sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Ana Benavente, os Exames Nacionais e os Fautores da Tradição

“A actuação de Ana Benavente nos governos de Guterres resultou nos piores resultados escolares da Europa em matéria de sucesso escolar, e na base deste falhanço esteve uma cedência permanente aos interesses da Fenprof” (Valter Lemos, Público, 29.Fev.2008).

Começo por transcrever integralmente um comentário que foi feito neste blogue  ao meu  post: “A velha polémica sobre os exames” (jads, 22 de Janeiro último):“O que me parece pouco sensato é partirmos do princípio que, não havendo exames, a escola se vai relaxar e despreocupar-se com a busca da excelência. Quem classificava aqueles exames são os mesmos professores que realizam e corrigem testes de avaliação (ou outros instrumentos similares). Por norma, quando nada sei sobre determinado assunto, não me ponho a disparatar”.

(Convém desde já esclarecer que os exames nacionais eram obrigatórios para toda população escolar e tinham peso na nota final dos alunos, enquanto as provas de avaliação não têm peso nessa avaliação e não são obrigatórias).

Pondo de lado alguns dos remoques ínsitos no referido comentário,  aduzo  o seguinte esclarecimento sobre o argumento de “quem elabora e corrige os testes de avaliação são os mesmos professores que realizam e corrigem nas escolas”. Há aqui um equívoco. Os exames nacionais eram elaborados por equipas de professores, mandatados pelo Ministério da Educação, destinando-se  aos alunos de todas as escolas do país, em igualdade de avaliação de conhecimentos. Isto, para já, tinha a vantagem de impedir, de certo modo, que as escolas oficiais inflacionassem, sem qualquer controlo, as notas dos  seus alunos para se posicionarem no topo dos respectivos rankings. E os colégios privados, com contratos de associação,  pagos com os nossos impostos, tendo em vista o lucro, inflacionassem, igualmente, as classificações dos respectivos discentes. Ninguém se mete num negócio com o fim  altruísta de amor ao próximo.

Embora os exames nacionais tivessem pouco peso na classificação final do aluno (30%), com receio que esse peso pudesse aumentar, logo surgiram  os clamores de protesto.  Que berraria não haveria para aí se os exames chumbassem os alunos que não satisfizessem mínimos justificativos para a sua passagem para um patamar superior de conhecimentos? Isto em obediência ao princípio de Saint-Exupéry: "Se cada tijolo não estiver no seu lugar não haverá construção".

Escuso-me por ora (mas fá-lo-ei se para tanto for solicitado)  em apresentar provas da ignorância com que chegam determinados alunos à universidade. Com isto, não defendo (vade retro, Satanás!) que se volte ao meu tempo de estudante liceal em que uma classificação de 4 valores ou menor, ainda que mesmo logo  no 1.º período de aulas,  fazia com que o aluno perdesse o ano todo, sendo enviado  para  casa para repousar do esforço de tal proeza! E, muito menos, defendo as desumanas sevícias das palmatoadas com a “menina dos 5 olhos” ou do vexame de ser posto à janela da escola  primária que dava para a rua com orelhas de burro!

Bem eu sei que a defesa da qualidade do ensino não me concede o apoio e, muito menos, me concede a graça do aplauso (nem eu os procuro!) dos defensores das "Novas Oportunidades”, das “Provas de acesso ao ensino superior para maiores de 23 anos”” e de outras medidas quejandas  para beneficiar os cábulas dos diversos grupos etários e, essencialmente,  para não traumatizar as pobres e indefesas criancinhas.
 
Não! Não há que ter medo em encarar o ensino como uma coisa séria e não como campo de experiências  educativas, muitas vezes, em nome de simples estatísticas que possam retirar o país do atoleiro de percentagens que nos envergonham no espaço europeu.
A ex-secretária de Estado da Educação Ana Benavente,  vestal do altar da missa contra os exames nacionais, no seu artigo “Exames para que te quero (“Público", 20/01/2016), não encontra melhor argumento para diabolizar os respectivos defensores do que endereçar um ataque a J. M. Tavares, acusado,  por ela, de dizer, “um chorrilho de asneiras” (sic). De “pena ao vento”, como diria Eça, Ana Benavente (com a intenção de tirar o sono a J. M. Tavares?), escreveu: “Deixei de ver o programa [deduzo tratar-se do “Governo Sombra” da TVI]  e de o ler [pelo que também deduzo, no “Público”] e espero não ser a única”.

