intermédias, quando mais para produzir pensamento próprio e relatórios substantivos!

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  4. Menos de dois meses depois da tomada de posse deste governo e já temos a primeira facadinha no novo ministro. Só há 3 semaninhas atrás tivemos o privilegio de ler um texto do Professor Carlos Fiolhais sobre o novo Ministro da Educação e do facto de ser a pessoa certa para o lugar por ser filho de uma professora já aposentada e por ter "formação de karateca e ser um apaixonado pela música", não iria com certeza deixar o país ficar mal. Pois... Se o iluminado Professor Fiolhais deixasse de poluir o sistema com os seus brilhantes e iluminados comentários, seria provavelmente o maior e melhor contributo que nos poderia dar, a nós, a comunidade científica.

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    1. Quando se toma uma má decisão logo a abrir, não é caso de falar nisso? Lá porque o professor Fiolhais pensa bem do homem, não quer dizer que deixe de o criticar por uma decisão péssima como esta. O "iluminadíssimo" anónimo tem alguma definição de a partir de que momento se pode criticar um ministro? É que o seu contributo com esse seu comentário foi nada. Zero.

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    2. Uma prova de que não se devem fazer juízos, muito menos de apreciação positiva, antes dos resultados. Ora os resultados que estão à vista são... desastrosos do ponto de vista do ensino e educação.

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  5. Considero inoportuno, mais uma vez, o momento em que se decidiu implementar as medidas.
    Se para Crato os exames não fossem um fim, como justificar todos os recursos gastos com os mesmos? Como justificar que ao longo de três ciclos só houvesse duas disciplinas , Português e Matemática, sendo que as restantes se tornaram, apenas, paisagem e a Educação Artística descartável.

    Ivone Melo

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  6. Não creio que as provas de aferição sejam uma alternativa assim tão positiva. Acabam por incorrer nos mesmos erros que os exames nacionais. São, na melhor das hipóteses, um mal ligeiramente menor que estes, ao não terem um impacto tão significativo na possibilidade de os alunos prosseguirem a sua aprendizagem (leia-se passarem de ano). Para uma melhor reflexão acerca deste assunto, sugiro:

    http://porumnovoensino.blogspot.pt/2015/12/aferindo-afericoes-diversas.html

    Bom, independentemente disto, é todo o paradigma do ensino que, a meu ver, está errado. Deveríamos tentar inovar e implementar um novo sistema de ensino, mais focado na transmissão de verdadeiro conhecimento e não no mero cumprimento de metas e requisitozinhos burocráticos, mais capaz de interessar verdadeiramente os alunos, mais agradável, mais eficiente.

    Sugiro que separemos as matérias umas das outras, em vez de as aglomerarmos nos “pacotes” de um ano ou um semestre que agora temos, e que deixemos os alunos progredir por elas consoante as dependências de conhecimentos passados. Sugiro que adoptemos, em vez da actual organização em anos lectivos, Mini-Ciclos de Leccionamento!

    http://porumnovoensino.blogspot.pt/p/blog-page_27.html

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