Para os que, porventura, possam ter a memória curta, relevo um facto que (esse sim!), devia merecer o seu público repúdio. Ou seja,  a retirada da exclusividade às universidades pela formação  de professores para o ensino do 2.º ciclo do ensino básico  das disciplinas de Matemática ou de Ciências da Natureza. Em generosa dádiva, atribuindo, igualmente, essa docência às escolas superiores de educação para o ensino da Matemática e das Ciências da Natureza.  Ou seja, a melhoria do ensino passou a estar na razão inversa da exigência formativa dos respectivos  professores!

Vá lá a gente entender certas reformas, que se congeminam no cérebro brilhante de quem devia ser responsabilizado por esta decisão sem ter em conta o legado de Erasmo de Roterdão: “A principal esperança de uma Nação reside na educação apropriada da sua juventude”.

Ao defender certos princípios do passado sei que corro o risco de ser tido como ultra conservador (ou mesmo bota-de-elástico) por parte de certos progressistas. Mas, neste ponto de vista,  estou bem acompanhado pelo historiador Fernand  Braudel: “Tenho medo das pessoas que acham que podem, da noite  para o dia, agarrar a sociedade, torcer-lhe o pescoço e fazerem uma nova”.

E por mais que um mundo de bem-aventurança e hedonismo se anuncie para os educandos, através das miríficas mudanças do actual sistema de avaliação, anunciado, urbi et orbi,  pelo novo ministro da Educação, defendo que a formação da nossa juventude  não deve pactuar com um caminho de facilitismo que não prepare os alunos para a cada vez mais competitiva vida adulta. O próprio Mao-Tsé-Tung o sentenciou, com esta frase lapidar: “Um mundo demasiado plano não desenvolve os músculos das pernas”.

Em nossos dias, Mario Perniola (filósofo e professor de Estética da Universidade Tor Verga  de Roma)  não se exime em escrever, sobre “as imbecilidades no ensino de toda a ordem e graus”, o seguinte e demolidor texto:

“Os fautores da tradição, que apelam para os valores, para o classicismo, para o cânone, são postos de fora por esses funâmbulos, esses equilibristas, esses acrobatas que também  querem ser eternizados no bronze e no mármore. E quem diz que o não conseguem? Há sempre uma caterva de ingénuos prontos a escrever a história da última idiotice, a solenizar as idiotices, a encontrar significados recônditos nas nulidades, a conceder entrada às imbecilidades no ensino de toda as ordem e graus, pensando, pensando que fazem obra democrática e progressista, que vão ao encontro dos jovens e do povo, que realizam a reunião da escola com a vida”.

O ensino em Portugal tem sido terreno úbere de reformas e contra reformas que se sucedem em catadupa sem avaliar  os seus efeitos num combate sem tréguas contra os defensores da tradição. Prova-o o facto  de cada vez que muda um governo, o governo que lhe sucede não conseguir  fugir ao fascínio de fazer obra nova.

Será porque, como reconheceu Roland Barthes, haver a erótica do novo e o antigo ser sempre suspeito? Ou será, recorrendo a Bernard Shaw, por os políticos imaginarem o que desejam, quererem o que imaginam e, por fim, acreditarem no que querem? Ou será, ainda, na razão de Friedrich Nietzche, que muitos são os obstinados que se empenham no caminho que escolhem, poucos o que se empenham no objectivo? Ou será a conjugação de todos estes factores que tem influenciado a decisão dos sucessivos ocupantes da  pasta da Educação?

Escreveu Mark Twain: “A profecia é algo muito difícil, especialmente em relação ao futuro”. Aguardo, sem previsões antecipadas, mas um tanto ou quanto desesperançado, o futuro que nos reserva a actual equipa do ministério da 5 de Outubro, sob a tutela de Tiago Brandão Rodrigues.

P.S.: Ana Benavente e Valter Lemos foram secretários de Estado da Educação do Partido Socialista nos governos, respectivamente, de António Guterres e José Sócrates.

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